20. Movimentações Explícitas
"Se você entregar o conteúdo desse vídeo ao Marco, e ele não for cúmplice, não acha que isso pode abalar a amizade dele com o Raul?"
Droga!
Gostaria que essa fala de Mavetorã não tivesse ficado na minha cabeça. Mas ficou e está ecoando lá até agora... Estou considerando os sentimentos de Raul e pensando no impacto que a informação que eu tenho pode causar — não que eu esteja pensando em desistir de fazer a denúncia, eu só quero avisá-lo antes. Para que esteja preparado.
Ele, aparentemente, já não anda muito bem. Tenho medo que seu estado piore com uma bomba dessas caindo assim, de repente, em seu colo. Isso considerando que ele não sabe nada a respeito dessa tramoia orquestrada pelos pais maus-caracteres dele — pelo menos é nisso que eu quero acreditar...
Encontro-me deitada, quase paralisada, encarando o teto faz uns quinze minutos. A única coisa que fiz, desde que cheguei, foi tomar um banho quente, eu estava precisando lavar os sentimentos destrutivos cultivados em meu corpo nesses últimos dias. Nunca pensei que a habilidade de pensar pudesse ser minha maior inimiga em momentos decisivos, mas... Raul... a remota possibilidade de ele ser um filho de lume mexe comigo de uma forma estranha, quase pessoal.
Acredito que porque, mesmo tendo ficado presa em um colégio interno durante anos, eu sempre fui "livre". Meus pais nunca estiveram presentes nessa fase mais racional da minha vida, tampouco outro parente ou figura de autoridade, então todas as minhas decisões eram — e ainda são — pautadas no meu querer. Não consigo cogitar ser controlada por alguém, como pode vir a acontecer com os filhos de lume, caso seus progenitores tenham uma índole tirana — que é o que aparenta ser o caso de Aura e Edgar Cadente.
...
Agora, aqui pensando, todo aquele papo sobre não se sentir dono das próprias ações faz sentido. No dia, eu não entendi, mas agora, ligando os pontos...
"Às vezes, eu me sinto meio... não sei... como se eu estivesse vivendo no piloto automático, sabe? Como se minhas ações não fossem totalmente conscientes, mesmo que sejam feitas por mim."
"É estranho, né... Meio nauseante e angustiante. Só que, ontem, quando eu fui te beijar... Eu... Eu não sei, foi como se, pela primeira vez, eu estivesse agindo por mim."
Ah, Raul... Será que esse tempo todo você estava tentando me dizer algo? Pedir minha ajuda, talvez?
Queria entender todo esse mistério de uma vez por todas. Nunca fui boa com charadas, enigmas, profecias nem nada do tipo, então fico me sentindo a pessoa mais burra do mundo em momentos como este.
— Eva, por que você não liga para ele? — diz Mavetorã em voz alta, inquieta. Ela tem estado inquieta desde que voltamos da casa dos Cadente. — Talvez ele já esteja se sentindo melhor. Ou, não sei.
Estar diante da possibilidade de encontrar um filho a quem tanto ama e se preocupa, como é o caso da entidade aflita à minha frente, não deve ser fácil. Se eu estou preocupada, quem dirá ela que é, de certa forma, mãe dele?
— Tenho medo de ligar e Aura atender — revelo, também me sentindo angustiada com a situação de Raul. — Eu nem sei se ela sabe que o filho dela e eu estamos nos conhecendo melhor. Imagina se ela não sabe e pega uma ligação minha no telefone dele?
Mavetorã grita e esmurra, sem efeito, os móveis do meu quarto, o que deve causar o dobro de irritação. Imagina estar triste ou com raiva e não poder dar um murro no travesseiro, ou chutar o guarda-roupa? Eu não aguentaria.
— Ai que vontade de mandar uma chuva de granizos direto para aquela casa — berra Mavetorã, flutuando de um lado para o outro.
— EI — falo, em alerta. — Nem pensa nisso. Você sabe como seus poderes perdem o controle no plano material.
— Eu sei, Eva, não precisa ficar me lembrando disso — rebate. — Além do mais, eu não quero machucar o Raul... Se ele puder mesmo ser meu filho, quero ajudá-lo.
Respiro fundo.
— E nós vamos, Mave — asseguro. — Prometo que vou até o fim desse mistério. Vou, inclusive, mandar uma mensagem para ele, é bem mais seguro do que ligar.
Quando deixamos a casa dos Cadente era finzinho de tarde, por volta das cinco horas; agora, já está de noite, quase oito. Seria demais querer que ele tenha melhorado em um estalar de dedos?
Logo após anunciar que enviei a mensagem, uma densa onda de ansiedade invade meu quarto, como se Mavetorã e eu estivéssemos à espera de qualquer notificação em meu telefone. Uma resposta.
Cinco minutos se passam.
Piscamos o olho e lá se vão dez.
Logo mais, quinze.
— Chega! — falo, me levantando bruscamente. — Vou até a cozinha pegar algo para comer. Se eu ficar esperando essa mensagem chegar, ansiosa e com fome, eu vou ter um treco.
— Pode ir então, e deixa o celular aqui — diz Mavetorã, tão vidrada ao aparelho quanto eu segundos antes. — Eu fico e vigio. Se houver qualquer sinal, eu berro por você.
Assinto com um "uhum" desanimado e me arrasto lentamente até a cozinha. Estranhamente, estou com uma vontade imensa de comer coxinha de carne de jaca, um salgado que não como há tempos, porque só conheço um lugar em específico que vende: o refeitório lá do colégio interno.
Enquanto caminho pelos corredores, porém, tenho minha atenção fisgada por um brilho azulado que vem do quarto de tia Susana, cuja porta está entreaberta.
Seria errado entrar no quarto dela sem permissão? Sim.
Vou entrar no quarto dela sem permissão? Claro que vou!
Aproximo-me devagar, temendo que ela esteja em casa e eu não tenha percebido, visto que passei um tempão trancada em meu quarto. Mas eu acho que a teria ouvido chegar, ela costuma ser meio barulhenta às vezes, principalmente quando vem da aula de dança.
A luz está apagada, mas algo brilhoso, tipo uma luminária, está iluminando tudo sem fazer esforço algum. O brilho vem de sua estante de livros recém-polida, e lembro que a faxineira veio aqui há uns dois dias só pra limpar o quarto dela, já que ela tem rinite alérgica e não pode entrar em contato com poeira.
É um livro que está brilhando.
E logo chama a minha atenção, porque livros não brilham!
Mas, antes de pegá-lo para ler sua sinopse e saber do que se trata, decido admirar seu brilho hipnotizante — e super calmante, já que aniquila toda a minha apreensão — por alguns instantes. Sinto-me atraída pela luz que emana dele, e começo a ouvir bem baixinho um som que remeto ao quebrar das ondas.
Mas o momento não dura — e ainda bem, porque eu já estava quase babando de tão relaxada que fiquei — pois Mavetorã berra por mim. Literalmente.
Recomponho-me e adiciono um lembrete mental de voltar mais tarde, ou amanhã quando minha tia não estiver em casa, para checar o conteúdo deste livro que brilha.
Agora, no entanto, eu preciso ver o que Mavetorã quer.
— Ele respondeu! — diz ela, quando volto ao meu quarto.
Rapidamente, pego meu telefone e leio a mensagem.
Travo.
Leio outra vez.
— Vai, desembucha, ele está bem?
— Sim... — respondo, meio incrédula —, e quer me encontrar. Agora. No iate da família dele, lá no cais.
— Você vai?
— Eu não sei? — respondo, quase entrando em pânico. — Quais as chances de ser uma armadilha? E se Aura descobriu que eu estive na casa dela? E se ela estiver lá e, sei lá, decidir atirar em mim?
Mavetorã me envia um olhar fuzilante.
— Você sabe que eu vou estar ao seu lado, né.
— Vai?
— Óbvio, porque você vai levar a estátua, e, se algo fora do normal acontecer, eu uso meus poderes.
— Os poderes que você não controla em uma possível cena de sequestro? — falo em voz alta. — Isso não me parece nada seguro.
— Mas é o que temos para hoje à noite — retruca Mavetorã. — Agora, responde à mensagem confirmando e lembre-se de fazer uma cópia do vídeo.
Assinto. Preciso confiar nos poderes dela, pois nela eu já confio.
Respondo à mensagem, confirmando que chegarei ao local em trinta minutos. Em seguida, duplico o vídeo, enviando-o para a nuvem e, para fechar com chave de ouro, programo um e-mail para Marco, com o vídeo anexado, para ser enviado à meia-noite. Foi fácil achar o e-mail dele, só precisei entrar em seu perfil do Instagram. É incrível como dá para saber tudo sobre todo mundo somente entrando nas redes sociais.
Se me sequestrarem ou tentarem invadir a minha casa (preciso parar de assistir a séries criminais antes de dormir) estarei preparada. Seja lá o que Raul quer falar comigo, nós, ele ou o acontecido de hoje à tarde, quero estar preparada para tudo.
— Eva, por que está colocando essa adaga na bolsa? — indaga Mavetorã, assustada. Nunca a vi com os olhos tão arregalados antes, nem sabia que espíritos podiam fazer isso. Irado!
Sou fã de livros de fantasia envolvendo príncipes revoltados que se transformam em monstros para proteger seu povo, seu legado e sua pessoa amada. Essas adagas são lembrancinhas distribuídas em eventos organizados pelos fãs obcecados das sagas.
— Coisa minha, deixa quieto — respondo, sucinta. — Vamos!
***
Chego ao cais; está deserto. É estranho ver este lugar vazio.
Em contrapartida, demoro a encontrar um lugar para estacionar, o que me rende uns dez minutos de atraso. Mas nada que tenha deixado Raul preocupado, visto que ele não mandou mensagem nem ligou.
Caminho, em alerta, rumo ao iate. Não sei como são os índices de assalto nesta cidade, mas já deixei Mavetorã avisada que se eu gritar a palavra "socorro", ela deve aparecer para me socorrer. De preferência, congelando ou atingindo com um raio a pessoa que esteja tentando me roubar, sequestrar ou até mesmo matar.
Está frio, então fiz bem em vestir uma jaqueta.
Meu estômago, pelo visto, também está com frio, pois consigo senti-lo dar cambalhotas sinistras. Uma mistura de medo e ansiedade e vontade de gritar no meio da rua o mais alto que minhas pregas vocais permitem.
Ao longe, consigo enxergá-lo do alto.
Ele acena e sorri. Que inferno, por que ele tem de ter esse sorriso charmoso, estampado em uma cara tão bonita e grudada em um corpo tão excitante.
Vê-lo bem, de pé, com uma face corada, me acalma. Droga, estou gostando mesmo dele, né.
— Bem-vinda ao iate d'amour, senhorita Fleur — diz ele, cordial, com uma reverência exageradamente pomposa.
Acho fofo, embora minha expressão facial indique o contrário; preciso derrubar essa personalidade defensiva que criei para o meu eu dos relacionamentos. Não é como se todo mundo fosse quebrar meu coração, é super possível terminar um relacionamento, caso ele não esteja mais fluindo, de forma amigável. Eu só preciso fazer minha mente entender isso!
Quando subo mais os degraus e tenho uma visão mais ampla do convés da embarcação, sou tomada pela surpresa: há, em cima de um lençol dourado, vinhos, uvas, queijos, pães, salgados e mais um monte de aperitivos atenciosamente organizados para mim.
Meu rosto rapidamente se converte em uma feição de encanto, não consigo esconder o quanto gostei e isso fica claro para Raul, que respira aliviado, antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.
— Eu achei que deveria ser grato... por hoje à tarde...
Sobressalto-me, sentindo uma pontada no peito. Ele lembra!
— Vo-você o quê? — ecoo.
Podre! Sou péssima em improvisos sob pressão.
— Eu lembro da sua voz falando comigo quando eu estava quase inconsciente — revela, com um sorriso de gratidão brilhoso em seu rosto. — Obrigado por ter evitado que eu me machucasse.
— Hã... De nada? Eu acho.
— Sou grato, mesmo que eu não saiba como você aguentou meu peso, já que eu tenho o dobro do seu tamanho, nem como entrou e saiu da minha casa sem que minha mãe percebesse.
— A resposta para ambas ficará no ar, um mistério — digo, me tocando de que não tem como ele ou Aura saberem sobre Mavetorã, a não ser que eu conte e certamente eu não vou contar.
Ele ri.
— Adoro um bom mistério!
— Sei que sim — falo, um tanto ríspida. — Você, por exemplo, é um mistério para mim quando se trata desse episódio do desmaio. O que aconteceu, Raul? Você falava em sangue.
Ele serra os dentes e desvia o olhar. Logo fica claro que Raul não quer tocar no assunto. Eu, no entanto, quero tocar muito no assunto.
— Me fala a verdade — peço. — Seus pais controlam você?
Ele abre a boca algumas vezes para falar, mas desiste antes mesmo de emitir algum som. É angustiante de assistir.
— Não quero tocar nesse assunto — responde, sério. — Não podemos focar só no vinho e nos aperitivos?
Fuzilo-o com o olhar, deixando claro que sei bem o que ele está fazendo: mudando o foco da conversa. Mas tento ser compreensiva. Quero respostas, mas não a qualquer custo. Além disso, não sei o que ser um filho de lume implica. Será que se ele tocar no assunto ele explode ou, sei lá, vira um rabanete?
Suspiro, pesarosa, antes de aceitar uma taça de vinho.
Mas não sou idiota, então checo se a taça está limpa e peço que ele dê o primeiro gole na bebida antes de mim.
Eu, hein!
Vai saber se Aura não está controlando ele para que "me faça cair em alguma armadilha". Posso ter muitos defeitos, mas burra eu não sou.
— Eu gosto de você, Raul — falo primeiro, quebrando o gelo que se instaurou após a minha pergunta direta —, mas temo que você não seja bem quem diz que é.
Ele suspira pesadamente antes de levar seus belos olhos verdes ao encontro dos meus.
— Eu juro que queria ser mais aberto quanto à minha família, tem tanta coisa que eu gostaria de te contar, Eva... Mas não posso — diz. — Tudo isso é muito maior do que eu.
De imediato, eu me lembro das palavras da mãe dele.
"Vai valer a pena, filho. Eu prometo."
O silêncio volta a reinar, mas não é ruim desta vez. O contato visual acaba sendo potencializado pelas conversas implícitas que não estamos tendo com os olhos, mesmo que devamos tê-las.
— Não me olhe assim... — digo, alguns minutos depois.
— Assim como? — questiona ele cinicamente.
— Com esses olhos compreensíveis, que aparentam ser capazes de entender até os meus medos mais profundos...
Ele se espanta, mas é um espanto de admiração, do tipo bom, sabe. Não acredito que estou elevando o ego de Raul Cadente a essa hora da noite.
Ele consegue minha atenção no momento em que põe a taça no chão, a uma distância segura. Congelo momentaneamente, mas recobro a consciência quando o vejo se esgueirar até mim. Quando sua mão caminha pela minha bochecha, em direção aos meus cabelos, e seu lábio quente toca os meus (nossa!), eu me sinto mais acordada do que nunca.
Enquanto nossas línguas se enroscam como em um tango ardente, eu me permito sentir todo o calor produzido pelo meu corpo, deixando que ele invada violentamente cada uma das minhas terminações nervosas.
Sem que eu espere, Raul me levanta delicadamente com as mãos, em busca de uma posição confortável para se sentar e, só então, me puxa com tudo para o seu colo. Neste momento, nosso beijo é interrompido, e eu consigo visualizar com clareza a sua feição maliciosa me encarando, me querendo e me tendo em seus braços.
Não posso culpar o vinho, pois só tomei uma taça e isso não é o suficiente para me embebedar. O nome disso é tesão acumulado, de ambas as partes. Eu o quero, ele me quer, só o que estava faltando era mais confiança — novamente, de ambas as partes. Por favor, Mavetorã, esteja dormindo e não atrapalhe nosso momento.
Mas não quero continuar o que quer que estejamos fazendo aqui, ao ar livre. É exposição demais.
— Raul... — interrompo o beijo e, logo em seguida, sou interrompida por ele.
— Eu sei, privacidade e segurança — fala rapidamente, me afastando devagar e segurando minha mão. — Vem comigo.
Ele me guia, eufórico, por uma área do iate, onde há uma porta. Provavelmente um mini quarto. Nem sequer me surpreendo, por que eu ficaria surpresa com o fato de uma família rica ter um veículo equipado com cômodos, móveis e equipamentos modernos?
Carrego minha bolsa junto, pois, mesmo desejando que Mavetorã esteja em coma nesse momento, não vou deixá-la largada em qualquer parte do barco.
Raul abre a porta e enfim entramos no cômodo. Não é grande, mas é aconchegante o suficiente para transarmos em segurança. Ele com certeza estava esperando mais por esse momento do que eu, pois, antes mesmo que eu me desse conta, a porta estava fechada, e seu sapato e sua camisa já tinham voado para um canto aleatório do quarto.
Conforme voltamos a nos beijar, eu o vejo tirar uma camisinha do bolso, o que me tranquiliza, então permito que ele me auxilie a tirar minha jaqueta, em seguida minha blusa, depois minha saia e daí em diante, até que estejamos apenas com as roupas íntimas à mostra.
Por ser mais robusto do que eu, Raul tem uma facilidade absurda em me conduzir até a cama e ficar por cima de mim, me mostrando que o calor ainda pulsa forte em seu corpo.
Eu sei, eu sei. Eu vim a este encontro em busca de informações e caí totalmente em tentação, o que me mostra que eu não sou nem de longe a pessoa mais firme do mundo, especialmente quando se trata de alguém que estou gostando.
Mas que me atirem pedras aqueles que nunca caíram em tentação na vida.
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