07. Coincidências Conflitantes
A entrada da mansão é resplendorosa. Fico tão admirada que não consigo nem disfarçar meu espanto e ausência de modos quando o motorista da limusine desce do carro às pressas, na intenção de abrir a porta para que tia Susana e eu possamos descer.
Não sei se é pela falta de costume, mas tudo parece ser tão teatral. Ensaiado. Sinto-me em uma peça cujas falas não foram ensaiadas, mas que consegue obter um ritmo fluido graças à competência dos atores em cena.
É incômodo.
Meu nervosismo parece estar oscilando e, minutos após a minha chegada, já não me sinto mais tão nervosa quanto antes. Talvez seja o fato de eu ter achado uma distração: o jardim da mansão dos Cadente.
Como em toda residência de pessoas exageradamente ricas, o jardim é enorme, rodeado de inúmeras espécies de flores e esculturas de arbustos em forma de animais — quando passei por perto, consegui enxergar de relance um elefante, uma girafa e um cavalo (ou era uma zebra, não tenho certeza, nunca consigo diferenciar).
O motorista não nos leva até a porta. Tia Susana o dispensa e o homem não parece se ofender. Pelo contrário, ele apenas sorri — aposto que eles se conhecem.
Caminhamos silenciosamente, rumo à porta de entrada da mansão, por uma sutil elevação; o barulho dos nossos sapatos de salto alto são perfeitamente audíveis. Ao contrário de mim, tia Susana age com tanta naturalidade perante o luxo demasiado do ambiente, que me pergunto quantas vezes ela já esteve ali. Dezenas, eu acredito.
Um rápido toque à campainha faz Aura surgir sorridente em questão de segundos. A ricaça está trajando um vestido branco perolado que, a meu ver, a torna meio apagada, como se ofuscasse o seu brilho e a deixasse... sem graça? Opaca. Tipo bolo de baunilha.
— Meninas! — exclama a empresária, sorrindo excessivamente. Aposto uma quantia alta em dinheiro que ela está bêbada, muito bêbada mesmo. — Por que vocês demoraram tanto? O Edgar já está impaciente.
Não sei como reagir, então congelo em um sorriso tenso.
Tia Susana, porém, gargalha alto. Entra no clima da amiga e a abraça aos rodopios, como se não possuísse preocupações relacionadas àquela noite — e nem à noite nenhuma.
— Vem, Eva, entra — chama Aura, esganiçada, me puxando pela mão. — Mandei os cozinheiros prepararem um jantar vegetariano delicioso somente para você.
Por alguns segundos, minha mente rebobina.
Eu nunca contei a ninguém daqui que sou vegetariana, acho que nem à tia Susana, já que sou eu que preparo meu próprio almoço. A única refeição que ela prepara para mim é o café da manhã, que não inclui nenhum tipo de carne.
— Como você sabe que eu sou vegetariana? — pergunto, deixando clara a pulga atrás da minha orelha. — Eu não mencionei essa palavra em momento algum desde que cheguei à cidade.
Aura gargalha espalhafatosamente.
Queria saber se o que eu disse foi realmente tão engraçado assim ou se é só o álcool se comunicando por meio dela.
— Querida, essa informação, e tantas outras, estão na sua biografia, disponível no site da sua ONG, assim como as informações sobre a sua amiga, Anna Duarte — responde, convencida.
— Ah — esboço, sem graça.
É verdade. Eu só não pensei que ela fosse, de fato, pesquisar acerca da ONG... ou sobre mim... Mas esse pensamento limitante diz muito sobre mim. Tenho tendência a pensar sempre o pior cenário para as situações, até as mais simples. E, embora eu esteja muito animada com essa possível parceria, a vozinha sorrateira em minha cabeça está constantemente me dizendo que tudo vai dar tragicamente errado.
— Não pensou que eu fosse pesquisar sobre vocês, não é? — provoca ela, vendo minha feição de espanto. Até tentei disfarçar, mas, pelo visto, não sou tão boa atriz assim. — Jamais fecho uma parceria antes de conhecer melhor meus clientes.
Um sorriso insosso nasce em minha face, assim que percebo que minha feição está corada.
— Edgar, querido, venha conhecer a Eva Fleur — berra Aura em direção à escada. — Tenho certeza que ela tem muitos dados estatísticos promissores e histórias emocionantes sobre cachorrinhos pulguentos para te contar.
Não demora para que um homem de porte médio, calvo e casualmente vestido apareça, descendo as escadas às pressas.
— Então você é a famosa Eva Fleur de quem tanto ouvi falar — comenta o empresário, me olhando de cima a baixo. — É muito bom finalmente conhecer você!
Não sei o motivo, mas o olhar dele sobre mim me deixa meio... constrangida...
— É um prazer lhe conhecer também, senhor Edgar — digo.
— Por favor, só Edgar — fala ele, rindo. — Venha, vamos jantar. O Raul já está vindo, ele está só terminando de se arrumar. Esse garoto parece uma noiva, sempre se atrasando por causa da aparência.
Aura ri, balançando a taça de champanhe, acompanhada de tia Susana.
— Ah, Edgar, deixe o menino! — retruca ela, descontraída. — Um pouco de vaidade não faz mal a ninguém, muito pelo contrário, é um traço admirável. Ele deve ter herdado isso de mim.
O homem a ignora.
— Vamos para a mesa, estou com fome e parcerias sempre são melhor discutidas de barriga cheia — diz Edgar, tomando à frente do grupo e indo em direção à sala de jantar.
Tia Susana e Aura vão logo atrás dele.
Eu as sigo.
Enquanto caminho lentamente pela casa, aprecio atentamente aos detalhes. Nunca estive na casa de bilionários antes, então todo o luxo é intimidador, e os tons neutros dos quais a casa é decorada tornam tudo mais intimista. Os imensos e vívidos quadros com pinturas excêntricas, cujo sentido eu não entendo, tomam grande parte do espaço das paredes — aposto que eles compraram pinturas com molduras grandes de propósito, só para ocuparem grande parte das paredes.
A sala de jantar é incrivelmente sofisticada. Simples, mas com um quê de respaldo que faz toda a diferença na energia da atmosfera. Como se tivesse sido planejada para ser intencionalmente assim. É reconfortante aos olhos, mesmo com a exagerada incidência dos lustres sobre nossas cabeças.
O casal se acomoda cada um em uma extremidade da mesa. Tia Susana e eu nos sentamos mais ao meio, de frente uma para a outra. Há outros lugares vagos, um que deve ser para o filho deles, e os outros, que devem permanecer desse jeito, a não ser que eles tenham convidado mais alguém e não nos comunicaram.
A mesa é tão grande que lugares devem sobrar sempre, a menos, é claro, que eles realizem festas constantemente — o que não faz muito o estilo deles. Ambos exalam discrição.
— Como eu mencionei antes, Eva, mandei preparar um menu vegetariano exclusivo para você — repete Aura, ainda com um sorriso desmedido no rosto. Pergunto-me se ela não está com dor no rosto, eu certamente estaria.
Eu já tinha entendido o anúncio na primeira vez em que ela o proferiu, mas tenho certeza de que ela sentiu necessidade de mencionar isso novamente para inflar o próprio ego.
— É muita gentileza, Aura — agradeço, meio intimidada. Parece que ela está empunhando uma faca imaginária em minha direção para que eu agradeça a gentileza. — Não é todo mundo que se importa com a alimentação dos vegetarianos.
— Eu estou surpresa em saber que você não come carne, sobrinha — diz minha tia, bebericando a taça discreta que carrega nas mãos. — Por que decidiu tomar essa decisão?
Pelo visto, serei foco o jantar inteiro.
— Há uns anos, minha alimentação era tão ruim que eu quase desenvolvi diabetes tipo 2 — rememoro a contragosto. — Desde então, decidi me cuidar. Quando me afastei do fast-food, eu acabei excluindo a carne da minha vida também.
— Essa escolha tem alguma ligação com a ONG? — pergunta Edgar, me olhando atentamente.
— Mais ou menos. É um tema complexo.
— Bom, como eu ia dizendo, Eva, para a entrada, você degustará de deliciosas bruschettas — retoma Aura, arrancando meu momento de fala e tentando equilibrar a finesse com a taça de champanhe —, para o prato principal, risoto de funghi e, por fim, um sorbet de manga para a sobremesa. Estou tão empolgada para saber sua opinião sobre esses pratos. O cozinheiro é renomadíssimo.
Agradeço todo o esforço que ela está tentando deixar claro que teve com meu sorriso mais alegremente fingido. Ela me responde com uma risada tão larga quanto, o que me convence que ela está comprando minha atuação medíocre.
Enquanto o bastão de conversa imaginário passa de mão em mão, escuto passos vindos do corredor, o que faz meus olhos se revirarem e minha mente se preparar automaticamente para interagir com mais uma pessoa. Provavelmente é o filho dos anfitriões.
— Mãe, eu espero não ter me... — diz um rapaz, que deve ser Raul, entrando na sala de jantar. Sua fala é interrompida ao me ver, o que eu compreendo rapidamente.
Tudo estaria certo senão estivesse errado.
Raul. Ele é o que está errado.
Ele não é um completo desconhecido.
Eu já o conheço. Ele já me conhece.
— A garota do carro? — exclama ele, horrorizado.
— O cara da moto? — anuncio sem muito tato, alcançando o mesmo tom de voz que o dele.
Todos ficam momentaneamente intrigados, entreolhando-se com as taças cheias de espumante dançando entre os dedos.
— Ótimo! — exclama Aura. — Pelo visto vocês já se conhecem.
— NÃO! — Raul e eu dizemos em uníssono.
Por um instante, após falarmos ao mesmo tempo, nossos olhos se encaram em um embate silencioso. Não consigo decifrar o que suas pupilas tentam me dizer, mas ele claramente entende, pelo semicerrar das minhas sobrancelhas, que estou em posição de ataque. Claramente pronta para retomar nossa primeira discussão a qualquer segundo.
— Essa desgovernada quase me atropelou enquanto eu deixava o Verdi de moto — revela Raul, parecendo tão irritado quanto no dia do ocorrido.
— Que tipo de pessoa sai de um restaurante, em uma rua estreita, sem olhar para os dois lados? — argumento, mesmo sabendo que sim, eu tenho uma parcela de culpa.
— Qualquer morador de Mavetorã? — rebate Raul, irônico. — Essa cidade é minúscula se comparada a uma cidade grande.
— Você nem me conhece, como pode saber que venho da cidade grande? — digo, encarando-o levemente zangada.
Honestamente, eu nem me lembrava mais dessa história. Estava apenas esperando a minha intimação chegar por e-mail, mas, como não chegou, pensei que ele tinha desistido — depois de hoje, porém, não estou mais tão certa disso.
Quando pessoas ricas querem algo, elas estalam os dedos e, o que quer que seja, acontece.
— Eu vi pela placa do seu carro que você é de Gérbera — revela ele, convencido. — Além disso, você exala a energia de uma garota fútil da cidade grande.
— E qual é o problema de ser uma garota fútil da cidade? — ecoo, sem mais argumentos.
A minha vontade é de voar no pescoço dele. O ocorrido nem tinha sido grande coisa, mas, por algum motivo que eu desconheço, a cara dele me irrita.
— Crianças, por favor, acalmem os ânimos — diz Aura, movida pela bebida, assumindo uma personalidade good vibes irritante. — Raul, meu filho, sente-se à mesa e vamos degustar do jantar delicioso que o nosso novo cozinheiro, que eu ainda não aprendi o nome, preparou.
Sem demora, Raul se senta à mesa, ao lado de tia Susana, de frente para mim — e eu tenho certeza de que é só para me irritar.
— Então, Eva, nos conte mais sobre a sua ONG — pede Edgar, visivelmente tentando mudar o enfoque da conversa.
— É verdade, estamos curiosos para saber mais sobre esse projeto tão generoso — completa Aura. — E, de certo modo, ambicioso.
Limpo a garganta e bebo uma taça de champanhe para criar coragem. É hora de pôr para fora tudo o que eu ensaiei no espelho do banheiro ao longo das vinte vezes que me levantei de madrugada para urinar.
— Então, basicamente a ONG funciona em parceria com Pet Shops, que organizam eventos de adoção com os nossos animais. Também temos transportes para efetuar o resgate dos pets, sobretudo os mais debilitados, e dez veterinários remunerados trabalhando lá.
— Estou genuinamente impressionada como duas meninas tão jovens conseguiram fazer tanto — diz Edgar, com os olhos fixos a mim.
— Ter dinheiro facilita os processos, abre portas mais facilmente e, além do mais, Anna e eu investimos bastante nesse projeto — explico, buscando confiança nas camadas mais profundas do meu peito. — Queríamos que desse certo!
— E deu! — completa Aura, enchendo sua taça com mais champanhe. — E como vocês fazem com as redes sociais? Divulgação? Gastos da ONG?
— Toda a parte financeira e de marketing é organizada pela namorada de Anna, Georgina, que é formada em administração — respondo.
Aura parece pasmada. É estranho vê-la movimentando suas expressões faciais, pensei que ela tinha reprimido todas com botox.
— Nossa! — exclama. — Ela não fica sobrecarregada?
— Às vezes — digo. — Mas, no fim do dia, ela sempre entrega todas as postagens e relatórios.
— Bom... — resmunga Raul. — Quando minha mãe me contou sobre sua ONG, eu fiquei impressionado. É realmente um trabalho muito bonito e uma ajuda e tanto para a sociedade.
O comentário me pega desprevenida e me faz repensar se fui, ou não, injusta no meu julgamento inicial em relação a Raul.
— Eu concordo, mesmo que, de vez em quando, eu sinta que não é o suficiente — digo, tentando conter a surpresa com o fato de ele estar agindo descentemente. — Mas, é como dizem, muitas pessoas ajudando de pequenas maneiras fazem a diferença no mundo!
— É um belo pensamento — afirma Raul.
Novamente estou corada. Qual é o meu problema com elogios?
— Apesar de possuirmos um grande capital, percebemos que eram poucas as instituições que ajudávamos — começa Edgar. — Por isso, nesses últimos anos, nós viemos procurando organizações não governamentais que combinassem com os valores da nossa empresa para fazermos parcerias.
— Querido, Eva comentou que os veterinários da ONG utilizam nossos medicamentos nos animais, não é demais? — ecoa Aura.
— E os resultados? — indaga ele, com uma feição de quem já sabe a resposta, mas ainda assim quer ouvi-la.
— Sempre muito satisfatórios — respondo. — Nunca recebemos nenhuma reclamação. Nem dos tutores nem dos médicos veterinários.
— Essas palavras soam como música para os meus ouvidos — cantarola Aura, quase caindo da cadeira.
Indago-me quantas taças de champanhe ela tinha bebido até ali.
— Então... isso quer dizer que vocês vão fechar a parceria com a ONG dela? — pergunta Raul, curioso.
— Não apresse as coisas, Raul — repreende-o Edgar. — Quanto mais rápido finalizarmos o assunto, mais rápido o jantar acaba, e eu não quero que o jantar acabe nem tão cedo.
A conversa foi interrompida pela chegada dos pratos principais, que, por sinal, aparentam estar bastante apetitosos. Minha boca saliva no momento em que a tampa das bandejas é retirada, permitindo que o cheiro irresistível da comida se alastre por minhas narinas.
Minha tia, quando vê o prometido fricassê de frango, solta um longo suspiro que me faz rir baixinho.
— Eva, você é a única que está aqui, em minha mansão, pela primeira vez — comenta Aura repentinamente. — O que achou?
Enrolo um pouco antes de responder, pois entro em um conflito interno. Não quero que eles pensem que eu prestei atenção demais na moradia deles, mas também não quero que pensem que olhei de menos.
— Achei sua residência uma graça, Aura — respondo, obrigando meus lábios a se moldarem na forma de um sorriso. — Definitivamente, a parte que eu mais amei foi o jardim.
Percebo que toquei em um tópico de ego quando Aura gargalha e arruma a postura — claramente para se vangloriar mais.
— Que bom que reparou! Todas as esculturas de arbusto foram feitas por um renomado jardineiro francês, Juan Berny — se gaba ela. — Se você quiser, o Raul pode fazer um tour com você por lá.
O garoto se sobressalta tão bruscamente com a sugestão que se engasga enquanto mastiga uma fatia de pepino.
Solto uma risadinha, não nego.
— Tenho certeza que não será um problema, não é mesmo, filho?
— É claro que não, mãe — responde ele. — Vamos só terminar o jantar, e então acompanharei a senhorita Fleur até o nosso jardim.
"Senhorita Fleur".
Qual a necessidade de ser tão cordial? Para mim, ele só está sendo metido.
Penso em rejeitar, dizer que não precisa, mas, quando percebo, o assunto já mudou, e voltar atrás poderia acabar causando algum desconforto desnecessário.
Para ser sincera, a ideia não me anima — até me arrependo de ter mencionado o jardim em vez de, sei lá, a sala de estar?
Tudo que eu não quero é estragar a noite, mas temo que possa surgir outro desentendimento entre mim e Raul no tempo em que estivermos caminhando pelo jardim. Conheço-me bem e sei que não pouparia chutá-lo caso ele me irritasse.
Contudo, tento pensar positivo, focando no elogio que ele me fez há pouco.
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