Capítulo IV

Foram longos os minutos em que Juliette permaneceu olhando para aquele desenho, derramando mais lágrimas enquanto se questionava como seriam as coisas dali por diante. Em poucas horas daquela manhã sua vida virou de pernas para o ar em decorrência daquela repentina amnésia da esposa.

Seus filhos estavam assustados e confusos como não poderia deixar de ser em um caso tão incomum como aquele. E ela também estava igualmente confusa como eles. Porém, tentando manter-se firme por Beatriz e Thomás e também por si mesma, pois se desabasse em quem eles se apoiariam?

Uma checada no relógio de pulso e a mulher percebeu o avançar da hora. Já ia dar duas da tarde e eles sequer haviam almoçado.

Com toda aquela confusão a hora voou que Juliette nem notou. Mas também como notaria?

E como ela não estava com cabeça para preparar nada. Buscou na agenda do celular o número do restaurante delivery que Sarah e ela costumam pedir refeições vez ou outra, e ligou para o estabelecimento. Em questão de segundos já era atendida por uma jovem de voz fina e muito bem educada. Fez o pedido de quatro refeições e logo encerrava a ligação com o almoço encomendado, com previsão de entrega para dali a uma hora, segundo estimativa da atendente.

Por mais uns instantes Juliette permaneceu na sala até criar coragem para subir e ver como Sarah estava. Parada em frente a porta do quarto que se encontrava fechada, a morena respirou fundo antes de alcançar a maçaneta e girá-la com cuidado. Encontrou Sarah de costas, parado em pé diante da janela do quarto. Com cautela ela deu uns passos parando diante do recamier posicionado aos pés da cama de onde chamou a esposa uma vez, fazendo a outra mulher se virar para ela. A expressão melancólica que viu estampada em seu rosto, lhe cortou o coração. Juliette sentiu uma enorme vontade de correr até a esposa, abraçá-la bem forte e lhe beijar várias vezes até conseguir dissipar aquela expressão que via nela, e lhe trazer de volta àquela outrora alegre e feliz que Sarah sempre ostentava pela casa. Contudo, sabia que não podia fazer nada daquilo, pois a chance de ser rejeitada por Sarah era gigante. Então só lhe restou dar mais alguns passos com a intenção de se aproximar da esposa, nas antes que tivesse a oportunidade de perguntar como ela estava, sua esposa se adiantou em questionar com certa preocupação:

- O menino... Ele... Ele se acalmou, está melhor?

A reação e as palavras gritadas por Thomás não deixaram de se repetir por diversas vezes na mente de Sarah desde que ficou sozinha naquele quarto.

Juliette fechou os olhos e apertou os lábios com força ao ouvir Sarah chamar o filho delas daquela forma tão fria e incomum dela se referir a Thomás. No entanto, lhe acalentou um pouco a alma ver que mesmo não se lembrando do filho, Sarah se mostrou preocupada com o estado do pequeno. Aquilo para a morena lhe pareceu um bom sinal.

- Thomás... nosso... filho...

Juliette fez questão de pronunciar pausadamente cada uma das palavras para Sarah, que baixou o olhar como se pedisse desculpas.

- ... Já se acalmou um pouco. Só que ele ainda está em choque com tudo isso que aconteceu com você. Nossa outra filha também está que nem ele. Mas conversei com os dois, eles se acalmaram mais e acabaram pegando no sono lá no quarto do Thomás.

Sarah apenas assentiu e ergueu os olhos para encontrar a esposa lhe observando de braços cruzados e semblante triste. O casal ficou em silêncio se olhando por um par de segundos até que Sarah se pronunciou pela segunda vez.

- Me sente tão mal por ter dito ao... meu... filho... que não me lembrava dele... E me sente pior ainda por vê-lo chorar daquele jeito. Me desculpe por ter esquecido de vocês!

Ela pronunciou a última parte de cabeça baixa e com a voz em um sussurro, mas que deu perfeitamente para Juliette ouvir e entender o que havia sido dito pela esposa.

Sem conseguir se conter, Juliette se aproximou o bastante da esposa a ponto de ter alguns poucos centímetros as separando. Com as duas mãos, segurou o rosto de Sarah e fez a loira olhar para ela.

- Não se desculpe, meu amor. Você não tem culpa disso ter acontecido. Ninguém tem culpa. Agora, nós temos que buscar respostas para explicar isso que houve.

- Respostas??... E tem alguma que explique muito bem o porquê de eu ter esquecido tudo assim do nada?

Com delicadeza, Sarah tirou as mãos da esposa de seu rosto e se afastou de Juliette, indo para o lado oposto de onde ela estava no quarto. De lá, continuou a falar.

- Eu queria entender como me esqueci de tudo se você disse que ontem eu estava perfeitamente bem?... Se eu tivesse sofrido algum acidente ou batido com a cabeça era justificável essa perda de memória, mas não foi isso que aconteceu. Eu só dormi e acordei assim, sem me lembrar de nada, absolutamente nada... Porra!

Tomada pela raiva e o descontrole, a loira deu um tapa forte na porta do guarda-roupas, o estampido feito por essa sua ação assustou Juliette.

- Sarah tente se acalmar! - pediu segundos depois com uma das mãos sobre o peito. Seu coração batia acelerado por conta do susto que levou.

Por mais desesperadora que a situação fosse, elas precisavam ter calma e serenidade para manterem um diálogo direito sobre o problema de Sarah. Sem contar que ela não queria que aquele destempero da esposa acordasse os filhos.

No entanto o que Juliette não esperava, era receber um olhar mortal de Sarah, seguido de palavras tão duras, pelo simples fato de ter lhe pedido para se acalmar.

- Me acalmar??... Eu me esqueço da minha vida toda e você me pede pra eu me acalmar? Não, isso é impossível! 

A loira esbravejou as últimas palavras de maneira alterada, deixando explícito o seu total descontentamento com o pedido da esposa.

- Eu sei que é impossível, mas...

Juliette ainda tentou argumentar, mas Sarah nem deixou que ela continuasse o que ia dizer.

- Você não faz ideia do quão horrível é estar nessa situação em que me encontro nesse momento.

- Sarah...

Pela segunda vez a esposa não a deixou continuar uma fala.

- Sabe o que é ver sua vida toda por fotos e ter que ouvi-la ser contada em pouco mais de uma hora por alguém que você está vendo pela primeira vez, mas que na verdade você descobre que essa pessoa faz parte de sua vida, que ela é sua esposa, só que não se lembra dela?... Não, você não sabe!... - a loira ergueu a mão direita e agitou freneticamente o dedo indicador em negação. - Tem ideia do que se passa dentro de mim nesse momento com toda essa confusão? Também não!... Eu me sinto sozinha em um quarto totalmente escuro não sabendo aonde ir ou o que fazer. Já se sentiu também assim? Aposto que não, inferno! - finalizou seu desabafou em tom de voz alto e com a respiração ofegante por conta da rapidez com a qual cuspiu todas aquelas palavras a outra mulher. Em seguida levou as mãos a cabeça e deu as costas a uma Juliette que se encontrava perplexa diante da fala raivosa da esposa.

A morena sentia um nó se formar na garganta seguido de uma nova vontade de cair em prantos. Nunca, pelo que se lembre, foi acometida por sucessivas necessidades de chorar em um dia só e em curtos espaços de tempo. Mas só na metade daquele, ela tinha sentido e derramado lágrimas para um ano inteiro, talvez. Porém, desta vez não ia ceder ao choro. Com um gole em seco, ela empurrou goela abaixo o choro que queria vir motivado pela rispidez na voz da esposa e por suas palavras.

Nunca até então, Sarah havia se dirigido a esposa daquela forma tão dura e grosseira como vinha fazendo até ali. Nem quando tinham seus desentendimentos feio, o que era coisa raríssima de acontecer, posto que eram um casal que tinha um convívio de dar inveja a muitos casais por aí.

Entristecida e levemente ressentida, Juliette encarava as costas da esposa. A Sarah diante dela podia ser ainda fisicamente a mesma mulher com quem Juliette era casada todos esses anos, mas emocionalmente era uma desconhecida para a morena.

Sua Sarah mesmo quando discutiam era sempre comedida em suas palavras, na sua forma de se dirigir a esposa e também de tratá-la por mais sério e duro que fosse o assunto que estivessem discutindo.

Mas está Sarah de agora, era nervosa, não media as palavras e ainda saía do controle rápido, coisa que a outra Sarah dificilmente deixava acontecer.

E apesar de toda essa reação intempestiva e das palavras ásperas da outra, Juliette não se deixaria esmorecer. Sua esposa estava ali dentro daquela mulher desmemoriada, só precisavam fazer com que Sarah se lembrasse disso. E Juliette estava disposta a fazer das tripas coração por isso, pelo bem estar da esposa e da família que juntas construíram.

- Realmente eu não sei nada do que você mencionou estar sentindo, Sarah. Mas imagino que não está sendo fácil pra você tudo isso que listou. Até porque também não está sendo pra mim e nem para os nossos filhos te ver assim. Só que VOCÊ não está SOZINHA!... Nós estamos aqui com você. Seus filhos e eu... A sua família, meu amor!

- Família esta que eu nem lembro. - Sarah rebateu com desdém e virando-se para olhar Juliette.

A mulher diante de si podia dizer quantas vezes quisesse, que ela e os filhos eram sua família. Porém para Sarah não mudaria o fato de que agora, não se lembrava deles e muito menos lembrava o grau enorme que tanto Juliette e os filhos tinham de importância na vida da economista.

- Mas você vai lembrar, Sarah. Nós vamos te ajudar nisso, amor.

- Vão fazer isso por pena?

A morena na mesma hora franziu a testa diante de tal questionamento da esposa.

De onde Sarah havia tirado tal disparate?

- Pena?? Claro que não, Sarah! Vamos te ajudar, porque te amamos e somos uma família.

A morena deu passo rumo aonde a esposa estava, mas viu a outra mulher recuar um passo também evitando sua aproximação. Suspirou e então prosseguiu, dizendo:

- Escute bem o que vou te dizer, Sarah Carolline. Mesmo que não se lembre, seus filhos te amam... Eu te amo... e sempre te amaremos. - ela fez uma pausa e uma nova tentativa de se aproximar da esposa, dando um passo em sua direção. Desta vez, Sarah não recuou e isso serviu de incentivo a Juliette de dar outros passos até parar diante da esposa. Só então ela continuou sua fala de onde havia interrompido. - Estamos aqui do seu lado e vamos estar até o fim!... Nós vamos te ajudar a superar isso e a lembrar das coisas. Acredite em mim... confie em mim, por favor, meu amor!

Os olhos castanhos encaravam os verdes cheios d'água. A morena faria de tudo que estivesse ao seu alcance para ajudar a esposa a superar o que houve. Daria seu apoio incondicional nisso. E ficaria do seu lado mesmo com Sarah não se lembrando mais dela.

Cada palavra do discurso emocionado da morena tocaram fundo em Sarah, principalmente as últimas. Sentiu-se uma idiota estúpida por ter sido momentos atrás tão dura com aquela mulher. Juliette não merecia o tratamento que vinha lhe dirigindo, muito menos as palavras ríspidas que lhe lançou no calor da raiva.

Se para Sarah estava sendo tão assustador e difícil estar no meio daquele furacão todo, ela agora tomou ciência de que para esposa e os filhos também devia estar igual.

- Perdão pelas coisas que eu disse.

Um tanto acanhada, a mulher pediu com sinceridade e bem mais calma.

- Essa situação toda me deixa nervosa e não consigo raciocinar direito, tampouco medir as palavras.

- Tudo bem, Sarah! Eu compreendo.

- Eu vou precisar de um pouco de tempo pra me situar e me levantar dessa rasteira que está sendo não lembrar de nada.

Juliette assentiu entendendo o lado de Sarah. Até porque a morena também precisaria de tempo para esta mesma finalidade.

- Ainda estou desorientada e um tanto desnorteada com tudo isso, mas mesmo assim, sem me lembrar de você, eu acredito e consigo confiar no que me diz, porque...

Sarah fez uma longa pausa enquanto se pôs a fitar a esposa por segundos, em uma nova tentativa de ver se obtinha lembranças acerca daquela mulher, que lhe encarava com nuvens de tristeza pairando sobre seus olhos. Infelizmente, nada lhe veio a cabeça. Só havia um vazio, uma lacuna em branco em sua mente.

- Por que o quê, Sarah? - incentivou a outra mulher.

- Os seus olhos... eles me dão essa segurança, Juliette. - a morena esboçou pela primeira vez ali um sorriso ao ver que apesar da ausência de lembrança, Sarah ainda era capaz de enxergar essa tal segurança que tantas vezes ela dizia enxergar nos olhos da esposa ao longo desses anos que estavam juntas. - Só te peço por agora paciência, tempo e se não for demais, que me deixe sozinha, por favor!

Juliette suspirou decepcionada com o pedido, mas não ousou contestar. Apenas assentiu de maneira positiva, aceitando o que Sarah pedia.

- Eu vou fazer o que está pedindo, Sarah. Mas quero que saiba de uma coisa... - suas mãos seguraram a esposa em ambos os braços. - Eu estou aqui do seu lado e sempre vou estar, independente do que aconteça. Jamais vou te deixar sozinha nisso, meu amor. Pode ter certeza!

Inconscientemente, ainda que Juliette não passasse agora de uma mera estranha para Sarah, aqueles seus olhos castanhos pareciam não ser. Seus olhos e suas palavras de algum modo inexplicável para Sarah, transmitiram-lhe a calma e a tranquilidade que antes pareciam perdidas.

- Eu tenho certeza disso, Juliette! - olhando bem para a mulher diante de si, Sarah pode ver o quão forte e apaixonada por ela a esposa demonstrava ser. Infelizmente de sua parte não podia detectar dentro de si por agora, nenhum tipo de sentimento amoroso por Juliette. Mas ainda sim, conseguia sentir plena confiança naquela mulher. - De alguma forma, eu consigo sentir essa certeza que está me dando... Sinto que não vai me deixar nunca e que vai me ajudar, Juliette! - a loira espichou o canto dos lábios em um sorriso tímido, idêntico ao que Beatriz às vezes deixava escapar.

- Não imagina o quão bom é ouvir isso. - sorriu Juliette ao ter ouvir aquelas palavras da esposa. Podia sentir a verdade implícita nelas e isso era bom. Ouvir de Sarah que ela ainda acredita e confia nela, mesmo não se recordando da esposa, já era um começo para a morena.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top