04. Dia de Turista
Acordo, desnorteada, com a sensação de que estou mais cansada do que quando fui dormir ontem à noite. E, para ser sincera, eu não me lembro do momento exato em que caí na cama e dormi, tudo o que eu me lembro é de ter escovado os dentes, afinal, eu nunca durmo sem escovar os dentes — nunca mesmo, é uma trava mental.
Espreguiço-me, vendo que estou de pijama e minha pele está cheirando ao meu hidratante de morango — o que comprova que, sim, eu tinha tomado banho antes de deitar para dormir ontem. Olho no relógio em cima da mesa de cabeceira e vejo que ele está marcando oito horas da manhã, como não sei que horas peguei no sono, fica impossível calcular por quantas horas eu estive adormecida.
Mas nem perco meu tempo me questionando o porquê de eu estar tão cansada quando o motivo é bem óbvio. Ontem foi um dia de muitas emoções, tive várias crises nervosas e, por pouco, não atropelei um cara. Graças aos céus que a recepção por parte da minha tia foi positiva, caso contrário, o dia de ontem teria sido uma verdadeira porcaria — e não aquelas porcarias do tipo bom.
Saio do quarto lentamente em direção ao banheiro e me deparo com tia Susana vestida com trajes de academia, fazendo polichinelo no meio da sala.
— Ah, oi, querida — ecoa ela, ofegante. — Acordou cedo, pensei que fosse dormir até mais tarde depois de passar tantas horas na estrada.
— É que eu não tenho o costume de acordar tarde, então por mais cansada que eu estivesse, acho que meu corpo nunca dormiria mais do que oito horas.
— Estranho você dizer isso, visto que dormiu por doze horas ininterruptas — revela tia Susana, caindo na gargalhada ao ver uma feição de espanto se formar em meu rosto.
— Tá legal, eu retiro tudo que eu disse — concluo meu raciocínio matinal e me dirijo ao banheiro para a prática da minha higiene pessoal.
Quando finalizo tudo e saio, tia Susana já está de saída. Mal tenho tempo de propor que saíamos juntas, tipo aqueles programas entre tia e sobrinha.
— Querida, preparei seu café da manhã, está na mesa — diz energeticamente, me dando um beijo da testa. — Estou indo para a ioga, se decidir sair, tranque a porta e deixa a chave dentro do vaso que está situado no pé da escada.
— Tá bom! — assinto, preocupada com o local em que a chave fica, mas sem interesse suficiente para argumentar sobre. — Boa aula e obrigada pela refeição.
Como sempre faço todas as manhãs, sento-me à mesa para degustar do café da manhã, enquanto me atualizo acerca das notícias do mundo. É tão fácil saber de tudo que está acontecendo no mundo somente rolando a timeline das redes sociais.
A mesa está posta de maneira farta, o que me deixa encantada e em dúvida do que comer. Não acredito que a tia Susana dedicou tanto tempo para fazer um banquete para mim... Ela é realmente diferenciada.
Bom, como não sei o que comer, decido experimentar um pouco de cada prato, então pego um pouco de bolo de trigo, torrada com geleia de uva, pão com ovos e queijo, uvas verdes e pudim de coco com cobertura de ameixa. Quando percebo, meu prato está esparramando, mas não me incomodo, estou com fome e toda essa comida exposta na minha frente está me dando água na boca.
Entretanto, antes de vir para cá, eu não considerei as minhas opções mediante à falta de algo muito, mas muito importante que não há aqui: internet wi-fi.
Como eu vou falar com Anna e ver Ginger pela vídeo-chamada sem wi-fi? Bem, este é um problema que eu certamente preciso resolver. Até porque, é óbvio que a tia Susana não teria internet em casa, ela mal sabe ligar a televisão.
Enfim, lido com este problema depois.
Mas é estranho me imaginar comendo de manhã sem o telefone.
Sinto um vazio. E uma sensação estranha de isolamento, como se o mundo estivesse acontecendo sem mim... Bem que dizem que celulares viciam, apenas alguns minutos sem checar o aplicativo de mensagens e eu já quero correr que nem louca de casa em casa em busca de wi-fi.
Mas não adianta perder a sanidade. Tudo o que me resta agora é realizar os meus rituais matinais e, em seguida, ir em busca de algum estabelecimento na cidade que ofereça rede wireless — de preferência, sem precisar consumir nada do lugar. Detesto esse tipo de barganha.
Mas, se tem uma coisa que eu não detesto, é o clima que somente a praia proporciona: a famigerada maresia. A casa da tia Susana é muitíssimo bem iluminada, e o cheiro de mar que envolve o lugar é hipnótico. Consigo ouvir com clareza o balançar das ondas cochichando em meu ouvindo, me chamando para molhar o corpo em suas curvas inconstantes.
É tentador...
Mas em outra hora, quem sabe.
***
Decido explorar Mavetorã sozinha — com o aplicativo de mapas aberto, é claro. Não vou de carro, pois sinto que vou ficar muito limitada, visto que vou ter de procurar um lugar para estacionar a cada ponto turístico interessante que eu achar.
Nossa, falando assim faz parecer que eu nunca visitei a cidade. É só que, Anna estava certa, se a intenção é me reconectar com as memórias alegres da infância, então por que não documentá-las? Assim, eu terei lembranças palpáveis do meu tempo aqui.
Visto um chapéu grande para me proteger do calor, tomo literalmente um banho de protetor solar e levo uma ecobag com meu laptop dentro e alguns outros pertences menores.
Estou de olho em uma cafeteria famosa chamada Verdi, que fica localizada no centro, as 4,8 estrelas devem ser um bom sinal. A página de informações do recinto, na internet, informa que o ambiente é aconchegante, acolhedor e possui uma internet razoável.
E é justamente nesse lugar que eu vou primeiro.
Caminho pela extensa faixa de areia, encontrando incontáveis moradores e turistas ao longo do percurso, conforme me aproximo da cidade. Seria o passeio perfeito se minhas sandálias não estivessem cheias de areia — odeio areia. Para ser honesta, essa é a coisa que eu mais odeio sobre a praia: a quantidade surreal de areia que se aloja em partes do corpo que até então eu nem conhecia.
Mas, assim que alcanço o centro, toda a minha irritação com a areia desaparece. A cidade foi construída com tanto planejamento que as casas, em sua maioria, ocupam o mesmo espaço, uma ao lado da outra. Mercados e lojas, apesar de não serem tão grandes, possuem decorações simpáticas e chamativas. E eu nem preciso comentar como as ruas são limpas e as árvores, bem cuidados.
Admirada com as belezas ao meu redor, quase não percebo quando passo em frente ao local ao qual eu estava planejando ir. O lugar é simplesmente um luxo, mas as duas grandes janelas arqueadas de vidro, com vista para a rua, dão uma sensação de zero ou nenhuma privacidade, o que eu decido relevar devida à existência de um primeiro andar e de mais espaço aos fundos.
Entro, escolho uma mesa, me aconchego e abro meu laptop. Quando estou prestes a pedir a senha do wi-fi ao garçom, ele se adianta e rapidamente me informa que, para usar a internet do local, eu preciso consumir pelo menos um copo de água — minha feição de desgosto é facilmente decifrável.
Mas aceito, pedindo alguns pães de queijo e um café amargo para combinar com o ar gélido do ambiente. A cafeteria deve ter no mínimo uns dez ares-condicionados, o que explica o fato de os clientes nas mesas ao redor estarem tomando alguma bebida quente — percebo isso, pois todos estão assoprando suas xícaras antes de bebericarem o líquido preto dentro delas.
Um clima agradável.
Ligo o laptop, conectando-o aos fones de ouvido via bluetooth e ao wi-fi e, sem demora, começo uma chamada de vídeo com Anna. Não tenho como garantir que ela vai me atender neste horário, visto que a ONG demanda muito tempo dela, mas pelo menos ela vai ver que eu tentei contato.
Por sorte, ela atende.
— Eu já estava quase chamando a polícia! — comenta ela, me enviando um fingido olhar nada simpático. — Não vai me dizer que pegou no sono e esqueceu de me ligar.
— Eu peguei no sono e esqueci de te ligar — admito, sem um pingo de vergonha na cara. — Pensei que não, mas eu estava morta de cansada da viagem.
— Vou te perdoar unicamente porque sei que você vai me enviar fotos daí a qualquer momento, como eu pedi.
Gargalho alto.
Esse é o problema de ser uma pessoa básica: tudo me define. É tão fácil para Anna me descrever ou me definir por algum ato ou fala, que me pergunto se isso é apenas fruto da nossa grandiosa intimidade, ou se é porque eu sou uma pessoa óbvia demais mesmo.
Mas, além da minha obviedade toda, não dá para negar que a intimidade também desempenha um papel importantíssimo em nossa relação. Ambas temos hábitos e manias que, com a convivência, acabaram se tornando só mais um detalhe do nosso cotidiano. E nada melhor do que a constância para que determinado comportamento seja aprendido ou familiarizado.
— Estou entrando no meu e-mail agora mesmo para te enviar todas fotos que tirei desde ontem — comento, me tornando duplamente radiante ao ver o garçom trazendo o meu pedido. — Não são muitas, porque, como eu disse, dormi cedo. Mas acho que dão para o gasto.
Não pensei que uma caminhada de quase vinte minutos embaixo do sol fosse me deixar com tanta fome. Deve ser só a falta de costume, ou o fato de eu ser claramente sedentária, já que tia Susana não parece se incomodar.
Eu sou o famoso caso da falsa magra. Tenho um corpo magro, o que faz muitas pessoas subjugarem que sou saudável, mas, na verdade, eu quase me tornei diabética três vezes no ano passado. Sem falar na minha pressão alta, tópico no qual eu não quero me estender.
— Olha a Ginger! — diz Anna, segurando o animal nos braços com dificuldade devida à clara antipatia que Ginger tem com telas.
Por um instante, minha mente analisa o animal para checar se tudo está bem — ele está ótimo.
Minhas preocupações com Anna são sempre à toa.
— Eu tenho uma notícia bombástica para te dar — anuncio, criando um clima proposital de suspense.
— CONTA!
— Advinha de quem eu chamei a atenção.
— NÃO SEI — diz Anna, eufórica, atenta a mim. — Algum artista? Alguma emissora de TV?
Balanço a cabeça lentamente em negação, deixando visível meu sorriso mais convencido.
— Aura Cadente — respondo.
— NÃO!
— SIM!
— Não acredito, como você conseguiu? — indaga Anna, empolgada. — Os produtos da empresa dela são os melhores.
— E, além disso, ela é uma das melhores amigas da minha tia — revelo, me sentindo a pessoa mais sortuda do mundo. — Ela é um pouco nariz em pé, sabe, mas o que esperar de gente rica?
— Eva, mas você também é rica — fala Anna, rindo.
— Eu sei, mas ficar anos presa em um colégio interno me fez criar uma camada espessa de humildade — retruco.
— Deve ter sido a água com excesso de cloro que saía das torneiras do internato que te deixou assim.
— Bom, não importa o que, somente importa quem — falo, retomando o rumo da conversa. — Aura me deu o cartão dela e pediu que eu ligasse para marcar uma reunião.
— Não acredito! — exclama Anna outra vez. — Será que ela está interessada em fechar uma parceria?
— Não faço ideia, mas, se ela quiser, eu quero — comento, ficando cada vez mais empolgada. — Já imaginou como seria incrível nós duas sermos patrocinadas pela maior empresa de medicamentos e cosméticos do país?
— Para ser bem sincera, sim — responde Anna. — Eu gosto de sonhar alto quando estou entediada. Eu só não pensei que conseguiríamos isso tendo tão pouco tempo de atividade.
— Bom, eu vou tentar marcar uma reunião com ela ainda esta semana, mas não hoje, não quero parecer desesperada — digo.
— Concordo, tira o dia para aproveitar com a sua tia — sugere Anna sorridente. — A propósito, por que você não está com ela agora? Pensei que esse tinha sido o motivo da sua viagem.
Anna está certa.
— Não consegui marcar nada com ela, acredita? — falo, pensativa. — Quando acordei, ela já estava de saída... Amanhã, quem sabe.
— Lembra do que eu te disse, inala e exala, foco à sua respiração sempre, ela possui grande poder sobre você — relembra Anna.
— Não se preocupe, capitã — agradeço, rindo. — Vou terminar de comer aqui e explorar mais um pouco da cidade. Obrigada por me ouvir... e por todo o resto.
— Eu que agradeço, por me dar notícias — completa Anna. — E vê se não se esquece das fotos. Eu preciso delas para saber se você está bem.
— Pode deixar. Não vou esquecer — respondo sorridente, desligando a chamada.
E eu realmente não vou esquecer.
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