02 - SOPHIE
Sophie Cavaunagh.
Arrumei uma mala com todas as minhas coisas, e outras que eu levava só para poder me lembrar do acampamento; me aproximei da porta encostando a cabeça no batente como se não quisesse realmente ir embora do lugar, e eu não queria. Fiquei ali por dois anos, e não tinha a menor vontade de voltar para cidade, acho que passei alguns finais de semana com a família, mas nunca voltei propriamente para mais tempo que isso.
− Você quer mesmo fazer isso? – Olhei para frente, vendo Phill, o dono do acampamento e meu irmão. – Quero dizer, de todos aqui, só eu sei o que realmente aconteceu para que você viesse para cá, fugindo da cidade e agora você vai voltar pelo mesmo motivo, isso me assusta muito, Sophie.
− Bom, eu ajudei a colocar Andrey na cadeia, e o mínimo que eu posso fazer é fazer com que ele permaneça lá. – Suspirei descendo dois degraus da entrada e o abraçando com força. – Mando lembranças aos seus pais?
− Eles são seus pais também.
Phill me mandou um olhar curioso que me fez sorrir. Eu era órfã, essa era a verdade. Eu fui adotada pela família dele, e quando precisei de um lugar para fugir, ele me estendeu a mão me trazendo para o acampamento. Meus pais adotivos pensaram no acampamento e ele me recebeu de abraços abertos, como se fossemos irmãos de sangue, e tivéssemos sido criados juntos, o que não aconteceu.
− Tudo bem, nossos pais. – De longe era possível ouvir o barulho de um helicóptero e logo ele se tornou visível também. – Aquela é a minha carona.
− Eu vou sentir sua falta Soph. – Phill me abraçou novamente antes de deixar que eu me dirigisse a área de pouso. Aquele abraço era como o do dia que eu cheguei aqui, quebrada, e machucada por causa de um acontecimento que eu fui cumplice, e ele também tinha me abraçado com a mesma ternura. – Ligue para mim quando o serviço acabar, e caso queira voltar.
− Pode deixar, eu voltarei um dia.
[...]
Viajar com helicópteros era a melhor coisa que a vida já poderia ter me proporcionado, era divertido. Ainda mais quando era Troy que estava bancando toda a viagem, como ele era meu melhor amigo depois de todo o tempo que eu fiquei fora, ainda era um mistério. Felizmente o piloto do helicóptero também era um conhecido e a viagem havia sido superdivertida enquanto conversávamos.
− Obrigado, fique atento, posso precisar de você de novo. – Eu disse brincando com ele ao descer do meio de transporte, no terraço da companhia da Clypeus.
Troy e mais dois homens, mais velhos que ele, estavam me esperando enquanto o vento forte batia ali. Não comentei, mas torci para que nenhum dos dois fosse o tal Christopher, eu iria detestar a ideia, porque normalmente gente velha é chata. Sem querer ofender ou levantar estereótipos. Não consegui evitar o sorriso quando vi Troy se aproximando enquanto eu pegava minha mala, ele me abraçou com tanta força que eu podia jurar que meus ossos iam quebrar.
− Que bom que você não me ignorou e veio mesmo! – Ele disse pergunto do meu ouvido, porém gritando por causa do barulho do helicóptero. – Os seguranças vão pegar suas coisas, e eu vou mandar que coloquem no meu carro, você vai ficar na minha casa.
Sorri para o mesmo sem dizer nada, eu não queria ficar na casa dele, e ele mesmo sabia que normalmente eu ficava na casa das pessoas que estava protegendo, com quem eu estava trabalhando, mas tudo bem, eu discutiria isso com ele mais tarde. Então, entramos dentro do prédio de advocacia, caminhando calmamente até o elevador.
− Então, como vai tudo por aqui? – O encarei e fiz meu melhor sorriso. – Como está Catherine?
− Nós terminamos. – Ele disse aquilo de forma tão natural, que parecia já fazer tempo, no entanto eu sabia que ele estava triste, o noivado dos dois já tinha mais de um ano, e o casamento nunca saía. – Já faz alguns meses Soph, você não liga, só fala conosco se alguém te procurar com muito afinco, fica difícil, não é? Você está tão por fora.
Não contive o sorriso, pela maneira como ele falou. Sem dúvidas já era hora de admitir, eu tinha realmente virado uma pessoa muito excluída. Talvez a melhor palavra seja antissocial.
− Então, Christopher está na empresa? – Resolvi mudar de assunto, eu tinha vindo a trabalho afinal.
− Está na sala dele, mas Simon quer te ver, combinar os detalhes do pagamento. Afinal, você agora vai ser empregada da Clypeus.
Descemos até o térreo e assim que saí do elevador, vendo quantas pessoas tinham ali, senti saudades do acampamento, pelo menos lá eram crianças e eu podia lidar com elas, gostava dos gritos, das brigas, das risadas gostosas, enquanto aqui todos eram sérios, como robôs, o que me dava muito tédio.
− O que você costuma fazer o dia todo aqui? – Perguntei baixinho, era estranho usar uma voz mais branda, no acampamento com a gritaria das crianças, eu tinha sempre que gritar mais alto que eles para conseguir ser ouvida.
− Fico no meu escritório analisando casos, recebendo pessoas, quando preciso comparecer a um julgamento é só ir ao tribunal. – Paramos em frente a uma porta de metal preto muito bonita, e eu o encarei. – É entediante para você que está acostumada com uma vida muito mais agitada, e, no entanto, para mim é maravilhoso.
Soltei um riso em reposta, não era preciso responder apenas que eu concordava. Troy abriu a porta para mim, e eu não falei nada com seu gesto cavalheiro. Entrei na sala que era enorme, e meus lábios se alargaram quando Simon girou a cadeira desligando o telefone e me encarando com surpresa. Pelo visto ele não acreditava que eu viria.
− Meu Deus, você veio. – Seu olhar se alternava entre Troy e eu.
− Você não disse que ele queria me ver? Achei que ele soubesse que eu viria. – Olhei para meu amigo como se pedisse socorro. Ele tinha mentido?
− Eu também.
Troy sorriu e eu queria muito poder dar na cara de cínico dele. Simon já estava de pé na minha frente de braços apertas como um pai recebendo o filho de volta, depois de anos sem vê-lo. O que era quase isso mesmo. Sempre fui uma aposta muito grande a virar advogada, por vários e vários motivos que não precisam ser citados agora, mas acabei entrando para o FBI ainda criança, então acho que ele se costumou e acabou tomando isso como vantagem, porque de certa forma já era a segunda vez que a Clypeus me contratava, então tudo bem.
− Eu fico tão feliz que você está aqui. – Ele disse ao me abraçar, podia imaginar o sorriso no rosto dele. – Sabe, Christopher precisa muito de você, ele é maravilhoso, e vai adorar te conhecer.
− Bom, eu espero que sim.
Eu não queria dizer muito mais que aquilo. Acertamos meu salário, que seria semanal, vai saber quanto tempo eu ficaria por ali, se fosse menos que um mês pelo menos dinheiro eu teria. Eu compraria um armamento novo, precisava do dinheiro. Simon não me negaria nenhum dinheiro, tudo o que ele poderia me dar me daria, ele era um anjo. Não sabia dizer não para mim.
− Você assina, e tudo estará certo. – O contrato já estava praticamente pronto antes mesmo de eu chegar. Claro que ele sabia que eu viria, velho bobo. – Escute, eu não quero que você se arrisque demais, não sabemos exatamente o quão sério pode ser tudo isso, então antes de assinar quero que me prometa não morrer.
Aquilo era complicado. A vida de um guarda-costas nunca é só dele quando está em serviço, e Simon precisava entender isso.
− Simon, eu não quero ser grossa com você, mas é meu trabalho, e eu estou aqui para morrer pelo meu cliente se isso for necessário. – Respondi assinando o contrato. – Ótimo, aonde está Christopher?
− Alguém falou meu nome? – Olhei para trás na direção da porta, e analisei o homem que havia entrado.
Ele era pouco mais alto que eu, mas sem dúvidas tinha músculos mais definidos. Estava vertido socialmente, parte de ser advogado, não é mesmo? A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi o fato dele ter ajudado a colocar Andrey na cadeia, mesmo que indiretamente, e não saber quem eu era, talvez eu estivesse fervendo por dentro e não era de raiva, era de saber que eu mesma não tinha sido capaz de fazer isso sozinha. Eu não precisava daquilo, eu precisava ser profissional.
− Christopher, está é a senhorita Cavaunagh. – Troy me apresentou e eu me aproximei do outro advogado parado no meio da sala o cumprimentando com uma perto de mão. Ele a apertou fortemente me encarando com os olhos azuis, um pouco nervosos e assustados eu diria, era fácil decifrar o que estava acontecendo.
Christopher provavelmente não fora avisado que eu era uma mulher, e não acreditava que eu era capaz de fazer sua guarda. Ah, o ego masculino ferido.
− É um prazer senhorita. – Ele soltou minha mão e enfiou as próprias dentro do bolso da calça. – Quando disseram "guarda-costas" eu imaginei algo diferente. – Seus olhos passaram rapidamente pelo meu decote e eu fingi não perceber. – Sem seios, por exemplo.
Me virei olhando Simon que meu um sorriso de canto, nervoso, por não ter falado a verdade para seu subordinado.
− Eu estou disfarçada. – Respondi com o máximo de humor que eu tinha, não podia deixar o clima pesado.
− Pelo menos você tem senso de humor. – Ele deu de ombros e se direcionou a Simon. – Vocês não vão esquecer essa história de que eu estou sendo perseguido, não é?
Ele era contra a própria guarda, eu adorava desafios, ótimo.
− Sophie só vai te acompanhar, ela foi treinada para isso. – Simon respondeu tudo bem calmo, centrado, e sério, aparentemente Christopher para ele é quase indiferente. – Depois do caso de Andrey você ficou muito exposto sendo que foi um dos responsáveis.
− Eu sei que na época eu estava só estagiando aqui, mas a verdade é que o cara era um saco. Haviam evidencias no escritório dele, e na casa também. Além do que era só ter se empenhado para achar. Se a namoradinha do Andrey não tivesse fugido eu teria arrancado a história mais rápido, ela deveria saber de algo. Mas pelo visto, ela saiu, e ninguém nem sabe o nome dela.
Então ele não sabia que era eu? Isso é que era novidade. Eu que havia colocado todas as evidencias para que alguém encontrasse, só calhou de ser ele, foi apenas coincidência. Christopher se gabava de um trabalho que eu tinha montado para ele descobrir.
− Talvez um dia você encontre a namorada do Miller e ela te recompense por ter o posto o cara dela atrás das grades. – Respondi fingindo indiferente a história toda.
Simon e Troy se olharam como se soubessem que eu não contaria a Christopher que na verdade ele estava falando de mim, deixaria tudo debaixo dos panos porque era mais fácil trabalhar assim.
− Eu tenho a impressão que conheço você.
A sala ficou em silencio por um tempo. Ele estagiava aqui na época que eu lidei com o caso de Andrey, sem dúvidas teria me visto uma vez ou outra. Mas eu era diferente, então por isso ele poderia não se lembrar totalmente de mim. Eu não lembrava dele.
− Eu não posso dizer a mesma coisa. – Dei de ombros me fazendo de cínica como sempre. Era meu trabalho habitual. – Eu preciso do seu endereço, e sinto muito se não gosta da ideia de ser protegido, principalmente por uma mulher, mas eu prometo não pisar muito na sua masculinidade.
Troy segurou uma risada atrás de mim, e Christopher ficou com o rosto vermelho, provavelmente irritado pela maneira como eu falei. Fiz um aceno com a cabeça para Simon e me retirei da sala com Troy atrás de mim, os outros dois ficaram na sala discutindo alguma coisa, o que não precisava de mim e eu precisava de ar.
− Não vai contar a verdade a ele? – Troy perguntou curioso.
− Eu não. – Respondi firme passando uma das mãos pelo cabelo curto que terminava em meu pescoço. Estava começando a crescer, o que me irritava. – Ele não precisa ficar desconfiado de nada, quando surgir a oportunidade vou retomar o assunto. Preciso conquistar a confiança dele primeiro, e se for o caso a destruir quando estiver indo embora.
− Bom, a ideia de você o proteger não me agrada tanto. – Parei antes da saída encarando meu amigo com uma interrogação imaginária na testa. – Você é maravilhosa, e se ele se apaixonar, pode se tornar um problema.
− Eu não me envolvo com clientes. Você sabe disso. – Respondi com calma, já que da ultima vez havia dado problema. – Christopher Scotter para mim não vai passar de um cara que eu tenho que proteger porque meteu o nariz onde não foi chamado. Pode deixar comigo, as coisas serão diferentes dessa vez.
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