Parte II

Crystal acordou em uma terra sem lei, sem dono, sem magia. As fadas atiraram-na do vazio, em qualquer lugar, as asas cortadas e duas cicatrizes sangrentas nas costas, estancadas com magia curativa. O movimento de rotação da terra fez com que caísse em um país bagunçado e alegre, chamado Brasil, exatamente numa praça qualquer, numa cidade qualquer cujas ruas não eram asfaltadas. Embaixo de um escorregador de madeira encardida, onde crianças animadas ignoravam sua existência, ela se encolheu, passando os braços ao redor dos joelhos descobertos. O vestido rosa perdia o brilho e o esplendor, seus olhos lilás agora eram somente uma curiosidade macabra de uma mulher abandonada no sétimo reino. Teria passado horas lá embaixo, observando o comportamento peculiar dos humanos sem magia, assustando-se com eventuais aviões que rasgavam o céu com barulheira de monstros.

Zenera não se esqueceu da fada, flutuou em segurança até sua presença, escondida, cobrindo as asas prateadas com uma capa roxa para não assustar os humanos. Chamou, e Crystal quase pulou em seus braços, chorando ao conhecê-la.

— O que está fazendo aí?

— Oh, Zenera! Não sei como te agradecer.

— Agradeça cumprindo seus deveres, meu amor. Minha reputação também está em jogo. — Crystal percebeu a preocupação em sua voz e saiu de baixo do escorregador, não sem antes bater a cabeça e ganhar uma marca vermelha na testa.

— Não sei o que fazer. Este reino é assustador, é maléfico.

— Apenas seja uma fada, faça uma coisa boa. O sétimo reino não tem magia, o que significa que qualquer ato seu será extraordinário.

— Mentira! — Crystal apontou para os carros que passavam na rua próxima, depois para o céu, e se desfez em lágrimas na frente de Zenera. — Têm monstrengos com quatro rodas, que correm mais que qualquer cavalo, com olhos de sol. As pessoas sentam-se no estômago desses monstros. No céu, aves de metal horrendas voam sem bater asas, com barulho de trovão que ressoa nos ossos do seu crânio. Isso é magia, a magia mais assustadora que já conheci.

Zenera apenas balançou a cabeça em desgosto, enfiando as mãos nos bolsos da capa, seus olhos negros fitaram a outra fada cheios de compaixão e paciência.

— Não é magia, é justamente o que tu disse: metal, engrenagens, óleo e fumaça. Os humanos daqui não podem voar nem se teletransportar, nem invocar uma simples esfera de luz para iluminar suas noites. O sétimo reino se adaptou do jeito que pôde ao meio, e embora não dominem a arte da magia e dos poderes, criam engenhocas mecânicas eficazes e minimamente seguras.

— Não importa! A princesa Corinne está morta por minha culpa, eu não vou...

Zenera não permitiu que continuasse, simplesmente retirou um papel amassado e entregou para Crystal. Ela sentiu a ponta dos dedos aquecerem e formigarem, e soube que ali continham magia. Uma pesca. Uma pesca do que fazer para ser uma boa fada, convencer a juíza Gardênia e recuperar suas asas.

— É uma página do manual perfeito da boa fada. A primeira página. Fomos obrigadas a escrever nos dois mil alfabetos existentes nos sete reinos. Lembra?

Crystal não fora uma aluna exemplar, tampouco lera os conselhos do calhamaço gigante de magias úteis, focando somente na parte do voo e na psicologia das cores. Mas ela lembrava bem da primeira página, a mais importante.

Derrote o vilão.

Salve a princesa.

Encontre o amor.

Abriu a folha e leu tudo rapidamente, sem coragem de encarar Zenera, a vergonha enchia seu peito como uma lama espessa, e visões de vermes rastejando pelo esqueleto da princesa invadiam sua mente como uma verdadeira maldição a cada segundo.

— Faça uma dessas três coisas. Provavelmente nunca mais sairá do nosso reino e nem subirá de classe, mas ainda é melhor que ser largada com uma moeda na bota e sal embaixo da língua. — Zenera fechou a mão sobre a de Crystal, e uma lágrima grossa molhou sua pele. Ela pensou em uma das lições do manual, que orientava fadas quanto suas lágrimas. Em mãos erradas, lágrimas de fada podiam causar um belo desastre. — Não chore, esqueça Corinne. Novas fadas serão enviadas em missão para consertar seus erros e tomar o reino da feiticeira malvada. Tenho certeza que uma nova princesa vai aparecer.

Alguns segundos de silêncio, uma ventania repentina e Zenera já não estava mais lá. Sumiu tão rápido quanto surgiu. Uma das crianças que brincava por perto, observava o lugar tão atônita quanto Crystal.

— Espera! Zenera, obrigada. Eu vou conseguir, juro. Juro pela princesa Corinne, pelas divindades e os sete reinos!

Crystal amassou a folha do manual e jogou-a fora, as três leis básicas, não seria burra de esquecer. Ela sabia que Gardênia jamais aprovaria intervenções diretas de Zenera, mas desejou que a amiga tivesse ali permanecido como guia, dizendo-a exatamente como agir. Inesperadamente, sentiu um desejo assassino tomar seu peito, uma vontade quase incontrolável de arrancar as asas da juíza, mas logo esqueceu o pensamento, ia contra sua natureza alimentar intenções vilanescas. O sol se aproximava do meio do céu, o calor grudava os fios de cabelo no seu pescoço e rosto, o primeiro passo, decidiu, era descobrir o máximo de informações possíveis sobre o reino, se havia alguma princesa para salvar, vilão a ser derrotado ou jovens apaixonados em busca do amor. Algum trabalho para fadas.

Na calçada de cimento, onde nenhuma criança brincava, um velho jornaleiro tomava café em sua banca, era um senhor moreno, de barba mal feita e óculos quadrados, não muito mais alto que os meninos no escorregador. A banca de jornais produzia um bom pedaço de sombra, e Crystal achou ter encontrado um lugar perfeito para amenizar o calor e conseguir informações.

Em uma vida de trabalho na praça Videira, seu Edu viu cenas engraçadas protagonizadas por bêbados, crianças apanhando, brigando, dentes quebrados, balas perdidas, ambientalistas, manifestações, mas nunca uma moça de vestido rosa, cabelo branco e olhos lilás como uma forasteira assustada. O que mais o surpreendia era que a mulher o hipnotizava, e dessa vez não era o decote ou a saia acima dos joelhos que chamava atenção, era simplesmente ela. Edu moveria montanhas por um beijo daquela mulher, sem qualquer conhecimento sobre o efeito da magia enfraquecida que emanava de sua pele.

Metal, engrenagens e óleo, é tudo que eles têm! – Pensou Crystal, tomando coragem para falar.

— Senhor, em que reino nós estamos?

— Perdão?

— Preciso saber em que reino estamos, o nome de sua princesa... Essas informações.

O jornaleiro balbuciou sílabas arrastadas, ininteligíveis, engoliu em seco e nem se opôs quando a fada entrou em sua banca e revirou seus livros e revistas. Ela podia ler e falar todos os idiomas, era um de seus aprendizados básicos, mas não havia notícias sobre castelos, princesas ou vilões. Se interessou por um pote de balas, abriu e, antes de descascar cada um dos bombons de melão, retirou um dos brincos de rubi e o depositou sobre o balcão enferrujado. Ela sabia que ouro era a moeda universal, valiosa em qualquer reino. Brincando com a sorte resolveu testar o brinco, embora rubis, esmeraldas e outras pedras coloridas jorrassem de cachoeiras no reino das fadas, não era possível saber em quais outros reinos elas eram abundantes ou raras.

— Espero que isso pague, eu estou morta de fome. Interessante esses melões de vocês, no meu reino os melões são moles, laranjas e retirados da terra.

Edu enfiou o rubi no bolso, pra ele era só uma bijuteria barata, a bijuteria barata da mulher mais linda que já viu, a qual guardaria embaixo do pinguim da geladeira como recordação.

— Senhor, como se chama este reino? Quero dizer, talvez você conheça como império, capital, província, país...

— Brasil?

— Sabe se existem princesas ou príncipes solteiros por aqui?

Edu não respondeu, e Crystal sentiu-se bastante indignada com seu olhar perdido e apaixonado, então ela segurou o pote de balas de melão com uma mão, acenou com a outra e agradeceu, contente pela sua compra e decidida a tentar algo mais fácil que propriamente uma princesa, não precisava de outra morta, como Corinne. Atravessou a praça, e os carros buzinaram loucamente, motoristas xingaram a idiota no meio da rua, prestes a ter as pernas esmagadas por rodas furiosas e velozes. Ela gritou e se desculpou, sem costume de usar as pernas para se locomover, perdeu seu pote de balas no processo e fez a seguinte nota mental: "Os monstros de metal no qual as pessoas entram a viajam possuem sérias dificuldades em desviar".

A melhor opção para Crystal seria procurar trabalhos menores, evitar assassinatos e tentar convencer Gardênia. Derrotar um vilão, visivelmente mais fácil! Um reino pode ter vários vilões, grandes e pequenos, feiticeiros cruéis ou meninos que matam formigas. Teria sido essa a procura de Crystal, se ela não tivesse visto, naquele momento, andando a passos rápidos pelas ruas do Brasil, uma princesa.

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