Capítulo XXVII
Você é um anjo vestida de armadura
Você é o medo em cada luta
Você é minha vida e meu porto seguro
(...)
Quando meu mundo se torna escuro e solitário
Eu sei que você é aquela que irá me resgatar
(Close Your Eyes— Michael Bublé)
❤️❤️❤️
- Ai, Lumena, que susto! - Sarah levou a mão ao peito ao se virar e avistar a ajudante parada na soleira da porta da cozinha.
- O que a senhora está fazendo por aqui? - Lumena caminhou até perto de Sarah, que estava próxima ao balcão ilha da cozinha.
A ajudante que havia se levantado para preparar o café estava estranhando a presença da patroa por ali, ainda mais antes das sete da manhã.
- Resolvi preparar uma bandeja de café da manhã pra Ju... Só que tô meio perdida nessa cozinha. - sorriu sem jeito.
- Café da manhã? Eu ouvi direito?
- Ouviu.
- Espera... então isso quer dizer, que a saída de ontem deu super certo e vocês duas estão juntas como o casal que eram?
- Sim! - confirmou Sarah toda acanhada.
Saber disso encheu Lumena de alegria.
- Ai, que notícia boa! - a ajudante bateu palmas enquanto dava pequenos pulinhos de alegria, deixando Sarah sem jeito com aquela sua efusiva reação. - Fico tão feliz por vocês duas de verdade, principalmente pela dona Juliette. A pobrezinha vinha sofrendo com a distância entre vocês duas e por achar que não era amada pela senhora, dona Sarah.
- Eu sei, mas a partir de agora ela não sofrerá por esse motivo e nenhum outro do que depender de mim.
- É isso aí. Ela merece ser feliz. Vocês merecem ser felizes juntas. - Sarah assentiu, concordando com a fala de Lumena. - E, bom... se quiser ajuda para preparar a bandeja de café da sua adorável esposa, posso lhe ajudar.
- Sua ajuda está mais do que aceita.
As duas sorriram e foram tratar de preparar a bandeja com café da manhã de Juliette, a quem Sarah deixou a sono profundo no quarto delas. Quase meia hora depois já estava tudo encaminhado.
- Acha que a Ju vai gostar dessa surpresa?
- Sem dúvida alguma, dona Sarah.
Lumena lhe entregou a xícara e uma pequena vasilha plástica que continha algumas frutas que havia cortado em cubinhos, para que Sarah as acomodasse na linda bandeja de café da manhã.
Assim que acabou de ajeitar tudo na bandeja, a economista a olhou bem e algo ali ainda não parecia bem para ela.
- Eu não sei, Lu, mas pra mim está faltando algo nessa bandeja.
- Mas o que seria?
A outra mulher olhou minuciosamente a bandeja a procura do que faltava. Tudo que sua patroa gostava, estava na bandeja. Então não conseguia encontrar o que poderia estar faltando mais.
Foi só após mais uns segundos de observação, que Sarah se deu conta do que faltava.
- Já sei o que é! - encarou com um sorriso a outra mulher a sua frente, que lhe olhou curiosa.
- O quê?
- Flores!! ... A Ju gosta de flores, não gosta, Lumena? - a questionou em dúvida.
- Gosta sim... - a ajudante sorriu para a patroa. - Só que onde a senhora vai arranjar flores agora cedo?
Ainda era sete e pouco da manhã.
Sarah pensou um pouquinho e acabou por se lembrar de um lugar onde tinha visto flores ontem.
- Na casa ao lado. Bem em frente dela tem um pequeno jardim com algumas flores. Vou lá pegar umas para Ju e já volto!
Ela saiu rápido da cozinha feito uma garota afoita, não dando tempo de Lumena dizer qualquer coisa. Cerca de cinco minutos depois, a loira retornava com um raminho de flores brancas, que se pareciam muito com lírios.
Lumena pegou as flores e as ajeitou em um pequeno copo de vidro com água, e o colou também na bandeja para enfeita-la.
- Pronto! Agora sim está melhor, não acha? - Sarah olhava toda orgulhosa para a linda bandeja de café da manhã.
- Sim!
Lumena sorriu para Sarah que retribuiu. A ajudante estava imensamente feliz por suas patroas terem se entendido. Enquanto ajudava Sarah a preparar aquela surpresa para Juliette, ela instigou a patroa a contar como havia sido a noite ontem. Ouviu a loira relatar com certa timidez sobre a declaração de amor que fez e o passeio ao longo da orla, mas sem entrar em grandes detalhes.
- Bem, Lumena, obrigada por ter me ajudado com a bandeja. Se não tivesse aparecido aqui na cozinha, acho que eu ainda estaria perdida e sem ter conseguido fazer absolutamente nada.
- Que isso! Não precisa me agradecer, dona Sarah!
- Agora vou subir e levar isso pra Ju antes que ela acorde e não me veja no quarto.
Com cuidado, ela pegou a bandeja e se encaminhou para sair da cozinha, tomando todo o cuidado do mundo para equilibrar o conteúdo da bandeja. Quando estava prestes a cruzar a porta, ouviu Lumena chamar e se virou para ela.
- Que bom que a senhora fez o que era certo e abriu seu coração para a dona Juliette... Estou feliz por vocês! - a ajudante repetiu aquelas últimas palavras.
Sarah assentiu com um sorriso gigante estampado no rosto.
- Eu também estou feliz, Lumena... Muito feliz por isso!
❤️❤️❤️
Juliette ainda dormia, porém não a sono tão profundo assim quando sentiu algo cobrir sua mão que descansava em cima da barriga coberta pelo tecido macio e fino da camisola, a qual ela não recordava em quê momento da madrugada havia vestido. Logo em seguida sentiu um toque sútil em seu rosto e por fim, ouviu uma voz rouca que conhecia muito bem, chamar por seu nome quase em um sussurro rente a seu ouvido.
Seus olhos se abriram lentamente e a professora se deparou com a imagem de sua esposa deitada de bruços a seu lado, sorrindo com a mesma ternura e doçura que há mais de meses não via nela.
- Bom dia! - Sarah deslizou a mão com carinho pelo rosto da esposa e em seguida, seus lábios tocaram os dela em um beijo rápido.
Juliette ficou olhando para a esposa sem acreditar no que acabava de acontecer. Parecia até com um dos muitos sonhos que ela já teve ao longo dos últimos meses.
- Algum problema, Ju?
Sarah estranhou o olhar confuso que a esposa lhe dirigia.
- Não... É só que... É ainda meio inacreditável pra mim o que você acabou de fazer... Parece até um sonho.
Tinha sonhado tanto com elas de volta as boas e com essa Sarah sendo que nem a sua Sarah de antes da amnésia, que agora que isso enfim estava acontecendo, parecia até irreal.
- Está se referindo ao beijo que acabei de te dar ou ao que ocorreu entre nós duas durante a noite?
- As duas coisas. Sonhei muitas vezes com isso acontecendo. Em acordar e me deparar com você assim do meu lado, sorrindo pra mim como sempre costumava ser. E, sinceramente, achava que essas coisas entre a gente só fossem voltar a acontecer quando você se recuperasse.
- Mas que bom que não foi assim, não é?
- É! - ela olhava quase que em encantamento para a esposa.
Sua mente trouxe à tona os flashes da noite passada. A declaração de Sarah, sua pele na dela, seus corpos se tocando, o amor que as envolveu e as conduziu, enquanto se entregavam uma a outra depois de meses.
A noite passada havia sido tão especial e seria tão inesquecível quanto fora a primeira de fato. Juliette olhou bem para Sarah e tê-la ali também lhe olhando, sorrindo daquele jeito encantador que só ela sorria, parecia até a sua realidade de tempos atrás. Sua ficha ainda custava a cair um pouquinho mesmo com os flashes pipocando em sua cabeça.
Sarah apenas observava a esposa que lhe encarava com um olhar perdido. Não resistindo, ela aproximou seu rosto do dela e lhe deu um novo beijo, este um pouco mais demorado e mais intenso que o anterior.
- Se eu pudesse não pararia nunca de te beijar, porque é tão bom isso! - murmurou após o beijo ser encerrado.
Juliette deixou um sorriso escapar após ouvir a confissão da outra. Não era a primeira vez que Sarah lhe dizia aquilo.
- Lembro de já ter ouvido essas mesmas palavras de você anos atrás! - confidenciou a professora.
- Mesmo?
- Uhum!
- Engraçado que não me lembro de tê-las dito antes! - disse em tom de brincadeira o que fez esposa sorrir.
- Pelo visto seu lado engraçadinha, está voltando.
Sarah não pode evitar em dar uma gargalhada com isso. E sua esposa se encantou com aquilo. Sentia falta de ouvir aquela sua gargalhada tão cheia de vida e alegria.
- Tenho algo pra você! - anunciou após parar de rir.
- Pra mim? E o que é?
- Primeiro, preciso que feche os olhos. E depois, sente-se na cama.
- Okay.
A professora seguiu as instruções da outra, exatamente como ela pediu. De olhos fechados e com o auxílio de Sarah, Juliette se sentou na cama com as costas apoiadas ao encosto macio do móvel.
- Não vale abrir os olhos antes de eu dizer que pode, está bem?
- Está! - respondeu ainda de olhos fechados. Estava ansiosa para saber o que a esposa tinha aprontado.
Sarah saiu da cama em um pulo e foi até a cômoda buscar a bandeja que deixou por lá. Equilibrando o objeto, retornou para perto da cama e depositou a bandeja ao lado das pernas esticadas da esposa.
- Pode abrir seus lindos olhos, Ju.
Assim que o fez, a professora se encantou ao deparar-se com a linda bandeja que estava sobre o colchão.
- Você fez isso pra mim?
Ela encarou a esposa com surpresa.
- Fiz, mas confesso não foi sozinha. Lumena me ajudou. Na verdade, ela fez quase tudo, eu só ajudei uma coisinha aqui e outra ali. Gostou?
- Muito. Está lindo, Sarah!
- Tem tudo que você gosta.
Ela já sabia bem o que a esposa gostava de comer de manhã por conta das muitas vezes em que tomaram café juntas ao longo desses meses e assim sendo, se preocupou em colocar ali tudo o que agradaria ao paladar de Juliette.
- É, estou vendo... - ela voltou seus olhos a bandeja rapidamente antes de tornar a encarar a esposa. - Obrigada por isso e pela noite linda. Estar com você de novo foi maravilhoso, Sarah.
- Eu prometo pra você, Ju, que a partir de agora você não vai ter somente o meu carinho e minha atenção, mas também terá o meu amor. Nós vamos voltar a ser o casal que éramos, ainda que eu não me lembre disso... Minha vida!
Juliette empalideceu e paralisou diante das duas últimas palavras que ouviu a esposa dizer. Simplesmente, era o apelido carinhoso pelo qual sua Sarah costumava lhe chamar.
Foi como um dejá vú ouvi-la lhe chamar daquele jeito de novo. Aquelas duas palavras fizeram com quem Juliette se recordasse das várias outras vezes em que Sarah lhe chamou assim. Seu coração até bateu mais acelerado com aquilo. e dado.
- O que houve, Ju? - tocou o rosto da esposa com uma das mãos, preocupada com a expressão pálida da esposa. - Não gostou do que eu disse?
- Eu gostei, sim, claro, Sarah. - como ela não ia gostar do que ouviu? Era tudo que ansiava escutar outra vez. Saber que essa Sarah faria o possível para voltarem a ser o casal de antes, era maravilhoso. O paraíso!
- Então qual é o problema? Por que ficou pálida e me encarando tanto desse jeito?
A professora se perguntou internamente se sua esposa havia se lembrado do apelido carinhoso, para tê-lo dito tão naturalmente como disse. Precisava tirar essa dúvida e foi o que fez.
- Por que me chamou de "minha vida"?
- Você não gostou?
- Gostei, claro. Mas eu queria saber o porquê dessa palavra?
- Bom... - Sarah se ajeitou melhor ao lado de Juliette na cama e passou o braço direito por sobre os ombros da outra. - Eu, simplesmente olhei pra você e me veio essa palavra de imediato à cabeça. Algo de errado com ela?
- Não. É só que... você antes de perder a memória, costumava me chamar assim. - revelou. Tinha esperanças de que no fundo a esposa dissesse que havia se lembrado daquilo, mas paciência.
- Verdade? - perguntou surpresa.
- Sim! - ela confirmou.
Sarah ficou a processar aquela informação por uns segundos e depois, aproximando seu rosto ao de Juliette, murmurou-lhe bem baixinho:
- Acho que o meu coração... Apaixonado por você, tenha se lembrado dessas palavras e as enviou direto para minha cabeça para que eu as dissesse à você.
As duas sorriram ante ao que Sarah disse. E segundos depois já estavam aos beijos.
- Hum... O café... Sarah... Vai esfriar! - sorrindo, Juliette lembrou a esposa durante o beijo que trocavam.
Sarah a muito contragosto interrompeu o beijo e logo em seguida, as duas mulheres, já que Juliette fez questão de dividir a bandeja com a esposa, desfrutaram do café que a economista tinha preparado para a amada.
Foi o melhor café da manhã que Juliette já tomou nos últimos meses. Estava se sentindo nas nuvens, pois sua mulher ia lhe servindo tudo na boca e sempre depois disso, ela lhe presenteava com um beijo. A professora experimentou beijos com vários sabores, um mais delicioso que o outro.
Depois de todos esses meses angustiantes, ela podia dizer que agora estava sentindo-se feliz. Ainda que o problema de sua esposa ainda persista, Juliette se sentia alegre e feliz, porque as coisas entre ela e Sarah agora estavam voltando a ser como antes quando a esposa a amava.
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