Capítulo 2
A primeira coisa de que tenho consciência ao acordar é a dor que toma conta do meu corpo, a segunda é o cheiro de antisséptico no ar e a terceira o gosto salgado no fundo de minha garganta.
Não preciso abrir os olhos para saber que estou num hospital, não é a primeira vez que acordo em um, e fazendo um balanço das minhas dores não é a pior situação em que já estive.
Abro os olhos, eles são atraídos imediatamente pela cama ao lado da minha, Gabriel está lá, todas as partes visíveis de seu corpo estão cobertas por hematomas, seu braço esquerdo está engessado e há um pacote de soro com as analgésicos ligado a seu braço.
"Não tão ruim dessa vez" suspiro aliviado ao olhar para ele, sei que isso é estranho, ficar feliz em ver alguém que se ama machucado, mas podia ser como da outra vez, podia ser como Leon, podia ser como a minha primeira vez. A náusea toma conta de mim e tenho que me controlar para não vomitar.
Uma enfermeira entra no quarto, ela sorri e se aproxima de mim perguntando se estou bem, respondo que sim, não é exatamente verdade, mas não acho que ela está perguntando sobre meu estado emocional.
"Ele vai ficar bem" ela diz ao perceber meu olhar em direção a Gabriel. Eu aceno com a cabeça, mas não digo nada, talvez ela realmente tenha razão, talvez ele fique bem, talvez eu fique bem, a minha mente, porém, insiste em questionar, por quanto tempo?
A enfermeira sai do quarto e eu lanço mais um olhar a Gabriel. Depois de Leon, eu lembro de ter prometido a mim mesmo que nunca mais choraria, mas eu já quebrei essa promessa duas vezes nas últimas... sei lá quantas horas, e então começo a quebra-la novamente.
Posso sentir as lágrimas correndo por meu rosto, o sal arde em contato com os pequenos arranhões no meu rosto. Isso de certa forma dói mais que todas as minhas contusões, todos os meus ferimentos, dói mais até mesmo que a visão de Gabriel naquela cama. Estou chorando por todos aqueles que passam por isso, por todos aqueles que ainda passarão por isso. E de alguma forma essas lágrimas me afogam muito mais que a água do mar faria.
Ouço um gemido e percebo que Gabriel está acordado, tento disfarçar o choro e sorrio para ele, posso perceber que ele não foi enganado, talvez isso seja pelas marcas deixadas pela água salgada em meu rosto, talvez por meus olhos estarem vermelhos e inchados e talvez porque meu sorriso parece mais uma careta.
Mas então ele sorri para mim, e eu não posso evitar sorrir também, um sorriso verdadeiro dessa vez. "Nós vamos ficar bem." digo a mim mesmo tentando abafar a voz em minha mente que faz a pergunta que me amedronta: "Por quanto tempo?"
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