Capítulo XVI

Na semana seguinte lá estava o casal outra vez diante de Marcela com os resultados dos exames que Juliette havia feito a pedido da médica. O hemograma apontou uma anemia, que a médica já desconfiava. Marcela prescreveu um suplemento de ferro, já que segundo a médica devia-se tratar a anemia o mais rápido possível para prevenir complicações futuras.

- Você vai tomar um comprimido desse sulfato de ferro por dia, 1 hora depois do café da manhã. - explicou a médica estendendo a receita para a paciente.

- Certo!
 
- Recomendo também que você coma alimentos ricos em ferro e ácido fólico como: carnes, bife de fígado, beterraba, vegetais verdes escuros, pois assim é possível repôr os níveis de ferro no seu organismo, o que influência diretamente na quantidade de hemoglobina circulante.

- Fígado? Sério? - ela fez uma careta que arrancou um sorriso de sua médica e também de Sarah sentada ao seu lado.

- Sim. Ao menos uma vez na semana. Também seria bom tomar suco de fruta cítrica junto à refeição, como laranja, limão, abacaxi ou tangerina, para aumentar a disponibilidade de ferro presente nos alimentos.

- Com a Sarah não teve nada disso.

- Porque ela não apresentou quadro de anemia nos exames dela, ao contrário de você. Mas se seguir minhas recomendações direitinho, logo vai estar livre dessa anemia.

- Eu mesma vou me encarregar de que ela siga as suas recomendações a risca, doutora. - Sarah se pronunciou pela primeira vez durante a consulta, atraindo o olhar imediato de Juliette.

- Isso mesmo, Sarah. Você vai ser meus olhos na alimentação da Juliette.

- Querem parar de falar como se eu fosse uma criança que precisa ser vigiada.

A médica e Sarah riram da cara emburrada que Juliette fez ao reclamar.

- Vamos lá para o primeiro ultrassom e escutar o coração do bebê de vocês, mamães?

Após uma rápida troca de olhar entre o casal, elas assentiram juntamente para a doutora. Coisa de minutos depois estavam em uma sala anexa ao consultório, quando seus ouvidos foram agraciados com o som das batidas do coração do bebê.

O barulho alto e forte preencheu o ambiente prontamente. Mesmo já tendo ouvido aquele mesmo som antes nas duas gestações de Sarah, Juliette sentiu como se estivesse sendo a primeira vez que o escutava naquela sala. Era uma emoção sem tamanho e nem proporção, que enchia seu peito de mãe de infinitos sentimentos, só que com a diferença de serem mais intensos pelo fato de o bebê estar em sua barriga.

- Eu sempre vou me emocionar com esse som. - comentou Juliette após uns instantes em que somente aquele som ecoou no local onde estavam. Havia um sorriso bobo enfeitando seus lábios e lágrimas em seus olhos.

- Eu também. Esse é o som da vida. O melhor do mundo. - disse Marcela.

Calada e vidrada na imagem disforme e incompreensível que passava na tela do ultrassom e ao som da batida do coração do bebê, Sarah apenas concordou  mentalmente com o que foi dito pelas outras duas mulheres ali com ela.

Um sentimento indescritível lhe encheu lenta e completamente o peito desde o exato instante em que seus ouvidos captaram no primeiro segundo aquele som tão bonito e emocionante que eram as batidas do coração do bebê... Seu bebê e de Juliette.

Era algo tão indescritível a sensação, que Sarah era incapaz de definir em uma única palavra aquela "coisa" que lhe tomava por dentro enquanto escutava aquele "tum-tum... tum-tum...".

- São batidas fortes. Não lembrava que eram tão fortes assim.

Marcela sorriu antes de dar a boa nova que descobriu segundos atrás.

- É porque são dois corações batendo.

- Como assim dois? - Juliette encarou sua médica com espanto, sendo imitada no segundo seguinte por Sarah.

A ginecologista sorriu mais ainda encarando a tela do aparelho.

- Parabéns, mamães. - a médica se virou em sua cadeira para Juliette e Sarah, e revelou a novidade. - Temos dois bebês aqui.

- Dois... bebês? - murmurou tão baixo Sarah que as outras duas mulheres sequer a ouviram.

- Tem certeza disso, Marcela?

- Absoluta, Juliette!... Você está grávida de dois bebês. 

- Céus!

A morena cobriu o rosto com as mãos. Uma emoção misturada com pânico logo tomou conta da professora e ela sentiu vontade de chorar após a confirmação de sua médica.

Duas crianças vindo. Se um bebê já lhe pareceu difícil, quem dirá dois no meio de todo aquele vendaval.

- Juliette está tudo bem? - Marcela lançou um olhar a Sarah que assim como a médica se preocupou com a reação de Juliette. Ao consentir da morena, afirmando que estava bem, a médica prosseguiu: - Você lembra que eu te falei na sua primeira consulta antes de dar início ao procedimento d inseminação, que a chance de uma gravidez múltipla vir a ocorrer é maior em tratamentos de reprodução assistida, ainda mais porque você está naquela faixa dos 35 anos aos 39 anos em que se podem ser transferidos até três embriões?

Ela assentiu, retirando as mãos do rosto para encarar sua médica. Lembrou-se do que Marcela disse na época e da alegria da esposa na ocasião. Sarah ficou eufórica com a possibilidade de virem dois bebês.

"Já pensou, minha vida, dois de uma vez?" - com um sorriso de orelha a orelha, Sarah segurou a mão de Juliette, entrelaçando os dedos e depois levou-as aos lábios, depositando um beijo delicado nas costas da mão da esposa.

"Não inventa, Sarah. Só um está de bom tamanho. Dois já vai ser trabalho dobrado."

A outra deu de ombros.

"Pois eu não me importo nem um pouco com o trabalho que dará. Ficarei no céu se vierem dois."

- Juliette!

- Desculpa, Marcela. Você está dizendo algo?

- Eu dizia que em uma gravidez múltipla a possibilidade de os bebês nascerem prematuros é muito maior. Isso significa que teremos que ter mais cuidados, porque existe uma maior pré-disposição a riscos. Mas que fique claro que nem toda gravidez gemelar é de risco, ok?

Juliette assentiu.

A ultrassom seguiu por mais um tempinho com Marcela repassando outras informações e esclarecendo algumas questões que Sarah lhe indagou, enquanto uma Juliette calada e pensativa mal prestava atenção no que era dito.

❤️❤️❤️

O caminho da clínica até em casa seguia quieto até o momento em que Juliette parou em um semáforo e Sarah se pronunciou pela primeira vez ali.

- Você não me pareceu muito contente com a notícia dos dois bebês.

Juliette soltou um suspiro, apoiando a cabeça no encosto do banco e encarando o semáforo vermelho.

- Você não ficou feliz com a notícia? - arriscou Sarah em perguntar.

- Você ficou feliz, Sarah? - Juliette devolveu a pergunta, virando o rosto para encarar a esposa.

Sua Sarah, ela tinha certeza que ficaria, ou melhor, estaria neste momento explodindo de felicidade. Podia quase enxerga-la eufórica sentada ali naquele banco do carona, tagarelando (mais do que seu habitual, posto que quando ficava muito feliz, ela falava e falava muito mais), e já projetando como seria o quarto dos bebês e o enxoval todinho. Se duvidar, ela até pediria para pararem em alguma lojinha para comprar o primeiro presente dos bebês.

- Eu fiquei contente. - havia um tímido sorriso em seus lábios ao responder a pergunta lançada pela esposa. Impossível não ter sido tomada pela alegria da notícia. Eram dois filhos seus que viriam. - Mas você nem isso me parece, quanto mais feliz. - observou já sem sorrir.

Depois da revelação da médica sobre os dois bebês, Sarah notou que a esposa não esboçou qualquer sinal de alegria, tampouco felicidade, ficando calada e quase ausente no restante da consulta.

- Eu queria muito está pulando de alegria, Sarah.

- Mas?

- Céus! Um bebê já era complicado na nossa atual situação, dois então...

- Ei! - a loira tocou com cuidado a mão da esposa, descansando sobre a alavanca de marchas. - Esqueceu o que eu disse semana passada?... Se esqueceu, eu te lembro. Eu falei que ia te ajudar, que estaria aqui do seu lado e que tudo daria certo, não falei?

- Falou!

- Pois então... acredite em mim, como eu acreditei em você quando disse a mesma coisa no dia em que acordei desmemoriada.

Ela assentiu com um sorriso e o som da buzina do carro atrás do delas fez Juliette observar o semáforo e ver que ele já estava verde.

- Acho que vamos ter que precisar da ajuda da Lumena outra vez para convencer o Tom a aceitar agora os dois bebês. - Juliette comentou alguns minutos de silêncio dentro do carro.
 
- Acho que sim.

Um tempo depois chegavam em casa e assim que viu as patroas chegarem, a ajudante não se aguentou de curiosidade e já quis saber sobre o bebê. Com surpresa, ela ouviu que o bebê, na verdade, se tratava de OS BEBÊS.

- Minha nossa! Gêmeos?

- Pois é.

- Mas está tudo bem com eles?

- Sim. Ouvimos os corações deles.

- E batem forte?

- Bastante. E as crianças?

- Subiram ainda pouco para o quarto da Bia.

- Vou subir para trocar de roupa e depois contamos a eles sobres os dois bebês, Sarah.  E Lumena quero você perto pra ajudar a convencer o Tom.

- Pode deixar.

- Vou lá e já volto.

Assim que ela saiu da cozinha sendo acompanhada pelo olhar de Sarah, Lumena interrogou a outra patroa sobre a novidade.

- E a senhora, dona Sarah, ficou surpresa por saber que vêem dois bebês?

- Muito!

- Mas gostou da surpresa?

Dessa vez, ela não respondeu com palavras e sim, com um balançar positivo de cabeça acompanhado de um sorriso discreto. Ainda mantendo o sorriso, mas encarando um ponto qualquer da cozinha, Sarah contou à mulher sobre sua impressão ao ouvir o coração dos bebês.

- Foi à coisa mais bonita de se ouvir! - confessou a economista ainda com aquele som ecoando em sua cabeça.

Lumena se limitou a apenas escutá-la e observá-la. Sua patroa parecia abobalhada enquanto falava. A ajudante lembrou-se de quando Sarah ficou grávida de Tom e voltou do ultrassom junto com Juliette após terem ouvido a primeira vez o coração do filho. A expressão de Sarah na época era exatamente a mesma que a Lumena via agora na loira. E com isso, Lu concluiu que sua patroa não estava tão longe de ser exatamente como era, apenas lhe faltavam às lembranças, pois as emoções e os sentimentos já começavam a quase se igualar a antes.

Meia hora mais tarde, o casal revelava aos filhos sobre a vinda dos dois bebês. Como previu Juliette antes, Lumena teve que ajudar com Tom. O menino não aceitou nada bem a notícia sobre os dois irmãos, ao contrário de Bia que ficou exultante com a vinda de dois bebês.

Lumena até que tentou convencer o pequeno, mas desta vez não houve conversa. Thomás estava irredutível. Fez birra e emburrou com a ideia dos bebês. 

- Talvez ele precise de um pouco de tempo para se acostumar com a notícia. - opinou Sarah após Thomás sumir para seu quarto.

- Dona Sarah tem razão. Vamos dar tempo ao Tom.

- É, logo ele vai tá empolgado com a ideia de ter mais companheiros de brincadeiras, mãe.

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N/A: O próximo capítulo vai trazer uma pequena passagem de tempo. E a partir daí que as coisas ficam MUITO mais interessantes 🥰🥰

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