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Eva Cossford.

Em casa. Chorando. Coração partido.

Thomas não era o primeiro garoto que eu beijava. Já tinha conhecido outros meninos e de alguma maneira inexplicável todos eles apenas me usavam e me jogavam fora como um objeto. Estava acostumada a fazer barreiras infinitas, prometido não me apaixonar de novo. Então, num momento que sai da realidade eu o beijei.

Foi simples, somente encostamos nossos lábios, mas suficiente pra me fazer senti em outro planeta naquele momento. Só queria ser correspondida, não ouvir um, gosto de você mas não desse jeito. Não forçaria ele a sentir algo por mim, eu que era intensa demais e sabia que destruir aquela intensidade demoraria muito tempo.

Por isso faltei aula, me tranquei no quarto e quando Brian bateu na porta me chamando logo de manhã eu fingi está dormindo, mesmo que meus olhos estivessem cheios de lágrimas e pesados.

Só quando era perto do meio dia eu me levantei, fiquei tonta e tive medo de desmaiar ali e ninguém consegui me ajudar. Destranquei a porta e sentei logo na frente pra o corredor enorme a vista.

-Filha.- Ouço a voz do meu pai. Tanto tempo sem me importar em falar com ele e agora lá estava eu, chorando em seus braços assim que o reconheci.

Soluçava e me arrependia a cada lágrima que saia de meus olhos, nenhum homem merecia meu choro nem muito menos meu coração partido. Mesmo que me entregar pra alguém fosse como um trauma.

-Brian me disse que estava se sentindo mal, não tinha comido nada e decidi fazer o café da manhã pra você.- Ele respondeu mesmo que só escutasse meu choro.

Apenas confirmei, eu queria que tudo voltasse a ser como antes.

-Não estou com fome, só quero sair daqui.- Eu murmurei.

Meu pai envolveu meus ombros com seu braço e me guiou até a enorme cozinha da casa. Aquela sala de jantar era onde guardava as lembranças dos piores momentos, todas as brigas e discussões fora bem ali. O cômodo onde ninguém gostava de entrar.

-Fiz bolo de cenoura. Parece que Brian fez brigadeiro e deixou na geladeira pra você, pensei que poderia colocar em cima do bolo se quiser.- Meu pai falava. Ouvia boa parte, mesmo que minha mente estivesse em vários outros planetas longe daqui.

-Não quero nada. Obrigada, pai.- Eu respondi e sentei no balcão mexendo em meus dedos exatamente como estava acostumada.

Um silêncio tenso se formou enquanto ele cortava o bolo e sentava na cadeira do bancada perto de mim.

-Eu quero pedir desculpas por ter sumido tanto tempo daqui. Sei que deve ser difícil pra você ver eu e sua mãe nos separarmos depois de tanto tempo juntos, mas eu precisava de um espaço depois daquela decisão.- Ele começou a dizer.

-Está tudo bem, pai.- Falei sentindo minha garganta se fechar e o choro prestes a sair de novo.

-Quem te deixou assim, meu amor?- Ele perguntou segurando minha mão me fazendo olhá-lo.

Fiquei calada. Qualquer palavra que saísse da minha boca eu me arrependeria, apenas neguei e suspirei pesadamente querendo esquecer do que tinha acontecido no dia anterior.

-Tudo bem se não estiver pronta pra contar, só preciso saber se posso ajudar em alguma coisa.- Meu pai insistiu.

Aquele jeito insistente me lembrava dele, os cabelos castanhos e meio cacheado do meu pai lembrava exatamente de Thomas. Aquilo me faz recuar e me afastar do meu próprio pai.

-Vou ficar bem. Só preciso tomar um banho e dormir.- Disse e pulei do balcão. Caminhei até às escadas onde não fazia nem muito tempo que havia passado.

-Qualquer coisa me chame.- Meu pai gritou de lá da cozinha e eu continuo calada.

Demorei uma eternidade no banho, lágrimas saiam assim como a água do chuveiro, soluçava baixinho por puro medo, medo que talvez não encontrasse alguém que valorizasse meu coração sem deixar uma marca nele, aquilo era dolorido. Saber que ele foi a pessoa que menos imaginei que me machucaria, não precisou de muito tempo pra fazer isso.

Minha pele estava meio torcida, vesti as roupas que tinha levado pro banheiro e caminhei até o quarto.

Meu pai estava ali, sentado na beira da minha cama com um livro na mão, eu suspirei derrotada pela insistência dele em me fazer sentir melhor.

-Quando você era uma pequena garota irritante, é assim que seu irmão falava, eu contava essa história pra você.- Ele começou a dizer.

Senti ao lado dele e olhei o título na capa do livro. "A princesa do coração de ouro." Eu nem lembrava mais da existência daquilo.

-Encontrei na caixa de mudança no porão. Achei que deveria ler pra você de novo.- Ele falou e ajeitou os óculos no rosto antes de começar a ler.

Ele respirou fundo e começou.

-Era uma vez uma princesa com um coração de ouro. Seus cabelos era simples assim como seus olhos, o sorriso era único mas o coração dela era o maior bem de valor que existia...- Tentava lembrar de como terminava aquela história.

"Numa noite fria, alguém consegui arrancar seu coração, fazendo com que os dias de vida dela ficassem contados, todo no reino mandaram procurar o responsável pelo roubo. Em uma das suas últimas caminhas pelo castelo, a princesa encontrou um livro mágico que dizia o seguinte":

"Os corações de todos são dourados, apenas nós mesmos sabemos o real valor dele."

-As notícias chegaram no reino, uma família pobre tinha roubado o coração da princesa usando mágica, eles estavam com uma filha prestes a morrer e ela precisava de um coração novo. A princesa perdoou eles e deixou o coração dourado com a menina a beira da morte, naquele instante ela percebeu que o coração dela não era mais importante do que a sua essência.- Meu pai falava.

-Não demorou muito pra que todos no reino soubessem do que a princesa tinha feito, cobertos pela paixão eles se juntaram e cada um deu o pedaço de seu coração para ela, fazendo com que um novo coração simples e especial surgisse no lugar do coração de ouro.- Enquanto ele contava eu sentia novamente meu rosto encher de lágrimas.

"Foram necessários muitos anos pra que aquela princesa voltasse ao céu, mas ela nunca foi esquecida, tinha perdido um coração de ouro pra um coração simples. Até que encontraram em seu quarto no dia de sua morte um trecho escrito que dizia":

"O seu coração é valioso assim como o meu, apesar desse coração ser simples, para mim ele tinha mais valor do que o coração antigo, a partir do momento que eu deixei me libertar pelo amor."

Meu pai limpou uma lágrima que escorreu no meu rosto. Ela não tinha citado homem nenhum em sua história, era somente ela e seu coração, que depois de ter se tornado simples continuou tendo o mesmo valor.

-Seja lá o que aconteceu, seu coração é valioso. A princesa perdeu um coração inteiro para o amor, mas ganhou um novo e mais valioso depois que se libertou daquele peso.- Meu pai falou e me envolveu num abraço.

-Obrigada, pai. Não sabe como me ajudou.- Disse sinceramente.

Ele deixou um beijo entre os meus cabelos e se levantou deixando a porta encostada.

-Descanse e quando estiver melhor podemos conversar.- Ele falou.

Apenas confirmei e deitei na minha cama. Minha cabeça doía e eu me concentrava pra conseguir dormir, não demorou muito até que o peso dos meus olhos se tornasse leve e eu finalmente conseguisse dormi levemente.

Todos já tivemos nossos corações partidos pelo amor.

Até mais.

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