Parte I

A venda bem apertada cobria a visão de Crystal, ela sabia exatamente onde estava. Suas preces à mãe natureza falharam. Agora, é arrastada por duas fadas guardiãs ao julgamento público. Pagará caro pelos seus erros. As mãos começam a formigar, amarradas às costas por um cordão especial, inibidor de magia. As asas brilhantes são um peso morto, como dois panos molhados que pendem inutilmente sobre seus ombros, não mais ligadas aos seus músculos e nervos.

— Retirem a venda — ordenou uma voz doce e melodiosa, e as guardiãs obedeceram. Ao seu redor, dezenas de fadas curiosas, jovens, velhas e coloridas balançavam as asas brilhantes como um gesto de zombaria a sua impotência. Sentadas em longos bancos de madeira de carvalho, sorriam e se divertiam com o primeiro espetáculo pavoroso de condenação em décadas no quinto reino, o reino das fadas.

— Não quero me prolongar. — Repetiu a voz, e Crystal sentiu-se ainda mais fraca diante da figura séria da juíza Gardênia. Era uma fada classe 1, já cumprira missões em todos os sete reinos e suas asas reluziam como ouro espelhado diferente da maioria, que mais pareciam ter rios de glitter escorrendo das costas. Metade do rosto enrugado estava coberto por uma franja branquíssima que cobria um dos olhos verde-oliva.

A pressa inicial era falsa, Gardênia demorou no julgamento. Uma fada classe 2, de asas prateadas, serviu-lhe em uma taça de vidro o licor sagrado, que poucas já tiveram o privilégio de experimentar. Fabricado especialmente para fadas de asas douradas como a juíza, continha lágrimas élficas, sementes de gergelim, fios de cabelos da realeza triturados e três gotas de sangue de vilão em sua composição. As asas de Gardênia cintilaram mais quando ela limpou o canto da boca com seus dedos pálidos, cobertos por uma luva cor de gelo.

— A princesa Corinne está morta.

Crystal suspirou em desespero, e as fadas ao redor do tribunal se exasperaram com a notícia. Embora a situação em que Corinne foi deixada incomodasse profundamente o coração de Crystal, ela imaginava que por trás do vestido enfeitado de fitas houvesse uma jovem ardilosa, capaz de seduzir guardas e escapar das grades da masmorra. Aparentemente estava errada.

Era uma fada sem classe, como a maioria, pretendia continuar seus afazeres monótonos no quinto reino, até que sua amiga ofereceu uma oportunidade imperdível de servir no terceiro, auxiliando uma princesa qualquer, de um reinozinho medíocre, a encontrar a grande baboseira do amor verdadeiro e salvar seu trono da feiticeira malvada.

Aquilo era extremamente importante para as fadas: amor verdadeiro e feiticeiras malvadas. Toda a existência do quinto reino era fundamentada em servir os outros seis através disso.

Três ordens eram repetidas incessantemente as fadinhas pequenas desde o jardim de infância, quando ainda pintavam rosas e magnólias, misturando tons com a tinta da natureza.

Derrote o vilão.

Salve a princesa.

Encontre o amor.

Se conseguisse ajudar Corinne nessas três missões, seria elevada a uma fada classe 3 com asas que reluziam em bronze, conquistaria respeito e glória.

Gardênia arrumou os fios brancos e lisos em cima do ombro, fitando com superioridade a fada fracassada a sua frente. Uma jovem bonita, com cabelos cor de neve como os seus, naturais, não frutos da velhice. Os fios finíssimos caiam até a cintura como uma cascata, emoldurando o rosto pálido e oleoso cujo nariz longo e afilado se sobressaia, distraindo até mesmo a atenção dos olhos lilás. Fadas amavam brilho e cor, o que gerava um certo desconforto em Crystal por sua palidez. Para compensar, as orelhas pontudas eram furadas cada uma com cinco brincos de rubi.

— Amadas irmãs, sob a recomendação de uma fada da classe 3, esta fada sem classe foi designada para uma simples missão no terceiro reino, onde, com todo o auxílio de sua limitada, porém eficaz magia, deveria coordenar Corinne as necessidades mais básicas que a condição humana exige: dinheiro, amor e vingança. Ao contrário de nossas expectativas, a fada calculou tudo errado.

Crystal levantou os olhos timidamente, ao seu redor, todas as irmãs demonstravam nojo. O céu azulado se enchia de nuvens, das quais em breve água gelada cairia para formar poças de lama e lamentar sua decadência. Sempre que uma princesa morria, uma trovoada sacudia as árvores no reino das fadas. Visualizou ao longe sua casinha de madeira estreita, sustentada pelos grossos galhos de uma amendoim-acácia, donde tão pouco tempo fora detida e arrastada. As nuvens tenebrosas formavam-se especialmente ali em cima.

— Primeiro, confundiu o príncipe encantado com um comerciante de peixes, simplesmente pelo queixo duplo. — Gardênia anunciava seus erros com escárnio, ao passo que Crystal tombou para o lado e ouviu tudo com a bochecha inchada esmagada contra o solo. — Depois, trocou a feiticeira malvada com a boa, por conta do título!

Crystal ouviu as exclamações das irmãs, até mesmo um xingamento. Lembrava-se de tudo, deveria ter feito algo útil para impedir todos os desastres.

— Para finalizar a audiência, o resultado dos erros desta fada foi um trono usurpado, um príncipe casado com a donzela errada e, o pior de tudo, a princesa Corinne que morreu na masmorra após ter o dedão devorado por uma ratazana.

— Misericórdia, senhora! Misericórdia! — implorou Crystal, desesperada. A pior punição de todas era ouvir sobre as fatalidades. — Misericórdia! — As fadas guardiãs a ergueram do chão, Corinne, mais alta e corpulenta que as duas, mal sustentava o peso do corpo. Preparou-se para o pior.

— Eu, Gardênia, fada classe 1, pelo poder concedido a mim pela mãe natureza, declaro Crystal culpada por um final triste e um verdadeiro conto de bruxas. Punição máxima, cortem as asas dela e depois... Criem novas asas e cortem novamente, cerca de dez ou onze vezes. Então, joguem ela em um reino qualquer com uma moeda de ouro dentro da bota, uma capa de frio e sal embaixo da língua.

A multidão de fadas assentiu, bateu palmas. Fingindo modéstia, a Juíza agradeceu. Crystal teve os pulsos soltos, mas de nada adiantaria lutar dali em diante, não com todos os olhares poderosos de raiva que perfuravam cada centímetro da sua pele. Um trovão ribombou alto, anunciando o choro do reino pela morte de Corinne, a doce Corinne. Foi inocente, bela e pura. Talvez, afinal, Crystal merecesse a punição. Baixou a cabeça, aceitando.

— Um momento! — Surgiu Zenera, uma fada classe 2, asas prateadas. Alguns apostavam nela como sucessora de Gardênia. As fadas se calaram para ouvir.

— Nós estudamos juntas — murmurou Crystal, lembrando de todas as asas de borboleta que padronizaram com os pincéis de folha.

Diferente de Crystal, Zenera foi um sucesso. Sua pele negra contrastava com os olhos pretos, um espetáculo de cores. O cabelo vermelho-cereja aparado acima dos ombros e a franja reta sobre as sobrancelhas davam-lhe um ar angelical. Para completar, sempre arrasou na maquiagem, com batons claros e sombreamento bicolores nas pálpebras. Uma fada invejável pelas cores, beleza e inteligência. Da mesma idade de Crystal, já era cotada como futura fada juíza, ou fada do amor e da bondade.

Bondade. Essa era a principal virtude de Zenera, que tanto irritava a amarga Gardênia. Seu vestido azul todo amarrado com laços no corpo pequeno esvoaçou quando as asas prateadas a levaram para próximo da juíza.

— Diga!

— Excelentíssima! — exclamou com um movimento sutil e bem ensaiado de reverência. — Creio que Crystal merece uma segunda chance.

Fez-se silêncio, as primeiras gotas caíram do céu.

— Perdão?

— Não foi a própria excelentíssima, que, no início da carreira, deixou escapar das mãos um ninho de pintassilgos?

— Está correta.Não podemos, porém, comparar a morte de três pintassilgos com a de uma princesa.

— Com todo o respeito, mas eu protesto. As leis da mãe natureza são claras, todas as vidas possuem o mesmo valor. De uma fada e uma ave, de um humano e uma minhoca. Partindo desse pressuposto, não é errôneo afirmar que a morte de apenas uma princesa. — E levantou o indicador para enfatizar o algarismo. — Teria mais peso que a morte de três pintassilgos. — Dessa vez levantou três dedos.

As fadas que sobraram no tribunal, aguentando as gotas grossas e pesadas de água, assentiram. Crystal mal podia acreditar que aquela criatura mais que especial partira em sua defesa por bondade, sem interesses e em nome da lei. Seria uma grande fada, a melhor. Por um segundo, viu os olhos pequenos e enrugados de Gardênia se fecharem, e seu peito inflou em raiva e decepção.

— Entendo. Como eu tive uma segunda chance mesmo matando os pintassilgos, acha que Crystal também merece?

— Eu não acho nada, vossa excelência. Quem diz é a lei.

— Pois muito bem! — Desta vez não disfarçou o ódio. Seu olhar se cruzou com o de Zenera e proferiu seu ultimato. — Em nome da magia, da lei, da ordem e da natureza, eu concedo uma segunda chance a Crystal. Terá suas asas removidas temporariamente e será atirada no sétimo reino, a terra, onde os homens não dominam magia. Lá, se Crystal cumprir pelo menos uma missão, será perdoada e voltará ao nosso reino com as asas restauradas.

— Muito bem!

Crystal arregalou os olhos, quase estatelou-se no chão. Uma chance era tudo o que desejava para provar seu valor, e Zenera lhe dera isso. Todavia, todos os erros e passos em falso voltaram com tudo à memória. A chuva que lhe banhava era para ela as lágrimas da princesa morta. Não ia conseguir.

Com plena e total certeza de que a nova missão de Crystal seria um completo fiasco, a juíza escondeu o sorriso e concordou com ainda mais altivez, exaltando a ideia. Era a oportunidade perfeita para livrar-se também de Zenera e da constante ameaça de ter seu lugar no trono da lei usurpado.

—  Ajude-a, Zenera. Dê-lhe conselhos, mais não se intrometa mais que o necessário, somente o mínimo para a adorada fadinha boba não matar mais ninguém.

— Sim, senhora.

— Se falhar, terá posto indefesos humanos sem magia em risco. Uma transgressão grave.

Zenera observou o rosto atônito de Crystal com certa confiança e bravura. Uma parte da sua reputação automaticamente foi posta em risco ao assumir as dores da fada de olhos lilás.

— Entendido, senhora. Eu me responsabilizo pelos erros da Crystal. Tenho certeza que ela não vai decepcionar.

— Joguem a fada no sétimo reino!

— Em qual divisão territorial, senhora? — perguntaram as guardiãs.

— Não importa, é uma terra sem magia, logo, sem importância. Não esqueçam de arrancar as asas antes. — Com maldade, encarou a outra fada. — Boa sorte com a sua boa ação, minha linda.

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