23°| O Homem por trás do Pijama
E L L E
A cada foi aterrorizante nos primeiros instantes, mas após 30 minutos sem nenhum sinal do chão, o medo foi embora.
Foram trinta minutos em que o único som que ouvíamos era o do vento em nossos ouvidos.
Trinta minutos em que eu não me afastei de Peter e em que ele não parecia estar planejando me soltar.
Trinta minutos sentindo seu coração.
_ Acha que é assim que acaba? - grito por cima do barulho em meus ouvidos. Era a primeira vez em que abria a boca desde que saltamos.
_ Não faz sentido! - grita ele de volta. E realmente, não fazia sentido.
Estava difícil respirar.
_ Então - ele começou incerto, como se não tivesse certeza de sua próximas palavras - Você e Thomas...
Um riso genuíno subiu pela minha garganta e eu podia jurar ter visto suas bochechas ganharem uma coloração avermelhada.
_ Estamos em queda livre e é nisso que você está pensando? - perguntei e abri um sorriso maior ao ver suas bochechas ficarem ainda mais vermelhas.
_ Não! Apenas surgiu assim... - tentou disfarçar - Apenas não entendo como ele veio parar aqui.
_ Longa história.
_ Parece que temos tempo! - gritou por cima do barulho do vento.
Abri a boca para falar, mas algo me fez parar. Aquele familiar brilho lilás em seus olhos, sutil, quase imperceptível. Tão lindo, mas com um significado tão horrível. Há quanto tempo estavam assim? Começou agora ou começou há muito tempo e eu não havia percebido?
_ Peter... - ele me abraçou mais forte, escondendo meu rosto em seu peito. Então ele já havia sentido o perigo há algum tempo, conclui.
_ Eu não sei o que é que nos aguarda, mas está chegando perto. - diz ele, seu peito vibrava com sua voz.
De repente, de alguma forma estranha, nossos corpos pareciam ter aumentado a velocidade, de modo que o vento passou a ser um assobio em nossos ouvidos. Peter nos girou no ar, de forma que eu ficasse por cima. Eu não havia entendido a mudança abrupta de posições até enxergar algo azul cintilante se aproximando cada vez mais.
A água nos atingiu com uma força terrível e nos submergiu. Eu já não sentia Peter junto a mim, não sentia nada além da água gelada. Agitando meus braços e minhas pernas, alcancei a superfície com um arquejo em busca de ar. Olhei em volta a procura de Peter, mas tudo o que meus olhos encontraram foram os troncos prateados das árvores, a neve brilhante acumulando ao redor, a cor cristalina da água de forma que dava para ver o fundo de forma clara... Não havia sinal de Peter.
Bem na minha frente, o homem de pijama.
_ Cadê ele? - grunhi de raiva.
_ Se divertiu com a queda? - havia um sorriso despretensioso em seu rosto enrugado - Sabe, é muito engraçado como tudo no lugar de onde você veio é frágil. Uma queda daquela mataria qualquer um, mas o nosso sangue, o seu sangue, é tão incrível que o máximo que você sentirá será o corpo dolorido. Não é maravilhoso?
O encarei, raiva borbulhava dentro de mim.
_ Cadê ele?
Ele suspirou entediado.
_ Venha, Lor Anihí - ele vira suas costas para mim e as árvores em sua frente começam a se mover, revelando um caminho - Precisa chegar primeiro que ele se quiser que ele viva.
Por trás do pijama e da barba mal feita, havia algo muito poderoso. Ele não era confiável, eu sabia, mas por algum motivo comecei a nadar em direção às bordas e seguí-lo pela estrada.
_ Por que eu? - perguntei enquanto caminhava. O caminho era de um pó fino e cinzento, como cinzas.
_ Por que não você? - devolveu. Ele era irritante.
O caminho deu em um clareira, com poucas árvores de troncos prateados e galhos nus e bem no meio de tudo, havia ruínas. Como em meu sonho.
Um frio percorreu minha espinha a medida que me aproximei. Colunas se erguiam em direção ao céu, manchadas de preto, rodeadas por pedras e destroços. O chão, ainda que imundo, era a única coisa que parecia não ter sofrido dano, feito inteiramente de prata, com linhas em dourado que formavam um espiral que se alargava das pontas até o centro, onde pilhas de ossos complementavam a decoração bizarra.
_ Esse já foi um lugar bonito, antes das corrupção dos corações. - o bafo quente do velho no pé da minha orelha me assustou - Antes deles reduzirem esse local ao pó, queimando tudo o que respirava. Crianças, adultos, animais... Foi assim que eu nasci.
Lentamente viro o rosto para encarar o seu. Seus olhos são escuros como sangue de inocente, pesados como quem carrega uma dor que não é sua, poderosos como algo antigo.
_ O que você é? - a pergunta deslizou de meus lábios. Eu não queria descobrir.
O sorriso que deu, acho que nunca conseguiria apagar da minha mente, arrancar de meus pesadelos.
_ Sabe, sempre achei o gelo muito interessante. É ameaçador, forte, inquebrável, mas também pode ser inofensivo, frágil e escorrer de seus dedos como água. Ou você o domina, ou ele te mata como uma estalactite perfurando seu coração. - meus pesadelos invadem minha mente e é como levar uma pancada na cabeça. Apertei os olhos e balancei a cabeça para afastar o pensamento. Não teria como ele saber, certo? - Somente quando um coração digno se torna gelado, é que os culpados poderão ser julgados. Julgue os culpados, Lor Anihí.
Quando abro os olhos, estou em pé em cima dos crânios das ruínas. O homem está a minha frente.
_ Você quer saber o que sou? Eu lhe mostro!
O homem jogou seu roupão no chão, revelando diversas cicatrizes e marcas de quiemadura em seu corpo, linhas pretas se espalhavam em seu tronco como uma doença, um vírus mortal. Sua feição começou a se desconfigurar, seus ossos a se quebrarem a medida que seu corpo ia crescendo. A pele havia adquirido um tom esquisito de cinza e os olhos brilhavam como prata ao sol. Sua boca se alargou em um sorriso medonho, com dentes pretos como opala.
_ Mostre-se digna! - sua voz reverberou pelo meu corpo, me sacudindo. A criatura, antes homem, avançou em minha direção e depois tudo se tornou um borrão frio de dor.
Caí de bruços no chão, minha cabeça latejava com a pancada. Rolei para o lado a tempo de escapar de suas garras, que causaram um som horrível ao arranhar a pedra. Sem tempo pra sentir medo ou qualquer outro sentimento, meus braços agarram o crânio mais próximo e atirei em sua direção. O osso não fez estrago algum, mas me deu vantagem para me levantar e me posicionar.
Invoquei a raiva dentro de mim, transformando-a em poder. Primeiro limitei seus movimentos, subindo o gelo por suas pernas até que cobrisse pouco abaixo de sua cintura. Uma grande e afiada estalactite se formou em minhas mãos.
Um, dois, três passos. Ergui a arma acima da minha cabeça. Eu não estava com medo, acabaria com aquilo rapidamente...
_ Nanda?
Vacilei. Eu não estava mais olhando para a criatura horrenda, mas para uma garota de olhos castanhos familiares. Eu estava olhando para Nanda, presa no gelo que criei.
O gelo explodiu e o monstro tomou sua verdadeira forma novamente.
_ Os sentimentos sempre são seus inimigos. - disse a criatura, sua voz causava dor em meus ossos.
Ele avançou e eu desviei, me posicionando atrás dele e perfurando suas costas com a estalactite. Ele soltou um grito horrível e arqueou as costas, correndo em direção as árvores... Se escondendo?
Olhei ao redor, todo meu corpo pulsava em alerta. Uma movimentação atraiu meus olhos pela direita, depois em minha frente, atrás de mim. Ele estava em todos os lugares, era rápido e eu não conseguia acompanhar seus movimentos.
_ Filha.
Algo na minha mente estalou. Aquela voz tão familiar e tão estranha... Tão esquecida.
Me virei e encarei a mulher na minha frente, os cabelos castanhos brilhosos, as bochechas rosadas pelo frio, a pele saudável em um tom quente... A figura que me encarava com um sorriso no rosto, com os braços abertos ansiosos por um abraço, me chamando de filha, era Kelra. Meu interior se agitou e eu avancei com passos firmes.
_ Cansei dos seus jogos! - gritei sentindo o ar ao meu redor explodir em milhares de farpas afiadas de gelo.
Kelra foi embora e a criatura horrenda voltou novamente. Sua pele estava repleta de cortes, um sangue leitoso e brilhante escorria dos ferimentos. Ele gargalhou e voltou para as árvores. O bastardo achava aquela coisa doentia uma brincadeira divertida e eu ia dar algo para que ele se divertisse. O persegui para dentro da floresta, seguindo sua risada horrenda, tentando acompanhar seu ritmo, atirando farpas em todas as direções possíveis. Meus músculos estavam protestando.
_ Os sentimentos te tornaram fraca - sua voz ecoou de todas as direções - Você precisa ser livrar do que te torna fraca!
Senti suas garras afundarem na carne do meu ombro e gritei como nunca antes, a dor reverberou pelo meu corpo como uma corrente elétrica, minha vista escureceu por alguns segundos e eu caí. Suas mãos esquisitas agarram minhas pernas e começaram a me arrastar. Observei a copa das árvores, com suas folhas prateadas, sumirem para dar lugar ao céu infinito, o monstro falava comigo, mas sua voz horrível estava distante. O toque apertado de seus dedos ao redor do meu tornozelo sumiu e seu rosto entrou em meu campo de visão, escondendo o céu e se desconfigurando em vários traços diferentes. Kelra. Nanda. Thomas. James. Meu pai... Um soluço igualmente distante de uma menina chegou em meus ouvidos, eu sabia que era eu a menina chorando.
Não sinta, gritava para mim mesma. Forcei meus sentimentos, empurrando-os para o fundo mais escuro e inacessível do meu ser e os trancando lá. Eu não iria morrer daquele jeito.
Olhei para a figura que ele havia assumido e os olhos lilases me encararam de volta. Aquele não era Peter, então ataquei.
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