O Passarinho

O Passarinho

Passeando pela orla da praia sozinha, um dia aconteceu algo inusitado que me fez voltar a enxergar com meus olhos. Sim, foi isto mesmo que você acabou de ler. Eu tinha desaprendido a ver o mundo. Como? Vou contar e quem sabe possa te fazer refletir se não acontece o mesmo com você.

Sentei na calçada bem próximo a areia branca e fininha. Tirei meus chinelos e fiquei ali a pensar na vida e apreciar a natureza tão bela que se encontrava a minha frente. O som dos carros que passava começou a sumir dos meus ouvidos e somente o barulho das ondas estava chegando ao meu interior. Uma técnica que levou tempo para que eu aprendesse a desenvolver, mas depois que a meditação entrou na minha vida a concentração tornou-se mais fácil.

Voltamos às ondas do mar, que vinha e voltava trazendo também a espuma e o vento gostoso. E neste cenário surgiu um pássaro. Ele andou, desconfiado e em pequenos pulos, pela areia molhada a procura de alguma coisa. Achou algo que apontava de dentro da areia e com o bico a puxou. A onda veio e ele correu. Dei risada e parece que ele percebeu, inclinou a cabeça para meu lado, e para mostrar que era um pássaro corajoso voltou naquele objeto estranho que continuava no mesmo local. Eu, no entanto, tirei meu celular da pequena bolsa e comecei a filmar a cena que estava por vir. Lá foi ele e deu mais uma puxada naquilo que se tornara alvo de seu desejo. E do mesmo jeito teve que correr da onda que também voltava. E assim foi... Uma, duas, três vezes. E eu assistia tudo pela tela do celular, portanto, já não conseguia ver qual momento a onda viria, pois minha visão estava restrita a tela do celular. No instante que levantei meus olhos e enxerguei todo o cenário percebi a minha limitação diante do acontecimento.

O mar verde esmeralda atrás do pássaro não estava sendo captado pela minha filmagem. E o pássaro? Qual bonito ele era? Um diferente pássaro com suas perninhas compridas e bem fininhas. Possuía um bico mais comprido que os outros, pouca coisa, porém diferente. Suas penas eram uma mistura de cores: cabeça verde em três tons, onde descia um amarelado pelo pescoço deixando suas costas um pouco laranjas e o penacho do rabo voltavam ao verde, porém em outro tom, agora mais escuro. Com certeza um belo pássaro. Sua esperteza de ficar de frente para a água não perdendo o voltar das águas foi uma vergonha para minha pessoa. Eu por alguns minutos perdi essa noção.

Será por quanto tempo venho perdendo essa noção?

Quantas vezes a minha visão tem sido as imagem que o meu celular tem capitado e que eu não vi verdadeiramente com meus olhos? O que perdi? Qual amplitude da minha visão poderia ter sido? Mas para me justificar eu tenho uma ótima resposta, afinal agora eu tenho a filmagem, a imagem e posso rever quantas vezes quiser. Porém como minha mente não queria me dar uma trégua ela me fez outra pergunta: - Quantas vezes você assiste o que filma?

Olhei para um lado e outro. Aquele pássaro intrometido parecia que estava sabendo o que se passava na minha mente conflitante, pois exibiu o seu tão ilustre objeto de desejo, um pequeno ramo de alguma árvore, e saiu com ele no seu bico como se fosse um prêmio e dizendo fim ao seu espetáculo.

E eu? Quase levantei e o aplaudi. Mas depois não achei que era para tanto... Ou talvez até fosse. Acho que ele merecia até mais que aplausos, pois me fez pensar e refletir o quanto a cada dia eu estava substituindo a tela do celular por meus olhos.

Estamos com nosso olhar muito curto. Constatei.

A propaganda que a tecnologia chegou a nossa vida para ampliar nosso horizonte e contato com o mundo no fim é apenas balela. Propaganda enganosa. Estamos cada vez mais olhando para as telas dos nossos parelhos tecnológicos: tablet, celular, computador, notebook, ultrabook e outros tantos. E deixando de ver o mundo de fora real.

Ficamos em mesas rodeados de amigos e cada um com seu celular rindo para tela, uma pausa aqui para uma aspa, "parecendo pessoas doidas", conversando com amigos, não presentes, deixando os que estão perto distante de nós. E ficamos ali distraídos em ler os papos ou apenas vendo posts na rede social. Cada um viajando na sua rede. Com os casais acontecem o mesmo. Estava observando hoje mais cedo, uma moça almoçava com o marido, mas o seu dedo não parava de digitar o celular ou apenas rolava as páginas. Pouco tempo depois estava eu fazendo o mesmo. Não almoçando, mas com o celular a mão verificando se tinha mensagens dos filhos ou de alguém que merecia atenção. Sim... Estou me desculpando, lógico que iria fazer isto, é difícil admitir nossas fraquezas diante dessa modernidade. Afinal estou de férias e com a cabeça no celular também é lazer.

Olhei o mar tão lindo a minha frente e agradeci a Deus por me proporcionar esse prazer tão puro. Fechei os olhos e permaneci com a imagem na minha mente. Fiz mais! Lembrei-me do pássaro. Imaginei seu desempenho com o seu objeto de aquisição e tive uma surpresa. Eu me lembrava dele com toda sua cor, mas não lembrava perfeitamente das suas idas e vindas correndo das ondas. Sim! Minha lembrança era da filmagem. Tirei o celular e olhei o que tinha feito e era o mesmo da minha restrita imaginação.

Voltei meu olhar para a areia e lá estava meu professor correndo das ondas de novo. Agora ele tentava pegar algo que algum turista relapso tinha deixado na areia. De longe, eu imaginei ser um canudo, mas para ele talvez fosse mais um lixo que ele estava fazendo sua parte de tirá-lo dali. Assim que conseguiu, entre várias corridas, saiu com ele no seu bico exibindo o objeto de conquista. Sorri para ele e desta vez aplaudi sem vergonha de parecer ridícula. Ele? Saiu pomposo quase rebolando para mim. Olhamos um para outro em cumplicidade.

Levantei feliz. Apaguei a filmagem e fechei os olhos. Tive outra imagem desse bichinho lindo correndo. Sim. Minha mente tem uma capacidade de guardar muitas imagens. E muito mais, além de ter registrado ela levou uma corrente elétrica ao meu coração. Era felicidade.

Não tinha nada para mostrar a outra pessoa e muito menos colocar na minha rede social. Mas eu possuía uma sensação interior que ninguém poderia tirar de mim e que com exclusividade. Tive uma cena teatral feita pra mim diante da beleza de Deus.

Caminhei pelo calçadão voltando a escutar os sons dos carros, sons de pneus sendo freadas, pessoas falando e algumas músicas. O mar não se calou. Ele continuou fazendo sua música, mas cada vez mais distante dos meus ouvidos. Sem problemas. Ele estava na minha memória. 

Lena Rossi

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