Parte III
"Eu sou uma princesa!"
Essa frase estava bordada na camisa que a menina usava. Por qual outro motivo alguém usaria tais palavras na vestimenta se não para anunciar sua posição dentro da realeza? Na frente da camisa, dentro de um coração roxo, lia-se as palavras "Girl Power", os cabelos da jovem eram cacheados, castanhos e longos, a saia passava dos joelhos e os sapatos fechados brilhavam com pedrinhas falsas.
Por que ela, sendo uma princesa, não caminhava com um batalhão para impedir furtos ou sequestros, e ninguém nem ao menos tentava pedir-lhe um autógrafo? Não era possível entender a cultura de todos os reinos, por isso a fada evitou os questionamentos e simplesmente seguiu a garota por mais duas ruas estreitas, até ela entrar em uma casinha pequena, sem jardim, protegida por um portão enferrujado gigante.
Decidiu usar sua magia para entrar, precisava descobrir um pouco mais sobre ela, seu nome, desejo, quem sabe ouvi-la cantando e saber sobre seu príncipe. Crystal escondeu-se atrás de um poste de luz, murmurou um encantamento e transformou-se em uma mosca varejeira.
Fadas mais preocupadas com a aparência usavam o mesmo feitiço para assumir formas menores de si mesmas e voar tranquilamente pelos céus até seus protegidos. A vantagem era a praticidade em não ser vista e a paixão que as donzelas e reis sentiam ao ver as minúsculas criaturas brilhantes lhe tomarem a palavra. Infelizmente, Crystal não tinha mais asas próprias para voar, de forma que a mosca foi o inseto no qual imediatamente pensou. A visão era horrível, eram tantos olhos e imagens borradas e tudo se passava em câmera lenta. As asas em suas costas fizeram do voo um zigue-zague desordenado e bagunçado. Melhorou um pouco essas duas partes também com magia, e com bastante esforço, lutando contra sua natureza de mosca e o desejo se seguir até o lixo, entrou na casa pela fresta da porta, e logo notou a oportunidade perfeita de usar seus poderes e fazer o bem: aquela princesa era coagida por dois vilões.
Crystal posou com suas perninhas minúsculas na almofada branca do sofá e ouviu.
— Eu não vou obedecer! — gritou a princesa.
— Abaixe seu tom, sim? — ordenou o primeiro vilão, um homem baixinho e barbado.
— Todas as minhas amigas vão. Isso é injusto. Eu fiz tudo que vocês pediram, lavei a louça, o banheiro e até organizei os talheres por tamanho!
Trabalho forçado e cativeiro, pensou Crystal com desgosto. Ela era realmente uma princesa.
— Val, primeiro que isso é sua obrigação, segundo que nós sabemos bem que essa festa está lotada de más influências — insistiu agressivamente a segunda vilã, uma mulher velha e maquiada, com mechas de cabelo grisalho presas em um coque. — Está proibida de sair. E por que gritou, vamos tirar o seu celular.
— Eu odeio vocês! — A princesa Val saiu da presença dos vilões e Crystal não demorou a ouvir uma porta bater.
Voou para o chão quando os dois vilões se sentaram no sofá, suspirando.
— Isso é coisa do seu lado da família! — acusou o homem
— Meu lado? E aquela sua tia escandalosa que usou o cartão do avô para organizar a maior bebedeira da história da...
— Olha, você não fale da tia Vânia, que no meu tempo as coisas eram bem diferentes!
Foi o suficiente. Atrás de uma mesa, Crystal voltou a sua forma original, bateu no vestido e preparou-se pro ataque. Tinha provas suficientes para agir. Assim como Rapunzel, Val era uma jovem princesa escravizada por dois vilões malvados, impedida de ir ao baile onde com certeza conheceria seu príncipe. Com sorte, além de ajudar Val com os vilões iria guiá-la até o namorado querido, sendo a fada responsável pela realização de um verdadeiro conto e arrancar suspiros. Claro, isso não traria Corinne ou apagaria seus primeiros erros, mas mostraria para Gardênia sua competência, e, com seu sucesso, ajudaria mais jovens do Brasil para compensar o remorso.
Precisava ser mais direta e rápida, pois tinha pressa. Abriu os dedos e um punhal de lâmina de prata surgiu. Era afiada, mágica e leve. Os sentidos de fada se apuraram, e logo ouvia o batimento do coração dos dois humanos, frágeis, frenéticos, o sangue correndo pelas veias. Um ódio grotesco criou-se em si, como jamais sentiu, e as asas que surgiram em suas costas foram de ódio, porque ela voou como um raio até a frente dos dois.
O homem nem teve tempo de reagir, a mulher gritou mas o som parou no mesmo instante, quando a lâmina atingiu a garganta dos dois. Eles caíram, o sangue não jorrou, ao contrário, foram as mãos de Crystal que arderam em fogo e ela precisou largar o punhal e assoprar os dedos.
Nesses minutos tudo aconteceu um pouco rápido demais. Primeiro, a princesa Val saiu correndo de seu quarto, gritando sobre o corpo dos pais, chamando por eles.
— Mãe! Pai! O que aconteceu?
A mulher desmaiou e o homem estancou o ferimento com os dedos, sem força para falar. Não morreram, e aquilo renderia uma explicação bem confusa para os médicos, a polícia e dois psicólogos. Do outro lado da sala, Zenera fazia gestos mágicos simples e diretos na direção de Crystal.
— Eu tenho vergonha de você!
— Pare! — implorou Crystal, sua carne começou a pegar fogo.
Zenera enviou algo grande e pesado na direção da sua cabeça.
A presença desnecessária foi proibida no tribunal das fadas, mesmo que todas quisessem assistir ao espetáculo. Apenas Zenera, Gardênia, Crystal e uma representante direta da rainha das fadas discutiam a situação.
Crystal, por sua vez, não teve as mãos acorrentadas, pois toda a magia já havia sido drenada do seu corpo, e embora não tivesse sido ainda oficialmente expulsa do quinto reino, já tinha sal embaixo da língua e uma moeda de ouro posta na bota de couro rasgado.
Seu olhar passava triste e perdido de Zenera a Gardênia. Todo o depoimento, de Corinne até Val, foi repassado para a outra fada pelas duas. A juíza falava com mais altivez, ressaltando que, por seu gosto, jamais teria permitido uma nova chance a desastrada, enquanto Zenera, morta de vergonha, dizia tão somente o necessário.
— Então, senhora Unna, usei a magia do sangue de fogo para destruir os nervos das mãos de Crystal, o corte na garganta dos humanos foi superficial. Depois de atingir sua cabeça com uma pedra de gelo que criei, estanquei o sangue dos dois e não morreram, segundo fontes confiáveis. A menina desmaiou, mas acionei as autoridades do sétimo reino antes de sair da casa e voltar para cá.
Unna, uma fada jovem de asas douradas, assumia um dos mais importantes cargos dentro do reino, trajava um vestido especial que parecia uma água corrente azul e brilhante que dava voltas em sua silhueta, e os cabelos verdes e longos estavam presos em uma trança cheia de rosas, destacando seus olhos também verdes. Seu olhar frio voltou-se para Crystal, que só queria padecer, principalmente por conta de Zenera.
— Tem algo a dizer?
— Não. Mereço todas as punições possíveis e reconheço meu erro.
— Morte, senhora — aconselhou Gardênia, cheia de desprezo. — Esta criança é um perigo a todo ser vivo, não respeita a vida. Exilada, com certeza se tornará vilã.
— Essa é sua sentença, juíza?
— Sim.
Unna encarou Zenera, que se surpreendeu por ainda ter a opinião solicitada.
— Eu aceito todas as punições voltadas a mim e reconheço meu envolvimento na situação de Crystal. Aceito ter a classe rebaixada.
Tudo dependia da resolução de Unna. Crystal desejava sumir, repassando na memória cada cena do que aconteceu na terra. Por que em nenhum momento lhe passou pela cabeça que os vilões eram os pais da garota? Foi exatamente esse tipo de erro bobo que levou a princesa Corinne à morte. No fundo, Crystal não queria trabalhar como uma boa fada, analisando a situação com cuidado, conversando e deixando o melhor acontecer sozinho. Ela sempre quis apenas o reconhecimento.
— Zenera, você utilizou-se da lei da segunda chance para tentar ajudar uma alma, isso não é ruim. Observou Crystal de longe e agiu com rapidez e agilidade no momento preciso, evitando duas mortes. Por isso, não te cabe nenhuma punição.
— Obrigada, senhora.
Desgostosa, Gardênia virou o rosto.
— A Crystal não é a primeira fada a cometer erros toscos, mas o que houve com ela preocupou imensamente a rainha, e chegamos à conclusão de que está na hora de escrevermos um novo manual.
— Novo manual? — Gardênia sobressaltou-se.
— Exatamente. Por favor, Crystal, repita em voz alta os três mandamentos mais importantes das fadas, escritos na primeira página do livro sagrado.
— Derrote o vilão, salve a princesa e encontre o amor — falou com a voz arrastada, gaguejando.
— Queremos mudar isso para: preserve a vida, ajude todas as pessoas e encontre a paz. Tenho certeza de que se fossem essas as ordens, nossa colega de cabelos brancos teria evitado cortar a garganta de alguém.
Crystal concordou, balançando a cabeça freneticamente, ousou encarar as três, como um verme que pede misericórdia.
— Aprendi que...
— Cale a boca, a partir de hoje você não irá falar nada a menos que seja solicitada. Você foi irresponsável, e embora o manual seja falho, a preservação da vida é uma lei muito séria a quem leu e estudou as páginas com atenção. Sua punição é permanecer no quinto reino, mas não como fada. Será constantemente vigiada, e sua função será auxiliar outras fadas na escritura do novo manual, contando sobre seus erros. Considere-se sortuda.
— Senhora...
— Calada!
Crystal não tinha certeza se preferia a morte ou o exílio, pois, naquele instante, a zombaria e a piada que se tornou perante as outras parecia pior que tudo.
Na última hora, ao verem a fada chorando, com as mãos paralisadas e queimadas pela magia de Zenera, as três que estavam de pé se compadeceram, pois sua natureza de fada gritava mais alto pelo bem, até Gardênia sentiu-se verdadeiramente mal.
— Tenho certeza de que o novo manual, menor e mais direto, será um sucesso. — Zenera sorriu. — A próxima geração de fadas será perfeita em seus passos.
— Sim, e todas as responsáveis pela escrita desse novo manual serão honradas — sugeriu Gardênia.
— E recompensadas. – A palavra de Unna era uma confirmação, e Crystal ousou sentir esperança. — O aprendizado só existe graças aos erros e as dificuldades.
— Eu mesma matei três pintassilgos antes de virar juíza!
Crystal não seria juíza, nem mesmo teria o direito de voar. Uma fada falsa, quase fada, um pouco de aberração. Mesmo assim, sua natureza de fada também falou mais alto, aquela vontade de fazer o bem irrefreável que só existia no coração dos nativos do quinto reino. Se tudo que viveu serviu de estopim para a criação do novo manual, valeu a pena. Quase sorriu, Zenera restaurou suas mãos. Ela precisaria para escrever em seu novo trabalho. Aguentaria, sim, as zombarias e tudo. Pois pela primeira vez sentiu-se uma fada, faria algo realmente bom, esquecendo de si, sem egoísmo e sem orgulho.
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