Capítulo XXIX
Sarah virou-se na cadeira para a dona da voz que escutou. Através das lentes escuras do óculos de sol, ela viu uma morena de cabelos compridos e rosto muito bonito. A estranha lhe sorria um tanto comedida e em seu olhar havia receio e dúvida. Sarah não a reconheceu, sequer fazia ideia de quem ela fosse.
Seria alguma conhecida sua?
Provavelmente, já que sabia seu nome!
Ou quem sabe fosse uma parenta??
Ou então uma velha amiga??
Mas de quem, dela ou de Juliette??
Resolveu deixar os questionamentos de lado e tratou de responder a pergunta feita pela outra mulher que não tirava os olhos dela.
- Eu mesma!! - confirmou com um sorriso educado enquanto ficava de pé e retirava o óculos de sol.
A economista notou que após sua confirmação, a mulher alargou ainda mais seu sorriso para ela, deixando Sarah um pouco desconfortável com aquele seu gesto e o olhar de euforia que lhe dirigia.
- Nossa, eu tinha quase certeza de que era você só por conta do seu sorriso bonito.
A loira corou diante do elogio da estranha. Quem será ela?
- Mas quis primeiro perguntar pra me certificar e não acabar cometendo uma gafe horrorosa. - a morena explicou, gesticulando bastante com as mãos em um hábito de nervoso.
Sarah meneou com a cabeça se mantendo calada enquanto observava com curiosidade a mulher que falava com ela.
- Faz tanto tempo que não nos víamos! Como você tem passado?
A morena estava em estado de graça e um tanto nervosa por reencontrar depois de anos a mulher diante de si. O tempo havia sido generoso com Sarah. Ela continuava tão linda quanto Viviane se lembrava e tinha visto mais de dois anos depois do rompimento delas, quando veio de Londres ao Brasil para curtir as férias e rever velhos conhecidos, dentre estes: Abadia, por quem tinha grande estima.
Em uma passada por Búzios para visitar a mãe de sua ex e de quebra, saber através dela sobre Sarah. Viviane acabou nem precisando falar com Abadia para saber da ex, pois foi surpreendida ao ver de longe Sarah saindo da casa da mãe, ostentando uma barriga de grávida e com uma mulher morena agarrada a sua mão livre.
Foi um golpe duro para Viviane ver que sua ex tinha seguido sua vida em frente, sendo que a morena não se saiu bem nisso por ainda nutrir fortes sentimentos pela ex-noiva e a doce ilusão de que mesmo após o fim da relação delas, Sarah pudesse estar esperando-a para uma reconciliação, o que não foi o caso.
- Eu vou bem!
Foi a resposta curta de Sarah na qual tentou dissimular seu total desconhecimento acerca de quem era a mulher que estava falando com ela. Só que não se saiu tão bem nisso, pois a outra mulher percebeu seu desconhecimento.
Mesmo fazendo mais de quinze anos sem contato algum com a loira, Viviane ainda era capaz de desvendar e interpretar Sarah Carolline apenas olhando bem para sua expressão e, principalmente, olhando no fundo de seus olhos. Olhos esses que a morena se encantou logo de cara, assim como se encantou pela dona deles após se conheceram por intermédio de amigos do colégio que tinham em comum.
- Posso ver pela sua expressão e pela forma como me olha, que não está me reconhecendo, não é Sah? - Viviane mascarou com um sorriso a sua grande decepção em não ser reconhecida pela ex.
Sarah até pensou em mentir e fingir que a reconhecia para não criar uma situação mais desagradável e desembaraçosa do que a que começava a se estabelecer ali entre elas. Porém, depois de segundos refletiu e achou melhor ser franca e falar a verdade.
- Me desculpe. Realmente não reconheço. - admitiu. E sem dar tempo a outra mulher de lhe dizer algo, Sarah já emendou, contando não muito a vontade e de forma breve, o motivo pelo qual isso acontecia. - Eu perdi a memória de maneira repentina há alguns meses.
Assim que revelou sobre isso, Sarah pode ver a expressão de choque e consternação que a mulher passou a ostentar. O sorriso bonito que ela tinha minutos atrás enquanto falava com ela tinha sumido completamente de seu rosto como que em um estalar de dedos, e agora, a estranha lhe olhava com pesar. Sarah se sentiu mal por isso, pois detestava que as pessoas lhe olhassem daquela forma, mas reconhecia que era meio impossível de isso não acontecer quando descobriam o que havia lhe ocorrido.
Viviane ficou longos segundos caladas, digerindo em silêncio a informação dada por Sarah. Sua ex havia perdido a memória e nem conseguia dimensionar o quão sofrido e dificultoso deve ter sido as coisas para ela nesse estado.
- Sinto muito por isso, Sah! - tocando de maneira breve o braço da outra, Viviane conseguiu formular uma frase e dizê-la.
Sarah assentiu.
- Foi bem difícil no começo. Eu sofri, fiz minha família sofrer por consequência, mas aos poucos, conforme o tempo foi passando, eu fui me readaptando e agora as coisas estão mais fáceis, mesmo ainda não tendo recuperado a memória.
- E o que motivou essa sua repentina perda de memória?
- Os médicos dizem que foi estresse.
- Nossa, então seu nível de estresse devia estar lá nas alturas.
- Provavelmente.
Um silêncio constrangedor as envolveu por um breve instante antes de Viviane tomar a iniciativa de rompê-lo.
- Bem... - pigarreou a mulher morena. - ... Como não se lembra quem eu sou, vou me apresentar pra você então... Sarah, meu nome é Viviane. Eu... - hesitou um pouco se devia ou não contar o resto. Acabou optando por contar, já que fazia parte da história de Sarah ainda que ela não lembrasse disso. - ... Fui sua noiva anos atrás! Mas nosso noivado não durou tanto, pois meses depois fui pra Londres.
Olhando para sua vida hoje. Com uma carreira consolidada. Não se arrependia de ter ido para a terra da rainha a fim de estudar Ciência Política na conceituada London School of Economics and Political Science, em busca da realização de seus sonhos profissionais. Não! Seu arrependimento era que para isso teve de deixar a ex para trás. Não fosse isso, quem sabe hoje não seria ela a estar com Sarah em vez da morena que enxergou de longe em sua companhia anos atrás e que se parecia até com a mesma mulher grávida que estava até momentos atrás ali com Sarah.
- Eu soube disso pela minha esposa. Ela me contou que tive uma noiva e que nós... - apontou com o indicador de si para Viviane. - terminamos, porque você foi estudar pra Londres.
- Na verdade nós terminamos, mas depois voltamos e tentamos manter o namoro a distância, só que não deu muito certo. No fim acabamos terminando em definitivo.
- Hum...
- Sua esposa é a moça que estava com você aqui antes de ir lá para o restaurante? - sondou já desconfiando da resposta positiva que ouviria.
- Ela mesma. O nome dela é Juliette
Ela é uma mulher incrível.
Sarah então contou sobre sua família e seus filhos. Viviane pode ver os olhos da ex brilharem como estrelas cadentes a cada vez que mencionava ora esposa, ora os dois filhos que tinha e ora os gêmeos que estavam por vir.
Apesar de no passado ter lhe doído ver que Sarah havia refeito sua vida, hoje não doía mais. No fundo conseguia sentir-se contente por saber que a ex-noiva havia construído uma bela família.
Viviane mantinha um carinho enorme e especial por Sarah E ainda guardava na memória as lembranças dos bonitos e bons momentos que tiveram juntas, como casal. Sarah foi seu primeiro e único amor verdadeiro. Óbvio, que depois dela houveram outros amores em sua vida, mas nenhum foi de verdade como ela foi. Tampouco teve a intensidade e importância que Sarah teve na vida de Viviane.
❤️❤️❤️
Depois de se demorar mais do que pretendia no banheiro por conta de um enjôo repentino que logo em seguida a fez pôr pra fora o pouco que havia comido mais cedo, Juliette ainda foi detida de voltar para a sua mesa por conta da ligação de Viih. Por um tempo razoável, ficou de conversa com a amiga que queria saber como estava sendo o fim de semana da professora com a família. De maneira resumida, Juliette contou os últimos acontecimentos para a melhor amiga que quase lhe deixa surda ao gritar enlouquecidamente quando a morena lhe revelou que ela e Sarah tinham se acertado e estavam juntas de novo como o casal que sempre foram.
- E o sexo com ela como foi? A perda de memória interferiu na performance da sua esposa na cama? - Viih provocou.
- Você não presta, Vitória! - Juliette ouviu sua amiga cair na gargalhada do outro lado da linha. - E para sua informação o sexo foi maravilhoso. Sarah continua ótima nesse quesito. - derreteu-se em elogios.
Ainda que no início tenha notado certo nervosismo da parte da esposa, o que era até compreensível dada a falta de lembrança sobre suas experiências sexuais. Depois que o nervosismo passou, sua esposa foi perfeita, proporcionando a Juliette uma noite de amor tão maravilhosa quanto todas as outras tantas que já tiveram ao longo desses anos todos em que estão juntas.
- Bom, pelo menos agora você não passará mais vontade ou tampouco, terá que recorrer a banhos frios para aplicar seus desejos pela esposa.
Juliette apertou o canto dos olhos com os dedos indicador e polegar, soltando um suspiro que foi muito bem ouvido por sua velha amiga.
- Por que eu ainda te conto as coisas mesmo?
- Porque somos amigas. Melhores amigas.
Elas ainda trocaram mais algumas palavras que se resumiram em provocações por parte de Viih e fajutas reclamações por parte de Juliette quanto as indiscretas falas da amiga. Em seguida as duas amigas se despediram e Juliette deu por encerrada a ligação, para enfim retomar o caminho de volta para sua mesa.
Quando descia as escadas que levavam para a areia, a morena avistou uma mulher que ela podia jurar que não lhe era estranha, de papo com Sarah. A outra conversava animadamente com sua esposa. Inevitavelmente uma pontada daquele sentimento chamado ciúmes atingiu a professora.
Entre sua esposa e ela, Juliette era a que tinha mais ciúmes das duas, e não negava isso. Só que sabia controlar, ou melhor, mascarar com muita habilidade, diga-se de passagem, seu ciúme na frente das outras ou outros que estivessem "cercando" Sarah. E, valendo-se dessa sua "habilidade", Juliette continuou seu lento percurso pela areia macia da praia até a mesa, mascarando com um sorriso forçado, o ciúme que lhe corroía feito ácido.
- Meu Deus! Ainda bem que era noite. - Sarah cobriu o rosto com as mãos enquanto ria. Ao seu lado Viviane também estava aos risos por ter lhe contado que, certa vez, a loira apostou com um amigo delas que seu time ganharia do dele na final do campeonato, mas acabou perdendo a aposta e, com isso teve que entrar pelada na mesma praia que estavam agora. E dar um mergulho na água fria.
- Sorte sua que naquela noite aqui não estava movimentado, tá? Assim mais ninguém além de mim e nossos quatros amigos que estavam com a gente, te viram entrar pelada nessa praia.
Um pigarro vindo detrás chamou a atenção de Viviane e de Sarah, que ergueu a cabeça ao sentir mãos conhecidas repousarem sobre seus ombros.
- Interrompo? - sua voz era macia e o sorriso angelical. Havia escutado o final da fala da outra mulher e não gostou nada. Porém se fez valer de sua habilidade para não deixar transparecer seu desagrado.
- Não. O que houve? Você demorou para voltar.
Apesar de entretida na boa conversa com Viviane. Sarah não deixou de notar a demora da esposa em retornar do banheiro. Volta e meia olhava para trás para ver se a esposa já estava vindo, mas nada dela. Seu suco aquela altura já estava quente tamanha sua demora. Só não foi atrás de Juliette para saber a razão de tanta demora, porque achou que seria deselegante demais deixar Viviane sozinha ali.
- Quando saía do banheiro a Viih ligou e ficamos de conversa. - explicou antes de lançar um olhar avaliativo na direção da outra mulher que estava com sua esposa.
Agora, olhando de perto, Juliette teve ainda mais certeza que o rosto daquela outra não lhe era estranho. E isso se confirmou quando ouviu o nome da outra sair da boca de Sarah após sua esposa se pôr de pé para fazer as devidas apresentações.
- Ju, essa é a Viviane. - Sarah não se sentiu confortável em revelar a esposa que aquela era sua ex-noiva. Até porque imaginou que nem fosse preciso, já que desconfiou que Juliette ia chegar a esta conclusão só de saber o nome da outra. O que de fato foi o que aconteceu. - Viviane essa é a minha esposa Juliette. - a loira abraçou a esposa pelos ombros e beijou seu rosto sob o olhar atento da ex.
Após ouvir de Sarah que aquela era a esposa dela, Viviane gentilmente estendeu a mão a Juliette para cumprimentá-la e a morena aceitou o cumprimento.
- É um prazer conhecê-la, Juliette! - Viviane disse com simpatia e sendo sincera. Não tinha nada contra a mulher a sua frente até porque acabava de conhecê-la pessoalmente.
A professora se limitou a apenas dar um sorriso e assentir em resposta
- A Sah me contou que são gêmeos, que você espera. Meus parabéns pelos bebês que estão vindos!
Sah?
Com um gole seco, Juliette empurrou goela abaixo seu desgosto por ouvir a ex de sua mulher chama-la daquela forma que algumas vezes ela própria, Juliette, chamava na intimidade, mais precisamente na hora que faziam amor.
- Obrigada. - agradeceu a professora.
- Bem, eu tenho que ir. - Viviane anunciou. - Já te aluguei bastante, Sah. Foi muito bom te reencontrar depois de tantos anos. Espero que o mais breve possível você se recupere. E desejo tudo de bom a você e sua família.
- Obrigada, Pocah! - chamou-a pelo apelido que Viviane lhe revelou que era mais comumente chamada.
As duas mulheres trocaram um abraço de despedida. Abraço esse que na opinião silenciosa de Juliette demorou bem mais do que devia. Ao término da despedida com Sarah, Viviane trocou um aperto de mão com a esposa de sua ex e se foi rumo a sua mesa, deixando o casal a sós.
Depois da ida de Viviane um silêncio tomou conta da mesa de Sarah e Juliette por um par de segundos, até que a loira notando a seriedade na expressão da esposa, resolveu questiona-la:
- Está tudo bem, Ju ?
- Está!
- É que você está tão séria que...
- Posso te fazer uma pergunta? - interrompeu a outra.
Por mais que quisesse manter-se calada e não perguntar nada a respeito da outra mulher que estivera há pouco ali com elas, não conseguia. Precisava saber de uma coisa que estava lhe corroendo desde que Sarah apresentou Viviane.
- Pode, claro! - respondeu, olhando para a esposa enquanto Juliette se limitava a observar a paisagem da praia.
- Reconheceu aquela mulher? - a professora interrogou sem rodeios.
- Não!
Juliette suspirou mais aliviada.
- Por quê? - quis saber Sarah.
- Você me pareceu conhecê-la muito bem enquanto me apresentava a ela, e vice-versa... Por acaso ela te disse o nome dela então?
- Sim! Ou do contrário nem saberia quem ela era.
- Ela que foi sua noiva, não foi?
Juliette encarou a esposa. Viu a outra fazer um leve balançar de cabeça, confirmando o que já suspeitava.
- Ela é bonita! - a professora comentou vendo Viviane aos risos na companhia de quatro pessoas que estavam com ela em uma mesa mais lá adiante. - Bem bonita mesmo.
Sarah seguiu com o olhar na mesma direção em que a esposa olhava e depois voltou seus olhos coloridos para Juliette que continuava a observar Viviane.
- Sim, ela é bonita. Só que conheço uma mulher mil vezes mais bonita que ela. - murmurou a última frase só para Juliette ouvir.
Diante de tais palavras da esposa, a morena virou o rosto na direção de Sarah, ficando cara a cara com ela. Pode ver um sorriso brincando nos lábios da outra enquanto se olhavam.
- E posso saber quem é essa mulher? - um pequeno sorriso já escapava de seus lábios ao lançar tal questionamento.
- Você, claro! ... Você é a mulher mais bonita, ou melhor, a mais linda que eu conheço, Ju! - declarou com um sorriso apaixonado.
Era incrível como agora, depois de ter aberto seu coração a esposa, as palavras pareciam brotar com muito mais facilidade. A todo instante, Sarah sentia necessidade de agraciar a esposa com palavras vindas direto de seu coração apaixonado. Coração esse, que tinha certeza de que jamais deixaria de bater forte por aquela mulher que lhe disse assim que a conheceu logo após acordar desmemoriada: "vou estar sempre ao seu lado e não a deixaria sozinha".
E, de alguma forma, ela sentiu a verdade em suas palavras. Mesmo na ocasião não a reconhecendo, acreditou no que Juliette lhe disse, pois seu subconsciente e seu coração lhe diziam que ela estaria ali como tem estado todo esse tempo.
Talvez não tenha sido só seu subconsciente e seu coração quem lhe disseram isso, mas também o seu imenso Amor por Juliette, que apesar da falta de lembrança ainda continuo dentro dela, vivíssimo todo esse tempo.
- E você a mais exagerada que eu já conheci. - disse antes de plantar um beijo rápido nos lábios da esposa.
- Aceito o título!
- Mas eu não aceito o meu. Não nesse atual momento em que estou enorme desse jeito. - apontou para a barriga volumosa.
- Agora quem bancou a exagerada foi você.
- Por que? Eu não estou enorme?
- Pra mim não. Pra mim você está linda, mais linda exatamente, porque está carregando nossos bebês.
Contra aquela resposta não havia qualquer argumento.
- Assim você me quebra, Sarah.
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