Capítulo XVII

Alguns meses se passaram voando. E ao longo deste período, infelizmente, Sarah permaneceu desmemoriada. Mesmo com os tratamentos e as várias sessões de terapias sendo seguidas à risca pela mulher, não houve alteração em seu estado. Nenhuma lembrança retornou, sequer um lampejo de memória por mínimo que fosse ocorreu, causando frustração na economista.

Com a persistência do estado de Sarah após o término de suas férias, Dílson em uma reunião com Juliette informou que o alto escalão da empresa decidiu deixar a economista de licença pelo prazo de um ano para não demití-la ainda, já que ela era uma profissional exímia a quem tinham muita consideração pelo tempo em que já prestava serviço a empresa. A esperança de todos era de que Sarah se recuperasse e voltasse a assumir seu posto com o brilhantismo e a eficiência que ela sempre demonstrou.

Ficou acordado também, que se ao fim do prazo de um ano, a economista ainda continuar desmemoriada, aí o Diretor do setor financeiro terá de desligá-la em definitivo da empresa.

Com a licença temporária de Sarah, Gilberto que era quase como o braço direito da Gerente apesar de estar um cargo abaixo do dela, assumiu mesmo não sendo do seu agrado, o posto de sua melhor amiga. Mas Gil torcia e muito para que o mais breve possível Sarah se recuperasse e voltasse para retomar seu posto de liderar "suas crianças", como ela gostava de chamar seus comandados.

Em meio à tristeza que era o fato da amnésia de Sarah ainda perdurar, coisas boas tinham acontecido na casa da família Andrade-Freire. A economista, por exemplo, nos três meses que se passaram havia se aproximado bastante de sua família. E dessa forma, o clima tenso e por muitas vezes melancólico que se instalou na casa após a perda de memória da loira, deu lugar a um clima bem mais leve e até alegre. Tanto que risadas já eram ouvidas pela casa mais constantemente.

Com a proximidade da família e por ventura dos filhos, Sarah adquiriu sentimentos por Bia e Tom mostrando-se por vezes ser quase a mesma mãe atenciosa e carinhosa que costumava ser antes.

A economista conseguia interagir e muito bem por sinal, com os dois filhos. Inclusive passou a brincar sempre com o filho menor, quando Tom lhe pedia; a colocá-lo para dormir quase todas as noites; e lhe dá a devida atenção e carinho quase como antes.

Já com a filha mais velha as coisas eram um pouco mais diferentes, pois como Bia não era criança como Tom, Sarah não podia colocá-la para dormir e muito menos brincar com a adolescente como fazia com o garotinho. Contudo, a loira sempre procurava estar por perto da garota; conversar com ela e assim conhecer melhor sua filha; e, também procurava ser amorosa e lhe dá atenção da mesma forma que dava a Thomás.

Quanto a esposa, Sarah também se aproximou bastante de Juliette, inclusive até passou a chamar a esposa pelo apelido de Ju. No entanto, apesar de estarem muito mais próximas, a relação como casal era algo inexistente entre elas.

As duas mulheres viviam sob o mesmo teto e compartilhavam a cama sem parecer que eram casadas. Na verdade, mais pareciam duas amigas dividindo o dormitório!

Intimidades?

Elas não tinham e nem tiveram qualquer uma nesse período. E esse fato passou a ser um martírio para Juliette, porque ter a esposa dormindo ao seu lado todas as noites e não acontecer NADA entre ambas, era algo complicado de se lidar para uma mulher apaixonada como ela.

Várias foram às vezes em que Juliette acordou no meio da noite e ficou olhando para Sarah, tentada a tocá-la, beijá-la com paixão e fazer amor com a esposa da maneira intensa e apaixonada com a qual elas sempre fizeram. Porém continha seus desejos!

Só que era uma árdua tarefa conter-se, levando em conta que elas tinham uma vida sexual bem ativa antes. Juliette sentia falta de ter intimidades com a esposa. E, mais ainda agora, por conta da gravidez, que vinha mexendo com seus hormônios, fazendo aumentar consideravelmente seu desejo por Sarah.

Amava a esposa demais, desejava-a intensamente e queria Sarah muito, mas devido ao estado dela via que a outra não sentia o mesmo por ela.

A maldita amnésia tinha apagado por completo o amor e o desejo que Juliette sabia que Sarah sentia por ela. E por conta disto, a professora chegou a conclusão de que sua esposa só voltaria a nutrir por ela os mesmos sentimentos de antes, quando recuperasse a memória. Mas já haviam se passado alguns meses e nada. E isso preocupava Juliette, pois se isso não acontecesse como a relação delas ia ficar?

Na concepção de Juliette, sua esposa parecia sentir apenas carinho por ela, porque era isso que a loira deixava transparecer. Entretanto, o que Juliette nem desconfiava, era que estava enganada  quanto ao que achava.

O tempo que se passou só fez o coração de Sarah ser fisgado pela segunda vez por Juliette. A economista foi percebendo a dedicação, o cuidado, a paciência e principalmente, o amor que a esposa tinha por ela e pela família delas e, aquilo foi conquistando Sarah a tal ponto de nascer, ou melhor, renascer nela sentimentos amorosos pela mulher incrível, que era Juliette.

No entanto, Sarah não conseguia expor a esposa o que já sentia por ela. E assim, guardava só para si aqueles sentimentos que foram ressurgindo dia após dia em que já vinha convivendo com Juliette.

Além de se reaproximar de cada membro de sua família durante esses meses, Sarah também teve que reaprender a viver e recomeçar sua vida enquanto a memória não voltava. E com a ajuda das sessões de terapia com Arthur, foi exatamente o que ela começou a fazer: reaprender.

A economista reaprendeu coisas, gostos, velhos hábitos e costumes. Certa vez, por exemplo, Sarah viu como se fosse à primeira vez, a série de Tv que antes era a sua favorita. Redescobriu através dos livros de economia que havia no escritório de casa, seu interesse por números e cálculos. E readquiriu a paixão por assistir aos jogos de futebol de seu time do coração.

Porem, em meio às coisas boas e as mudanças significativas que Sarah apresentou, uma coisa chata e preocupante vinha acontecendo com a economista há pouca mais de uma semana. A mulher andava sentindo leves dores e pontadas na cabeça e era justamente sobre isso que Juliette conversava pelo telefone com Vitória, que ontem havia retornado dos EUA em definitivo para o Brasil após ficar lá na terra do tio San por um mês resolvendo todas as suas pendências.

- Ju esses sintomas pra quem perdeu a memória não devem ser bom sinal. Você já levou a Sarah a neurologista dela?

- Camilla está fora do país, mas volta depois de amanhã e me garantiu que assim que chegar, a primeira coisa que vai fazer é atender a Sarah.

Assim que a esposa relatou as primeiras dores sentidas, Juliette ligou para a médica de Sarah, só que foi informada por Camilla que se encontrava fora do país a trabalho. Porém assegurou que assim que retornasse ia atender Sarah.

- E assim que ela der algum parecer sobre o que possa ser essas dores que a Sarah vem sentindo, você me liga pra dizer o que é?

- Claro, Viih.

- Vou rezar pra que não seja nada sério.

- Eu também tenho rezado por isso.

- Mas agora mudando completamente de assunto... e a sua gravidez, está indo tudo bem com ela?

- Sim. Amanhã tenho uma ultra marcada pra saber o sexo dos bebês. - revelou empolgada.

Passado o susto e até mesmo pânico inicial pela descoberta, Juliette vinha curtindo a gravidez com alegria e empolgação, afinal era sua primeira gravidez e logo de cara vinham dois.

- E tem algum palpite do que seja? Das duas vezes que a Sarah foi a grávida, você acertou o que era.

- Sinceramente, eu não sei o que palpitar. Estou confusa, porque duas semanas atrás sonhei que eram duas meninas. Quando foi nessa semana já sonhei que eram dois meninos. Agora não faço idéia do que venha.

- Eu vou arriscar duas meninas.

- O Gil acha que virá dois meninos.

- E os meus sobrinhos, o que eles acham que vão ganhar?

- Na verdade eles não ACHAM, Viih, eles QUEREM. Bia quer uma irmã e o Tom quer um irmão pra brincar de astronauta com ele.

- Ou seja, para eles no caso um casal seria a escolha perfeita.

- Exato! - Juliette disse em meio ao riso. Do outro lado da linha Vitória riu também.

- E a Sarah? - interrogou Vitória ao cessar o riso. - Qual o palpite dela sobre o sexo dos bebês?

O outro lado da linha emudeceu, que Vitória chegou a pensar por  instante que a linha tinha caído. Ia indagar se Juliette ainda estava na linha, quando a outra se pronunciou, respondendo o que lhe foi perguntado.

- Não sei, Viih. Ela não disse nada a este respeito e eu, tampouco tive coragem de perguntar.

Um suspiro escapou da professora ao final de sua fala e Viih resolveu sondar a amiga sobre a relação dela com a esposa.

- Como estão às coisas entre vocês, Ju?

- Indo! - resumiu, deslizando a mão livre pela barriga já evidente.

- Bem?

- Sim, mas não do jeito que eu queria que estivessem, amiga. - houve uma pausa de alguns segundos antes de Juliette dar continuidade a sua fala. - Sarah e eu vivemos sob o mesmo teto e dormimos na mesma cama como se fôssemos duas amigas, ao invés, de um casal que está juntos a mais de uma década, Vitória. Te confesso que essa situação está ficando complicada pra mim, porque eu sinto falta do contato íntimo que tinha antes com a Sarah. Sinto necessidade de fazer sexo com ela. Só que isso não acontece a não ser, é claro nos meus sonhos.

Vitória não se aguentou e riu dessa última parte da fala da amiga.

- Anda tendo sonhos eróticos com a esposa, Ju? - provocou ainda aos risos a loira.

- Bastante! Um atrás do outro, quase toda a noite. - confessou.

Novamente Vitória riu agora mais escandalosamente, como era do seu habitual.

- Você ri, mas isso é sério, Vitória. Agora eu estou sentindo na pele o que a Sarah disse  sobre a gravidez mexer muito com os hormônios e o líbido. O desejo em ter relações com a minha esposa tem se tornando cada vez maior.

- Está tão difícil assim? - Vitória quis saber ainda rindo um pouco.

- Está. - havia frustração em sua voz. Nesse segundo trimestre sua líbido só fez aumentar. - Só pra você ter uma idéia de como o negócio está começando a ficar difícil pra mim. Uns dias atrás, eu tive que tomar até banho frio pra aplacar o gritante desejo que cresceu dentro de mim assim que entrei no quarto e me deparei com a Sarah saindo do banheiro só de lingerie.

- Ah, não! Você está brincando? - Vitória gargalhou bem alto do outro lado da linha.

- Não estou. E pára de rir, Vitória.

Se Viih pudesse ver a cara de sua amiga nesse momento, a encontraria vermelha que nem um tomate por estar admitindo algo tão íntimo como aquilo.

- Mas banho frio não é coisa de homem, Ju?

- Ai, dane-se! Na hora foi o que me veio à cabeça pra baixar o calor que eu senti.

Desta vez foi as duas que riram. Antes rir daquela situação do que chorar.

- Ju a conversa está boa, mas eu vou ter que desligar. Daqui a pouco a mamãe vai chegar trazendo o namorado pra eu conhecer.

- Ah, vai conhecer seu padrasto, é? - zombou.

- Engraçadinha.

- A gente se fala mais amanhã. Eu te ligo pra dizer sobre os bebês.

- Está bem. Beijos.

- Outros.

Assim que desligou o celular e o colocou sobre o móvel ao lado da cama, Juliette viu seu filho entrar no quarto correndo.

- Tom aconteceu alguma coisa, filho?

- Não, mãe. - ele disse ofegante e sorrindo. - Eu vou me esconder da mamãe aqui embaixo da cama. Nós estamos brincando de esconde-esconde e é a vez dela de me procurar. - o pequeno se meteu embaixo da cama.

Não tardou muito para Juliette vê Sarah parar na porta do quarto.

- Viu o Tom, Ju?

- Não. - ela respondeu e apertou os lábios um ao outro para conter uma risada.

- Onde será que esse molequinho se escondeu?

A loira ouviu a risadinha abafada do filho vir de algum canto do quarto e olhou para Juliette que não resistiu e apontou para debaixo da cama.

Sarah sorriu e se aproximou da cama, sentando-se bem ao lado da esposa.

- Quer saber? Eu acho que vou desistir de procurá-lo, já que não o encontro em lugar nenhum. - disse de modo fingido e piscando para Juliette. No que Sarah acabou de falar, escuta Thomás pedir:

- Não desiste, mamãe, eu tô aqui.

A loira abriu um sorriso, sendo acompanhada pela esposa.

- Aqui onde, Tom?

- Ah, a senhora tem que procurar. - espertamente rebateu o garotinho de onde estava.

Sarah riu de novo e lançou um olhar divertido a esposa. Na sequência, ela levantou com tudo uma parte da colcha da cama e encontrou o filho em seu esconderijo.

- Te achei!

O menino deu um grito e depois soltou uma sonora gargalhada.

Com a ajuda de Sarah, o pequeno saiu de seu esconderijo.

- Viu não foi difícil.

- É não foi, porque você me deu uma dica. - Sarah piscou com discrição para Juliette enquanto bagunçava os cabelos do filho.

- Vamos, agora eu procuro. - Tom correu, gritando que era para a mãe se esconder enquanto ele ia contar até dez.

A economista olhou para Juliette que ria se divertindo da interação de mãe e filho. Era tão lindo vê-los brincando daquela forma que outrora era tão comum dela ver. 

- Deixa eu ir logo.

Sarah levantou-se, mas foi acometida por uma vertigem seguida de uma pontada na cabeça, que fizeram voltar a se sentar na cama.

- Ei, o que foi? - Juliette notou a cara que a esposa fez ao voltar a se sentar.

- Uma vertigem e outra pontada na cabeça. - reclamou de olhos fechados.

- Acho melhor você dar um tempo na brincadeira com o Tom e se deitar.

- Já mamãe?

Elas ouviram Thomás gritar ao fundo.

- Filho vem cá! - Juliette gritou, chamando o pequeno.

Em segundos Thomás já aparecia na porta do cômodo.

- Amor, a mamãe vai precisar parar a brincadeira, porque ela não está se sentindo bem.

- O que você tem mamãe? - o menino correu para perto de Sarah e segurou em sua mão.

- Só uma dorzinha na cabeça, campeão. Mais tarde quando me sentir melhor, a gente volta a brincar, está bem?

- Tá. Eu posso brincar no computador da Bia, mãe?

- Se a sua irmã deixar, pode. Mas só um pouco, hein Tom.

- Tá.

Ele saiu do quarto deixando as mães sozinhas.

- Vem, Sarah, se acomode um pouco aqui.

Juliette chamou a esposa a deitar com a cabeça em seu colo após ajeitar um travesseiro sobre suas coxas. Sem fazer contestação Sarah fez o que lhe foi pedido e logo em seguida já sentia as mãos da morena deslizando por seus cabelos em uma suave carícia.

- Ainda bem que a Camilla volta depois de amanhã.

- O que podem ser essas dores, Ju? - seus olhos se ergueram para encontrarem-se com os de Juliette.

- Os exames que a Camila certamente vai pedir para você fazer, vão nos dizer isso. Mas se Deus quiser não vai ser nada de ruim.

Era o que ela torcia com todo o seu coração.

- E se for?

- Pensamento positivo, Sarah. Sempre!

- Eu invejo esse seu positivismo.

- E eu acho um saco esse seu negativismo. - ela fez uma careta engraçada que rendeu um sorriso em Sarah.

As duas ficaram se olhando ainda estampando sorrisos até Sarah desviar o olhar da esposa para a barriga dela.

- Amanhã você tem médico, não é? - se lembrou a loira encarando aquele volume arredondado a poucos centímetros de distância de seu rosto.

- É, vamos enfim saber o que vem aí. - uma de suas mãos deixou os cabelos de Sarah para deslizar sobre a barriga volumosa que já estava há duas semanas de entrar no quinto mês de gestação. - O que você acha que são os bebês, Sarah? - perguntou despretensiosamente.

- Sinceramente não sei.

Com o olhar, Sarah acompanhava o movimento suave que a mão de Juliette fazia no topo da barriga enquanto sentia sua própria mão coçar para se juntar a dela naquela carícia. Qual seria a sensação de tocar a barriga dela?

- Não arrisca nenhum palpite?

- Eu posso tocar sua barriga? - questionou, ignorando a pergunta feita antes pela esposa.

Surpresa com o pedido inesperado, Juliette levou alguns segundos para concedê-lo.

- Claro que pode, Sarah. - ela ergueu a blusa até abaixo dos seios, deixando em evidência a barriga para que Sarah tocasse.

Com uma das mãos, a outra tocou com timidez e o máximo de cuidado o lado direito da barriga da esposa, como se esta fosse feita de cristal. Levou um par de segundos com a mão estática no mesmo lugar em que a pôs, para só então, aos poucos sua mão ir deslizando bem devagar por cada centímetro daquele volume exposto. Seus olhos verdes acompanhavam o movimento lento da própria mão enquanto outro par de olhos na cor castanhos a observavam úmidos e emocionados. 

Era uma sensação indescritível assim como foi escutar a primeira vez o coração dos bebês. E tão emocionante quanto este fato também.

- Não sei qual palpite arriscar. - Sarah sorriu e sem tirar os olhos da barriga de Juliette respondeu a pergunta feita pela esposa instantes atrás.

- Mas você tem alguma preferência? - retrucou Juliette enxugando uma lágrima teimosa que acabou escapando do canto de um de seus olhos emocionados. Só de ter aquele contato tão próximo e um momento tão mágico como aquele com Sarah, ela já sentia no céu.

- Também não! O que vier eu vou amar do mesmo jeito. - respondeu com um sorriso gigante nos lábios e um olhar brilhante que agora encarava o rosto da esposa.

❤️❤️❤️

- Então ansiosas pra descobrir o sexo dos bebês, mamães? - Marcela encarou o casal enquanto passava o gel na barriga da paciente.

- Bastantes. - responderam as duas mulheres juntas.

- Da vez em que a Sarah ficou grávida do Tom, você acertou que era um menino, Juliette. Não quer arriscar um palpite antes de saber o sexo desses dois aqui, pra vê se acerta de novo?

- Não, Marcela. Desta vez quero apenas saber sem dá palpite algum.

- E você, Sarah? Não quer dar seu palpite?

- Também não.

- Se não querem dar palpites... então vamos lá saber de uma vez o que vem por aí.

A médica passou o aparelho pela barriga de Juliette e levou apenas alguns segundos para identificar qual era o sexo de cada um dos fetos, já eles não faziam qualquer cerimônia para se esconder.

- Olha, mamães... temos um garotinho e uma garotinha a caminho. - revelou Marcela.

Sarah ficou encantada e emocionada tanto com a notícia quanto com o que via - mesmo disforme - naquela pequena tela LCD. A médica explicou sobre onde cada bebê estava, mas a economista sequer prestava atenção. Estava absorta demais nas imagens para "drenar" as informações que Marcela dava.

- Tom e Bia vão ter exatamente o que queriam.

A voz carregada de alegria e emoção de Juliette tiraram Sarah do estado de transe em que estava. Os olhos coloridos da mulher que até então se mantinham presos a pequena tela LCD do aparelho de ultrassom, desviaram-se da para encontrar os olhos brilhantes e marejados de Juliette. A economista se permitiu esboçar um tímido sorriso para a esposa ao mesmo tempo em que uma de suas mãos buscava a da mulher e as juntava, entrelaçando os dedos de ambas. Em resposta aquilo, Juliette lhe sorriu mais largamente dando um leve aperto na mão de Sarah enquanto os olhos de ambas se encaravam de forma fixa e silenciosa.

Ali estava de volta a velha conversa muda que o casal costumava travar com os olhos e que agora, especialmente naquele momento, deu o "ar de sua graça".

Marcela que se encontrava alheia ao que se passava entre Juliette e Sarah, por estar olhando para a tela do aparelho de ultrassom, quando se virou para dizer algo ao casal referente aos bebês, encontrou as outras duas mulheres se olhando de forma tão terna e amorosa, não teve coragem de interrompê-las.

Assim, calada e quieta em sua cadeira, Marcela virou uma mera espectadora da troca de olhar cheia de sentimentos genuínos e de palavras não ditas, que se passava bem a sua frente e, que durou só mais alguns segundos. Quando Juliette e Sarah "desconectaram" os olhos e encararam a médica, flagraram esta observando-as com um sorriso estampado no rosto. Na mesma hora o casal ruborizou constrangido riram sem graça.

A ultrassonografia prosseguiu e durou apenas mais um pouco. De volta a sala de consulta, Juliette ainda ouviu algumas recomendações de sua médica quanto a alimentação e cuidados. Nada que ela não soubesse e não fosse novidade para ela. Depois o casal se despediu de Marcela e saiu do consultório já com a consulta para o mês seguinte devidamente agendada e marcada.

❤️❤️❤️

Elas entraram em casa e só encontraram Lumena que passava o aspirador de pó na sala. Os filhos pelo visto ainda se encontravam na escola.

- E então o que são? - Lumena não escondeu a curiosidade.

- Um casal, Lu.

- Ah, meu Deus! - a mulher bateu palmas de alegria. - Tom e Bia vão ficar tão felizes. Cada um vai ganhar o que queria.

- Foi o mesmo que disse a Marcela quando ela revelou qual era o sexo dos bebês.

- E como eles estão?

- Ótimos. Segundo a médica estão saudáveis e se desenvolvendo super bem.

- Ai, que bom! E assim será até o fim da sua gestação.

- Se Deus quiser.

- E Ele a de querer, senhora.

- Bem... eu vou subir pra trocar de roupa e depois aproveitar para corrigir os trabalhos que ontem os alunos da universidade me entregaram. Qualquer coisa vou estar no escritório!

Lumena e Sarah observaram Juliette subir as escadas e sumir de suas vistas segundos depois de alcançar o último degrau.

- E aí, dona Sarah, o que achou da vinda de um menino e uma menina? Era o que queria?

- Na verdade, eu não tinha qualquer preferência. O que viesse, eu ia ficar feliz igual estou.

Um tempo mais tarde Bia e Tom chegaram da escola e a primeira coisa que quiseram saber, foi sobre os bebês. Assim que Juliette contou aos dois que viria um menino e uma menina como eles tanto queriam, a alegria foi enorme. Tom era o mais empolgado. Em pensar que no começo ele se mostrou bem avesso a vinda de dois bebês. Mas foi só questão de tempo para ele mudar de ideia e passar a adorar o fato de ganhar mais dois irmãozinhos.

Mais lá para a tardinha, Juliette ligou para Vitória e lhe contou sobre o resultado da ultra como havia dito ontem que faria. A loira ficou imensamente alegre com a notícia que a amiga deu. Depois a professora ligou para Gilberto que tinha lhe passado uma mensagem mais cedo, pedindo para ela ligar contando sobre o sexo dos bebês.

- Um casal, Gil!

- E o Tom e Bia queriam  um casal, não era?

- Sim.

- Ai, estou feliz por vocês. Mas triste porque perdi o bolão. A filha da mãe da Carla ganhou sozinha! Ai, que raiva, Brasil!

A risada de Juliette se misturaram com as de Gilberto no outro lado da linha.

Alguns instantes mais de conversa entre os dois a respeito dos bebês e antes da chamada ser encerrar, Juliette ouviu Gilberto lhe perguntar se ele podia dar a notícia sobre o sexo dos bebês ao restante dos amigos deles. A morena não pode deixar de rir.

- Não acha que quem tem que contar isso sou eu? - contra-argumentou em tom de brincadeira. Mas era óbvio que deixaria o amigo contar aquilo aos outros.

- Ah, Ju, por favor. Quero dizer ao pessoal que eles vão ganhar um sobrinho e uma sobrinha. Vai, deixa, mulher!

Juliette riu de novo. Gilberto às vezes era pior que criança pidona.

- Okay, Gilberto Nogueira, pode contar à eles!

- Obrigado, amiga. Daqui a pouco no fim do turno conto a novidade. Quero só vê a cara de babão que eles vão fazer quando souberem.

Os dois se despediram e Juliette encerrou a ligação ainda rindo de Gilberto. Falar com o amigo era garantia de boas risadas.

Antes mesmo de largar o celular sobre a mesinha ao lado da cama, o aparelho tocou novamente na mão da morena. Juliette o atendeu no segundo toque. A chamada era de Janete, a secretária de Camilla. A moça de voz suave ligava para avisar a professora do horário da consulta de Sarah amanhã, já que a mesma ainda não estava acertada por conta da indefinição do horário em que Camilla chegaria da conferência a qual tinha ido participar. Após ter comunicado a Juliette a hora da consulta pela manhã, a moça simpática desligou.

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