Eu escritora


Tudo começou na minha infância, minha avó era uma eterna contadora de histórias. Depois, comecei a ler super cedo, muito antes das crianças de minha idade. Minha mãe dizia que meu presente favorito sempre foram os livros e, ela gostava de presenteá-los, porque eu ficava por horas lendo e olhando as figuras, sem dar nenhum trabalho.

Ela, minha mãe, professora por profissão e escritora por vocação, com certeza passou geneticamente a mim este amor pelos livros.

Fazer faculdade de letras e estagiar numa editora foi consequência do mundo que eu queria para mim. O trabalho dos meus sonhos tinha nome e lugar. Livros e editora.

E quando realmente tornou-se realidade foi como ganhar uma biblioteca renovável a cada dia. Sinto-me privilegiada e dentro de um paraíso, a cada novo livro colocado a minha mesa. E outra sensação de vazio, a cada livro fechado e terminado de ler. Porém, sei que eles não se vão, cada um se instala dentro de mim.

Sim. Trabalho em uma editora há dez anos. É um trabalho que sempre pedi a Deus, pois é um mundo maravilhoso de possibilidades. Recebo muitos livros para avaliações e análises. Já fui caça talentos no início da carreira e fiz muitos lançamentos de novos autores no mercado interno.

Conciliar a escrita e todo o resto, confesso ser não é fácil, porque gostaria de poder dedicar apenas aos meus livros. Isto porque o mercado editorial está cada vez mais concorrido e não posso me arriscar por enquanto viver apenas de minha escrita. Mesmo trabalhando a tempo neste ramo, sou desconhecida como escritora.

Preciso de um livro que venha a fazer "bum" ou muito investimento em propaganda e marketing, tempo e dedicação, para eu consolidar meu nome.

Ser editora não interfere em nada se eu não escrever algo que chame atenção dos leitores e da mídia ou quem sabe do mundo. Isso porque, alguns autores vendem somente por ter nome conhecido independente se a obra é boa ou mais ou menos.

Sei que não é justo, pois nome, sobrenome e títulos, tudo é uma grande porcaria, não são garantia que o conteúdo seja excelente e que vá vender. Tenho lido tantas obras boas, mas muitas vezes temos que recusar ou não podemos fazer parceria.

Pensando neste contexto que decidi escrever uma obra onde pudesse fazer a diferença e, na minha pesquisa eu me encantei por um assunto. E como acredito em sincronicidade e energia que nos atrai para os nossos desejos e sonhos algo aconteceu...

Essa força maior me levou a três moças, estudantes universitárias em direito. As conheci através de uma exposição e lançamento de livros na casa da cultura de nossa cidade. Elas fazem um trabalho de concussão de curso, justamente na área que estou pesquisando: violência doméstica. Este assunto tão atual tem me preocupado e não encontrei nada que tratasse essa realidade fielmente sem romantizar este ato tão brutal a mulher.

Acabei convidando-as para um bate-papo na editora.

Janah, Fayola e Líris vieram me encontrar numa tarde livre das aulas da faculdade.

— Primeiramente, obrigada por aceitarem o meu convite em conversar um pouco sobre este assunto — falei, assim que elas se acomodaram nas poltronas na nossa sala de reuniões.

Contei que pretendia escrever um livro sobre o assunto, porque acreditava que faria grande diferença na sociedade e ajudaria as mulheres a aprenderem a reconhecer os sinais de um homem violento e errado.

— Nós que agradecemos — Líris falou, olhou a amigas que confirmaram —, pois este assunto, além de ter feito parte da minha vida e da Fayola, está muito presente na sociedade.

— Começaremos por onde? — perguntei. E como elas se olharam e não deram nenhuma resposta, prossegui. — Que tal você falar da experiência que teve ao denunciar o seu agressor?

— Não foi nada confortante. Fiquei totalmente descrente. Passei tantas vezes pela delegacia e nada foi feito de concreto que fiquei desiludida. Por isso entendo muitas mulheres que recusam em fazê-la.

— Mas você sabe que não pode! — exclamei — Você estuda as leis, como pode dizer isto?

— Porque eu vivi na pele. É muito diferente quando é você deste lado. E é este o motivo de eu estar cursando direito. Quero trabalhar nesta área e fazer cumprir a lei. Sei o desafio que terei. Naquele momento eu não tinha como pedir uma medida protetiva a mim e meu filho. Exigir proteção, se toda sociedade precisava, às vezes mais que eu — ela falava com tristeza em cada palavra, como se voltasse no tempo. — Ainda bem que tudo deu certo no final e a polícia agiu de forma precisa. Mas com muitas não é isso que acontece.

— Eu não tenho nenhuma experiência nesta área. Nunca pensei muito na violência domestica. Pode ser porque nunca presenciei nada e vivi uma situação parecida. Sempre pensei na advocacia empresarial. — Janah se manifestou — No entanto, infelizmente, acompanho nas mídias, os crescentes casos de mulheres sendo vítimas de parceiros agressivos e com finais trágicos.

— Eu não — Fayola admitiu. — Meu pai era um agressor. Por muitas vezes eu presenciei e interferi nas brigas entre eles. Implorava à minha mãe para abandoná-lo. Mas, as ameaças faziam com que ela calasse e permanecesse junto dele. Um dia depois de ele bater nela e em mim, fomos à delegacia da mulher. Passava das seis da tarde e o local encontrava-se fechado, eles não funcionavam 24 horas. Tivemos que procurar uma delegacia comum.

— Às vezes, acho que sou uma idealista, o quanto eu não tenho noção de como as coisas realmente funcionam. Uma delegacia da mulher que só funciona em horário comercial. Policiais despreparados, totalmente desumanos com as agressões das mulheres — Janah comentou apertando a mão da amiga.

— E o que aconteceu com seu pai — perguntei.

— Ele foi preso e solto depois de três meses. Saiu de nossa cidade e nunca mais nos procurou. Eu tinha oito anos. Minha mãe refez a vida dela, mesmo com muito medo de se arriscar em um novo relacionamento, acredito ser normal, mas ela se deu outra chance e hoje eu tenho um pai carinhoso que nunca tinha tido antes.

— Você tinha a mesma idade do meu filho quando presenciou a violência comigo — Líris comentou.

— E o seu pai nunca mais voltou? — perguntei.

— Apareceu no velório do meu avô e não olhou na minha cara nem da minha mãe.

— Um horror — Janah, resmungou.

— Muitos homens confundem a separação da mulher com os filhos. Pensam: já que a mulher o denunciou, ela que assuma toda responsabilidade de criar os filhos — comentei. — E podem ter certeza, não existe classe social para essas atitudes.

— Verdade, acontece em qualquer faixa financeira. É abrirem os processos familiares para vocês terem essa constatação. Eles constroem outras famílias e se esquecem dos outros filhos. Apenas se a justiça for acionada para pagamento de pensão que aparecem para contestar o valor. Eu nunca pedi pensão ao pai do meu filho, justamente para ele não ter direito sobre a guarda dele.

— Eu era pequena, mas percebia o tanto que minha mãe teve que se virar para dar conta de tudo. Na adolescência eu senti falta da parte financeira, mas não do abandono. Depois passou, tenho um padrasto muito presente. — ela tampou os olhos e ao tirar as mãos do rosto falou — Muitas vezes, me senti duplamente culpada por gostar dele e não do meu pai biológico.

— Fayola, você não tem culpa dele ser quem foi. No meu caso, me senti duplamente humilhada e agredida. É vergonhoso relatar os fatos, e pior ainda ter que fazer isto várias vezes e no final de tudo, nada de concreto ser feito.

— Cara! Temos que mudar essas coisas... — resmungou Fayola — A professora de ética disse que essa mudança está em nossas mãos.

— Vocês não têm ideia o quanto eu li a respeito da lei, principalmente a da Maria da Penha. Procurei brechas e meios de valer no meu caso. Acontece que nosso país, talvez por ser tão grande a lei se encontra sendo aplicada de diferentes maneiras. Em alguns lugares com mais rigor. Em outros, a delegacia da mulher está totalmente despreparada para amparar as vítimas de agressões. Percebi que existem números insuficientes de delegacias e varas especializadas.

— E o comportamento dos delegados? Escuto falar que são machistas — questionei.

— Este é outro problema a ser resolvido. Por isso que dão preferências às mulheres delegadas, assistentes sociais e todos os funcionários serem do sexo feminino. O machismo de alguns, dificulta o cumprimento da lei — afirmou Fayola.

— E não é apenas isso. Falta qualificação dos profissionais. Precisa investir muito na capacitação, não só de quem faz o primeiro atendimento, como os policiais nas delegacias. Mas também os promotores, juízes, e todos aqueles que têm papel no andamento do processo.

— Eu me questiono qual a nossa missão, como fazer a diferença no mundo na profissão que escolhemos. Será que vamos ser boas advogadas? Ou vamos nos corromper com o tempo? — dramatizou, Janah. — Juro para vocês, eu tenho medo de não dar conta. Vou querer depenar um sujeito desses no tribunal.

— Sim. Não podemos deixar o sistema corrupto nos engolir. Os princípios morais, éticos e dignos precisam nos acompanhar. Fazer discursos filosóficos não vai ajudar em nada se um dia nos esquecermos dessa conversa.

— Tenho medo — concluiu, Janah.

— Nem me fale! — resmungou, Fayola.

— É por este motivo que desejo escrever um livro, quero depoimentos reais para mostrar os sinais de um namoro abusivo. Como fazer este reconhecimento.

— Este ponto é importante. Se eu tivesse me atentado aos pequenos sinais, talvez teria evitado muito sofrimento na minha vida — concluiu Líris.

— Obrigada por vocês terem vindo aqui e contribuírem com minha pesquisa. Quando eu tiver a primeira versão, aceitam ler e darem palpite?

— Eu vou ficar encantada — respondeu, Janah.

— Eu também — Sorriu Fayola com brilho nos olhos.

— Será uma grande obra. Farei questão de divulgar. Obrigada Andrea, pelo convite — falou Líris. Levantou e veio até mim para um abraço — e pela confiança na nossa história.

— Eu que agradeço. E vou convocá-las outras vezes até a obra ficar pronta. Pode ser?

— Claro! — falaram juntas. 

Fim

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