23. Alianças Essenciais

Não é irônico que nós, filhos de lume, sejamos tão preciosos pelo nosso sangue mágico, mas, ao mesmo tempo, recebamos um tratamento tão precário nesta prisão?

Digo isso, pois, após o meu desmaio, grande parte dos guardas simplesmente me ignorou, como se um desmaio não fosse algo que devesse ser investigado — sim, estou me fazendo de sonsa. O real motivo por eu estar brava é que eu queria que, sei lá, elas me levassem para algum tipo de enfermaria, para que, além de conhecer melhor essa instalação, eu buscasse brechas que me permitissem fugir.

Mas é contraditório que no momento em que eles viram que eu havia acordado e estava consciente, pararam de se importar. Quase como se fossem programados para serem o mais frios possíveis com nós que temos sangue mágico. O porquê eu já imagino.

Filhos de lume possuem um alto poder de atração, é quase impossível não gostar deles. Uma conversa profunda, um conselho dado na hora certa e até mesmo uma piada despretensiosa são o suficiente para ganhar a simpatia de qualquer um, e esses guardas daqui não estão isentos ao nosso poder. Acredito que seja por isso que eles tenham recebido ordens, ou até um treinamento intensivo, para permanecerem o mais distantes de nós.

O mais confuso para mim é que agora que eu sei que sou uma filha de lume — estou tentando não pensar muito nesse tópico para não ter uma crise existencial e pirar mais ainda aqui dentro. Só quero pensar nesse assunto quando eu estiver de volta à cidade grande, com acesso à terapia e a skin care — é que eu não sei se o que Raul e eu tivemos foi uma aproximação de verdade.

Quero dizer, eu estou apaixonada por ele. E ele por mim, eu acho. Mas... esse sentimento é genuíno? Nasceu de onde? De nós dois? Das ordens diretas de Aura, Edgar e Xavier? Do nosso poder de atração mágico? EU NÃO SEI. E EU QUERO SABER. Mas o grande ponto da vida é esse: nem sempre teremos todas as respostas e, às vezes, nós simplesmente não teremos resposta nenhuma.

Ai, eu preciso sair desse buraco logo!

— Mas e aí, novata — diz um cara baixinho e musculoso —, qual é a sua história? Como você veio parar aqui?

O que é isso? Estou me enturmando por causa de um desmaio?

— Não precisa ficar com vergonha, qualquer um passa mal quando experimenta essa comida nojenta daqui pela primeira vez — fala uma menina alta, esganiçada, de cabelo rosado e queixo pontudo. — Na minha vez, eu passei a madrugada em claro no banheiro.

— Você tem a pele tão bem cuidada, quais produtos você usa? — questiona um carinha gorducho à minha frente, constantemente ajustando os óculos na face, que não param de cair do seu nariz oleoso.

— Pessoal, maneirem nas perguntas — diz um homem de longos cabelos castanhos e postura impecável, surgindo atrás de mim. — A pobre moça acabou de desmaiar. Ainda deve estar processando o primeiro dia dela aqui, que, como vocês todos sabem, costuma ser bem assustador.

O homem olha para mim e ri. Retribuo o sorriso, simpática.

— Eu me chamo Armando — se apresenta ele. — O musculoso é o Tom, a de cabelo rosa é a Mari e o baixinho é o Isaac.

— É um prazer conhecer vocês — digo baixinho, com um aceno tímido. Acho que desaprendi a fazer amigos, me sinto acanhada e nunca fui assim. — Me chamo Eva.

— Olá, Eva — dizem todos sorridentes em uníssono.

— Há quanto tempo estão aqui? — indago, curiosa, vendo todos com a atenção fixa a mim. — Quer dizer, dá para saber quanto tempo passa aqui nesse buraco?

Eles riem.

— Não, não dá — responde Tom. — Como não temos acesso à luz do dia, fica impossível saber quando amanhece ou anoitece.

— No começo eu ficava agoniado, mas, depois de um tempo, eu me acostumei a não saber mais do tempo — comenta Isaac, rindo.

— Olha, finalmente outra garota veio para se juntar ao grupo, não que não tenha outras garotas aqui, mas todas costumam me achar meio estranha para fazer amizade, então eu espero que você fique no grupo e a gente possa fofocar sobre os babados que rolam por aqui — tagarela Mari enquanto mastiga a massa esbranquiçada nojenta.

— E que tipo de babados que rolam por aqui? — questiono, vendo em Mari uma oportunidade de extrair informações sobre essa pocilga.

— Ah, às vezes alguns guardas se pegam em frente às portas das celas e dá para ouvir — revela Mari.

— Semana passada, a guarda Barreira e o guarda Rojas estavam se pegando em frente à minha cela — comenta Armando, chamando a minha atenção com uma cotovelada leve. — Era tão alto que dava para ouvir os gemidos. Uma tortura!

Não consigo prender a risada com a cara que ele faz.

— Vocês são muito legais — afirmo sorridente. — Não pensei que fosse me divertir aqui. Desde que eu acordei tem sido tudo tão conturbado...

— Nada fora do comum — diz Armando. — Todos nós meio que fomos trazidos para cá da mesma forma. Violentamente.

— É... mas, não sei, fui muito manipulada — revelo. — Eles brincaram com meus sentimentos, assim como os sentimentos de um outro filho de lume.

— Quem é? Ele está aqui também, não está? — indaga Isaac, me encarando com olhos arregalados.

— Não... — respondo. — Ele é filho dos donos disso tudo aqui. Raul Cadente. Por acaso vocês o conhecem?

A feição dos quatro assumem um quê de espanto que mostra que eles sabem de alguma informação importante.

— O que? Do que vocês sabem que eu não sei?

— Eva... — começa Armando, hesitante. — É complicado.

— Ai, amiga, eu fico até sem graça de te contar — ecoa Mari.

Faço uma cara feia.

— Hoje nada mais me abala, nada! — digo, séria. — Se vocês soubessem todas as atrocidades que eu vivi hoje, não estariam nem um pouco receosos de me contar o que quer que seja.

Há uma pausa. Um breve momento silencioso em que consigo assistir às trocas de olhares entre os quatro indivíduos sentados à mesa comigo. Confesso que começo a sentir minha paciência se esvair.

— Eva... É... — começa Armando. — Eu não sei nem como descrever em palavras o que eu tenho a te contar sobre o Raul.

— Pelo amor de Deus! — exclamo, impaciente. — Falem de uma vez. O que tem o Raul?

— É ele quem coordena os processos de coleta de sangue — diz Mari, levando as mãos à boca de imediato.

Não entendo de primeira, só então me lembro de todo o processo de utilização de sangue mágico dos filhos de lume.

— A cada três meses, nós somos levados a uma sala de coleta, onde Raul coordena a coleta do nosso sangue — fala Armando enfim.

— Em alguns dias eles coletarão o seu também — diz Isaac, trêmulo. — Sangue fresco é tudo que eles querem.

Sinto uma abrupta ânsia de vômito.

Quero chorar, quero correr, pois sei, mais uma vez, que estou presa em uma bifurcação. Como saber se essa ação é designada pelo Raul verdadeiro ou pelo Raul que cumpre ordens dos Cadente? Pelo que eu sei, poderia ser eu no lugar dele, e isso me assusta.

Uma lágrima surge no canto do meu olho, eu a enxugo antes de revelar a minha proposta aos meus novos colegas de concentração.

— Eu queria compartilhar algo com vocês, porque sinto que posso confiar em vocês...

— Mas só nos conhece há dez minutos — diz Tom, me fitando claramente assustado. — Seus filtros de relacionamento são bem ruins, hein.

Deixo um sorriso surgir em meu rosto, mas rapidamente o contenho para revelar minha proposta.

— Quero iniciar uma rebelião.

Todos arregalam os olhos silenciosamente.

— E preciso que me ajudem. E guardem segredo, pois há grandes chances de dar certo.

Tudo bem, eu estou mentindo. Não há grandes chances de nada. Mas é melhor tentar ser livre do que morrer sem tentar.

— Não podemos viver presos aqui deixando que esses vampiros suguem todo o nosso sangue mágico — argumento, séria. — O sangue mágico que nossa mãe, Mavetorã Lume, nos deu.

Todos continuam quietos. Até suas expressões faciais parecem congeladas, escondendo qualquer pista acerca dos pensamentos que percorrem seus cérebros.

— Há chances de que alguém saia morto nessa rebelião? — questiona Armando, mudando seu tom de voz. Soa mais sério. Protetor, como uma espécie de líder.

— É provável que sim — assinto com um balançar de cabeça. — Quem gerencia isso aqui é podre de rico. Esses guardas devem ter acesso às melhores armas do mundo.

— E como você pode dizer que temos uma chance? — indaga Mari, me observando com um misto de medo e esperança.

— Tenho uma arma secreta, que ninguém conhece — digo.

Tom gargalha, me olhando como se eu fosse uma boba.

— Até deles? Ah, garota. Eles sabem tudo a seu respeito, eles, inclusive, podem ordenar que você repita o que ouviu nesta conversa. Não há segurança para nós. Somos livros abertos para quaisquer um deles lerem quando e onde quiserem.

A última parte da fala de Tom me atinge de um jeito doloroso. Porque ele está certo. Somos reféns da nossa própria existência.

É engraçado, né.

Crescemos querendo ser livres, mas, conforme amadurecemos, percebemos que somos prisioneiros de nossos medos, pensamentos e, no meu caso, da minha origem. Um diadema me controla. Uau! Que desfecho brilhante o destino preparou para mim e para todos esses pobres coitados que estão aqui presos comigo.

E então eu percebo algo que não tinha percebido antes. Uma das partes do quebra-cabeça estava praticamente montada bem debaixo do meu nariz e eu não havia me dado conta.

Somos muitos, eles, poucos.

É impossível que eles consigam controlar todos os filhos de lume presos aqui de uma única vez, caso haja alguma rebelião. Eles podem, sim, ser capazes de controlar meia-dúzia e até usá-los para tentar deter os revoltosos, porém nunca conseguirão conter um grupo de filhos de lume enfurecidos.

Já disse que amo meus neurônios hoje? Se não, deixo aqui minha declaração pública de amor a essas brilhantes células do meu sistema nervoso.

Talvez eu esteja sendo precipitada. Ai, a quem eu quero enganar, eu estou, sim, sendo precipitada ao confiar um plano tão bom de fuga a quatro indivíduos que eu nunca nem vi na vida. Mas eu tenho de confiar em alguém e foram eles os enviados pelo universo.

Quando eu estudei química no ensino médio, um dos assuntos de que eu mais gostava era o das vitaminas. E, não ironicamente, existe um tópico que se encaixa perfeitamente no atual momento da minha existência terrena: vitaminas essenciais, que são aquelas que nosso corpo precisa para sobreviver, mas que, infelizmente, ele não consegue produzir. Precisa extrair de outras fontes.

O mesmo acontece com os aliados — e também os amigos — visto que é impossível produzi-los a partir de partenogênese. São pessoas de diferentes lugares, gostos e opiniões cuja existência colabora para uma vida mais saudável e divertida. Eu jamais teria chegado até aqui, lúcida e consciente, sem o auxílio de Anna, por exemplo, e o mesmo parece estar se aplicando a Armando, Isaac, Mari e Tom. Pelo que estou vendo, eles serão os primeiros integrantes do meu grupo de rebeldes cujo nome eu ainda não sei.

Tudo o que eu sei é que eu preciso dar o fora dessa prisão ilegal para seres de sangue mágico para impedir que os Cadente e cia destruam o mundo. O nosso mundo. Aquele ao qual temos direito de usufruir. Não é porque não fomos feitos natural ou artificialmente que não merecemos o direito à liberdade.

Merecemos isso, até mais do que eles, que usam o poder que têm para ir contra a existência de minorias. Já fomos livres uma vez, e eu prometo a mim mesma que serei livre novamente. Pode não ser hoje, tampouco amanhã, mas um dia.

Eu só preciso turbinar mais o plano de ataque e esperar pela minha adaga. Ah, e também me lembrar de que há uma câmera de segurança no meu quatro me vigiando vinte e quatro horas por dia, então não posso dar bobeira.

Não posso errar!

Não quero errar!

Não vou errar!

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