Capítulo 2

— Bely, adivinha! O Gustavo ligou! Ele disse que não conseguiu falar com você e, por isso, me ligou.

Foi a primeira coisa que minha mãe falou assim que pisei em casa.

— E ele disse o que queria?

— Não, minha filha, mas a voz dele não parecia lá essas coisas.

— Ah, que ótimo! Vou ligar pra ele e descobrir. Espero que não seja nada sério.

Eu já estava na escada quando minha mãe, com aquele tom clássico de quem está prestes a dar uma palestra, começou:

— Você sabe, minha filha, eu já te falei o que acho desse namoro. Além dele não ser cristão, ele tem um temperamento um tanto... quente, não acha?

Pelo jeito, minha mãe e minha melhor amiga estavam tramando um plano maligno só pra me tirar do sério!

Mas eu? Ignorei. Porque se eu desse corda, ela passaria a tarde toda detonando meu namorado. E, sinceramente, não era isso que eu tinha planejado para hoje.

No meu quarto, vi várias chamadas perdidas do Gus e algumas mensagens dizendo que precisava conversar comigo. Sentei na cama e liguei pra ele.

O que será que aconteceu?

Depois de alguns toques, ouvi sua voz rouca do outro lado da linha:

— Olá...

— Oi, meu bem!

— Por que você não me ligou antes, amor?

A voz dele estava tão abafada que parecia que ele tinha enfiado a cara no travesseiro.

— Eu estava na reunião dos jovens na casa da Malu. Mas me conta, o que rolou?

— Amor... eu fiz de novo.

Silêncio. Depois, um soluço.

— Eu bati nele... no meu pai.

O arrependimento na voz dele era palpável.

— Ele bateu na minha mãe e eu não consegui me controlar. Fiquei tão mal que só queria ouvir sua voz.

— Calma, meu amor, estou indo pra aí. Só tenta relaxar. Vai ficar tudo bem.

— Amor, não precisa... Eu só queria te ouvir.

— Gus, não tem discussão! Estou indo cuidar de você e pronto.

— Obrigado... Eu te amo muito.

— E eu te amo mais!

No caminho, fiquei pensando em como minha vida mudou depois que conheci o amor e a devoção que o Gustavo trouxe pra mim. Dizem que o amor é um superpoder transformador, e deve ser verdade!

O Gus apareceu quando eu estava mais fechada do que uma ostra, decidida a dar um tempo do amor. Mas ele, com todo seu carinho e amizade, me conquistou. Ser apenas amigos foi a receita perfeita pra eu me apaixonar por esse homem maravilhoso.

Lutei contra esse sentimento, mas ele me provou que o amor verdadeiro é um remédio que cura corações machucados. E o meu estava precisando! Agora, espero conseguir curar o dele também.

Nos conhecemos na faculdade, há cinco anos. Fizemos o mesmo curso de Publicidade e Propaganda e, depois que a professora nos colocou como dupla em Gestão Estratégica de Marketing, nossa amizade começou.

O Gus sempre foi comunicativo e engraçado, além de ter uma beleza de parar o trânsito! E aquele jeito todo pomposo dele? Meu coração nunca teve chance!

E agora? Agora ele é o amor da minha vida.

O Gustavo era muito mais do que deixava transparecer. Para o mundo, ele era aquele cara divertido e sorridente, mas isso era só a superfície. Lá no fundo, ele carregava cicatrizes da ausência paterna e tentava preencher esse vazio de várias formas: às vezes nas lutas, às vezes na bebida e, em alguns momentos, se aventurando com moças bonitas.

Levei um tempo para entender tudo isso. Mas, com o passar dos anos, percebi que acabei me tornando um dos refúgios dele.

Depois de caminhar por alguns minutos, me aproximei da casa do Gus, onde ele morava apenas com sua mãe, Dona Márcia. Assim que cheguei, o vi sentado no degrau da varanda, com o supercílio cortado. Meu coração apertou.

Quando me viu, ele se levantou e veio até mim, me abraçando e dando um beijinho carinhoso na bochecha.

— Chegou, minha princesa!

Ele deu um beijo no vão do meu pescoço, mas eu me afastei um pouco para olhar melhor seu rosto.

— Está doendo muito?

Ele negou com um aceno.

— E sua mãe, como está?

— Trancada no quarto. Não quer ver ninguém.

— Eu queria conversar com ela, saber como está... Mas tudo bem, temos que respeitar.

Ele suspirou, os olhos brilhando de raiva e mágoa.

— Você não tem ideia de como me machuca ver ela assim.

— Agora está tudo bem, meu amor...

— Mas se eu não tivesse chegado a tempo... — Ele fechou as mãos em punho, as veias saltando nos braços. — Eu realmente não sei o que ele poderia ter feito com ela. Eu odeio tudo isso! Eu odeio, Bely!

— Eu sei, meu amor...

Ele encostou o rosto na minha nuca, tentando controlar a respiração. Mas, nos minutos seguintes, começou a chorar, falhando miseravelmente na tentativa de segurar as lágrimas.

Eu sabia que ele precisava de um porto seguro, então apenas fiquei ali, acariciando suas costas com delicadeza.

Alguns segundos depois, ele se recompôs, limpando as lágrimas meio sem graça. Entramos em sua casa e nos sentamos no sofá da sala. Foi ali que eu vi melhor o estrago que seu pai tinha feito.

— Esse corte deve estar doendo um pouco... — Toquei seu rosto com carinho.

— Estaria mentindo se dissesse que não... Mas ter você aqui é o melhor remédio que eu poderia receber.

Ele sorriu, sempre carinhoso.

— Onde está o kit de primeiros socorros? Precisamos cuidar disso!

— Não precisa, princesa.

— Amor, deixa eu cuidar de você...

— Eu já cuidei disso. — Ele apontou para a caixinha de primeiros socorros sobre a mesa de centro. — Agora, tudo o que eu quero é você aqui, bem pertinho de mim.

Ele piscou e me puxou para mais perto.

— O seu amor é tudo o que eu preciso pra ficar bom.

Com um gesto delicado, colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.

— Eu sempre vou estar aqui pra você.

Dei um beijo leve em sua bochecha e então perguntei:

— Mas me conta... O que exatamente aconteceu? Por que seu pai bateu na sua mãe? Ele não tinha parado com essas coisas?

O pai do Gustavo sempre foi um problema ambulante. Quando aparecia, era pra causar o caos. Dependente de drogas e mestre em transformar qualquer situação num verdadeiro circo, ele deixava destruição por onde passava.

O problema é que Gustavo estava cansado de ser um peão nesse jogo triste. Ele queria mais para si, para sua mãe e, claro, para nós dois.

— Ele não tinha parado! — Gustavo disse, a raiva transbordando. — Ele prometeu mil vezes! Mas toda promessa dele é como água escorrendo entre os dedos!

Naquele momento, tive certeza: ao lado do Gustavo, eu também queria lutar. Não só pelo nosso amor, mas por uma vida onde a paz e a felicidade tivessem vez.

O amor não era só um remédio.

Era a nossa força para enfrentar tudo juntos

— Ele apareceu aqui bêbado, pedindo dinheiro. Quando minha mãe disse não... bem, você já imagina o que aconteceu. — Gus passou a mão pelos cabelos pretos, claramente frustrado. — Se eu não tivesse chegado, nem quero pensar no que poderia ter acontecido.

— Graças a Deus que não foi como da última vez, quando sua mãe acabou no hospital. Meu coração se partiu ao vê-la naquele estado!

— Nem me fale! — Ele suspirou pesadamente. — Me parte a alma saber que minha mãe sofre por causa dele... Um velho bêbado, drogado, que não quer nada com a vida. Eu queria tanto que as coisas fossem diferentes.

— Imagino o quão difícil deve ser para você, Gus... — Apertei suas mãos e olhei bem no fundo dos seus olhos. — Mas eu acredito que Jesus tem solução para tudo o que te aflige. Já te falei que Deus pode transformar você, sua família. A Palavra diz: "Se creres, será salvo tu e a tua casa." Seja um agente de mudança, acreditando e servindo de coração. Tenho certeza de que Ele pode trazer paz e alegria para vocês.

Ele sorriu de leve e apertou minha mão.

— Você é tão preciosa, meu amor. Não sei o que fiz para merecer você. Suas palavras são lindas, mas você sabe que a coisa é bem mais complicada para mim. Eu não consigo acreditar em algo que não vejo...

Minhas sobrancelhas se ergueram. Como ele podia não acreditar em Deus? Isso era um absurdo!

— Eu realmente não entendo como você pode achar que isso faz sentido! — Cruzei os braços, indignada.

— Aí está mais um motivo pelo qual muita gente não gosta do Gustavo: ele se diz ateu. Mas não posso julgá-lo... Porque, às vezes, nem eu mesma gosto dele, principalmente quando ele entra nesse assunto.

— Olha, amor, eu prometo que vou pensar nisso com calma, tá bom? Mas, por favor, vamos evitar brigar por isso?

Bufei, ainda irritada. Mas foi aí que ele me puxou e me envolveu nos seus braços, depositando um beijinho carinhoso na minha bochecha.

— Vamos, desfaz esse biquinho! Sei que você não consegue ficar brava por muito tempo.

— Se eu fosse você, não contaria muito com isso, senhor Gustavo! Eu sou bem durona!

— É mesmo? — Ele ergueu uma sobrancelha com um olhar desafiador.

E foi aí que eu soube...

— Ah, cosquinha não! — gritei, mas era tarde demais.

Nos próximos segundos, ele me atacou com cócegas, me fazendo gargalhar como uma criança. Depois desse momento absurdamente imaturo, ele parou e me olhou de um jeito tão intenso que meu coração quase saltou pela boca.

Sem pensar muito, ele encostou os lábios nos meus, e eu cedi, me deixando levar. Seus beijos eram minha fraqueza, e naquele momento tudo o que eu queria era ficar ali, presa naquele instante. Mas então, como um alarme na minha consciência, lembrei das palavras de Deus:

"Jovens, sois fortes, pois já vencestes o maligno."

"Fuja da imoralidade sexual."

"Sede santos, como eu sou santo!"

Só então me afastei, respirando fundo.

— O que foi? — Ele me olhou, confuso.

— Você sabe muito bem.

Ele passou a língua pelos lábios e sorriu de lado.

— Sei, mas acho isso uma grande bobeira. Eu te amo, você sabe disso, né? E também sei que você gosta...

Revirei os olhos, resistindo à vontade de dar um tapa nele.

— Às vezes, você é um idiota, sabia?

— Desde que você me ame, não vejo problema nisso. — Ele piscou, divertido.

— Você me tira do sério com essa conversa! — Levei as mãos ao rosto, tentando conter o riso.

— Eu também fico irritado quando você foge dos meus carinhos...

— O problema é que os seus carinhos me fazem pecar contra Deus. E, a propósito, você nem acredita Nele.

A expressão dele se fechou por um instante. Depois de um longo suspiro, respondeu:

— Olha, eu não quero te pressionar. Eu realmente te amo. Se isso te machuca, eu prometo respeitar. De verdade, prometo me controlar, porque não quero te perder.

Meus olhos se suavizaram. Ele realmente parecia sincero.

— Eu também não quero te perder, Gustavo. Mas eu preciso seguir o que acredito.

— E eu respeito isso. — Ele me puxou para um último abraço, apertado e reconfortante.

Sorri e dei um beijinho rápido em sua bochecha.

— Agora eu vou indo! As meninas me esperam, e eu ainda quero estudar um pouco antes de sair.

Ele fez um bico fingindo estar chateado.

— É sério que você vai me deixar aqui sozinho para sair com suas amiguinhas?

— Pois é, senhor Gustavo! As meninas me esperam e...

Antes que eu pudesse terminar a frase, ele me puxou de volta, me fazendo tropeçar ligeiramente.

— Espera! Eu sou só um garoto abandonado, e você vai mesmo me deixar aqui?

Revirei os olhos, mas ri da sua expressão de cachorro pidão.

— Calma! A gente se vê depois, rapazinho.

— Se eu tiver que passar a tarde sem você, pelo menos quero saber todos os detalhes depois! — Ele piscou, brincalhão.

— Pode deixar! Trago todas as fofocas quentes! — Lancei um sorriso antes de sair.

Enquanto me afastava, não pude evitar pensar que, apesar de todos os desafios, nossa história ainda tinha muitas páginas para serem escritas. 

 Como eu amo esse homem, meu Deus! Por favor, me ajude a resistir. E que eu possa conquistá-lo para Ti. — peço a Deus enquanto caminho. 

Chego em casa e vejo que há algumas mensagens da Vivi no meu celular.

— Como eu amo esse homem, meu Deus! Por favor, me ajude a resistir. E que eu possa conquistá-lo para Ti. — peço a Deus enquanto caminho. Chego em casa e vejo que há algumas mensagens da Vivi no meu celular.

Bely, hoje às 20:00 vamos ao boliche no shopping. Você não pode faltar! Obs: Qualquer coisa, o Felipe vai te buscar.

Ah não, o Felipe? Justo ele? Você deve estar se perguntando quem é esse tal de Felipe. Sabe quando eu disse que o Gustavo me ajudou quando meu coração estava quebrado? Pois é, meus amigos. Quem quebrou esse coraçãozinho aqui foi justamente o bendito do Felipe! E, por mais que eu queira excluí-lo da minha vida, ele faz parte do meu grupo de amigos. Mas é claro que eu não vou deixar de sair com os meus amigos por causa dele. O Felipe não significa nada para mim! Apesar disso, faço uma oração rápida antes de encontrá-lo:

"Deus, guarde meu coração desse traste!"

A noite chega e, conforme o combinado, Felipe aparece na minha porta, com uma expressão calma e séria. Diferente do jeito brincalhão que costuma usar para disfarçar o peso da vida, hoje ele parece mais centrado.

— Oi, Isabele. Está pronta? — ele pergunta, sem exageros, mas com um olhar sincero.

— Claro, só espero que você não me faça passar vergonha no boliche! — brinco, tentando manter a leveza da situação.

Ele sorri, mas não responde de imediato. Apenas abre a porta do carro para mim, como se estivesse fazendo questão de demonstrar que, apesar do que houve entre nós, ainda me respeita. No caminho até o shopping, o silêncio paira por alguns momentos, até que ele resolve falar.

— Sabe, Bely, eu sei que você guarda muita mágoa de mim, e não te culpo. Eu sei que errei com você  mas hoje tento ser um homem melhor. Eu quero seguir a Deus, fazer o que é certo. Sei que não posso mudar o que aconteceu entre a gente, mas posso te dizer que nunca quis te machucar. — Ele mantém o olhar fixo na estrada, mas sua voz carrega uma verdade que me atinge em cheio.

Eu fico sem palavras. No fundo, sempre soube que Felipe era diferente. Ele não era só mais um cara qualquer. Ele era um crente de verdade, alguém que levava sua fé a sério. E, apesar da raiva que ainda queimava dentro de mim, eu não podia negar: eu o admirava por isso.

— Engraçado, né? Você nem parece o mesmo Felipe que partiu meu coração sem pensar duas vezes. — minha voz sai com um misto de ironia e dor.

Ele suspira, e resmunga, enquanto mantem o olhar na estrada.

— Eu sei que te machuquei. E sei que nada do que eu disser pode apagar isso. Mas eu era muito jovem e você também  Bely. De verdade eu me arrependo do que fiz. — sua voz é baixa, carregada de sinceridade.

Cruzo os braços, tentando conter a mistura de emoções dentro de mim.

Eu queria brigar com ele, não estava nem ai se ele queria ser um  homem melhor ou não.

— Sabe o que é curioso? Já estivemos assim antes... Só que, da última vez, eu não me sentia tão dividida entre te odiar e te admirar ao mesmo tempo. — admito, com um suspiro. 

Felipe lança um olhar rápido para mim, surpreso. Eu nunca havia dito algo assim antes.

 De repente me sinto um pouco arrependida.

— Olha, eu não vou mentir... Eu admiro muito sua fé. Você realmente mudou, e eu vejo isso. Só não sei se consigo esquecer o que passou. — minha voz está mais suave agora, menos defensiva, mas ainda cheia de incertezas.

Ele assente lentamente, respeitando meu espaço.

— Eu não espero que esqueça. Mas espero que um dia, quando olhar para mim, veja além do cara que te machucou. — ele diz, sincero.

Respiro fundo, desviando o olhar para a janela.

— Felipe, eu superei. Eu segui em frente. Só estou aqui porque são nossos amigos em comum, então não confunda as coisas. — digo, tentando me convencer da mesma coisa.

Pouco depois, chegamos ao boliche e encontramos o restante do grupo. Enquanto todos riem e se divertem, minha mente continua dividida. Parte de mim ainda se sente ferida pelo que Felipe fez, mas outra parte não consegue ignorar o homem que ele está se tornando. E, no meio disso tudo, meu coração ainda bate por Gustavo.

"Deus, me ajude a entender tudo isso."

Respiro fundo e tento me concentrar no jogo. Mas sei que essa noite ainda vai me trazer muitas respostas que eu não estava preparada para encarar.

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