CAPÍTULO 3
A luz colorida do boliche pisca em tons vibrantes, mas minha atenção não está nos pinos caindo nem na conversa animada ao redor. Está nele. Felipe. Ele sorri de canto enquanto observa o placar, e por um instante, é como se o tempo tivesse voltado.
Ele está mais maduro, mas ainda tem aquele jeito calmo e seguro que sempre me fez sentir protegida. Durante a noite, trocamos olhares e algumas palavras casuais, mas cada vez que nossos olhares se encontram, sinto algo dentro de mim se revirar.
Em determinado momento, tropeço levemente ao pegar a bola de boliche, e antes que eu possa cair, ele segura meu braço com firmeza, evitando meu tombo. O toque dele me faz estremecer.
— Você está bem? – A preocupação em seus olhos me desmonta.
— Sim... Foi só um descuido. – Tento rir, mas minha voz treme.
Ele me solta devagar, como se hesitasse em romper o contato. Meu coração martela contra o peito. Será que ele sente o mesmo que eu?
Ao fim da noite, quando estamos saindo, ele se aproxima e diz baixinho:
— Foi bom te ver hoje, Bely.
Meu nome em sua boca traz de volta todas as memórias que tentei enterrar.
Agora, minha mente está inquieta. Será que ele percebeu algo?
A minha história com Felipe é complicada. Nós um dia nos amamos, ou melhor dizendo, eu já o amei. Claro que, da minha parte, tudo daria certo, porque ele sempre foi a minha grande paixão, mas nem sempre o meu querer é o querer de Deus.
Três anos atrás
Ele está tão lindo, com essa camisa branca e essa calça cáqui! A verdade é que ele é lindo sempre. Agora ele está louvando juntamente com sua irmã o hino Isaías 53 do Projeto Sola. Eu amo ouvi-lo louvar; quando ele canta, sempre me faz pensar em Deus.
Quando chegam no coro, eu já estou chorando.
"A oferta pela culpa ele ofereceu, pra satisfazer o Criador ele morreu..."
Eu o amo tanto, meu Deus!
Queria falar com ele sobre o que eu sinto, mas não tenho coragem. Me sentiria humilhada se ele me rejeitasse.
— Amiga, se você continuar olhando assim, ele vai desconfiar que você é apaixonada por ele. – Malu me dá uma cotovelada, rindo baixo.
— Deixa de ser exagerada, estou concentrada no culto.
— Coloca concentrada nisso, nem pisca!
— Shhh... O pastor vai falar.
Depois da pregação, o pastor chama Felipe para louvar novamente. E, por incrível que pareça, ele está olhando fixamente para mim enquanto canta.
Eu estou doida ou ele está cantando para mim?
"Os seus sonhos são meus, teus problemas são meus..."
Quando ele termina de cantar, meus olhos estão encharcados de lágrimas. Foi tão lindo. Sempre é lindo, mas dessa vez parece que foi especial.
Quando estou indo embora, ele me surpreende.
— Bely! – Ouço ele me chamando enquanto vem até mim.
— Oi. – Ele me abraça e me dá um beijo na bochecha.
Meu coração dispara. Isso é real?
— Eu queria saber se você está a fim de tomar um sorvete comigo.
Paro de respirar por um segundo.
— Agora?
— Sim, se você quiser e se seus pais não se importarem.
Pergunto a eles, e meu pai me dá um olhar atravessado antes de dizer:
— Esteja em casa às onze, mocinha.
— As onze ela estará em casa, senhor. – Felipe sorri, mas meu pai não parece gostar.
Durante o caminho para a sorveteria, conversamos sobre música. Ambos amamos louvor e isso é incrível.
No carro, a tensão entre nós é palpável. O silêncio se instala por alguns minutos, mas então Felipe quebra o clima.
— Você gostou do culto hoje? – Ele pergunta, sem tirar os olhos da estrada.
— Gostei muito. Deus falou comigo. – Respondo, ainda mexida pelo que aconteceu.
— Comigo também... Principalmente na hora do louvor. – Ele sorri de canto, mas parece nervoso.
Meu coração acelera.
— Parecia que você estava cantando para mim... – Minha voz sai quase num sussurro.
Ele suspira, apertando um pouco mais o volante.
— Talvez porque eu estivesse. – Ele confessa, desviando rapidamente o olhar para mim.
Minha respiração falha. Eu não esperava essa resposta.
— Felipe...
— Isabely, eu não quero te iludir. Não quero te machucar. – Seu toom carrega muita seriedade. – Eu gosto de você, mas tenho medo de errar. Quero fazer tudo certo. Você entende isso?
Eu com certeza não estava preparada para receber as suas palavras.
Engulo em seco. Meu coração dói, mas, ao mesmo tempo, sei que ele está certo.
— Eu entendo... Mas isso não torna as coisas mais fáceis.
Ele encosta o carro em frente à sorveteria e segura minha mão.
— Eu sei. Mas eu prefiro esperar no Senhor do que te perder por causa de um erro. – Seus olhos refletem sinceridade.
Naquele momento, percebo que o amor de Felipe não era só por mim, mas, acima de tudo, por Deus.
Na volta, estamos calados. O carro está mergulhado em um silêncio pesado, carregado de emoções não ditas.
De repente, Felipe respira fundo e sua expressão muda. Seu olhar está sério, seu semblante fechado.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele segura meu rosto com delicadeza, seus dedos traçando suavemente minha pele. Seu olhar mergulha no meu, intenso, carregado de sentimentos reprimidos. E então, ele me beija.
Seus lábios tocam os meus com um misto de paixão e ternura, como se cada segundo fosse precioso, como se aquele instante carregasse tudo o que nunca foi dito. O beijo é doce, mas ao mesmo tempo, desesperado. Como se ele soubesse que, depois disso, não haveria mais volta.
Quando se afasta, seus olhos brilham, mas sua expressão rapidamente se transforma. O arrependimento se instala.
— Eu não devia ter feito isso. – Sua voz soa firme. – Esse beijo foi um erro, Isabely.
Meu coração aperta.
— Felipe, eu...
— Não. – Ele me interrompe, sua expressão carregada de raiva consigo mesmo. – Antes de pensar em namorar, preciso orar mais. Preciso ter uma estrutura espiritual e financeira. Preciso ser um homem melhor antes de ter alguém ao meu lado.
— Mas eu só quero estar com você...
Ele aperta o volante com força, respirando fundo antes de falar:
— Meu proposto era ser seu amigo. Eu queria que a gente construísse algo que fosse sólido, sem precisar errar antes. Mas agora... agora eu não sei como fazer isso sem te machucar.
As palavras dele me cortam. Eu queria contestar, mas não tenho argumentos.
Chegamos em frente à minha casa. Ele não me olha nos olhos, mas antes de eu sair, sua voz baixa me atinge como um sussurro carregado de sentimento reprimido:
— Me perdoa, Isabeli. Mas eu vou me afastar... Preciso pensar o que ou fazer diante de tudo o que eu estou sentindo.
Minhas lágrimas voltam, mas eu apenas aceno.
— Isa...
— Sabe de uma coisa, Felipe? — meu olhar estava carregado de ressentimento. — Eu preciso mesmo aprender a esperar no Senhor. - sem delongas saí do carro e entrei em casa.
E foi ali, onde eu percebi que nada era mais trágico para uma garota de 18 anos do que ter seu coração quebrado em vários pedaços.
Mas depois de hoje no boliche, tudo mudou.
Felipe foi tão cuidadoso comigo, tão respeitoso... E agora, minha mente está inquieta. Será que ele ainda sente algo? Ou será que sou eu que não consegui seguir em frente?
Meu celular vibra, e quando olho para a tela, vejo um nome que há tempos eu não via.
Felipe.
Meu coração dispara, minha mente gira. Depois de tudo, depois desses anos...
Eu atendo
— Isabely... precisamos conversar.
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