BRUMA MERAK
— Vejo que a morte não é pior que passar eternidade se lembrando de um erro. — Drake calmamente entra na casa onde Lira e o avô se abraçam.
Ambos se soltam e olham para o homem.
Ele está coberto por uma capa negra que os viajantes usam para se proteger do frio e da chuva.
Barakj abaixa a cabeça por um segundo, envergonhado pela traição que um dia cometera.
Lira olha para ambos, confusa e admirada com as presenças fortes e cheias de energia.
Os homens quase não cabem no cômodo, de tão grandes.
— Agora não, Drake. — Barakj pediu em tom humilde. — Não na frente dela. Por favor.
— Não acha que sua neta merece saber dos detalhes?
Drake se senta na cadeira ao lado da mesa... É como um adulto que se senta em uma cadeirinha de criança.
— Por favor... — Os olhos negros de Barakj estão carregados de constrangimento.
— Senhor Drake... — Lira tenta fazer algo pelo avô, não entende bem, mas se sente mal por vê-lo sofrer.
— Apenas Drake, querida. — O homem lhe oferece um sorriso.
— Drake, meu avô errou mas...
— Imagine, — Cortando a fala da menina — Que você confia muito em uma pessoa. Confia até sua propria vida, entende?
Drake tira sua adaga da bainha no cinto e passa um dedo no fio.
Os olhos vermelhos acendem.
— E quando você está em perigo essa pessoa foge sem olhar para trás. A pessoa que você chamou de "irmão" lhe deixa abandonada à propria sorte. Como você se sentiria?
— Traída. — A garganta de Lira está seca. Ela entende o assunto vai chegar.
Lira segura a grande mão de seu avô com suas delicadas mãos.
— Perfeito! Agora imagine que seu inimigo não consegue matar você, então você fica consciente e sofre sabendo que foi traída. Qual seria sua reação?
— Não sei, talvez quisesse vingança. Mas...
— Sim, você pôde ver minha vingança com seus proprios olhos.
Drake olha diretamente para os olhos de Lira, suas íris estão rubras, ele continua:
— É ou não o cão mais feio que você já viu?
Lira sorri.
— Pois achei muito garboso. — Ela responde.
Drake se inclina para frente. A moça pode admirar os dentes muito brancos.
— Eu não o suporto mais lambendo o próprio saco... Cheirando o rabo dos outros cachorros... Gostaria de tê-lo sempre com você? Mesmo sendo rabugento e lambendo o próprio saco?
Ela afirma com a cabeça, sorrindo.
— Que bom para você, seu velho mentecapto! Ela, gosta de você de qualquer jeito.
A lua cheia começava a declinar, o corpo de Barakj se convulsiona em um sinal de que logo assumirá a forma de cão.
Deveria estar em viagem com a neta, mas não podia deixar Drake falando com as paredes.
Principalmente porque ele tende a ser um pouco vingativo...
Drake se levanta, anda até Lira e sussurra em seu ouvido:
— Uma lástima, me vejo obrigado a contrariá-la.
Ao mesmo tempo Lorde Vlad crava sua adaga no coração de Barakj.
Ela está embebida do proprio sangue de Drake.
O avô de Lira cai no chão em uma convulsão violenta.
— Por que você o envenenou?
— Por que ele merece isso.
A neta observa assustada.
Drake a puxa contra seu corpo e segura sua cabeça para que não olhe.
Barakj começa a soltar uma mistura de gemidos, gritos e ganidos de agonia.
Seu coração queima.
Ele consegue arrancar a adaga do peito e aos poucos para de mexer.
Drake solta Lira, pega a adaga e devolve-a para a bainha.
Barakj está imóvel.
Os olhos abertos, petrificados.
— Traição Lira, sempre será traição! Mas, ele já pagou o que devia. — A jovem está sem entender nada. — Hora de descansar.
— Você o matou!
— É uma lástima contrariá-la... O cão roncava muito.
Um barco a remo vagarosamente corta a neblina densa que cobre a água.
É um dia calmo.
Pássaros cantam no topo das árvores cujos troncos saudáveis sustentam copas com folhas de cores vivas.
As flores do lugar são brilhantes e refletem os corações dos seres que habitam a ilha.
Há um mistério no ar.
Um silêncio quase ritualístico.
O homem alto e forte desce do barco e o empurra até a areia.
Se põe em uma postura ereta e estende a mão para a moça se firmar enquanto desce.
O capuz da jovem cai nos ombros e descobre seus cabelos brancos.
O tecido da capa é dourado.
Toda sua veste é presente do homem que a acompanhou até ali.
Ela segura a mão grande e sente o calor.
Mesmo um pouco triste por deixar no passado pessoas que amava, é grata pela ajuda e pelos novos caminhos que sua vida toma.
A neblina se dissipa aos poucos e ao longe é possível perceber o contorno de uma silhueta misteriosa.
Sua anfitriã.
— É ela, vovô?
— Sim, meu amor. É ela.
Barakj se ajoelha na areia e abaixa a cabeça em sinal de respeito e gratidão.
Lira faz menção de se ajelhar, mas ele a contém.
— Você não. — Avisa.
— Mas vovô...
— Não comece a teimar como seu pai. — Ele avisa.
— Nem parece, vocês tem o gênio um pouco parecido.
Barakj sorri.
Porém, olhando para o sorriso da neta, lembra-se do amigo... Não via Drake, desde que foi liberado do castigo.
A mulher se aproxima dos Merak com o semblante neutro.
É tão bela que não há como colocar em palavras.
— Então Drake o liberou do castigo. — Ela diz em uma voz clara, melodiosa e comedida. — Isso, realmente é novidade vinda de um homem igual a ele.
— Sim, Senhora Le Fay. — Barakj responde: — Ele vem mudando.
— Levante-se, Barakj Merak.
O avô de Lira se coloca de pé e permanece calado enquanto Morgana o avalia.
Ela olha para Lira e sorri.
- Seja bem vinda a Avalon, Lira Merak.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top