PAI


Pai

Meu pai sempre foi um homem de poucas palavras. Algumas vezes ele esquecia essa sua característica peculiar e perdia a noção do tempo e falava, falava, falava... E, pior para mim quando infelizmente este momento era para dar-me sermão.

Eu olhava firme em sua direção, ou um ponto atrás e voava. Saia literalmente do corpo. Criava um mundo paralelo e deixava a alma vagar por nuvens e estrelas. Cavalos e príncipes ou imaginava o mar com suas ondas.

E quando o subconsciente captava as palavras: entendeu mocinha?

— Sim senhor — saia com a naturalidade de quem ouviu cada palavra e prometia obediência.

Mero engano.

Escutar as mesmas histórias de uma vida, sofrida às vezes, e dos irmãos, do pai e de como chegou à construção da família foi uma colcha de retalhos.

Hoje me lembro de cada pedacinho costurado na sua história. Um sermão ali, outro aqui e até pedaço de um que não foi para mim. Sabe que sermão alheio é até mais interessante. Não cabe a obrigação de dizer no final:

— Sim Senhor.

Mas meu pai foi um homem de muitos valores. Trabalhador. Carinhoso. Honesto. Bom filho. E um ótimo pai. Claro, tinha seus defeitos como qualquer um que viveu seus 86 anos.

Ele veio de uma família numerosa, muitos irmãos e muitas histórias de trabalho na roça, cantiga de viola e arrasta pé no chão batido. Causos e mais causos; uns de alma penada, assombração e alguns estranhos, e até mentirosos que ele sempre jurou serem verdadeiros.

E com uma família numerosa é de pensar que muitas brigas tiveram. Porém para espanto de todos, essas foram histórias nunca escutamos.

Quando digo muitos irmãos, eu quero dizer as duas mãos cheias e fico pensando se esqueci alguém. Pensei nos nomes... Imaginei cada tio e tia e os nomes brotavam na minha mente. As mãos encheram e ainda sobravam nomes: pai, Totone, Expedito, Elias, Helvécio, Eldes, Joaquim, Zizinha, Imaculada, Odília, Nini, Glória, Romilda... E nas lembranças dos nomes veio o irmão preto. O sempre Dãozinho... Aquele senhor negro de sorriso fácil que desde que eu era pequena ele era um Senhor, morava na roça e cuidava de vó e de vô.

Eu cresci e ele continuou o mesmo. O preto velho parecia imortal diante dos olhos de uma criança.

Se for pensar nos primos... Contar quantos são e saber nomes... Sinto muito, não vou saber dizer.

Mas voltando ao meu pai... A idade lhe trouxe mais palavras, a sabedoria escondida de quem viveu muito. As histórias doídas de quem trabalhou em um hospital e viu a morte de muitos. A tristeza do pobre. O privilégio do rico. E o amor do médico ao seu juramento. O respeito pelo outro que sofre.

Quem conheceu senhor Zezito dentro do hospital sabe, o que ele podia, fazia para amenizar a dor de quem estivesse ali.

Outros o conheceram na mesa de truco. Onde o jantar, frango com macarrão ou com quiabo tirava toda rixa do perdedor.

Amigo de copo ele não teve, pois este vício não tinha. Se falava e dizia o que pensava era apenas empolgação das ideias que se formava e o atormentava, nunca a bebida que o encorajava.

Fez tudo que sempre quis.

Comia o que queria, por mais que os médicos proibiam.

No dia cinco de maio de 2016. Alguns dias após seu aniversário, uma data que ele sempre amou comemorar.

Podemos concluir que ele agradou a Deus. Sempre disse que não queria morrer perto do Natal, outra data muito amada por ele.

Seu dia chegou, sua hora e como sempre foi sua vida, ele se foi.

Partiu.

Nenhum alarme ele fez. Foi devagarzinho.

Como seu falar.

Seu andar.

Típico mineiro, sossegadinho, de mansinho.

Nem deu tempo de um adeus. Somente o seu cafezinho ele degustou e como quem diz até logo. Ele foi... 

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