17. Problemas Administrativos

Deixar aquele delicioso cheiro másculo de arvoredo para trás foi a decisão mais difícil que tomei hoje. Eu passaria horas agarrada a ele, por mais que eu tenha negado esse desejo diversas vezes.

O dia foi cheio de adversidades. Minha estabilidade emocional foi posta à prova do momento em que saí de casa até a hora em que retornei. Sabe Deus como voltei viva a essa residência — na verdade, eu sei, Raul me trouxe de moto e, logo em seguida, foi atrás de Marco, para ajudá-lo no que quer que ele precise.

— Querida, como foi o dia? Se divertiu? — cantarola tia Susana, cozinhando alguma coisa muito cheirosa. Adoro o cheiro dos temperos quando entram em contato com o fogo.

Tento mentir, mas não consigo. Em vez disso, solto um grunhido mal humorado que ecoa de um jeito estranho.

— Ah, é verdade! — comenta, abruptamente assustada, em um sobressalto leve. — Eu soube do desastre com as baleias, e também daquela ventania estranha que deixou o mar louco.

— As informações se espalham rápido, né.

— É uma cidade pequena — pontua minha tia. — Além disso, o jornal cobriu tudo. Foi bem informativo.

— Ah — esboço, sendo tomada por um entendimento repentino. — Às vezes eu esqueço que o jornalismo informativo existe.

Minha tia ri, e eu decido ir para o meu quarto. Estou cansada e com dor de cabeça suficiente para estragar a noite de alguém.

No caminho, porém, ouço meu telefone tocar.

É Anna ligando em uma chamada de vídeo.

Já conversei com ela mais cedo, então eu tenho certeza que não haverá dramas em nossa conversa. Mesmo que a conversa que tivemos mais cedo não seja garantia de nada, já que foi breve... Quer dizer, acho que o propósito maior daquela ligação foi manter minha consciência tranquila enquanto eu apreciava ao máximo meu encontro com Raul. Eu não conseguiria aproveitar o momento com tantas questões sérias pendentes em minha vida.

Atendo.

— Oi de novo — digo, não fazendo questão de disfarçar meu cansaço. — Aconteceu alguma coisa?

— Na verdade, sim — responde ela. — E é bem grave.

Ela consegue minha atenção. Paraliso, atenta.

— Sabe hoje à tarde quando você me ligou? — começa Anna, com o rosto sinalizando preocupação. — Até aquele ponto do meu dia, tudo estava bem. Porém, quando você desligou, Georgina ligou e começou a me informar sobre o andamento da parceria com as empresas Cadente.

— Ah, sim — falo, fingindo uma empolgação. — Eu deveria ter ligado para saber como estava indo.

— Bom... Esse é o problema, Eva... — diz Anna, hesitante. — Não... está... indo. Muito pelo contrário.

— Dá para parar de falar em enigmas e ir direto ao ponto? — digo, impaciente. — O que houve? Eles questionaram algo?

Há um silêncio conflitante atrelado à feição duvidosa da garota à minha frente. Não sei se é a dor de cabeça, mas sinto uma impaciência tremenda se espalhar pelo meu corpo. Infelizmente, para o azar do meu corpo, deve ter cortisol espalhado para tudo quanto é lado da minha corrente sanguínea.

— Eles querem fechar a ONG, Eva! — diz Anna, externando sua voz trêmula mais impactante.

— Espera, o quê? — indago, desnorteada. — Isso não faz... sentido? E-eu estive com Raul hoje, o filho deles, e ele não me falou nada sobre isso. Quer dizer, eu acho que ele teria me falado caso os pais dele estivessem decididos a fechar a nossa ONG.

— Georgina disse que a ideia deles é encerrar as atividades da ONG para reinaugurá-la no futuro como parte das empresas Cadente — continua ela, se sentando ao sofá da nossa sala. Que saudade do meu sofá.

— Então eles querem roubar o nosso projeto para engavetá-lo? — pergunto, esganiçada. — ISSO É SÉRIO?

— Foi o que Georgina me explicou.

Mas eu me recuso a acreditar.

— Talvez ela tenha entendido errado — comento. — Não sei, Anna, eu só... Não sei, tá legal? Não sei o que dizer, nada disso faz sentido. Não era esse o acordo inicial, eles deveriam só nos enviar medicamentos e, sei lá, postar nas redes sociais deles que nos ajudaram.

— E eu não estou te culpando, Eva — apressa-se Anna a dizer. — Eu sei que fechou a parceria com a melhor das intenções, mas, infelizmente, essas foram as informações que recebi... E estou preocupada.

— Anna, olha, eu estou cansada e sem um pingo de paciência — revelo, entrando no meu quarto. — Eu vou descansar agora, e amanhã eu lido com esse assunto.

— Sei que sim — assente. — Boa noite, Eva.

— Boa noite, Anna — retribuo. — Faz um carinho na Ginger por mim.

Assim que desligo o telefone, faço questão de me contrariar e enviar uma mensagem para Raul cobrando explicações — apesar de saber que a culpa pode não ser dele. Os pais dele parecem ser bem tradicionais no que diz respeito a negócios, então não acho que eles revelem tudo ao filho.

Deixo meus pertences no quarto, lembrando, sobretudo, de guardar a estátua de diamantes embaixo da minha cama.

— Está lidando com problemas administrativos? — pergunta Mavetorã, saindo de seu recinto e se acomodando em minha cama (não que ela sinta texturas ou esteja, de fato, sentada sobre a cama, é só uma espécie de fingimento espectral).

— Agora não, Mavetorã — respondo, indo em direção à porta.

Marcho rumo à cozinha para, indiretamente, tentar capturar informações sobre esse tópico destoante em específico. Porém, minha tentativa pode ser em vão, já que, parando para pensar, não faz muito sentido que Aura e Edgar revelem assuntos de negócios para uma pessoa que não está envolvida nesse mundo. Minha tia é só uma mulher aposentada que gasta seu tempo fazendo o máximo de aulas que seu corpo permite.

— O que a senhora estava cozinhando de tão cheiroso, tia? — chego de repente, tentando puxar assunto.

— Macarronada, querida — responde.

— Humm, o cheiro está me dando água na boca — reitero. — Acho que vou provar.

— Espera, vegetarianos podem comer macarrão? — indaga ela, com uma risada abafada pela boca cheia de alimento.

Hahaha que engraçado, eu adoro piadas com vegetarianos — sim, os olhos da minha alma se reviram com força. Meus olhos físicos, no entanto, respeitam a presença da minha tia.

Particularmente, eu gosto bastante da mistura de macarrão, ovos cozidos e queijo ralado, então decido pôr um ovo no fogo enquanto puxo assunto com minha tia.

— Tem visto a Aura, tia? — pergunto, tentando disfarçar minha crescente impaciência.

— Não a vejo faz dois dias — responde. — Conversei com ela por mensagem, mas nada demais. Só "oi, tudo bem?", sabe como é, né. Ela está sempre tão ocupada gerenciando os negócios da empresa que são raras as vezes que saímos de verdade.

A resposta parece genuína.

— Ah... Que pena, tia — digo, verdadeiramente sentindo pena (mas de mim). Não acredito que vou ter de me deslocar até aquela mansão esnobe para discutir com aquele casal de loiros oxigenados.

Acho que o melhor a fazer é comer, tomar banho e ir dormir. Encerrar o turno de peripécias por hoje. Ah, e tomar um analgésico também, essa dor de cabeça está me matando.

***

Graças a Deus, eu tenho carro!

Dormi bem o bastante para me sentir melhor com a ideia de ir até a mansão dos Cadente cobrar explicações.

Raul ainda não me respondeu (?). Cogito enviar outra mensagem, mas tenho medo de parecer chata... Esse assunto nem tem nada a ver com ele; também ligo diretamente para o telefone de Aura e Edgar e, como eu já imaginava, nada. Chama e chama e chama, mas, no fim, ninguém atende.

Sinceramente, por que as pessoas compram chips telefônicos se elas não vão atender os telefones quando ligarem?

Tudo bem que eu não sou a melhor pessoa do mundo quando se trata de atender ligações ou responder mensagens, mas 90% das ligações que recebi, desde que iniciei essa jornada de autodescoberta, foram atendidas — e posso provar.

Não comentei o ocorrido com tia Susana, pois não quero que ela se envolva em meus problemas pessoais. Ainda me lembro bem do dia em que ela deu a entender que pediria a Aura para fechar a parceria comigo só por eu ser sobrinha dela.

"Tenho certeza que, não importa o que você diga, Aura vai querer patrocinar o seu projeto. Nem que seja por mim."

Não... Realmente não a quero envolvida.

Meus negócios, meus problemas, minhas responsabilidades.

— Você tem certeza que sabe mesmo como chegar lá? — indaga Mavetorã, acomodada ao banco do carona. — Você parece perdida.

— Isso porque eu realmente estou perdida — rebato, rindo e, ao mesmo tempo, tentando prestar atenção aos pontos de referência espalhados pela cidade. — Ou talvez não.

— Estou começando a ficar enjoada — resmunga Mavetorã.

— Para de inventar história, você é um espírito.

— E daí? — rebate a entidade. — Isso não impede que eu sinta enjoos em viagens nesses veículos estranhos da contemporaneidade.

— Carros — corrijo-a, tentando me manter focada à minha missão inicial. Às vezes é difícil me manter séria com Mavetorã ao meu lado, ela é excentricamente agradável de se conviver. — E você queria o que, hein? Carruagens sendo puxadas por cavalos?

— Que tom de absurdo é esse na sua voz? — rebate ela. — Fique sabendo que essa foi a coisa mais lúcida que você disse hoje. Carruagens sendo puxadas por cavalos... É, é isso aí!

Nem ouso argumentar. Rio e continuo buscando referências.

Depois de quase meia hora de voltas e mais volta pela cidade, cedo ao meu orgulho e me rendo ao aplicativo de localização. Por sorte, estou a apenas cinco minutos da casa dos ricaços.

É só virar na Rua das Estalactites.

Seguir reto.

Subir uma ladeira.

E pronto.

Estaciono meu veículo em frente ao portão e desço, mantendo minha bolsa dentro do carro, já que não sou louca de entrar na casa de Aura, que é super observadora e abelhuda, com uma estátua tão valiosa em mãos.

— Vai mesmo me abandonar aqui?

— Eu já te expliquei o motivo — reforço, respirando fundo para não descontar minha raiva sobre ela. — Além do mais, eu preciso que alguém vigie meu carro. Não confio naquele segurança engomado que está ali parado.

— E você espera que eu faça o quê, caso alguém apareça?

— Incendei o invasor — digo, com uma risada descontraída.

Com tudo acertado, caminho em direção ao segurança e aviso que desejo entrar para conversar com os Cadente.

— Não.

— Que? Por quê? — pergunto, sobressaltada.

— Você, por acaso, tem hora marcada? — indaga o homem de quase dois metros de altura, que me olha de cima.

— Não... — respondo, hesitante. — Mas só porque é impossível entrar em contato com eles, mesmo sendo parceira deles.

— Sem hora marcada, sem entrada. Desculpe, senhora.

— Não, você não está entendendo — digo, pisando firme. — Eu preciso falar com eles hoje, o mais rápido possível.

O homem não responde. Pelo visto, vai me ignorar.

Respiro fundo, tentando não explodir de raiva.

Antes que eu voe no pescoço dele, porém, o portão se abre. Tanto o homem quanto eu somos pegos de surpresa, olhando atentamente ao acontecimento inesperado.

— Olha, parece que eu posso entrar, hein — falo, com uma risada convencida que com certeza o deixa irritado. Não sei explicar, mas adoro a sensação de contrariar pessoas em um cargo acima do meu.

Ele me encara com um olhar neutro, para a minha surpresa. É difícil decifrar o que seus olhos tentam dizer.

Mas ele nada diz a mim; todas as palavras que saem de sua boca são direcionadas ao walkie-talkie que ele retira do bolso.

— Julius falando — falando. — Há uma garota aqui no portão que deseja entrar na residência. Sua entrada deve ser permitida?

Há um leve atraso na resposta.

— Sim — responde uma irreconhecível voz abafada.

— Não quer saber nem o nome da dita-cuja? — indaga o homem.

— Não — responde. — Já a conheço.

Antes mesmo que o homem de postura invejavelmente impecável autorizasse minha entrada, eu já estava de volta ao meu carro, pronta para subir a sutil colina.

Há um espaço no topo da colina, ao lado da casa, onde pequenos veículos podem ser estacionados, o que facilita a minha vida. Embora eu esteja bem disposta, faço de tudo para não ter de subir uma ladeira.

Infelizmente, uma limusine não cabe no espaço mencionado, por isso que, no dia do jantar de negócios, tia Susana e eu tivemos que subir até o topo a pé. Felizmente, meu carro é pequeno e cabe perfeitamente no espaço.

Assim que me posto frente à casa dos Cadente, a porta se abre.

Não me assusto, pelo contrário.

Entro e encaro o meu arredor com estranheza. Nunca vou me acostumar com o tamanho exagerado desta casa — detalhe: só moram três pessoas aqui, e talvez alguns funcionários.

— Ora, que surpresa boa tê-la aqui nesta manhã tão agradável — comenta uma voz falsamente simpática que eu reconheço de longe.

É Aura.

— Precisei vir até aqui, já que você e seu marido não atendem ao telefone — digo, sem perceber quão desrespeitosa minha fala soa. Estou orgulhosa da entonação da minha voz.

Aura ri. Provavelmente pensando que estou brincando.

— Ô, querida, sentimos muito.

Não sentem. Ela está mentindo.

— Mas é que a vida de empresária é muito corrida — se justifica, me fitando com atenção. — O que deseja?

Respiro fundo antes de continuar a confrontá-la.

— Que história é essa de fechar a ONG, Aura? — pergunto, deixando claro que não estou para gracinha. — Nosso trato não era esse.

Assustadoramente, Aura gargalha, como se todas as palavras que saíram da minha boca fossem uma grande piada.

— Não iremos fechar sua ONG, Eva — começa. — Nós vamos apenas realocá-la para a nossa empresa, assim teremos animais de sobra para realizarmos nossos testes.

Meus ouvidos escutam as palavras, mas meu cérebro não as interpreta — esse fenômeno tem se tornado cada vez mais frequente. Devem ser todos os absurdos que as pessoas me forçam a ouvir.

— Vocês o quê? — esboço, irritada. — Quem autorizou isso?

— Você, ora — rebate. — Tenho um contrato assinado por você.

Dessa vez, sou eu quem gargalho.

— Você só pode estar louca — digo de imediato. — Eu não assinei contrato algum. Eu me lembraria se tivesse assinado.

— É claro que assinou, e ainda se declarou como dona — continua Aura, com um sorriso convencido no rosto. — Tenho todos os papéis lá em cima para provar.

Paraliso.

Não é possível que essa desvairada esteja falando a verdade, quer dizer, eu me lembraria se tivesse assinado um contrato, né?

— Você não pode fazer nada com apenas a minha assinatura — digo rapidamente, tentando retomar o controle da situação. — A ONG está registrada em meu nome e em nome da Anna.

— Ah, mas eu já tenho a assinatura da Anna, querida — retruca. — Fax é uma ferramenta que, embora seja pouco usada hoje em dia, ainda é bem útil.

Congelo outra vez.

Estou sem argumentos e eu nunca estou sem argumentos.

— Sua amiga, Anna, também não leu o contrato? — indaga ela, com um ar fingido mais aparente. — Poxa... Pelo visto, vocês duas são extremamente inexperientes na área dos negócios.

Sigo travada.

— É irônico porque... — comenta ela, fazendo uma pausa para rir. — Eu me lembro bem de ter falado com Anna no telefone, e ela me disse que assinou o contrato sem muita atenção, pois confiava em você.

— Você é tão baixa — esbravejo, não me importando mais em ser respeitosa. — Saiba que eu nunca vou deixar que nada aconteça à minha ONG. NADA!

Ela ri.

— Ah, Eva... — sussurra ela, me fitando com prazer. — Pensou mesmo que eu, uma bilionária, iria me importar com meia-dúzia de cachorros pulguentos? Nunca me importei.

Aproximo-me dela com uma vontade imensa de dar um murro em seu rosto velho e cheio de botox, mas dou um passo para trás.

Não vale a pena.

Ela é mais rica do que eu.

Possui mais contatos do que eu.

E, como ela mesmo disse, é mais experiente no mundo dos negócios do que eu.

Não adianta nadar contra a maré. Pelo menos não agora.

— Eu vou embora daqui, porque você não vale o meu tempo — digo, olhando fundo nos olhos dela. — Mas saiba que eu vou infernizar tanto a sua vida que você vai desejar nunca ter cruzado o meu caminho.

Viro-me, empurro o abajur brega dela no chão e marcho em direção à porta, à qual eu pretendo fechar com toda a força presente em meu ser.

— Ah, e só para você saber, Aura — falo, ainda tendo sua atenção. Ela está chocada que eu tenha empurrado o abajur dela no chão —, toda a decoração da sua casa é brega!

Foi a minha atitude mais madura? Não.

Mas foda-se.

Ela mexeu com Eva Fleur Clarim. A partir de hoje, todo o mal que acontecer na vida dela será alegremente comemorado por mim.

Nada mais de ser boazinha.

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