7°|Está Perto, Pequena Assassina

   _ Caramba, sete irmãs?! - sussurra Thomas espantado. Solto uma risada rouca e aceno com a cabeça. 
   
   _ E um irmão mais velho. - conto. A imagem de Henriksen aparece clara na minha mente, o sorriso brincalhão, o andar manco - Era pra ele ter sido meu guardião, mas perdeu parte da função motora da perna e se tornou "inválido" para o serviço. Embora ele consiga carregar nós dois juntos nas costas se for preciso.

   _ Sinto muito por ele.

   _ Eu também… - em parte, já que sem isso, eu nunca teria conhecido Peter. Pensando bem, eu sou uma tremenda de uma egoísta.

   _ Depois do Ogro de Neve…

   _ Branco. - o corrijo e ele revira os o olhos. Deito no chão virada para sua cela, o sono começando a tomar conta de mim.

   Eu não faço ideia de que horas são, mas pelas minhas contas, deve ser madrugada do meu quinto dia dentro da cela. A maioria dos meus machucados criou casquinha ou parou de doer tanto, mas ninguém voltou pra fazerem mais estragos. Nem à mim, nem ao Tommy. Diana também nunca voltou depois daquele dia. Então, eu estou contando minha história para Thomas, omitindo alguns fatos dolorosos demais para serem compartilhados, mas pelo menos eu o estou fazendo rir.

   _ Depois do Ogro Branco - ele enfatiza e eu sorrio satisfeita - Qual outro monstro você enfrentou?

   Com um piscar de olhos, as sombras tomam formas. Kyle, Catrina, os ursos polares... E é como se eu revivesse cada momento novamente. Fecho os olhos com força e meu corpo começa a tremer. São apenas sombras, não irão me machucar. No entanto, meu corpo reage como se fossem reais e não apenas uma ilusão da minha cabeça.

   _ Então, Peter? - a voz de Thomas me tira do transe. Aos poucos minha respiração se normaliza e eu consigo controlar mais a tremedeira.

   _ O que tem ele? - minha voz sai quebrada.

   _ Vocês são namorados?

   _ Não.

   _ Amigos com benefícios?

   _ Absolutamente não.

   _ Amantes?

   _ O que!? - guincho me sentando em um pulo. Thomas ri e dá de ombros.

   _ O que foi? É só uma pergunta. - explica.

   _ Não temos nada amoroso, okay? - esclareço passando o dedo nervosamente sobre o cabelo. O emaranhado de fios brancos não deixou que meus dedos passassem do meio. Thomas ergue uma sobrancelha questionadora pra mim. Nem eu acredito muito no que disse, mas é o que Peter declara para mim toda hora, então deve ser verdade. Embora eu não sinta que seja uma. - É confuso.

   _ Ele gosta de você? - quase me engasgo com as pergunta dele.

   _ Ele tem namorada! - o lembro - Que, por sinal, é minha melhor amiga. Por que pergunta isso?

   Tom ajeita a postura e vira o rosto pra frente: - Pelo jeito como ele saiu ao nos ver na piscina, na noite do baile. Ele parecia...

   _ Irritado? - zombo rolando os olhos.

   _ Magoado. - Tom me corrige e eu pisco confusa.

   O silêncio cai sobre nós. Thomas se deita e põe a mão sobre a barriga por baixo da blusa esfarrapada, enquanto um braço apoia a cabeça. Era sua "posição de dormir".

   _ Não vou dormir agora. - assegura ele, como se lesse meus pensamentos antes mesmo de eu os ter, e eu provoco um ruído estranho de alívio.  Eu nunca disse nada para Tommy sobre os pesadelos que eu tenho assim que minha mente desliga. De certa forma, eu não preciso, pois sei que ele também possui os deles.

   _ Certo.

   _ Certo.

   Acordo sobressaltado de um pesadelo. Minha respiração entrecortada tenta se estabilizar enquanto minha mente procura apagar a imagem das pessoas que me importo mortas. Esfrego os olhos e os mesmos se esforçam para se adaptarem à escuridão. Meus dedos tateam a pedra quente, suor encharca as minha roupas, levando embora o pouco da hidratação que meu corpo possuía.

   Leva longos minutos até que meu corpo compreenda que eu já estava acordada e que os monstros não estavam mais me perseguindo. Estou quase voltando a "dormir" quando escuto um ruído vindo do início da cela.  Alguns dos meus companheiros de cárcere acordam e se agitam. Me encolho e finjo estar dormindo, deixando apenas uma frestinha aberta  minhas pálpebras para poder visualizar quem é. Os passos são delicados e até mesmo graciosos, então não é nenhum dos guardas. Quase não me surpreendi quando a figura que apareceu foi Brand. Os cabelos ruivos estavam soltos, caindo pelas costas peladas e entrando em contraste com o que eu dificilmente chamaria de vestido. Duas faixas brancas e transparentes cobriam os seios e desciam por toda a extensão da perna, revelando a nudez por baixo do tecido. É repulsivo.

   Ela se aproxima da minha cela e por um momento penso que virá até mim, mas passa direto pela linha vermelha, descendo as escadas sem fim. Na cela ao lado, Thomas faz sinal de silêncio com o dedo indicador e eu anuo. Ele espera alguns segundos antes de se sentar e espiar para além da linha.

   _ O que ela foi fazer lá? - sussurro para ele.

   _ Não sei - responde indiferente - Ela faz isso toda semana.

   Quando Diana me disse para não atravessar aquela linha, eu imaginei que lá embaixo tivesse muitos monstros centenários e cruéis... Nunca pensei que houvesse a possibilidade de que, habitando naquelas profundezas, estavam os segredos de Brand.

   Atento meu ouvido em direção à escada pela qual Brand desceu na tentativa de escutar algo, no entanto, só ouço o ruído do vento ou o burburinho das outras criaturas que acordaram.

   Umas duas horas se passam até que Brand reapareça, do mesmo jeito que desceu, talvez um pouco mais mal-humorada. Seus olhos caem sobre mim e eu não tenho tempo para reagir rápido e voltar a fingir que estava dormindo. Estou começando a me conformar que ela irá chamar os guardas para me agredirem novamente - já que se lembrou da minha existência -, mas tudo o que ela faz é me lançar um sorriso provocativo enquanto limpa o canto do lábio. O que raios isso significa?

   _ Oh, Elle! - exclama como se não soubesse que eu estava ali. Não respondo, mas o gelo de mim treme, como se quisessem se libertar - O que acha da prisão?

   _ Bem confortável, vaca! - respondo sarcástica.

   _ Ah, que pena que logo vai acabar...

   _ O que? - as palavras voam da minha boca em som de surpresa. Pigarreio e me recomponho - Não que eu ligue!

   Ótimo, não poderia ter soado mais convincente! 

   _ Ah, mas eu ligo - Brand respira fundo e fecha os olhos, se deliciando do que quer que estivesse tramando dessa vez - Está tão, tão perto, pequena assassina.

   _ O que está perto?

   _ A meia-noite. O que mais seria?

POR FAVOR, LEIA ESSE PEQUENO ESCLARECIMENTO


Gente, eu estou recebendo MUITOS comentários sobre os capítulos retirados. Mas, para quem ainda não sabe, esse livro da Cinderela é uma duologia e eu reescrevi o primeiro livro, agora estou reescrevendo esse. Mas eu não excluí os livros em si, apenas retirei os capítulos antigos para ir publicando à medida em que os novos ficam prontos. Então, não precisam surtar, ok?

Não se esqueçam de votar e comentar.

Você é incrível!

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top