8°|O Lado Sul de Cold Wheather

P E T E R

Minhas botas afundam na lama causada pela temporada de chuva no Reino Gelado. Embora não esteja chovendo no momento, uso uma sombrinha para me proteger do sol. Caramba, temos um verão ferrado.

O sul de Cold Wheather é ainda pior do que me lembro, mas, de certa forma, continua o mesmo. As ruas desniveladas sempre estão repletas de encrenqueiros fedendo a pó de fada e há bêbados alterados sendo chutados para fora de uma das tavernas ou bordéis. Me aproximo da entrada de um dos becos e me deparo com dois homens disputando um pedaço de rato-dragão. Ambos são magricelas e estão sujos, com roupas rasgadas. O da direita possui uma pele esverdeada e seus cabelos me lembram as folhas de uma árvore queimada, o que me faz deduzir que ele é de Flornes. O da esquerda possui a pele clara, os cabelos são longos e caem sobre os ombros ossudos em cortes irregulares, como se tivessem sido cortados pela lâmina de uma faca de serra ou pelos pés de um barbeiro cego, os olhos azuis e a pele pálida não me deixam dúvidas que é nativo de Deesh.

_ Ei, vocês! - grito para eles. O pedaço de rato-dragão é mais interessante que a minha presença, então eles continuam resmungando e grunhindo um para o outro - Ei!

_ Tem um babaca falando contigo. - murmura o florniano, mostrando os dentes marrons para o da frente.

_ Não, tenho certeza que é contigo. - rebate o outro.

_ Você é o deesh aqui, com certeza o assunto é contigo. - insiste o florniano.

_ Somos livres para conversar com outras raças, amigo. Não importa se você é de Flornes e tem essa cara feia de caule de flor.

_ Caule de flor? Caule de...

_ Conhecem um sem teto com olhos de louco? - pergunto, interrompendo a discussão ridícula dos dois - Ele tem uma barba cinza e...

O rato-dragão se parte ao meio e o florniano rodopia e gargalha ao ver que ficou com o maior pedaço. Reprimo o vômito ao ver as entranhas do animal espalhadas no chão. O deesh esbraveja e dá um soco no florniano, que cessa a risada e retribui com outro soco. Frustrado, decido parar de perder meu tempo com os dois e ir procurar o sem teto sem a ajuda de ninguém.

_ Ei, amigo! - o homem deesh me chama ao me ver partir. Retenho meus pés e volto para o lugar onde estava. O florniano se encolhe ao ver minha expressão nem um pouco satisfeita ou feliz - Como era esse sem teto?

_ Louco e cinza, seu estúpido! - o florniano dá um tapa na cabeça do... Amigo? A relação deles é muito difícil de rotular.

_ Não, os olhos são loucos e a barba é cinza. - eu corrijo.

_ E o que eu disse?

_ Cala a boca, Fergie! - ordena o deesh - Ele tem cheiro de inteligência?

_ Ah, o Pay-Pay! - exclama Fergie para o amigo - Aquele que vive na taverna da Zurit, aquele velho bêbado!

_ De nada, mal agradecido! - escuto o deesh gritar quando já estou alcançando a esquina.

Eu sabia exatamente onde ficava a taverna de Zurit. Foi o mesmo lugar onde Henriksen se envolveu na briga que lhe custou todo seu ser e uma perna perfeitamente funcional. A placa de madeira com letras de bronze pende para um lado e consigo ouvir o barulho da música mesmo estando do lado de fora. Empurro a porta pesada de madeira e sou recepcionado pelo bafo quente do interior. Quase fico bêbado apenas pelo cheiro. A taverna sempre está lotada por criaturas que dão dois de mim, carrancudos e perigosos.

   Nunca entendi que o retardado do meu irmão foi fazer ali, atrás de algo que nunca pôde ter.

   Passei entre as criaturas, evitando o máximo de contato até chegar na bancada do bar. Zurit é uma deesh de pele esbranquiçada e é alta, com um cabelo azul-escuro repleto de pequenas trancinhas que estão presas em um coque no topo da cabeça. Ela está enchendo um copo para um deesh do outro lado do balcão, mas assim que me vê, ela bate o jarro de bebida na madeira velha espirrando o líquido na superfície e anda até mim em passos pesados. Pequenos flocos de neve voam em cima da sua cabeça e eu não posso evitar lembrar de Elle.

   _ O que você quer aqui, Drake? - questiona nervosa. Seu rosto está mais preocupado do que com raiva.

   _ Uma bebida. - dou de ombros. Ela muda o peso do corpo e cruza os braços, erguendo uma das sobrancelhas.

   _ Você e seu irmão foram proibidos de pisarem aqui. - verdade, embora Henricksen seja o único culpado - Se Tobias te encontrar aqui, ele não vai arrancar sua perna, mas sim seu pescoço!

   Enfio a mão no bolso do casaco e retiro de lá uma moeda de ouro, o brasão do reino estampado no material. Zurit me encara por alguns segundos, seu olhar intercala entre mim e a moeda, até que se vira de costas e vai buscar a bebida ao ver que eu não saíria dali nem se a própria Rainha Miranda me ordenasse. Não sem falar com aquele sem-teto maluco.

   _ Depois não se arrependa. - diz Zurit depositando o copo na minha frente. Ela apoia o cotovelo no balcão e encara um ponto distante, os dedos da mão batucam inquietos.

   _ Ele está bem. - respondo, mesmo não havendo uma pergunta dita. Ela ri nervosamente.

   _ Não sei do que está falando!

   _ Ah sério, Zurit? Eu sempre soube que você e... - minha fala é interrompida quando os dedos frios dela tampam minha boca. Solto um riso abafado enquanto ela olha para os lados em alerta.

   _ Cala a boca, Peter! - sussurra retirando a mão - Você sabe que nada nunca aconteceu e nunca vai acontecer.

   _ Não foi...

   _ Peter! - sua voz sai esganiçada. Rolo os olhos.

   _ Você fica com um cara que não te merece, sendo que meu irmão morre de amores por tu desde a infância. Antes de você conhecer Tobias e se afastar dele... Depois de tudo o que você aprontou com ele, ele ainda te ama! - solto uma risada amarga - E você é medrosa demais para assumir seus sentimentos por ele.

   _ É muito mais complicado que isso. - dizendo isso, Zurit vai para o outro lado do balcão, longe o suficiente para não ter que me escutar.

   Suspiro e jogo o líquido garganta abaixo, a bebida sai rasgando e tenho certeza que Zurit me deu uma forte de propósito. Tossindo, dou uma meia volta em cima do banco e encaro a taverna, procurando o velho. A maior parte das mesas estão do meu lado direito, de frente para um palco onde duas deesh cantam desafinado. O teto da taverna é alto, provavelmente para que os clientes de 2,5cm de altura consigam andar sem baterem a cabeça nas vigas de madeira do teto.

   _ É engraçado você dar dicas sobre o amor. - olho para a pessoa que se sentou ao meu lado. Os olhos loucos me encaram e um sorriso cínico revela dentes amarelados.

   _ Estava te procurando. - eu informo voltando a me sentar de frente pro balcão.

   _ Eu sei, eu sei!

   Olhei em volta. Algumas cabeças se viraram na direção contrária, outros nem ao menos fazem questão de disfarçar. Volto a encarar o sem teto, ele também percebeu a atenção que recebemos e fez um aceno com a cabeça para mim, indicando a porta. Me levanto e faço meu caminho de volta até o exterior da caverna, o sem teto está ao meu encalço. O vento frio do lado de fora alvoroça meus cabelos de modo que tenho que puxá-los para trás a cada nova rajada. Eu e ele nos afastamos da taverna até chegarmos na margem da floresta, isolados das outras pessoas.

   _ Pelo visto ainda não resgatou a garota que você ama. - ele diz se aproximando de uma das árvores e começando a escalar seu tronco.

   _ Você consegue ver o passado, certo? - vou direto ao ponto, observando enquanto o sem-teto se senta em um tronco baixo. Ele ergue a sobrancelha e a sombra de um sorriso passa em seus lábios rachados, mas não me confirma nada - É possível que veja o futuro?

   Ele gargalha. Outra rajada de vento passa por nós, carregando até mim o estranho cheiro de conhecimento que o sem-teto possui. Sinto vontade de rir. Sempre pensei que fosse uma das coisas bizarras de Elle quando ela dizia que eu possuo cheiro de inverno, mas agora eu entendo o que ela queria dizer.

   _ Futuro? Na-na-não! Eu vejo possibilidades, mas nada é certo. - ele responde.

   _ Se eu for pra Hellige... Conseguirei salvar Elle?

   _ Não.

   _ Por quê? - meu coração se aperta dentro do peito e um nó se forma na minha garganta.

   _ Porque você estará morto.

Oi, meus flocos de neve. Como vocês estão?
O que estão achando do livro? Gostaram do capítulo?
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Você é incrível!

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