09: Those Eyes

Going home in the back of a car, and your hand touches mine.
-New West

ROSE

"Departamento de polícia de Michigan, quem fala?"

"Oi..." Respondia uma voz fina e baixa, na gravação.  "Vocês... vocês podem vir aqui? É o papai." O menininho sussurrava.

Do outro lado da linha, a policial mudava o tom de voz ao perceber que era uma criança no telefone. "Olá, querido. Consegue me dizer o que aconteceu?"

"Eu...ele machucou ela. E me machucou também. Mas com ela foi pior. Por favor..." Um Dominic de seis anos implorava, e começava a chorar.

"Tudo bem. Vamos te ajudar. Consegue me dizer seu endereço?"

"Eu não sei. É...tem um parquinho perto. Vem logo, por favor." Dominic choramingava, cada vez mais baixo.

"Fique na linha comigo para que eu consiga te achar. Vamos conversar. Quantos anos você têm?" Nesse momento, há 19 anos atrás, a policial tentava, com a tecnologia da época, rastrear a ligação. Para isso, eles precisavam de pelo menos cinco minutos na linha.

"Seis...ele está vindo. Vem logo, por favor. Tchau." E então, o menininho desligava.

Os policiais não foram capazes de rastrear a ligação, e o que aconteceu depois disso, só uma pessoa poderia me contar.

Eu encarei o homem que eu estava aprendendo a confiar. Dominic encarava o computador com os olhos verdes vidrados. O cabelo loiro estava bagunçado, devido ao treino que ele fazia, e era a primeira vez que eu o via usando roupas casuais.

Era muito bonito, e a camiseta branca de compressão, junto com a calça cinza de moletom e o cabelo despenteado, o deixavam mais atraente do que qualquer outra roupa.

— Eu me lembro de ficar esperando a polícia, enquanto ele me espancava, tendo certeza que eles chegariam e ajudariam à nós...- Dominic sussurrou, ainda sem olhar para mim. - Ninguém nunca veio.

Eu respirei fundo e toquei seu ombro, fazendo com que ele se virasse na cadeira e me olhasse.

— Eu sinto muito por isso. Ninguém deveria passar por uma coisa dessas, muito menos uma criança. - Ele assentiu, e assisti sua garganta quando ele engoliu em seco. - Mas vou precisar te fazer algumas perguntas agora, tudo bem?

— Tudo bem. - sua voz saiu fraca.

Eu me sentei também, colocando minha cadeira perto dele.

— Você tentou ligar para a polícia mais alguma vez depois ou antes dessa?

— Não... Depois desse dia, eu coloquei na minha cabeça que, se nem a polícia era capaz de ajudar, ninguém mais seria. Nem tentei procurar ajuda de novo.

Eu assenti, pensando em um jeito de perguntar de maneira delicada.

— Quando você diz "ela", na ligação... está falando da sua irmã ou da sua mãe? - eu digo, me referindo ao momento que ele diz que o pai "machucou ela".

Dominic mordeu o lábio inferior.

— Era minha mãe. Não consigo me lembrar exatamente o porquê ele estava espancando nós dois naquele dia... provavelmente algo o irritou no trabalho. Mas foi uma das piores vezes, e minha mãe desmaiou. Fiquei assustado, porque era a primeira vez que isso tinha acontecido. Por isso liguei para a polícia.

— Entendi. E você sabe se ele bebia?

Ele negou com a cabeça.

— Meu pai não bebe. Ele é alérgico a trigo. Por muitos anos, eu pensei que seria melhor se bebesse: talvez assim houvesse alguma justificativa para o que ele fazia com os filhos e a esposa.

Algo estalou em minha mente.

John não podia beber, mas constantemente ia aquele bar... ou escondia algo lá, ou era para se encontrar com alguém.

Deixei essa nota mental guardada.

Encarei Dominic e observei enquanto ele deitava a cabeça para trás, fechava os olhos e respirava fundo.

Era difícil para ele, é claro. Eu ainda não sabia tudo o que tinha acontecido, mas, mesmo que não tivesse a ver com morte de Caroline, John precisava ser preso. Então, primeiro, eu focaria minhas energias nele. E esperava que isso me trouxesse pistas sobre o caso de Dominic, mais tarde.

Olhando para ele, era fácil decidir não continuar com as perguntas hoje. De qualquer forma, era domingo. Eu nem deveria estar trabalhando.

Me levantei e toquei em seu ombro.

— Vamos parar por aqui. Posso continuar o que quer que precisarmos continuar amanhã. - Ele me olhou agradecido, e quase sorriu. - Quer dar uma volta? Adoro os jardins daqui.

Dominic se levantou, e antes que eu pudesse ter qualquer reação, senti seus braços em volta do meu corpo. Ele me abraçou com força, e descascou o queixo no topo de minha cabeça. O aroma masculino invadiu meus sentidos, e eu precisei de dois segundos para abraça-lo de volta.

— Obrigado por tudo que você está fazendo -Eu sei que é seu trabalho - mas obrigado mesmo assim. - ele murmurou, sem me soltar.

Eu só conseguia prestar atenção nos músculos dele, que me apertavam com cuidado e firmeza, e no cheiro delicioso.

Até suado o homem era cheiroso, que injustiça.

Permaneci em silêncio, aproveitando o momento. Quando Dominic me soltou, seus olhos verdes brilhavam, e eu senti meu coração acelerar um pouco. Uma sensação estranha no estômago me fez desviar o olhar, mas ele tocou meu queixo, do mesmo jeito que eu fiz mais cedo, e virou meu rosto em sua direção.

— Rose, você pode ser a pessoa capaz de mudar o curso inteiro da minha vida. Por isso, quero pedir desculpas de novo, por ontem. Acho que me deixei levar pelo momento e passei dos limites...- ele soltou meu queixo e esticou um pouco os lábios. - Você é muito bonita, e eu muito idiota. Não quero estragar isso.

Meus ombros se abaixaram em desapontamento.

Ele se arrependia, então?

Mas eu entendi. Dominic tinha coisas mais importantes a se preocupar do que ficar brincando de flertar comigo. E não queria que eu confundisse as coisas, agora que significava a possível porta de liberdade.

Tudo bem. Eu entendia.

Me afastei um pouco e assenti.

— Claro. Não se preocupe, também peço desculpas. Eu estava lá, afinal. - Murmurei, constrangida.

Dominic sorriu.

— Vamos para os jardins, então.

+

Nos sentamos nos bancos, um ao lado do outro, em um silêncio confortável.

— Você se desespera as vezes? Vivendo aqui, em meio a pessoas doentes, sabendo que não pertence a esse lugar? - perguntei com curiosidade.

É claro, era melhor num hospital psiquiátrico do que na prisão, mas ainda assim...

— Sinceramente? Não. Eu tenho um pouco de medo de ser influenciado, isso sim. Não quero esquecer como é me relacionar com pessoas normais. Não quero perder minha essência. - ele me encarou, e a luz do sol deixava-o com uma aparência quase angelical. - Como é a sua vida? Você realmente só trabalha?

Eu sorri, porque ele já sabia tanto sobre mim em tão pouco tempo.

— Eu cresci ouvindo o quão inteligente era, e sabia que iria usar isso para fazer o máximo de bem possível na sociedade. Sim, eu trabalho demais...mas meu trabalho salva vidas. Eu não quero me dar ao luxo de descansar, quando posso, por exemplo, descobrir sobre a existência de um pai abusivo. - Eu murmurei, com gentileza. - Mas a minha melhor amiga, Viena, também é minha colega de apartamento. Se eu saio, é sempre com ela.

Dominic mordeu o lábio inferior.

— Posso te fazer uma pergunta pessoal? - ele disse com seriedade. Eu assenti, ao passo que ele continuou. - Eu pensei em te beijar, na sexta-feira. Você...isso passou pela sua mente?

Eu corei. Achei que tínhamos encerrado o assunto, caramba.

— Sendo sincera? Passou. Mas não podemos fazer nada, você sabe. Complicaria as coisas, e tiraria nosso foco do que importa de verdade, que é sua inocência.

Ele me olhou um pouco cético, mas pareceu aceitar minha resposta.

— Tudo bem. Eu sabia a resposta. Mas queria me certificar de que você estaria falando a verdade.

Eu ergui as sobrancelhas.

— Isso foi um pouco manipulador da sua parte.

Ele me olhou como quem pede desculpas.

— Estou aprendendo a confiar em você, doutora. Só isso.

E então, a coisa mais estranha aconteceu: barulhos de tiros, incessantes, começaram a soar, de longe.

Dominic me olhou e se levantou, ficando na minha frente imediatamente.

— Se esconda, Rose. - ele disse. Eu sorri, mesmo em meio ao caos.

— Eu sou a policial, Dominic. Tenho a arma. Você fica, eu vou ver o que está acontecendo.

Os barulhos ainda soavam distantes, o complexo era enorme. Liguei para as unidades policiais mais próximas e pedi viaturas.

O homem loiro, lindo e um pouquinho maluco pegou meu pulso e me encarou.

— Não vai, não. Então nós dois ficamos. Não vou deixar você se colocar em perigo.

Eu franzi as sobrancelhas.

Eu sou policial.

Ele grunhiu, irritado.

— De laboratório, Rose! Não é como se você entrasse em tiroteios dia sim, dia não. Pelo amor de Deus, mulher. - Dominic me puxou enquanto corria para um canto mais afastado do jardim.

Nos abaixamos atrás da estufa.

— Você sabe se tem outra saída além da pelo estacionamento? - perguntei, planejando nossa fuga.

Eu já havia ligado para as viaturas, e ir verificar algo sozinha seria um risco desnecessário.

Dominic assentiu.

— No fim do muro do jardim. Não é uma saída, mas consigo te levantar para o outro lado. É um pouco mais baixo do que aqui.

Eu franzi o cenho.

— Mas e você? Como vai pular?

Ele riu com escárnio.

— Eu não vou pular. Eu moro aqui, não posso simplesmente fugir.

Foi minha vez de achar que ele era louco.

— É um tiroteio, Dominic. Você vai comigo, vamos dar um jeito. Me mostra onde é o muro mais baixo.

Fomos abaixados pela lateral do jardim. O barulho de tiros não parava, e eu também não guardei a arma nem por um segundo. Quando chegamos ao final, constatei que o muro devia ter por volta de 2 metros e meio.

Dominic me encarou pedindo permissão, e quando eu assenti, suas mãos estavam na minha cintura me levantando. Em menos de dois segundos eu estava em cima do muro, encarando a rua deserta a minha frente. Ele me levantou como se eu não pesasse nada, e agora eu o encarava.

— Acho que você consegue subir sozinho, Dominic. - Murmurei, analisando. - Puxe o banco...isso. deixe mais para trás. Você vai correr, e usar o banco como impulso para cima.

Ele fez como eu disse, e sem muitas dificuldades, estava em cima do muro também. Dominic desceu primeiro, e me pegou com delicadeza, me colocando no chão. Eu franzi o cenho.

— Isso foi fácil. Achei que tinha que ser mais difícil escapar de um hospício.

Ele sorriu, coçando a nuca.

— Acho que a maioria das pessoas aí dentro não conseguiriam fazer o que fizemos, doutora.

Eu não o respondi, e pedi um uber para a minha casa. Não sei porque fiz isso: deveria ter levado Dominic para a delegacia, para ele passar os dias lá até que pudesse voltar ao hospital.

Mas saber que ele era inocente e passaria dias na cadeia, sendo privado de comer, beber água e provavelmente sendo até espancado, como aconteceu na primeira vez que foi preso...eu não gostava da ideia.

Claro, leva-lo para minha casa não era lá muito inteligente, também. Ele não havia matado a irmã, mas ainda era um homem. Nunca se conhece um homem completamente, ainda mais para leva-lo dentro de casa...

O carro chegou e eu ignorei o nervosismo. Dominic abriu a porta e indicou com a cabeça para que eu entrasse primeiro. Dentro do uber, percebi uma coisa: ele sabia sobre o muro, pulou sem nenhuma dificuldade, mas ainda assim, nunca fugiu daquele lugar...

Um arrepio percorreu a minha espinha quando uma hipótese passou pela minha cabeça: e se, para ele, viver num hospício fosse melhor do que na própria casa? E se acontecesse algo tão absurdo enquanto ele morava lá...que ele preferia passar meses num hospital psiquiátrico, e o resto da vida na prisão?

Senti uma mão suave sobre a minha, e virei o rosto. Dominic me olhava com cautela.

— Você está bem? - ele perguntou, umidessendo os lábios. - Parece nervosa...com medo.

Eu pisquei, porque eu estava com medo. Não dele, mas por ele.

Comecei a juntar mais peças do quebra cabeças, e percebi que quanto mais eu descobria, menos culpado o Dominic parecia, e mais vítima da situação ele se tornava.

— Dominic, por que você nunca fugiu daquele lugar? - eu perguntei, baixinho, sem saber se estava me referindo a sua casa ou ao hospício.

Os olhos verdes que chamaram minha atenção desde o primeiro momento, que denunciavam tudo que Dominic pensava ou sentia, perderam um pouco de brilho antes de ele desviar o olhar.

— Porque eu merecia estar lá. - ele sussurrou, no mesmo tom. E eu também não sabia se ele estava falando sobre o hospício ou sua antiga casa.

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