Cansada

"Até na pessoa mais cansada o amor é como um despertar."

Francesco Alberoni

— Minutos antes da chegada de Miguel e Sophia —

Sentada ao lado de André, numa das banquetas giratórias do Gelados, Marina permanecia calada, mergulhada nos próprios pensamentos que incluíam um rapaz de lindos e profundos olhos negros e uma morena de olhos ambares.

A imagem de Miguel carregando Sophia não lhe saia da cabeça de jeito nenhum, ainda mais depois de tudo que ele lhe falara pouco antes de irem para o colégio.

— Você não vai comer, Marina? — André quis saber apontando para seu sanduiche light.

— Se quiser pode pegar. — Empurrou o prato na direção do colega.

André não se fez de rogado. Não gostava de comidas light, mas sanduiche era sanduiche.

— Porque tá tão calada? — quis saber o loiro enquanto devorava o sanduiche.

Cansada de procurar respostas sozinha, Marina decidiu compartilhar suas suspeitas com o colega.

— Você não achou estranho o comportamento do Miguel com a Sophia?

— Não. Era pra achar?

— Acontece que já vi várias garotas caírem aos pés dele, mas em todas às vezes ele só faltou pisar nelas. — Preferiu não acrescentar que fora uma delas. — Mas com a Sophia fez questão de leva-la pra enfermaria, sozinho e ainda por cima nos braços. — Preferiu também não acrescentar que estava morrendo de ciúmes da Almeida.

— Ela tava realmente passando mal, as outras garotas só fingiam — frisou André sem se dar conta do olhar raivoso de Marina. — Além disso, se não fosse ele a leva-la, seria eu.

— Acontece que ele fez questão de que fosse ele. Você não notou?

André a olhou confuso. Tinha impressão que Marina estava com ciúmes de Miguel com Sophia, mas isso não fazia sentido. Até onde sabia Sophia nunca mostrara interesse pelo Rodrigues, na verdade nunca a vira demostrar interesse por nenhum garoto, no máximo andava sempre acompanhada por dois colegas de turma, o esquisito do Leonardo e pelo insuportável do Davi.

— Hoje de manhã ele me disse algo que só agora faz algum sentido... Na hora pensei que fosse só pra me afastar.

— E o que foi? — perguntou André curioso.

~*~

Marina correu até a casa dos Rodrigues, que ficava a três casas da sua, e tocou a campainha. Faltava uma hora para o primeiro dia de aula, queria que Miguel a acompanhasse no café da manhã e que fossem juntos para o colégio, de preferência de mãos dadas, como um verdadeiro casal.

Estava ansiosa para dizer a todas as garotas do colégio que Miguel estava namorando ela, principalmente para a chata da Yasmin Ortiz e a ofensiva Leona Garcia. Já as imaginava arrancando os cabelos pela raiz.

Estava tão distraída com a cena mental que nem percebeu que a porta fora aberta até ouvir uma voz grave e zombeteira gritar para dentro da casa.

— Miguel, aquela garota ruivinha tá aqui com cara de boba apaixonada.

Encarou o irmão mais velho de Miguel, Lucas, com raiva. Odiava ser chamada de ruivinha e dizer que estava com cara de boba também não fora nada gentil da parte dele. Mas logo seu olhar passou a ser de admiração pela versão mais alta e velha de Miguel.

Assim como Miguel, Lucas possuía os olhos e os cabelos negros, mas tinha sinais de expressão abaixo dos olhos, como se tivesse passado algumas noites em claro. Por ser tão lindo e ter fama de galinha, Marina até tinha uma ideia do que ele devia fazer nas noites em claro.

Examinou o Rodrigues mais velho de cima a baixo, naquele dia Lucas estava com uma camisa polo preta com detalhes em vermelho nas laterais e calça jeans escura que demarcava muito bem suas coxas, o cabelo preso num rabo de cavalo baixo, apenas algumas mechas mais curtas soltas ao lado do rosto, muito sexy como sempre.

— Você tem a mesma idade do Miguel, não é?

— Sim — respondeu um pouco surpresa pela pergunta. Normalmente Lucas não falava com ela.

— Você é muito bonita, quando for de maior volte a me olhar assim, como se quisesse me devorar todinho, e aí nós conversamos, certo?

Ficou constrangida ao entender a insinuação de Lucas, e também por se dar conta que estivera tarando o irmão de Miguel.

— O que faz aqui há essa hora, Marina?

Assustou-se ao perceber que Miguel se aproximara e nem se dera conta.

"Será que ele ouviu o que Lucas me propôs?", se perguntou ao perceber a irritação estampada do rosto do Rodrigues mais novo.

— Daqui a pouco vou pra universidade, então vou deixa-los sozinhos. — Lucas antes de se afastar se voltou pra Marina, lhe deu uma piscada e com a voz maliciosa disse: — Espero vê-la em breve, Marina.

Sentiu a face esquentar. Lucas expirava sensualidade por todos os poros.

— Afinal o que você quer, Marina?

Não gostou de ser tirada de seus pensamentos pelo tom grosseiro de Miguel.

— Pensei que talvez pudéssemos ir juntos para o colégio e...

— E enche-la de esperanças infundadas — ele a interrompeu seco.

— Mi...

— Não.

Encarou o Rodrigues com lágrimas nos olhos. Durante as férias de final de ano tinham saído algumas vezes, apenas passeios, mas pensara que ele talvez tivesse sentido algo por ela durante aquele tempo, pelo jeito se enganara.

— Põe uma coisa na sua cabeça, Marina — começou ele frio com o olhar indiferente. — Na minha vida não há espaço pra ninguém. Quem tinha que preenche-la já preencheu. — Após terminar de falar ele fechou a porta na sua cara só para variar.

Marina sentiu os olhos se afogarem em lágrimas, voltou para sua casa para esperar até a hora de ir para o colégio com o coração despedaçado de tristeza.

~*~

— Acho que ele tava falando da Sophia — sentenciou por fim.

— Aquele tarado vai se ver comigo! — ameaçou André ultrajado.

— Do quê você tá falando?

— Do Lucas. Onde já se viu ficar cantando você.

— Ora, ANDRÉ...! — Deu um cascudo no amigo. — Tenha foco! Tô falando do Miguel, MIGUEEELLL...

— Tá, já escutei, não precisa gritar.

Passando a mão no local da cabeça que doía, André percebeu que naquele dia estava sendo golpeado a todo o momento. Alguém lá de cima estava com raiva dele.

— Não acho que Miguel tenha algo com a Sophia. Ele só tava ajudando ela — falou dando sua opinião.

— Desde quando ele ajuda alguma garota?

André tentou achar uma resposta, mas realmente não se lembrava do amigo ajudando ninguém.

Percebia que a atitude de Miguel deixara Marina bem chateada. Entendia a dor dela, sentia a mesma coisa toda vez que ela declarava seu amor pelo Rodrigues, por que, diferente do colega, ele estava apaixonado por ela, e há muito tempo. Se ela pelo menos lhe desse uma chance...

— Se tivesse sido eu, ele teria me deixado lá sem olhar pra trás — Marina concluiu magoada.

— Mas eu não — André garantiu colocando sua mão sobre a dela.

Marina sabia que André a amava, já ouvira ele se declarar um milhão de vezes, mas amava Miguel e não conseguia tira-lo do coração, mesmo recebendo somente desprezo do rapaz de orbes escuros.

Olhou para a mão de André sobre a sua e desejou corresponder ao amor dele, que sempre estava do seu lado, a defendia e se preocupava de verdade com ela. Estava cansada de correr atrás de quem não a queria, estava cansada de negar uma chance para alguém que talvez a fizesse feliz.

— André, você me ama?

— Sim — foi a resposta imediata.

Marina sorriu. Era tudo o que precisava ouvir.

Sem pensar muito envolveu o pescoço do colega com seus braços e juntou seus lábios aos dele. Era seu primeiro beijo, estivera esperando pelo Rodrigues, mas ele não merecia beija-la, não a merecia.

Passada a surpresa inicial, André puxou Marina para mais perto, seus braços enlaçando a cintura da moça, sua língua invadindo a boca pequena, provando os lábios que tanto desejava, estava realizando seus sonhos e iria aproveitar cada mínimo segundo.

— Er... Creio que se resolveram afinal.

Ainda abraçados, Marina e André olharam para Miguel, que estava com um sorriso malicioso de lado e com o braço ao redor da cintura de Sophia, que segurava o braço do Rodrigues com força, parecia bem surpresa, estática, desnorteada.

Para Marina aquela era sem dúvida nenhuma a confirmação de suas suspeitas. Todo aquele tempo que Sophia dizia amar André devia ter sido uma estratégia para conquistar o Rodrigues. Lógico! Fingir ser a única a não desejá-lo e assim chamar sua atenção. Devia ter pensado nisso e quem sabe seria ela a ser abraçada pelo Rodrigues e não Sophia.

Levantou-se e puxou André pela mão com agressividade.

— Vamos pra outro lugar onde possamos ficar sozinhos, querido.

André deu um de seus sorrisos enormes ao ouvir Marina dizer querido e a seguiu abobalhado.

— Claro, Marina.

Afastaram-se de mãos dadas, André feliz da vida e Marina lançando fagulhas de ódio na direção de Sophia.

Após perder o novo casal de vista, Sophia se sentou, suas pernas tremiam demais e não conseguia ficar de pé sem que precisasse se segurar em algo, sentia como se um pedaço vital de si tivesse sido arrancado.

Lógico que sabia do amor de André por Marina, mas nunca pensara que ficariam juntos, principalmente porque Marina dizia ser loucamente apaixonada pelo Rodrigues. Não conseguia acreditar que por ser tímida demais perdera o grande amor da sua vida.

Miguel estava ficando nervoso com o silêncio da Almeida sentada ao seu lado. Não que ela fosse muito de falar, mas Sophia estava com os olhos arregalados, a face mais pálida que o comum e olhava para o nada, parecia estar em transe hipnótico.

Estava dividido, uma parte, a que normalmente utilizava, o mandava ir embora e deixar a Almeida sofrer sozinha pelo fim de seus sonhos dourados, a outra, que nem sabia possuir até aquele dia, dizia para ficar ao lado dela e consola-la.

— Alguma hora isso iria acontecer, André sempre foi apaixonado pela Marina.

Nunca consolara ninguém antes, nem sequer sonhara fazer isso um dia, então não tinha culpa se parecera meio cruel.

Suas palavras fizeram Sophia fita-lo intensamente por alguns segundos, embora Miguel tenha notado que ela parecia ver através dele, e por fim os olhos dourados se encheram de lágrimas. Ela cobriu o rosto com as mãos e, sem muita consciência do que fazia, apoiou a cabeça no peito de Miguel, chorando muito.

— Merda!

Miguel a abraçou, deixando que ela chorasse a vontade a perda do seu amor idiota, acariciando de leve as costas da jovem. Por quê? Bem, já nem queria saber a resposta.

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