LIRA

A moça sai cansada da taverna. Esgotada. Sente que é difícil ser a única que restara de toda uma família.

Seus olhos marejam e a garganta trava.

Lira anda rápido pelas ruas e logo chega em sua casa.

Ao entrar, deposita sobre a mesa os restos de comida que foram dados pelo dono do estabelecimento onde trabalha.

Se sente fraca, cai sobre os joelhos e uma farpa atravessa-lhe a pele.

Lira não se atenta à dor que o estilhaço de madeira causa em seu corpo.

Sua alma está sofrendo demais para que ela se importe com isso.

Seu choro é intenso.

— Tia... Não consigo respirar, meu Deus! Que saudades tenho de você. As pessoas dizem... — Ela fala enquanto olha para a colher de pau e para o avental como se a falecida estivesse ali. — Que com o tempo essa dor vai passar, mas não creio que vai!

Lira levanta-se, pega o avental de sua tia e enxuga suas lágrimas.

O medalhão novamente está exposto acima de sua veste.

Ela lembra-se do forasteiro, e do animal ameaçador que colocou medo no grandalhão Popov.

Lira sorri com a lembrança da cara de pânico do homem, e como voltou de fininho a sentar-se na mesa.

Batidas na porta a despertam de seu devaneio.

É estranho, ela não está à espera de visitas.

Quando abre a porta vê Esteban parado na sua frente.

— Lira, desculpe-me o incômodo, mas como futuro pároco, pensei que em visitá-la para saber se está bem. Se precisa de algo... Precisa?

A menina o olha com certa curiosidade, não deseja a companhia de ninguém, porém, não quer agir de modo rude.

— Muito obrigada por sua preocupação, mas ficarei bem. — Ela suspira. — Não desejo usar de má educação, no entanto, estou cansada e não acredito que esse seja um horário adequado para receber visitas. Posso fechar a porta?

— C-claro... Sem problemas. — Responde estupefato pelos modos de Lira.

Ela é direta.

Como anunciado, ela fecha a porta e depois encosta-se nela.

Desejava que o outro irmão fosse visitá-la, não esse que acabara de dispensar.

Esteban lhe dar arrepios.

Não sabia o motivo, mas não gostava de como ele a olhava. Era... Como, se visse nela um desejoso pedaço de carne.

Um pouco adiante da casa de Lira, o quarteto que a atazanara na taverna a espreita, enquanto isso ela fecha a porta na cara do filho de Andrej.

— Popov quanto aquele homem lhe pagou? - Pergunta o magro ruivo chamado Louis.

— Ele pagou muito. Todavia lembrem-se: Será apenas um susto. — Avisa o grandão careca.

— E depois? O que acontecerá conosco? — Pergunta Sullivan. O homem é negro, tem cavanhaque e está sem camisa.

— Como assim? — Popov vira-se e franze o cenho.

— Nós chegamos lá, simulamos um estupro e o filho do dono da cidade vai salvá-la. É simples, deseja fazer alguma anotação para não esquecer?

— Isso! — O homem olha de esguelha para o companheiro criminoso. — E não, não desejo tomar nota.

— E depois como escaparemos? — Sullivan questiona.

— Fugiremos para um local distante. Para muito longe daqui. Esse foi o acordo.

O quarto homem, de nome Gorin, que até então estava em silêncio, pois quase nunca fala, ponderou:

— Eu não concordo, porém, essa quantia de moedas que pesa em minha mão, é o suficiente para me fartar com rum e mulheres perdidas durante muitos anos.

Todos gargalham.

— Vamos, ele já se afastou. — Ordena Popov.

Quando a quadrilha está pronta para se aproximar da casa, o segundo irmão Alioth, o mais novo, aparece e bate na porta da jovem.

— Porra! — Reclama Sullivan. — O que faremos Popov?

— O que faremos? Esperar, ora bolas! Fiquemos aqui, recolhidos na sombra dessa casa.

Os homens se alinham em uma fila, observando com atenção o movimento na casa de Lira.

— Onde está o Gorin? — Pergunta o ruivo, olhando para trás um tanto surpreso.

— Ele estava aqui, logo atrás de mim. — Os três viram-se para procurar pelo amigo.

— Talvez tenha se afastado para urinar. — Sugere Popov.

Quando Popov e Louis voltam a olhar para frente, concluem silenciosamente que o outro companheiro, Sullivan, sumira sem deixar rastros.

Um frio maligno sobe pelas pernas dos homens, seguido por uma neblina, que até então não haviam percebido.

Um enorme cão sai de sua camuflagem na escuridão enquanto rosna.

É ameaçador.

— Aquele cachorro estivera mais cedo na taverna.

– O que isto significa? — Louis pergunta. Tenta demonstrar coragem, mas sua voz está trêmula.

— Você está com medo de um cão? — O grandalhão careca ri na cara de Louis. — Você é um bosta mesmo.

Popov tira sua espada da bainha e a sacode na direção do animal, no entanto tal gesto se mostra inútil, pois apenas faz com que o animal aumente seu rosnar.

Os olhos do cão estão vidrados, saliva cai de sua boca.

— Louis, olhe para ele. — Popov não desgruda os olhos do animal. — Está com medo de minha lâmina.

O animal volta a ser coberto pela neblina que outra vez se torna densa.

— Vamos seu puto! Apareça! — Provoca Popov enquanto guarda a espada. — Louis...

O grandalhão, ao virar-se, topa a face com o tórax do forasteiro.

Popov ergue o olhar e fita as íris de cor vermelho sangue.

A impressão que tem é de que apenas os olhos existem na face do homem.

O homenzarrão, sente um impacto em seu peito, fazendo-o cuspir.

— Sangue?!?! — Popov olha para suas mãos, depois de ter limpado o rosto.

Sentindo as perna fraquejar, Popov acompanha um fio, que parece carne, saindo de dentro de si.

Quando seus olhos param no rosto do forasteiro, antes de desmaiar, é que Popov entende que seu coração está na boca do estrangeiro.

Os olhos dele lhe sorriem, com um brilho de puro prazer.

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