FOGO E ÁGUA

Fierar chegou no vilarejo de Werzov a um bom tempo, mais precisamente, há dez anos.

Todos os dias, segue a mesma rotina: Levanta-se às quatro horas da manhã, vai até o quarto do filho, o acorda, e depois de trinta minutos saem para caçar.

Fierar fugiu da Romênia com sua família.

Na verdade, ele e Isabela se apaixonaram, mas ela era nobre e ele pobre, logicamente, os pais da moça se opuseram à união e eles não tiveram outra saída que não fosse fugir.

O pai da moça não os seguiu.

Ele a deserdou, e deu ordem à seus criados de estuprá-la e matá-la caso a encontrassem pelo caminho.

— Filho, tenho plena certeza de que hoje pegaremos um cervo.

O garoto tem dez anos e escuta as palavras do pai com toda a atenção.

Depois de andarem a distância de um tiro de flecha, eles sorriem ao verem o troféu diante dos olhos.

Um belo cervo.

Fierar faz um gesto com a mão para que o jovem abaixe-se. Em seguida pede silêncio com uma das mãos.

O menino cuidadosamente tira o arco das costas.

Com atenção e precisão arma-o com uma flecha.

Acerta-o!

O cervo corre, está manco pois tem um ferimento na pata esquerda.

O garoto levanta-se e corre, porém ele para ao perceber que seu pai ficou de joelhos.

— Pai! — O jovem o chama em voz baixa. — Pai!

O menino chama mais uma vez, e caminha de volta na direção do pai.

Com habilidade de quem foi bem treinado, o menino prende o arco nas costas e novamente chama o pai que está ajoelhado, olhando para o lado direito da floresta.

Ele olha na mesma direção que o pai... Sua análise começa do chão e sobe até avistar quatro corpos de homens.

Estão mortos.

Pai e filho estão a cerca de cinquenta metros de distância dos cadáveres.

A imagem é precisamente a seguinte:

Os corpos estão no ar, abertos em forma de "x". Uma das varas foi fincada na planta do pé direito, empurrada na diagonal vagarosamente e com muita perícia de modo que atravessasse o corpo sem machucar os órgãos internos, para em seguida penetrar toda a extensão do braço até culminar através da pele da palma da mão esquerda.

O ritual é feito do outro lado, da mesma maneira, de modo que uma vara não interfira no caminho da outra.

Sendo assim, o caminho da madeira vai do pé esquerdo até a mão direita.

Cada vara tem cerca de sete centímetros de diâmetro, dois metros e meio de altura e ambas estão fincadas no chão de maneira que fiquem firmes, assim os corpos estão seguros e bem esticados.

Eles estão nus.

Foram castrados e tiveram suas genitálias enfiadas nas bocas para abafar os gritos de agonia.

São como espantalhos macabros.

O grandão, ainda está com sua barriga rasgada, com seus fatos pendurados.

Os pássaros começam a chegar sobre as carcaças.

"Bruja!" "Bruja!" "Bruja!"

Lira sai escoltada de casa.

– Há uma denúncia de bruxaria contra a senhorita. — Fala o soldado mais alto dos três que a escoltam.

A jovem olha para os homens, assustada.

O forasteiro que estava na taverna assiste tudo com seu cão de guarda ao lado.

— Ainda é dia Barakj. O Sol está quase a pino!

O cão grunhe como se estivessem conversando.

— Não tenho relação alguma com esse acontecimento. — Lyon fala secamente.

O animal pisa com a pata no pé de seu dono.

— Eu já matei os quatro homens. E para sorte dela ainda não os acharam.

O cão range os dentes.

Lyon o olha de cima para baixo e sorri.

— Você já me deve a eternidade seu trapaceiro!

— ATENÇÃO! — Grita o Padre Custódio.

As pessoas começam a juntar-se em volta dele e da jovem Lira.

– Esta moça está sendo acusada pelo Sr. Andrej Alioth, de ter seduzido seu filho mais novo com feitiçaria!

Custódio berra exaltado.

As pessoas que chegam se assustam, porque acompanharam o crescimento da menina. Parecia uma moça comum.

— É mentira! — Grita a moça a plenos pulmões. — Nunca me relacionei com homem algum!

O padre Custódio sobe no palanque onde há uma fogueira montada.

— Então estás a dizer que Esteban Alioth mente?

Lyon olha para seu cão de guarda e como resposta recebe um ranger de dentes.

— Barakj, você tem certeza disso?

O animal o encara.

Lyon gargalha e fala:

— Sim, lógico que sei quando uma mulher ainda é uma donzela.

Cão e homem andam até as pessoas e se camuflam entre elas.

O padre Custódio levanta a mão direita... Depois a esquerda, e faz com que o barulho cesse.

Há uma freira ao seu lado.

Ele sabe que vai ser difícil convencer as pessoas de que Lira é uma bruxa... Mas, ele tem o depoimento de Esteban Alioth e Andrej Alioth.

— Meus irmãos, estou com a irmã Lorena aqui ao meu lado. E, a meu pedido, ela acompanhará a jovem até um recinto onde irá verificar sua pureza.

As pessoas se entreolham.

Acham justo o que é dito pelo padre Custódio.

Lyon olha para seu animal.

Depois de trinta minutos e muita expectativa do povo, que começa a aumentar o burburinho, a freira desce com a moça ao seu lado.

Os três guardas de antes a seguem de perto.

A freira sobe no palanque de madeira e sussurra ao ouvido do Padre.

Lyon observa tudo.

Não gosta do que escuta da freira.

Sua fisionomia fica pesada.

Barakj afasta-se dele com medo.

O padre Custódio aproxima-se da jovem e perto do ouvido dela diz:

— Merak, ainda há esperança para ti. Sua pureza pela sua vida. — Sibila. — Vamos, não seja tola, você servirá apenas a Andrej e a mim.

Lira o cospe.

— Vejam irmãos! O demônio cospe seu veneno no servo do Altíssimo!

O padre vai mostrando a saliva da jovem que está em sua mão e rosto.

As nuvens começam a cobrir o Sol.

O padre grita:

— A PUREZA DELA ESTÁ ROMPIDA!

A multidão se alvoroça.

Há uma confusão, as pessoas se empurram, Lyon permanece parado e olha para seu cão.

— Amanhã será a segunda noite de lua cheia... Use-a com sabedoria.

O animal feroz deita-se no chão e teme pela vida quando vê os olhos do homem ficarem negros como a noite.

O cão, com cautela, se afasta.

As nuvens ficam com as cores pesadas do chumbo.

Embora sejam dez horas da manhã, é como se a noite fosse cair sobre o vilarejo.

— SILÊNCIO! — Grita o padre.

Lira se debate tentando soltar-se dos três brutamontes que a seguram, mas de nada adianta.

Eles a amarram na madeira que está no meio da fogueira.

O padre Custódio continua com suas mentiras.

Andrej e Esteban Alioth chegam para assistir à cerimônia.

Os dois sobem no palanque.

O sino da igreja badala, e a figura cerimonial do homem vestido de branco surge na multidão, carregando a tocha ainda apagada.

— Lira Merak, você é acusada do crime de bruxaria. Ontem à noite, Esteban Alioth assistiu você enfeitiçar seu irmão Borjan.

— Nós apenas compartilhamos de uma refeição! — Lira fala enquanto olha para a multidão.

— Novamente Satanás tenta nos enganar, mas, provaremos que és culpada!

O Padre acende a tocha, que está com o executor e a pega com sua mão direita antes de continuar com as calúnias.

— Se você for inocente, o fogo não a queimará, e sairás viva!

O padre Custódio, discretamente, pisca um dos olhos para Lira.

A menina sente uma crescente raiva aquecer seu coração. Sente que seu corpo está ficando quente... como... se estivesse em uma febre crescente.

O sinal, que ela tem no ombro, por trás... Começa a ficar vermelho.

O padre assiste uma centelha queimar o vestido da moça de dentro para fora.

E a multidão assiste, apavorada, o fogo da tocha abraçar o corpo do padre.

— Não tenho nada a ver com isso Barakj. — Lyon levanta as duas mãos e fala sorrindo para o animal, enquanto o padre roda em torno de si.

O sacerdote tem o fogo rapidamente alastrado pelo seu corpo e se joga sobre as madeiras que formam a base da fogueira.

Lira tenta soltar-se, mas o fogo do corpo do padre faz com que as madeiras rapidamente se acendam.

Andrej sente uma gota de água cair em sua cabeça.

Raios cortam os céus.

Uma chuva torrencial, de um tipo nunca visto antes, cai sobre o vilarejo.

A multidão que corre para diversas direções se assemelha a um formigueiro alvoroçado.

A água que cai ensopa e derruba as madeiras do palanque e da fogueira, e faz com que o corpo carbonizado, do que antes fora um padre, seja arrastado até a lama.

O forasteiro e seu cão de guarda são os únicos que permanecem na chuva.

Lyon olha cinicamente para seu animal e fala ainda sorrindo:

— Grande Barakj... Quanta ironia... Quando temos uma "Bruja" de verdade no picadeiro, ela é uma filha do fogo. Pelo Altíssimo, nunca havia visto tanta ironia numa só manhã. Uma bruxa salva pelo fogo e um padre torrado por ele.

O cão trinca os dentes e abres os lábios. De certa forma ele está a sorrir.

Lyon, calmamente, sobe a escada de madeira que dá acesso ao palco.

Mais ninguém está na rua.

A chuva não para de cair, na verdade vem com mais força.

— Jovem "Bruja", acho que nem você sabia de seu dom.

Espantada, Lira vê o homem que lhe sorri, enquanto isso bate os dentes de tanto frio.

O forasteiro tira do cinto uma adaga com cabeça de dragão e corta-lhe as cordas.

— Meu nome é Drake, enquanto chove aproveite para arrumar seus pertences. A chuva só vai passar quando você estiver longe.

— E-então eu matei o padre?

— Não, meu amor. — Drake olha para a jovem e diz: — Quem brinca com fogo se queima, foi isso que aconteceu.

O homem desce a escada, e desaparece.

A jovem corre na direção da sua casa!

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