20°| Finalmente te Encontrei

E L L E

   Havia algo errado. Não pelo fato da Guarda Branca estar aqui junto com minha mãe, mas pelo fato dela parecer estranha. Eu não sabia identificar se era nervosismo ou culpa, mas havia algo de errado com minha mãe. Algo que eu tinha medo de descobrir, mas que mesmo assim permiti que ela corresse até mim e me envolvesse em um abraço apertado cheio de dor e saudade.

   Toque materno. Há quanto tempo não sentia essa sensação? A possibilidade de afundar o rosto no pescoço de uma mãe e sentir o cheiro característico que todas elas tem, mas que nenhum se compara com a mesma.

   O jeito que a palma da mão tocou o topo da minha cabeça e me trouxe para si, como que querendo me proteger de toda maldade do mundo, me lembrou amargamente de Kelra. Mas o jeito que sua outra mão fazia carinho em minhas costas, aquilo era totalmente ela. Eu não a conhecia, mas meu corpo lembrava do seu toque. Eu não a conhecia, mas a abracei de volta, tão apertado quanto.

   Eu queria morar ali pra sempre.

   _ Como eu amo uma reunião de família. - a voz ácida de Brand nos tirou de nosso torpor. Rapidamente, mamãe me colocou atrás de si, como uma leoa protegendo seu filhote. Brand gargalhou - Acha mesmo que se colocar na frente dela impede que eu faça isso?

   Suas palavras fugiram de minha mente no momento em que eu senti uma dor agonizante em meu coração. As garras no qual ela usou pra me amansar no início estavam de volta ao redor do músculo, querendo esmagar a carne. Eu não tinha forças pra gritar, ou respirar. Meu corpo desabou no chão e pontos pretos começaram a aparecer em minha visão. Eu ouvia vozes distantes, mas não conseguia chegar até elas.

   Não sei quanto tempo a tortura durou, mas pareceram minutos, horas, séculos. Quando eu estava prestes a desistir e me entregar a escuridão, as garras sumiram e eu pude tomar uma grande lufada de ar e depois me engasgando com a mesma. Mamãe estava ajoelhada ao meu lado, encarando Brand com um ódio gélido, enquanto Brand sorria com escárnio para ela. Havia um Luzente ao lado da ruiva, com a mão apertando forte seus o ombros.

   _ Faça isso de novo e te jogarei na névoa, onde será esquecida para sempre. - advertiu ele e depois passeou o olhar entre os outros - Isso vale para todos. Não haverá violência nessas terras até que um Filho do Gelo decida o contrário. - ele se afastou de Brand e ergueu a mão pra mim, ainda me recuperando do acontecido - Levante-se e não permita ser tão fraca. Todos os fracos morrem.

   "Encantador", pensei enquanto aceitava sua ajuda para me recompor.

   Pela primeira vez, me permiti observar o topo do monte. Haviam cerca de sete guardas de armadura branca amontoados no canto, assim como haviam oito guardas de armadura escarlate no canto oposto. No centro do monte, haviam quatro pilastras desgastadas que se erguiam de um piso pentagonal feito de prata, revestido por poeira. Debaixo de nossos pés, um chão batido de terra com pouca vegetação e um pouco mais abaixo, a névoa delimitava o pequeno espaço. Mais além, um horizonte de nuvens que refletiam os últimos raios solares do dia. As três luas já começavam a aparecer no céu laranja.

   Foi quando eu ouvi um estrondo alto de metal contra metal. Os guardas de Deesh haviam caído em cima uns dos outros, mas no topo do amontoado estava Peter. Seus cabelos estavam maiores, lhe caindo sobre os olhos verdes, havia indícios de barba em seu rosto. Ele balançou a cabeça pra tirar um tecido que lhe tampava a boca, porque suas mãos estavam presas por correntes longas. Antes que ele dissesse algo, um homem troncudo com músculos excessivamente grandes o puxou pela gola da blusa, o rosto tão vermelho de raiva que parecia prestes a explodir.

   Ele ergueu Peter e se Peter fosse um pouco menor, seus pés não tocariam o chão. Eu assisti a próxima cena em estado de torpor quando um dos guardas, talvez um pouco magrelo demais, se lançou contra o homem troncudo. Ele não teve força  o suficiente para sequer movê-lo, mas deu brecha para que Peter acertasse o cotovelo em seu nariz, fazendo com que ele o soltasse e cambaleasse pra trás, segurando o nariz ensanguentado. Nesse meio tempo, os outros guardas caídos ainda não haviam se recuperado, então Peter caiu em cima deles novamente, dessa vez rolando para fora e chegando aos meus pés.

   Antes que eu pudesse ter uma reação, ele agarrou minhas pernas e em uma arfada disse:

   _ Finalmente te encontrei.

   P E T E R

   Um soluço escapou de seus lábios. Ou talvez foram dos meus, não sei bem dizer.

   Ela livrou as pernas dos meus braços e se ajoelhou frente a mim. Não sei quanto tempo ficamos nos encarando, mas pareceu uma eternidade. Os cabelos dela, ainda brancos, estavam presos em uma trança quase desfeita, algumas da madeixas soltas caíam em seu rosto, mas ela não se incomodou em afastá-las. Eu observei cada detalhe de seu rosto. A boca pequena e tão beijável. As sardas perdidas em seu nariz. A pinta em seu pescoço. Os olhos azuis ainda mais brilhantes por conta das lágrimas. Ergui minhas mãos e toquei em seu rosto. Fogos de artifícios estouraram em minha pele. O mesmo fogo ardente que parecia querer consumir meu coração.

   Elle tirou minha mão de seu rosto e a segurou, observando-a, apertando-a. Então, num gesto ímpeto, ela se jogou contra mim, me abraçando. O choro se instalou na garganta, mas não consegui conter as lágrimas silenciosas. Lágrimas pela saudade. Pela dor. Pelas boas memórias. Pelas más memórias também. Mas principalmente porque ela estava ali. Ela finalmente estava ali. 

   _ Você é real. - ela sussurrava pra si mesma em meio aos soluços - Você é real. Você é real.

   Sua dor era palpável. O que quer que sofreu durante todo esse tempo, havia deixado marcas profundas nela. A abracei mais forte, tentando tomar sua dor para mim.

   Então todo o ambiente escureceu e se tornou frio. No topo das pilastras, um fogo branco se ascendeu, iluminando parcialmente o local. Os Luzentes se aproximaram de Elle e um deles colocou suas mãos em seu ombro. Eu podia sentir o coração dela batendo acelerado contra o meu.

   _ É meia noite, Lor Anihí.

  
Olá, flocos de neve!!!

AAAAH, quase chorei escrevendo o reencontro deles. Muito piticos. 🥺
O que acharam do capítulo? O que acham que vai acontecer agora que - finalmente - deu meia noite?

Logo abaixo a foto da única mulher que andou em Hellige primeiro que os Luzentes:

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