Capítulo XXIII

Da cadeira em que estava, no deck de madeira do restaurante a beira mar da Praia de Geribá, Juliette observava Sarah na água com os filhos e Penélope. A todo instante ela via a esposa sorrir junto com os três enquanto eles tentavam jogar vôlei.

Bia jogava a bola para Penélope que como uma boa jogadora que era, já que fazia parte do time da escola, levantava a bola na altura certa para Thomás que estava sentado sobre os ombros de Sarah, tentasse tocá-la com as duas mãos de volta para à irmã. Por ser pequeno, não ter muita coordenação e habilidade para tal feito, Tom mais errava do que acertava o "tempo" da bola para dar o passe certo à irmã. Mas nas raras vezes em que ele conseguia acertar isso, tanto Sarah quanto Bia e Penélope faziam a maior algazarra para comemorar o feito do pequeno que sorria alegremente por ter conseguido acertar a bola.

- A brincadeira lá parece bem animada!

Lumena se sentou de volta ao lado de Juliette. Ela tinha saído só há uns instantes para ligar para o filho, saber como ele estava, mas não conseguiu falar com o garoto.

- Sim!... Conseguiu falar com o Diogo?

- Que nada! O celular dele só chama e depois caí na caixa postal. Não sei pra quê tem celular se não atende. Mas enfim... Liguei para o celular do Marcus e a mulher dele foi quem atendeu. Ela disse que o Diogo havia saído rapidinho com o pai, mas assim que voltasse lhe diria para me retornar a ligação.

Juliette apenas assentiu e voltou novamente seu olhar para onde a esposa e os filhos estavam, e pode vê-los rindo muito de algo.

- É tão bom ver a dona Sarah assim... Sorrindo, se divertindo com os filhos como está lá na água.

- Sim, Lu.

- E pensar que logo após a perda da memória, ela nem se aproximava e falava direito com eles, mas agora olha lá... Ela não se desgruda mais dos dois, exatamente como era antes!

Elas viam Sarah abraçada e beijando os dois filhos enquanto Penélope ia buscar a bola que caiu mais afastada de onde o trio estava brincando.

- Me alegra muito, Lu, ver que a Sarah com o passar desses meses tenha reaprendido a amar os filhos que tanto a amam e a admiram... Mas também me dói ver que nesses mesmos meses que se passaram, ela não reaprendeu a me amar também! A gente continua na mesma.

Lumena viu a patroa suspirar e perder o sorriso que antes exibia. Antes que ela pudesse dizer o que achava sobre o que vinha percebendo de uns tempos para cá a respeito de sua outra patroa com relação à esposa, um garçom que não era o mesmo que estava atendendo a mesa da família, apareceu ali carregando uma bandeja com uma taça de coquetel.

- Com licença. Isso aqui é para à senhora! - ele disse se dirigindo à Juliette.

- Para mim? - a mulher expressou surpresa. Não havia pedido nada e muito menos àquele garçom, que nem era o mesmo que vinha lhe atendendo.

- Sim!

- E o que é isso?

Ela encarou sem entender ao jovem garçom que depositava a sua frente uma taça que continha um líquido vermelho e era enfeitada na borda com um suculento morango.

- É um coquetel de frutas vermelhas com uma dose de vodka. - o rapaz explicou com um sorriso inocente.

Lumena olhou para Juliette, que assim como ela, também não estava entendendo bem aquela situação toda.

- Olha... Creio que está havendo algum engano aqui. Eu não pedi isso.

- Foi o cavalheiro ali quem pediu pra lhe entregar essa bebida!

O garçom apontou discretamente com a cabeça na direção de um homem que estava em uma mesa do outro lado do estabelecimento.

Juliette juntamente com Lumena seguiram com o olhar na mesma direção apontada e visualizaram um homem bonito, bem-apessoado e que aparentemente estava sozinho. O bonitão sorria de maneira sedutora enquanto olhava insistentemente para Juliette.

Era só o que lhe faltava!

Ser paquerada por um sem noção.

- Você me faz um favor? - Juliette desviou o olhar do estranho bonito e encarou o garçom a sua frente. O funcionário do estabelecimento assentiu em resposta. - Pegue essa bebida que trouxe, leve de volta para o CAVALHEIRO que a mandou e lhe diga que eu não posso aceitá-la por dois bons motivos... Um, eu sou casada e minha esposa está bem ali na água com nossos filhos e dois, estou grávida!

O garçom na mesma hora ficou visivelmente constrangido e sem jeito.

- Me desculpe..Eu não sabia disso, senhora.

- Tudo bem!... Apenas faça o que acabei de lhe pedir, por favor!

- Sim, senhora!

Ele pegou a taça novamente, colocou-a sobre a bandeja e saiu rapidamente em direção ao homem que mandou a bebida a Juliette.

- Que abusado esse sujeito lhe mandar isso.

- Muito abusado, eu hein! - resmungou com o olhar voltado outra vez para sua família se divertindo na água.

Já Lumena observou o homem falando com o garçom e o viu sorrir enquanto assentia para o funcionário após este deixar a bebida na mesa. Assim que ficou sozinho na mesa, o sujeito ficou encarando Juliette sem tirar o sorriso dos lábios bem desenhados.

- O sujeito abusado não pára de olhar para à senhora! - Lumena comentou disfarçadamente.

- Ah, meu Deus!

Juliette suspirou e olhou com discrição na direção do sujeito e comprovou que realmente o homem não tirava os olhos dela.

- Venhamos e convenhamos, senhora, o sujeito apesar de abusado é um pedaço de mau caminho bem bonitão, não acha?

- Não acho, não, visse. Sarah que é um pedaço de mau caminho muito mais bonito que esse cara!

Lumena não pode deixar de rir da pronta resposta da patroa, porque para Juliette não havia ninguém mais bonito(a) que sua mulher, e ela sempre repetia isso a Lumena quando indaga pela mesma.

- Bom... Realmente, a dona Sarah com todo respeito, é um pedaço de mau caminho.

- Minha mulher é muito mais linda e charmosa que esse fortão abusado. Sem contar, que também é uma mulher inteligente, maravilhosa e uma porção de outras coisas. Por isso que me apaixonei e me casei com ela! - piscou e sorriu para Lumena que novamente sorriu.

- Sabe, eu queria ver o que a patroa faria se estivesse aqui na hora que o garçom veio lhe trazer aquela bebida que o fortão moreno lhe mandou.

- Ela não faria nada, Lu!... Se duvidar, nem se importaria dada as circunstâncias em que está agora.

- Olha... Pois eu tenho minhas dúvidas quanto a isso. Pra mim, ela ia ficar com ciúmes da senhora e se duvidar ia fazer questão de ela mesma devolver a bebida a mesa dele.

Fosse em outros tempos aquilo, Juliette não duvidava nada disso. Mas atualmente, a professora não achava possível a esposa ter ciúmes dela e fazer tal cena.

- A Sarah de antes da amnésia até faria isso que você disse. Mas esta Sarah de agora?  Não, Lu! Essa Sarah acredito que nem seja capaz de sentir ciúmes de mim.

- Por que dúvida que ela não seja capaz de sentir ciúmes da senhora?

- Ah, porque ela não me ama. Então não tem sentido ter ciúmes de mim!... Essa Sarah apenas gosta de mim por eu ser a mãe dos filhos dela e por ser uma boa esposa, que está ao seu lado lhe dando apoio, cuidando dela nesse problema que está enfrentando... Mas amar? Como era antes dela esquecer tudo? Não, ela não me ama! Tenho certeza de que ela só vai voltar a me amar assim, quando recuperar a memória novamente. Já estou conformada quanto a isso Lu!

O celular da ajudante tocou naquele momento interrompendo o papo das duas mulheres.

- É o Diogo! - ela disse, olhando no visor. - Vou atender em outro lugar, porque com essa música alta, não vou ouvir nada! - Juliette assentiu enquanto Lumena levantava da cadeira e saía em direção ao calçadão da orla da praia.

Se vendo sozinha à mesa, a professora voltou a observar a esposa na água com os filhos. Naquele momento a loira segurava Thomás suspenso no ar. O menino mantinha os braços abertos e as perninhas juntas e esticadas, numa pose que lembrava muito um avião planando no ar. Juliette sorriu por ver a cena e também pelo filho que se divertia com aquela brincadeira que a mãe fazia com ele. Thomás adorava quando Sarah lhe fazia de avião e saía pela casa com ele planando no ar como se fosse um.

- Que sorriso lindo você tem!

Ela virou imediatamente o rosto na direção de onde a voz grossa veio e pode ver o dono dela parado ali ao lado de sua mesa, lhe sorrindo e encarando sem a menor cerimônia. Era o mesmo homem do drinque.

O sujeito havia aproveitado que aquela bela mulher tinha ficado sozinha e resolveu se aproximar dela. Havia se encantado com ela assim que chegou ao bar/restaurante há uma hora e a viu. Como não chegou a ver nenhum homem com ela, achou que a morena bonita fosse solteira e estivesse ali curtindo a praia com duas amigas e as 'crianças'. A princípio ficou extremamente surpreso quando o garçom lhe disse que a moça havia dito que era casada com a mulher loira que julgou ser uma amiga. Depois não levou muito a sério isso e tampouco o fato dela estar grávida. Julgo aquilo como 'desculpas furadas' para não aceitar sua bebida. Por isso mesmo que não primeira oportunidade em que a viu ficar a sós na mesa, o sujeito resolveu se aproximar e falar com a bela morena desconhecida para tirar a limpo as informações dadas ao garçom pela própria.

Juliette olhou de cima a baixo o homem forte e descamisado, que lhe sorria todo sedutor. Ele era até bonito de perto, mas abusado demais já que não contente em receber uma recusa veio pessoalmente até sua mesa. Tratou logo de despachar o sujeito, lhe mandando uma resposta bem direta.

- Minha mulher também acha a mesma coisa do meu sorriso!

O sujeito esboçou um sorriso diante da resposta ríspida.

- Sua mulher? - ele tinha um ar de descrença ao indagar.

- Sim! Por um acaso, o garçom quando foi devolver a bebida que me mandou, não lhe disse que eu sou casada e que minha mulher estava na água brincando com nossos filhos?

- Ele até disse sim, mas eu não levei muito a sério isso. - sem pedir licença o homem puxou a cadeira vazia que havia ao lado de Juliette e sentou-se juntamente com a morena a mesa. - Vai ter que inventar outra desculpa pra me dispensar.

Juliette estreitou os olhos no homem incrédula pelo que ouviu. Além de abusado, é prepotente e arrogante.

-  Eu não inventei desculpa alguma. Eu sou casada... C-a-s-a-d-a... Ca-sa-da e com uma mulher linda.

- Hum... - Que desperdício! Mas sou mais eu que essa mulher dela. - Desculpe, nem me apresentei... Arcrebiano!

Sorrindo o moreno estendeu a mão a Juliette que apenas se limitou a olhar para a mão do sujeito e depois voltou a olhar para os olhos dele, sem se dar ao trabalho de aceitar o cumprimento.

- Eu não me lembro de ter perguntado o seu nome e muito menos lhe convidado a se sentar comigo em minha mesa. - ela disse séria e sendo mais ríspida que antes. Detestava homens abusados e aquele era um em potencial máximo. 

- Calma, guarde suas armas princesa! - ele sorriu em divertimento e erguendo as mãos em rendição.

Aquele seu comportamento e o termo usado para se referir à Juliette irritou mais ainda a mulher.

- Ô, microbiano...

- É Arcrebiano. - tocando a mão dela que descansava sobre  a mesa, o sujeito a corrigiu, rindo e achando engraçada a forma errada que ela pronunciou seu nome.

- Que seja! - retrucou Juliette desfazendo imediatamente o contato de sua mão com a daquele sujeito. - Não me chame de princesa, porque não lhe dê intimidade pra isso. E faça a gentileza de se retirar daqui da minha mesa, por favor! - ela pediu já impaciente.

Àquela altura o papo entre Juliette e Arcrebiano já vinha sendo muito bem acompanhado da água por uma Sarah séria e desgostosa com o que via. A economista disfarçadamente para os filhos e Penélope não perceberem, encarava à todo instante a esposa falando com um sujeito que ela não sabia quem era. Viu desde quando o homem se aproximou dela, se sentou a mesa com Juliette e até o momento em que eles seguiam de papo. Sentia vontade de ir lá e saber quem era o cara, mas não sabia se devia ir.

- Bia sabe quem é aquele homem que está conversando com sua mãe? - resolveu sondar a filha. Vai ver que era algum conhecido da família, que ela não reconheceu por ter perdido a memória.

Com uma das mãos cobrindo os olhos para fazer sombra, a adolescente olhou na direção do restaurante e não reconheceu o sujeito a mesa com Juliette.

- Não faço idéia de quem seja, mãe.

- Vai ver seja algum amigo da tia Ju, porque ela deixou se sentar lá com ela. - Penélope observou.

- Não acho que seja, não Pê!... - Beatriz comentou, observando com mais atenção. - A mãe me parece que não está gostando nada de conversar com aquele sujeito.

Bia conhecia sua mãe e a cara dela não era boa. Decerto, ela não estava se sentindo nada confortável na companhia daquele cara.

- Será que ele é algum engraçadinho que tá dando em cima dela?

Sarah e Beatriz olharam para Penélope no mesmo instante. A primeira aparentando profundo desagrado enquanto a segunda expressou susto com o comentário da amiga.

- Pê! Cala a boca! - Bia repreendeu a amiga pelo que disse. Não tinha nenhuma necessidade dela abrir o bocão dela para falar aquilo.

- Opa! Foi mal! Não está mais aqui quem falou. - ela pediu sem graça ao olhar para Sarah e se dar conta que tinha falado demais.

- Eu vou lá ver se esse sujeito não está incomodando a sua mãe, Bia!

- Eu vou com você também, mamãe. - Tom anunciou agarrando a pescoço da mãe.

- Não, filho. Fica aqui brincando com a sua irmã e Pê. A mamãe já volta. Bia segura seu irmão.

Sarah estendeu o garoto a filha mais velha, que pegou Thomás no colo.

- Já venho, crianças! - dizendo isso Sarah se afastou do trio e caminhou para sair da água.

- Ih! Eu acho que a tia Sah ficou com ciúmes da tia Ju! - Penélope ria enquanto sua amiga e ela observavam Sarah que àquela altura já havia alcançado a areia, seguir em direção ao bar/restaurante.

- Também pudera, você disse que o cara estava dando em cima da mãe queria que a mamãe não ficasse com ciúmes?

- Será que a tia Sah vai dar uns socos no cara lá?

Bia arregalou os olhos e encarou sua amiga maluca.

- Penélope não exagera!

A outra garota caiu na risada.

- Bia, a mamãe vai bater naquele homem?

- Não, astronauta. A Pê tá brincando!

- Mas ia ser maneiro ver a tia Sah dando uma lição naquele sujeito lá com a tia Ju.

- Você gosta de uma confusão, não é?

- Ah! Quem não gosta?! - ela deu de ombros rindo e fazendo Bia rir, balançando a cabeça.

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