02: Not the only One


I am not, the only traveler.
- Lord Huron

DOMINIC

Centésima primeira... centésima segunda... centésima terceira...

Eu jogava a bolinha de borracha na parede do "meu quarto" sem parar. Apesar de, no geral, eu apreciar o tédio e a calmaria de morar ali - irônico pensar que um hospício seria calmo, eu sei - hoje, aquilo me incomodava.

As 4 paredes iguais, brancas demais. A cama pequena, dura e fria. A janela com grades. Aquela ausência de distrações, que sempre me era bem-vinda, hoje trazia outra coisa consigo: doutora Rose Miller.

Encarei a parede sem vida frustrado.

Ela realmente achava que eu ia contar alguma merda para ela? Que mulher mais arrogante ela era, isso sim. Calei a boca por tanto tempo, fui literalmente espancado por policiais, arrastado a força de investigador para investigador, e não falei nada.

Mas aparentemente, ela era diferente, segundo a própria cabeça.

Eu bufei.

Quem tinha que estar internada aqui seria ela, que não tem noção do que está fazendo. A mínima noção.

Continuei jogando a bolinha na parede.

Quando meu advogado me disse que a pena mínima seria de 30 anos na prisão, eu não achei que teria outra saída. Era minha única frase "eu não a matei", contra todas as provas, falta de álibi, e recusa a falar qualquer outra coisa.

Eu não me ajudava, costumava dizer o cara que contratei para me defender.

De qualquer forma, achei uma oportunidade de pensar em um plano melhor quando conversamos sobre eu fingir instabilidade mental, uma vez que meu pai, supostamente, também sofria. Faria sentido.

Eu não sou lá um ótimo ator, mas devo dar para o gasto, porque minha sentença prévia foi a seguinte:

- 18 meses no Hospital psiquiátrico de Michigan, com avaliações regulares, remédios controlados e quarto afastado dos demais doentes;
- Audiência, e decisão terminal sobre minha pena na Prisão Federal de Michigan.

Eu consegui me comprar 18 meses de uma liberdade moderada, e apesar de estar genuinamente cercado de loucos, não me arrependo: eu como cinco boas refeições ao dia; Não tenho distrações, então ocupo a maior parte do tempo me exercitando ou lendo os livros "permitidos" da biblioteca minúscula que eles têm aqui; É seguro, calmo, e na maior parte das vezes quieto; Eu não pago aluguel.

Claro, as vezes algum doidinho me chama de mãe e tenta chupar meu nariz? Sim. Esse tipo de coisa é comum por aqui.

Mas eu vivo bem. E todo esse tédio controlado me dá tempo para pensar, planejar, entender.

Além do mais, meu "bom comportamento" e "atitude pacifista" (segundo meu laudo), me dão acesso a mais algumas outras regalias: sou um dos únicos pacientes que pode sair do hospital - uma hora por dia, acompanhado de um segurança, com um rastreador no calcanhar e possível rota avisada -, e também ajudo os médicos nos eventos. Isso ajuda na sensação de normalidade.

Sendo assim, é claro como eu estava me virando bem. Aprendi a viver com o que me foi oferecido, e se qualquer coisa, eu estava mais forte e atento do que há 12 meses atrás. E ainda tinha 6 bons meses pela frente.

Mas agora essa tal de doutora Miller apareceu, e não que ela pareça saber de algo, mas as duas fotos que ela me mostrou...Ela já começou a achar meus deslizes. Deslizes tão sutis que nem um único perito, detetive ou investigador havia encontrado.

Mas a senhorita "sou melhor que os outros" descobriu. E isso era perigoso. Não só para mim, mas para muito mais gente do que ela poderia sequer imaginar.

O que aconteceu no dia 6 de março deve continuar lá, intocado. E quanto mais ela revirar e remexer o passado, mais arriscado será o próprio futuro dela.

+

- Vai Debs, por favor... você sabe que nunca te peço nada. - murmurei, com um biquinho de cachorro pidão.

Ela ergueu as sobrancelhas.

- Sexta você me pediu 30 minutos a mais na sua saidinha.

Eu a ignorei.

- Isso não pode estar certo. Ela é cruel. Não me senti bem naquela sala, preso com aquela mulher.

Débora continuou pendurando as bandeirinhas. Iríamos comemorar uma festa católica famosa na América Latina: festa junina. Estavam todos animados com a imersão cultural.

Menos eu, aparentemente.

- E quinta você me pediu para contrabandear mais duas gelatinas de morango. - Eu abri a boca para protestar, mas ela continuou. - E quarta, você quis pular a sessão de meditação.

- Meditação não serve para nada. Eu te mostrei os artigos! - suspirei.

Eu sabia que as chances de me deixarem parar de ver a médica-policial eram improváveis.

- Você vai, Dom. Ela é uma mulher extremamente competente e esperta. Além disso, foi um amor com todos nós, apesar de ser chefe da chefe. E tão nova...Enfim. Pare de choramingar e vá para a sessão.

Eu me encaminhei para a tal sessão - de tortura - arrastando os pés.

Segundo meu novo itinerário, eu teria uma sessão por dia, todo santo dia, até sabe-se lá quando. A mulher queria destrinchar cada pedacinho da minha alma, e eu sinceramente não sabia até onde seria capaz de engana-la.

- Você está atrasado. De novo. - Foi como ela me cumprimentou. Os olhos castanhos, por trás da armação fina do óculos, nem se desviram do notebook em que ela digitava alguma baboseira, com certeza.

Eu fechei a porta com cuidado e continuei parado, com as mãos nos bolsos.

- Me atrasei mesmo. Desculpe, não vai acontecer de novo.

É claro que iria acontecer de novo.

- É claro que vai acontecer de novo. - A voz calma, porém firme, ecoou meus próprios pensamentos.

Eu optei por não dizer nada, e continuei parado, perto da porta.

- Olha, Maxwell, eu tenho muitas perguntas. Você tem a resposta para todas elas, mas não quer me dar. Tudo bem, eu entendo isso. - ela tirou os óculos, e uma mecha do cabelo ruivo escuro caiu sobre o olho direito. - Mas podemos fazer alguns combinados, e tentar ter pelo menos uma relação cordial a partir daí. O que acha?

Humpft. O que eu achava? Eu achava uma perda de tempo. Para nós dois. Eu nunca diria nada, e ela nunca teria as respostas de que precisa.

Mesmo assim, não recusei de imediato. Aproveitei que estava em pé para observar melhor a sala, e um cubo mágico de nove lados me chamou atenção. Fui até a prateleira no canto da sala e o peguei.

- O que você quer dizer com combinados? Nós dois sabemos que se eu pisar o pé fora de qualquer limite que você decidir traçar, vou direto para uma cela da cadeia antes de piscar duas vezes. - Comecei a embaralhar o cubo. - Não serão combinados. Serão regras. Você impõe, e eu obedeço. Não tenho escolha.

Doutora Miller suspirou, e eu ouvi a cadeira atrás de mim se arrastar, e seus passos ecoaram em minha direção.

- É japonês. Tecnicamente, a probabilidade de você resolver um desse na primeira tentativa é dez vezes menor do que um cubo comum. - ela comentou, e senti que estava tentando olhar por sobre meu ombro.

- Você é completamente diferente dos outros médicos daqui. E, no seu caso, você se destacar não é benéfico. Eu não vou te falar nada que você já não saiba, doutora. - Sussurrei, com sinceridade, concentrado em resolver o enigma japonês do cubo.

Miller se aproximou um pouco mais, e pelo canto do olho, pude ver seu perfil - a pele branca como marfim, algumas sardas, o nariz arrebitado, os olhos castanhos claros como o mel.

Ela era bonita, isso eu tinha que admitir. Mas suas qualidades, para mim, acabavam ali.

- Você também é completamente diferente de qualquer caso que já resolvi, Maxwell. É por isso que pedi acesso direto a você - coisa que normalmente não faço -. O trabalho em campo não me parece a chave nesse caso. E se você não quer me ajudar, preciso que pelo menos me prometa duas coisas.

Eu a ignorei. Não devia nada aquela mulher, minha guarda nunca esteve tão alta, e eu nem sequer cogitava fazer nada para ajuda-la.

Uma hora a mulher ia desistir. E era melhor que fosse assim.

Mas pelo bem da curiosidade, eu perguntei.

- Que coisas?

Rose Miller se virou, ficando de frente para mim, e naquela luz, naquele ângulo, qualquer homem que a visse me chacoalharia e mandaria que eu simplesmente prometesse, o que quer que ela quisesse. Que eu simplesmente dissesse sim.

Mas eu não era qualquer homem.

- Eu não estou aqui para mentir para você. Então, se você não vai me dizer nada, só peço que também não minta.

Eu ergui as sobrancelhas.

- É assim que você normalmente convence assassinos a admitirem seus crimes? Pedindo para não mentirem para você? - eu perguntei, um pouco cínico demais.

Ela mal reagiu. Seu meio sorriso - também cínico - me causou desconforto.

- E a segunda coisa que gostaria que me prometesse, é que o que conversarmos nessa sala, não sai daqui.

Eu franzi o cenho, confuso.

- Não deveria ser você a me prometer isso? Não é como se eu estivesse interessado a sair contando meus segredos por aí.

Ela encarou meus dedos, que trabalhavam no cubo colorido.

- Eu te prometo essas duas coisas, também. Não vou mentir. E nada do que você me contar sai daqui.

Eu ri. Realmente ri.

- Como você pretende me incriminar se nada do que te contar pode sair daqui? E em que ocasião você precisaria mentir para mim?

Ela pegou o cubo das minhas mãos, mas não chegou a olhar para ele. Ou talvez tenha olhado, mas não prestei muita atenção porque seus dedos tocaram os meus e foi... eletrizante.

Travei a mandíbula, esperando sua resposta, e me mantendo isento de qualquer sentimento ou sensação.

- Eu não pretendo te incriminar, Maxwell. E se você vai me contar sobre o que aconteceu nos dias mais marcantes da sua vida - porque não pense que eu sou estúpida o suficiente para investigar só o fatídico dia 6 de março - eu devo, claro, te contar sobre os meus dias marcantes também.

Eu a encarei. Apenas encarei.

- Você quer comparar sei lá, o dia que seu ex te traiu, com o que aconteceu comigo e minha irmã? - perguntei, incrédulo. Não era possível que ela realmente achava que tinha algo tão absurdo no passado dela quanto o que acontecia no meu presente.

- Eu não sei se foi você quem matou sua irmã. Na verdade, não sei nem se ela realmente está morta. - Rose sorriu, inocente - Mas eu já matei alguém. E também já passei por muita coisa que põe a mim, a minha família e o meu emprego em risco. Então, sim, quero que você me prometa essas duas coisas. E quem sabe, depois, podemos começar de verdade.

- Você pode estar blefando. Como vou confiar em você?

Ela sorriu, de verdade dessa vez. Os dentes eram tão perfeitos quanto o resto dela.

- Eu acabei de confessar que sou uma assassina. Seria loucura confiar em mim, Maxwell.

Rose disse, pontuando sua frase enquanto colocava o cubo - resolvido - na palma das minhas mãos.

- Você pode vir e não falar nada em cada uma das sessões, mas eu não vou desistir. Então acho mais prático você aceitar isso o mais rápido possível, para prosseguirmos com nossas ameaças.

- Ameaças? Você é a médica mais sem sentido que já conheci. Não é assim que se ganha um paciente, sabe?

Rose riu, virando as costas para mim, que olhava para o cubo japonês, atônito.

- Não é como se contar nossos maiores segredos um para o outro fosse um hobbie. Eu te ameaço ao segurar uma informação sua; E você, faz o mesmo ao segurar uma minha.

- Estou indo embora. Não gosto dessas sessões. E você, sinceramente, é mais assustadora que qualquer maníaco dentro desse lugar. - disse enquanto praticamente jogava o cubo na mesa dela. - Não vou te prometer nada. Não sei nada sobre você. E você também deveria se afastar de mim, se tiver qualquer senso de autopreservação.

Ela voltou a mexer no notebook, distante e fria como há quinze minutos atrás. A emoção em seus olhos já havia se esvaido.

- Vamos começar nos conhecendo, então. Amanhã você volta. Mas minhas promessas já estão valendo. Pode perguntar o que quiser, quando quiser: talvez eu não responda, nas não vou mentir para você.

Eu suspirei e sai da sala ainda mais irritado do que entrei.

Agora ela falava como se já soubesse de coisas que não sabia ontem. Sua abordagem mudara completamente nas últimas 24 horas.

E eu realmente não queria jogar aquele jogo. Rose venceria em um tabuleiro vazio, apenas contra si mesma.

E eu continuaria seguindo meu plano, e mantendo a boca fechada.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top