Beijo
"Tudo é ousado para quem a nada se atreve."
Fernando Pessoa
Escondidas atrás do tronco de uma árvore, observando Miguel e Sophia sentados no banco da pracinha que ficava em frente ao colégio, Yasmin e Marina observavam o casal.
— Acho que você se enganou ao pensar que estão juntos há muito tempo, testuda.
Marina encarou Yasmin com raiva, odiava ser chamada de testuda, por isso revidou usando o apelido ofensivo de Yasmin, ganhado por sua pele ficar rosada quando exposta ao sol.
— Porque tá dizendo isso, porquinha?
Concentrada em Miguel e Sophia, Yasmin nem reparou que fora chamada de porquinha.
— Miguel faz uma espécie de teste, pra ter certeza que a garota não vai lhe causar problemas quando a largar. Ele passeia alguns dias com a moça, se der certo passa pro beijo e, se ela passar na segunda etapa... Ouvi falar que ele é tão quente quanto dizem que o Lucas é.
Só de ouvir o nome de Lucas, Marina sentiu a face esquentar, pois se lembrou de certa proposta que ele lhe fizera. "Foco, Marina, foco."
— Como sabe disso?
— O fã clube, que você não quis fazer parte, coleta esses tipos de informações super importantes para agarrar o Miguel.
Yasmin estava séria, olhava atenta cada movimento do casal na praça, que nem ao menos se tocara desde que Miguel soltara o braço da Almeida.
— Ainda tão na primeira etapa, só conversando e há uma boa distância — anunciou dando de ombros. — A Almeida é muito puritana, o Miguel logo vai desistir.
— Acho que vou procurar o André, não deveria ter te acompanhado até aqui.
Marina se deu conta naquele momento de que nem ao menos conseguira passar na primeira etapa.
— Qual é Marina, dá logo um chute na bunda gorda do Marinho, você não gosta dele.
— Gosto sim, ele é legal comigo — retrucou, não gostando do tom debochado da Ortiz.
— Certo, não me expressei bem — disse fazendo uma careta.— Você não o ama. É o Miguel que você quer.
— Eu e todo o colégio, inclusive você. É pouco homem pra muita mulher — replicou com desdém. — O André é só meu, no fim das contas, tô no lucro.
— Então porque me ajudou no vestiário?
— Simples, odeio gente falsa. Ela me apunhalou pelas costas, não passa de uma traíra — Marina declarou zangada.
Yasmin notou que Marina ainda queria o Rodrigues, mesmo negando o fato, e isso era bom, afinal, ela tinha muito mais acesso ao Miguel já que estava namorando o André, seria muito mais fácil acabar com o tal provável namoro dele com Sophia se ela ficasse do seu lado.
O fã clube que montara era só para controlar as outras garotas e assim aumentar suas chances, já que como presidente tinha poder sobre as outras que faziam só o que ela mandava, mas Sophia não fazia parte do clube, nunca nem suspeitara que gostasse do Rodrigues, isso era um problema que iria resolver e rápido.
— Sophia não tem perdão, nos enganou, merece um castigo, temos que fazer alguma coisa — Yasmin sabia que zangada Marina era capaz de tudo.— Eu te ajudo e você me ajuda, simples assim, tudo voltara ao normal e, quem sabe, Miguel pode acabar se interessando por uma de nós. — "Logicamente que por mim", pensou convencida.
Lançada a isca, ficou contente quando, esquecendo totalmente que decidira namorar André, Marina concordou e voltou a prestar atenção no casal que continuava conversando.
Na mente de Marina se Miguel não queria ficar com ela, tão pouco ficaria com as duas caras da Almeida.
~*S2*~
Sentada ao lado de Miguel, Sophia encarava os olhos negros boquiaberta. Não sabia se ria ou chorava. Caso não fosse o Rodrigues a lhe contar não teria acreditado. Miguel não era do tipo que gostava de fazer piadas de mau gosto, na verdade tinha certeza que ele não gostava de nenhum tipo de piada, suspeitava que nem sabia o que era dar risada, mas a questão não era essa, e sim que todos os seus colegas achavam que eles estavam tendo alguma espécie de relacionamento. Era inusitado e ao mesmo tempo engraçado.
Agora que descobriu que estava sendo julgada pelos colegas, muito mal julgada, lembrou que recebera vários olhares esquisitos, até mesmo de Davi, seu melhor amigo, que naquele dia nem conversara com ela. Não tinha se importado porque ainda estava chateada com o recente namoro de André com Marina e não quisera conversar com ninguém, por medo de acabar chorando. Também começou a entender porque fora usada como alvo ambulante pelas colegas na quadra do colégio e porque elas ficaram tão contentes com o que lhe ocorrera no vestiário, estavam zangadas e pensando coisas absurdas sobre ela.
— De onde tiraram isso?
— Pelo que entendi: de nós.
— De nós? Como?
— Nos viram juntos ontem e tiraram suas próprias e equivocadas conclusões.
— Nossa! — Colocou as mãos unidas na frente do corpo. — O André também acha que estamos juntos?
"Merda, lá vem ela com seu maldito André numa hora dessas", pensou Miguel antes de responder irritado.
— Sim.
— Nossa! — começou a rir surpreendendo o Rodrigues. — Eles têm uma imaginação bem fértil. Eu e você juntos...
— O que é tão engraçado?
O ataque de riso de Sophia irritou mais ainda o Rodrigues, na verdade, sendo honesto consigo mesmo, admitiria que estava ofendido. Todas as garotas consideravam ele o garoto mais lindo e sexy do colégio, caiam aos seus pés por onde passava, faziam fila só pra passear com ele, mas aquela a sua frente, de uniforme sujo e despenteada, mas mesmo assim linda demais, parecia achar impossível se interessar por ele, preferia ficar se derretendo pelo idiota do André. Isso o deixava louco de raiva, não entendia bem porque, mas deixava.
Parando de rir, Sophia enxugou uma lágrima que se formara no canto de seu olho.
— Todos acharem que, com tanta garota bonita atrás de você, eu seria sua escolhida é até um elogio — explicou com um sorriso doce.
Aquelas palavras deixaram o Rodrigues contente, afinal, ela não era tão imune a ele como parecia, apenas se achava inferior as outras garotas. Isso o fez se aproximar mais da Almeida, os dedos de sua mão esquerda tocando o rosto da jovem como se tivessem vida própria.
— Você é a garota mais bonita e perfeita que conheço... Acharem que eu seria seu escolhido é que é um elogio — começou a acariciar de leve a pele clara, que ficou muito vermelha e quente.
Sophia ficou paralisada, seu sorriso sumiu e seus olhos se arregalaram, enquanto via o Rodrigues se aproximando cada vez mais, se inclinando em sua direção, com os olhos negros presos em seus lábios. Devia ser uma alucinação, e das grandes, pois tinha a impressão que o Rodrigues pretendia beija-la. Ele não podia fazer isso, não devia, não com ela que aguardava ter esse momento com André. Com esse último pensamento espalmou as mãos no tórax dele para empurra-lo, mas quando suas mãos tocaram o corpo quente do Rodrigues sentiu uma sensação eletrizante, gostosa e intensa subir e descer por sua barriga que a fez encara-lo fixamente.
Miguel sentiu a mesma sensação ao ser tocado por Sophia, só que em uma parte abaixo de sua barriga, e isso fez com que desviasse o olhar dos lábios rosados e convidativos, para os fascinantes orbes caramelados. Desejava beija-la há muito tempo, desde que começara a reparar o quanto ela era atraente e ao mesmo tempo delicada, sedutora sem nem ao menos se dar conta disso, era diferente das outras garotas, era especial, e naquele momento sabia que teria a sua oportunidade, podia ver nos brilhantes olhos que não seria rejeitado.
Sophia não sabia se queria ou não ser beijada por Miguel, mas o que tinha certeza era que não o impediria se ele o fizesse. Seu coração batia acelerado e pela palma de sua mão, que continuava sobre o peito do Rodrigues, sentiu o coração dele batendo tão rápido quanto o seu.
Ônix e âmbar se entreolharam, uma onda de sentimentos difíceis de descrever bailando em ambos.
— Mi... Miguel...
— Feche os olhos — ele ordenou num murmúrio.
Obedeceu sem pensar muito no que sua atitude significaria para o Rodrigues.
Miguel sorriu de lado. Sophia estava totalmente entregue, por fim desceu os lábios sobre os dela.
Sentindo os lábios dele roçarem os seus numa carícia leve, Sophia sentiu a sensação eletrizante e gostosa na barriga triplicar e seu corpo amolecer, sentia que iria desmaiar a qualquer instante, não desmaiou, em vez disso sentiu a língua de Miguel tocar seus lábios. Tudo era tão novo e ousado, mas incrivelmente bom.
Miguel contornou os lábios rosados da Almeida com a língua bem devagar, provocando e provando os lábios doces, se deleitando quando ela os entreabriu após um suspiro, permitindo que ele invadisse sua boca úmida e cálida e explorasse seu interior com avidez. Mesmo sem muita noção do que fazia, Sophia correspondia à altura na opinião de Miguel, principalmente quando ela começou a deslizar as mãos pelo seu tórax de forma bem suave e abriu os primeiros botões de seu casaco, com certeza sem perceber que tipo de reação estava causando nele.
Sem deixar de beija-la, deslizou as mãos pelas costas da Almeida, abraçando ela com força, puxando-a para mais perto, necessitando sentir o corpo dela bem junto ao seu, e ela parecia querer o mesmo, pois contornou seu pescoço com os braços e, para acabar com sua sanidade, começou a acariciar seus cabelos com timidez.
Nunca sentira tanto prazer só em beijar uma garota, os lábios quentes e suculentos, o perfume suave que sempre o enfeitiçava, a delicadeza com que ela o tocava, faziam da Almeida uma mistura de pura inocência e tentação que o enlouquecia, se esqueceu totalmente de onde estavam, naquele momento só queria beija-la.
Separaram os lábios quando estavam quase sem ar, à respiração quente e apressada de ambos se misturando, os olhos se abrindo e se fitando.
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