Capítulo XXXII
Às vezes basta uma palavra, um cheiro, uma imagem, um som para trazer de volta aos pensamentos uma lembrança, um lugar uma pessoa ou uma emoção que vivemos seja ela boa ou ruim!
(Yeah Man)
❤️❤️❤️
Sarah chegou em seu quarto e parou na porta para admirar sua bela esposa, que se encontrava sentada na cama. Como Juliette estava de cabeça baixa e distraída cantarolando enquanto dobrava umas peças de roupas, nem notou sua presença. E se aproveitando disso, Sarah se permitiu contemplá-la silenciosamente.
Como ela é linda!
E naquele dia em particular, parecia mais linda ainda usando um vestido com estampa de girassóis e alças finas, os cabelos presos em um coque com alguns fios soltos e os óculos no rosto, que lhe davam um ar de adolescente intelectual.
Sentia-se uma sortuda por tê-la como esposa e tinha plena consciência de que se não fosse pela paciência e o amor incondicional dela e dos filhos que tinham, não teria conseguido reaprender a viver sem suas lembranças.
Sua família tinha sido fundamental e essencial em seu recomeço de vida!
- Ei!! O que faz parada aí?
Sarah se espantou levemente com a pergunta de Juliette, fazendo-a esboçar um pequeno sorriso de seu susto. Havia se perdido momentaneamente nos pensamentos enquanto a observava, que nem percebeu quando a esposa levantou a cabeça e lhe notou parada na porta.
- Estava te observando apenas! - respondeu meio sem jeito por ter sido pega em "flagrante" em sua ação.
- Ah! - a professora sorriu.
- Separando as roupas que disse que ia dar a Lumena pra ela doar? - Sarah caminhou até perto da cama onde a esposa se encontrava.
- Sim! Já separei as das crianças e as suas, agora estou separando as minhas.
- E ela vai doar pra quem essas roupas?
- Na verdade, ela vai levar pra igreja que fica no bairro onde ela mora. Lá eles doam pra quem precisa.
- Hum...
- E você já terminou de escrever no seu diário?
Há quase uma hora ela havia se refugiado no escritório para adicionar novos capítulos em seu diário.
- Ah, já! - mostrou o caderno em suas mãos. Depois depositou o objeto sobre o criado-mudo. - Só restam poucas folhas em branco que pretendo preenchê-las antes de me operar.
- Se quiser podemos comprar logo outro caderno e deixá-lo guardado.
- É uma boa idéia. Podemos fazer isso amanhã?
- Claro!... Pronto, terminei! - ela se levantou da cama com a ajuda de Sarah que lhe estendeu a mão. - Agora só preciso pegar uma sacola grande na lavanderia e colocar essas roupas dentro.
- Deixa. Eu desço e pego pra você. Assim não fica subindo e descendo essas escadas.
Ela tinha um pavor de ver Juliette toda hora fazendo isso por causa da gravidez.
- Negativo, Sarah. Eu faço isso e aproveito pra beber um pouco de água. - ela calçou seus chinelos.
- Juliette, eu trago a água também.
- A Lumena já foi ao supermercado comprar as coisas que eu pedi à ela? - Juliette indagou, ignorando a fala da esposa e vendo-a emburrar.
- Já. - ela segurou na sua cintura, nada contente com o corte levado. - Tom e Bia me pediram pra ir com ela e eu deixei. Tudo bem?
- Sem problema. Já volto. Pode me deixar ir? - indagou diante das mãos possessivas que Sarah mantinha em sua cintura, impedindo-a de sair.
- Você é teimosa, né?
- Muito! - sorriu e não resistindo, a professora deu um rápido beijo na esposa, aproveitando que ela estava ali bem a sua frente. - Agora, você pode me soltar?
- Toma cuidado ao descer as escadas, por favor.
- Tomarei. Vou lá e já volto. - piscou para a esposa antes de se virar e se encaminhar para saída do quarto.
- Ah, Ju! - Sarah chamou quando a outra já chegava a porta do quarto.
- Oi!
- Posso afastar um pouco essas roupas para o outro lado da cama, pra poder me deitar aqui? Daqui a pouco vai passar o jogo de futebol do meu time e eu queria ver aqui no quarto.
A professora deu um pequeno sorriso do jeito de garota tímida da esposa ao lhe pedir aquilo. Não tinha como negar seu encantamento por aquele esporte e time. Era incrível isso!
- Pode! Passe as roupas para o canto que eu durmo, só não as deixe bagunçar, por favor!
- Sim, senhora! - ela bateu continência como se fosse um soldado e Juliette sua superior.
A professora não pode deixar de rir disso e saiu do quarto balançando a cabeça.
Assim que Juliette saiu do quarto, Sarah ligou a TV com controle remoto que apanhou da cama. O jogo começaria em poucos instantes segundo o narrador acabava de dizer. Enquanto a partida não começava, a loira aproveitou para afastar as quatro pequenas pilhas de roupas para que pudesse deitar-se. A primeira ela colocou direito assim como a segunda e a terceira, porém, a quarta que era das roupas de Juliette, tombou e caíram algumas peças no chão.
- Droga! - praguejou.
Deu a volta na cama para pegar as roupas do chão. Uma a uma ela foi juntando e dobrando. Quando pegou a última peça que era uma camiseta branca com a xilogravura de uns cactos, uma lua e algumas estrelas. Sentiu como se aquela peça lhe fosse familiar, mas não se lembrava de ter visto Juliette usá-la nenhuma vez durante esses meses.
Com curiosidade ela ficou encarando aquela peça já um pouco amarelada com seus desenhos em preto já bem desbotados.
Era estranho, mas aquela blusa lhe chamava a atenção de um jeito que Sarah não conseguia entender o porquê.
Foi então que uns cinco segundos após estar olhando quase que fixamente para aquela peça em suas mãos, Sarah lembrou o motivo dela lhe chamar tanta a atenção.
Eu lembro o que você usou no nosso primeiro encontro
Você entrou na minha vida
E eu pensei: "Ei, sabe, isso pode dar em alguma coisa"
(Two is better than one- Boys Like Girls ft. Taylor Swift)
''Enquanto andava apressadamente por um dos corredores da UFRJ, ressacada, atrasada e com uma terrível dor de cabeça, Sarah se xingava mentalmente por ter caído na besteria de ir a festa ontem e pior, bebido todas a ponto de ficar chadapa e não ouvir o despertador tocar para vir a Universidade, sendo que hoje ela teria na segunda aula um seminário sobre 'Economia Brasileira' para apresentar ao professor junto com alguns colegas de classe.
Em passadas largas ela tentava ir o mais rápido que conseguia, mas a cada passo sentia sua cabeça doer como se dessem uma martelada.
"Merda, eu tô ferrada!" - resmungou a si própria, massageando a têmpora direita.
CADÊ VOCÊ, SARAH?! O PROFESSOR SÓ VAI DÁ MAIS DEZ MINUTOS DE TOLERÂNCIA. SE VOCÊ NÃO APARECER NÃO APRESENTAMOS MAIS E AINDA FICAREMOS COM ZERO.
Ela leu a mensagem em letras garrafais pela barra de notificação do celular que vibrou um segundo atrás em sua mão esquerda. Era um de seus colegas de trabalho quem havia enviado a mensagem acompanhado de emojis com raiva.
De cabeça baixa, ela digitava uma resposta enquanto agora já corria para alcançar a sua sala antes que fosse tarde demais. Dane-se a dor na cabeça! Precisava da nota daquele trabalho ou estaria mais ferrada ainda na matéria daquele professor.
Já tô chegando, Igor.
Ao dobrar o corredor tudo aconteceu muito rápido. Um esbarrão forte e quando Sarah se deu conta já estava no chão após chocar-se com outra garota que também foi ao chão. Muitos papéis e livros da outra garota se espalharam pelo piso alajotado.
"Ai, droga!"
A outra garota praguejou sentindo a lombar e os glúteos doerem pelo choque bruto com o chão.
"Merda!" - protestou Sarah. "Me desculpe."
Sarah pediu com pressa, ciente que a culpada ali era ela. Escutou quando a outra garota bufou.
"Vai a..."
A garota se deteve no xingamento que diria ao erguer a cabeça e ver através das lentes de seu óculos de grau a loira diante de si.
Ela era simplesmente... Linda!
"Você se machucou?"
Sarah indagou após alguns segundos em que passou encarando em silêncio a bonita morena de olhos cor de chocolate.
A outra negou com a cabeça encantada com a loira. Ela tinha os olhos verdes mais lindos que já viu.
"Desculpa de verdade."
"Tudo bem."
A morena exibiu um pequeno sorriso tímido e extremamente encantador.
Sarah sentiu seu coração acelerar e bater muito mais forte do que de costume enquanto estava olhando para aquela até então desconhecida.
Aquilo parecia loucura. Jamais havia lhe acontecido isso, nem mesmo quando conheceu Viviane, sua ex, sentiu o coração batendo desse jeito louco.
"Deixa eu te ajudar. Já que causei esse estrago." - falou ao ver a outra garota recolhendo os papéis.
Em silêncio elas recolheram rápido do chão as apostilas e os livros da outra garota.
"Desculpa mesmo." - Sarah pediu ao estender a garota a última folha que apanhou do chão e se pôr de pé diante da desconhecida.
"Sem problema."
Havia um sorriso escapando do canto dos lábios da morena.
Sarah não deixou de notar com mais atenção o quão bonita era a outra garota, ainda mais sorrindo daquele jeito acanhado. Seu olhar percorreu o rosto de traços marcantes. Ela tinha os cabelos escuros, compridos e lisos, presos em um rabo-de-cavalo. Seus lábios eram carnudos, cor de carmim. Usava óculos de grau de armação redonda. Vestia camiseta branca com um desenho em preto de uns cactos, uma lua e estrelas; calça jeans escura muito bem justa, que moldava as curvas em seu corpo e nos pés, um all star branco.
"Gostei da camisa." - elogiou Sarah. "É xilogravura, né?"
"Sim. Conhece?"
"Um pouco."
"Eu adoro." - confessou a outra. "Juliette! Freire." - se apresentou e estendeu a mão a loira.
"Sarah Andrade!" - disse, apertando a mão da outra.
Assim que segurou a mão da morena, Sarah sentiu a pele se arrepiar, o corpo estremecer e o coração novamente acelerar agora feito um louco.
"É um prazer conhecê-la, Juliette! - conseguiu dizer enquanto apertava levemente sua mão.
"O prazer é todo meu... Sarah!" - a morena esboçou um sorriso que iluminava seu rosto.''
- Oh, meu Deus! - Sarah exclamou sem acreditar.
Emocionada com aquilo, ela sentou-se na beirada da cama.
Lágrimas de alegria começaram a escorrer pelo rosto da mulher.
Céus!!
Ela enfim havia conseguido lembrar-se de algo. E a lembrança não podia ter sido mais especial senão aquela em que ela tinha visto pela primeira vez a mulher com quem estava junto há mais de quinze anos.
Com a visão turva pelas lágrimas, ela olhou novamente para a peça de roupa que ainda segurava.
Aquela simples e já amarelada blusa tinha sido a responsável por lhe trazer de volta a mente, algo precioso que ela havia esquecido por conta da amnésia.
Mal podia acreditar nisso!
Juliette voltou ao quarto naquele mesmo instante e estranhou o fato de sua mulher estar de costas para a TV que aquela altura já transmitia o jogo que ela tanto queria ver.
- Sarah? - chamou se aproximando da cama.
A loira ainda sentada, virou-se para a esposa.
No momento em que Juliette viu o rosto da outra banhado pelas lágrimas, se assustou.
Imediatamente deu a volta em torno da cama e se postou em frente à Sarah, visivelmente preocupada por encontrá-la daquele jeito.
- Sarah, pelo amor de Deus! O que aconteceu? Por que está assim? - com as mãos trêmulas, segurava em seu rosto, completamente nervosa.
Percebendo que estava assustando a esposa e deixando-a nervosa, Sarah tentou acalmá-la.
- Minha vida, não fique nervosa isso fará mal aos bebês. - enxugou os olhos com uma das mãos enquanto que com a outra segurava as duas mãos da esposa.
- E como você quer que eu não fique nervosa se eu saio um instante e quando volto, te encontro assim, Sarah?
- Estou assim por um bom motivo.
- Que motivo é esse, por Deus!
Ela se pôs de pé diante da esposa e olhando bem no fundo de seus olhos castanhos, contou-lhe:
- Um rabo-de-cavalo, camiseta com xilogravura, calça escura e óculos de grau.
- Quê? - Juliette franziu a testa em total desconhecimento ao que Sarah acabava de dizer.
Diante da estranheza dela ao que revelou, Sarah explicou:
- Era exatamente assim, como acabei de descrever, que você estava quando eu te vi pela primeira vez.
Silêncio!
Juliette olhou bem para a esposa e deu um passo para trás. Não era assim que ela estava vestida meses atrás quando Sarah acordou desmemoriada.
- Quando me viu pela primeira vez? - balbuciou após uns segundos de silêncio ali entre elas.
Sarah podia ver a confusão nos olhos da esposa.
- Ju... - se aproximou dela. - Eu... Lembrei do dia em que te conheci, minha vida! - contou, sentindo os olhos se encheram de lágrimas por aquilo.
- Lembrou?? - a professora levou uma das mãos à boca se dando conta que a esposa não falava da vez em que despertou e sim, de mais de quinze quinze anos atrás. Os olhos de Juliette se encheram de lágrimas assim como os de Sarah. - Como isso aconteceu?
A loira contou da camiseta dela. Mostrou a peça para Juliette que reconheceu, confirmando que essa era exatamente a blusa que usava quando a conheceu em em um dos corredores da UFRJ. Depois, Sarah lhe relatou exatamente o que havia lembrado sem esquecer-se de nenhum detalhe do que conversaram no primeiro contato que tiveram em sua sala.
A cada palavra que a economista ia dizendo que elas trocaram durante o breve diálogo que tiveram na primeira vez que se viram, Juliette ia revivendo mentalmente aquela lembrança. A morena mantinha gravada em sua memória cada palavra daquele pequeno diálogo que tiveram naquele dia.
Recordava-se muito bem que ficara fascinada por Sarah assim que a viu, igualmente como aconteceu com a loira em relação a ela.
Ao final do relato de Sarah tanto ela quanto a esposa se encontravam abraçadas e chorando juntas.
O choro era de pura alegria, felicidade e principalmente, de alívio pelo fato de que talvez aquela situação de amnésia da economista estivesse próxima de acabar, já que ela enfim teve o primeiro flash de lembrança.
- Essa lembrança não me fez apenas recordar de quando te conheci Ju... - Sarah dizia olhando em seus olhos. - Mas também me fez redescobrir que... Eu me apaixonei por você no exato instante em que te vi, minha vida! - confessou antes de tomar sua boca em um beijo doce e delicado.
Seus filhos e Lumena logo que chegaram do supermercado souberam do que houve e ficaram felizes pela notícia, assim como o pessoal do trabalho de Sarah, que souberam posteriormente do ocorrido por intermédio de Juliette que fez questão de compartilhar essa boa nova com os amigos.
A médica da economista foi informada do ocorrido somente no dia seguinte durante a consulta que Sarah teve com ela para lhe levar os resultados dos exames que lhes foram pedidos.
Camilla ficou alegre com a notícia e felicitou sua paciente por ter conseguido lembrar-se de algo. A loira retrucou que aquilo só fora possível por causa de uma blusa da esposa.
- Santa blusa! - a médica brincou.
Um tempo depois a consulta era encerrada e o casal Andrade-Freire se despedia do médico a quem caso não acontecesse algo de mais nesses dias, só voltariam a ver daqui a quinze dias quando aconteceria a cirurgia de Grissom.
❤️❤️❤️
Os dias foram se passando e outras lembranças foram voltando à mente de Sarah em forma de pequenos flashes.
A cada novo dia esses flashes iam ficando mais frequentes e maiores.
As conversas com Juliette ajudavam Sarah a ter cada vez mais lembranças!
Lembranças e esperanças!
Esperanças de que logo essa amnésia que a assolou não existiria mais.
Sarah relatou em seu diário cada lembrança que retornava a sua mente. Logo o diário estava com as folhas todas preenchidas, não restando assim mais nenhuma em branco.
Sem poder escrever mais nele, a loira o entregou a Juliette e pediu a ela que o guardasse e só lhe entregasse aquilo quando recuperasse completamente a memória e não se lembrasse de que a tinha perdido, o que a esposa concordou prontamente.
Passado dois dias disso, em um despertar pela manhã, aconteceu o que inesperadamente havia acontecido cinco meses atrás, só que dessa vez ao inverso: a memória que se foi... Retornou toda!
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