Luísa - Parte 2



Luísa sentiu seus olhos correrem em direção a uma construção metálica atrás de barracas feitas de folhas e galhos... Não. Não era uma construção. Aquilo era um trem.

— Você está bem? — perguntou Devis, segurando-a firmemente. Um fio de seus cabelos enrolados caiu sobre sua testa enrugada. Como ela não o ouviu, perguntou de novo em libras.

Luísa sacudiu a cabeça e respirou fundo. Talvez não estivesse muito bem, quem sabe estivesse enlouquecendo.

— T-tudo bem, vou te levar até a Pâmela — ela mal o ouviu.

Sacudiu a cabeça, e virou com curiosidade. Luísa estudou tudo, o chão asfaltado, o mato, a terra suja de um pó branco que cheirava a maresia, o trem retorcido no meio do campo.

— Onde é que estamos? — fez um movimento rápido com a mão.

— De volta onde tudo começou — Devis respondeu, soando como se esquecesse que Luísa não podia ouvir claramente, mas ele não pareceu se importar.

O rapaz desviou o rosto, apertou os lábios, deslocando-se em direção ao trem entre as estreitas barracas de sobrevivência feitas de plantas e galhos. Luísa conseguia sentir o cheiro da fumaça que pairava entre as árvores, e o odor de comida sendo cozida. Diversos focos de fogueira crepitavam, lançando fumaça no ar.

— Devis! — chamou um homem magricela, caminhando naquela direção. — Você voltou! Achamos que estivesse morto...

Luísa examinou a aparência do homem magro, cheio de centenas de fios brancos margeando as laterais de seus cabelos castanhos escuro — os ossos no rosto saltavam debaixo de seus olhos.

— Oh, sim, bem, tivemos sorte e um pouco de reflexo, eu acho — Devis respondeu distraído. Luísa conseguia ouvi-lo bem fraquinho, e lia seus lábios. — O Samuel voltou?

— Sim, mês passado.

— Mês passado...? — Devis engoliu aquelas palavras.

— Samuel nos disse que você foi morto por alguma coisa na floresta — o homem magricela tinha uma expressão desolada.

Devis fitou o homem por um instante, o rosto atônito e pensativo.

Luísa, no entanto, hiperventilou quando se deu conta do tanto de tempo que ficaram perdidos. A sua respiração, chamou a atenção de Devis, assim como o homem desconhecido que pareceu ter lhe notado naquele momento.

— Pode chamar a Sra. Pâmela para nos atender? — Devis pediu, sério. — Ela... bem, ela teve um trauma na cabeça, vive agora por obstinação própria.

Como se Luísa fosse uma pena, Devis passou-a para os braços do homem depois que ele largou seu bastão. O magricela a tomou nos braços com uma dificuldade maior do que Devis realmente tinha. Seus joelhos dobraram, mas ajeitou-a e assentiu com a cabeça depois que tomou aquela tarefa.

Devis passou a mão no ombro dela, murmurou algo muito baixo e desapareceu tomando seu rumo. Algumas pessoas paravam-no pelo caminho, surpresas com seu retorno. O homem que a tinha nos braços agora, ficou alguns momentos olhando Devis partir, até então uma voz de mulher surgir atrás dele.

— Jesus Cristo!

Quando o homem girou, a mulher havia deixado dois enormes pedaços de frutas cair no chão. Os olhos de Luísa percorreram lentamente pelo seu rosto redondo, cujo tom de pele foi ficando lívido, branco como marfim.

A mulher ficou pasmada e se deteve por um instante, retornando em seguida ao rosto do homem que segurava Luísa nos braços.

— Devis a achou — ele forçou um sorriso, com uma ligeira inclinação da cabeça em direção onde Devis foi —, mas não disse detalhes. Acho que ela está ferida.

— Devis voltou? — Luísa leu os lábios da mulher. — Não estava morto?

O magricela deu de ombros.

Era como se a mulher estivesse lidando com fantasmas. Suas sobrancelhas eram cotocos pequenos grossos, que se esticaram pelo comprimento de sua testa enrugada. Ela estava tremendo.

— Você... Ah, meu Deus! — a mulher fez rápidos movimentos com as mãos. — Você está bem?

Luísa assentiu com um movimento da cabeça. Ainda se sentia nauseada, e a cada novo rosto que surgia à sua frente, um medo estranho tornava-se cada vez mais inquieto dentro dela.

— P-por favor, por favor, Henrique... — balbuciou a mulher. — Por aqui, por favor, por aqui.

O homem, Henrique, teve alguma dificuldade em carregá-la. Ele não era tão alto e forte igualmente a Devis; mas fez um ótimo trabalho, assim que a levou para dentro de um dos vagões do trem, que estava amassado no meio do acampamento.

Lá dentro, alguém havia preparado os bancos laterais como macas, improvisando com madeira e folhas trançadas. Era algum tipo de enfermaria.

Henrique levou Luísa para cima de um dos bancos, deitando-a com delicadeza. Ajeitou as pernas dela que pouco se movia, então deu espaço para a mulher de olhos azuis atendê-la.

— Infelizmente, não possuímos recursos — disse a mulher em libras, ao mesmo tempo preparando o material para o atendimento. — O que você está sentindo?

Luísa apontou para a cabeça. Tinha fortes dores atrás dela.

A mulher demorou a entender, apenas quando Luísa colocou os dedos entre os cabelos, onde existia um curativo que ela nunca percebeu antes. Parecia feito de folhas, e algo que ela não sabia dizer o que era.

As mãos leves da médica plainaram sobre o ferimento. Ela suspirou de alívio, algum tempo depois.

— Devis fez isso, não foi? — questionou, apressada. — O curativo, quero dizer.

A moça não tinha certeza.

— Folha de meridiana... Como ele poderia saber que é um antibiótico...? — ela disse, pensativa e pausadamente. — Bom... Ainda assim, não sei precisar a gravidade, e tampouco como aconteceu esse trauma. Traumatismos na cabeça são uma preocupação gritante.

A mulher se afastou em busca de outros tipos de material.

— Está acordada e parece ter o raciocínio intacto. Já é um bom sinal — observou, enquanto separava seus materiais médicos improvisados. Luísa notou que suas mãos tremiam.

A primeira coisa que fez foi acender um fósforo, e passar alguns centímetros perto de seus olhos.

— Muito bem, siga a luz, por favor — pediu com uma voz autoritária.

Luísa o fez, apesar de duvidar que isso fosse ajudar em relação a forte dor de cabeça.

— Uma pequena diminuição do campo visual esquerdo — constatou a mulher.

Ela apagou o fósforo sacudindo a mão, fez uma péssima expressão. Luísa sentiu como se fosse morrer de alguma doença terminal.

A mulher pediu para segurar uma garrafa de plástico sem amassá-la. Concluído isso, tocou a sua mão ferida, avaliando-a; então, deu prioridade às pernas. Tocou-a com a ponta de um galho afiado, Luísa saltou em resposta.

— Ótimo, há respostas aos estímulos físicos e motores — sacudiu a cabeça, suspirando.

Logo, estalou o dedo perto de seu ouvido.

— Pode ouvir?

Luísa se afastou, confusa; sim, e os sons eram muito ruins. Deu-se conta de que a bateria de seu aparelho auditivo era como um daqueles brinquedos à pilha que param de funcionar, mas voltam repentinamente com sons esquisitos e assustadores.

— Você pode ouvir isso? — indagou a mulher, estudando seu rosto confuso com um ar de aturdimento. — E falar, você consegue?

Ela sacudiu a cabeça, tentando, mas não pôde formar qualquer frase. A médica examinou seu rosto mais uma vez, balançando a cabeça.

— Tudo bem, infelizmente não possuo a medicina moderna aqui — piscou como se quisesse chorar, então mexeu em uma pequena garrafa de barro. Ela separou dois deles, dando finalmente atenção a uma ferida em sua pele da mão. — Sua mão não precisa de pontos. Sente dor?

Não, respondeu sacudindo a cabeça outra vez. A médica, pelo que obviamente Luísa compreendeu que ela era, fez um curativo por cautela. A moça não podia sentir dores, mas foi a mulher quem relaxou um pouco quando percebeu que realmente estava bem.

Ao terminar todo o atendimento, ela estava chorando. Luísa franziu a testa, tomada de perturbação. Olhou Henrique, que o tempo todo ficou observando o atendimento em silêncio: ele deu de ombros.

Ela piscou rapidamente sem ideia do que fazer, mas disse com o som estranho de sua própria voz:

— Qu-quem é você...?

Foi a primeira vez que conseguiu formar uma frase depois de alguns dias. E por mais que estivesse feliz, ficou observando a mulher, que ainda chorava, levar algum tempo para se recompor.

— Sou a Pâmela — limpou as lágrimas nas costas das mãos trêmulas. — Eu... pensei que você estivesse morta...

— Me conhece? — perguntou com as mãos.

Pâmela olhou para ela, para os movimentos ligeiros da mão. Então, balançou a cabeça.

— Por que está fazendo essa pergunta? — entretanto parecia confusa.

— Não sei... — Luísa hesitou. — Não lembro de nada.

A mulher prendeu a respiração. Luísa pensou que estivesse chocada. Mas quando deu um suspiro de alívio novamente, ela engasgou e disse:

— As consequências de um traumatismo craniano são bastante variáveis... Dependendo da região afetada, também pode acontecer a perda da memória — ela olhou para o rosto da moça. — Os déficits neurológicos assumem aspectos variados, e podem ser melhores determinados durante exames médicos avançados. Não a nada grande que eu possa fazer...

Traumatismo craniano? A moça levou os dedos ao ferimento em sua cabeça. Não sabia que a pancada em sua cabeça foi tão grave. Ao saber daquele diagnóstico, sentiu um arrepio de preocupação por todo seu corpo.

De repente, Pâmela perdeu inteiramente o controle. Começou a chorar. Ela a abraçou. O calor e o cheiro dela pareciam tão desconhecidos, mas ao mesmo tempo tão familiar.

Dominada pela emoção e pelo cansaço, Luísa ruiu sobre ela, também soluçando como se tivesse acabado de voltar para casa de sua família.

— S-sinto... — disse, queria dizer que sentia muito, mas era difícil falar, sua língua parecia colada. Luísa também não sabia pelo que estava se desculpando.

— Tudo bem, você está viva — Pâmela sussurrou. — Tudo vai ficar bem, agora.

Ela chorou pensando em tudo o que havia acontecido até ali, sentindo as mãos leves de Pâmela acariciar seus cabelos, trazendo a sensação de conforto e segurança. Luísa passou a soluçar menos quando a mulher se afastou e contemplou seus olhos.

— Vou cuidar de você agora — limpou uma lágrima de suas bochechas. — Vai ficar tudo bem, Clarissa.

Luísa engasgou. Aquele não era seu nome.

Ela abaixou a cabeça, e, de repente, começou a se lembrar quem era e como foi parar naquele lugar.

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