Cap.6

Três semanas depois.

Acompanhada de muletas cheguei em casa. Casa... Na casa de minha prima. A santinha. Virgenzinha. E o medo curioso furioso ainda estava estampado em minha cara como se fosse algo sobrenatural. Assim que entrei na casa, fui recebida com um abraço acolhedor, e uma ajuda com as minhas malas. Meus passos se tornaram mais vagarosos ainda, pois além de muletas, ainda tinha o pequeno fato de que aqui nessa casa tinha escadas. Bufei, mas com ajuda dela consegui subir com facilidade. Em questão de minutos estava em meu quarto sentada, e ela parada, com um sorriso.

— Vou trabalhar, você vai ficar sozinha. E por favor, tome cuidado.

— Pode deixar, se você se atrasar posso pedir uma pizza?

— Claro, só fique evitando as escadas, ou vai acabar caindo delas também. Essas muletas não são muito confortáveis nem confiáveis de usar.

—  Ta. Bom trabalho. — Sorri de forma fraca e vi ela indo em segundos depois.

      Ótimo, eu ficaria sozinha. Ótimo mesmo. Ficar sozinha, sem titi na cabeça. Mas o que eu faria? Suspirei fundo e deixei aquelas coisas no chão mesmo, me deitando silenciosamente na cama, novamente encarando aquele espelho estranho. Aquele bendito espelho estranho. As vezes penso que estou sendo vitima da maior pegadinha da minha vida, que minha mãe virá me buscar a qualquer segundo segurando uma câmera e dizendo "sorria, você está sendo filmada", mas pelo andar da carruagem...não é nada assim não. É bem pior do que imagino. Estou praticamente invalida, encarando um espelho estranho, numa casa que parece mais uma igreja, cercada de vizinhos idosos, não tenho amigos, uns caras estranhos estão aparecendo frequentemente, o meu pai parece ser chefe de uma gangue de assassinos, e ainda por cima, com chave de ouro, eu vou ficar sozinha nessa casa todos os dias, até conseguir me curar e ir procurar faculdade, ou um cursinho pelo menos.
Tudo está um saco.

     Meus olhos ficavam contra aquele espelho, e chegava até a refletir. Era tão estranho...sei lá. Mas OK. Vamos ver se acontece alguma bizarrice hoje também. E se acontecer, dessa vez eu vou registrar. Depois de uma soneca. Estou cansada, e está friozinho, então depois eu procuro coisas estranhas por aqui.
      
     Me ajeitei na cama com cuidado, e em menos de dez minutos eu ja estava num sono profundo. Essa é a minha maior habilidade, aquela que nasci com. E sempre uso quando posso. 
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     Acordei sei lá que horas. Mas já estava tardezinha. E algo me deixou surpresa, assim que me virei pro lado na cama, havia um pequeno colar diferente. Parecia um daqueles que podia guardar coisas dentro. Ri fraco me sentando com cuidado na cama, e o peguei em mãos, deixando meu dedo indicador descer devagar pelo símbolo que nunca havia visto antes. Era como se aquele colar tivesse aparecido por pura magia ao meu lado, saído do teto, ou sei lá. Por pura curiosidade tentei abrir. Mas por puras drogas que tomei na veia eu não consegui. Estou muito fraca, merda.

— É lindo, não? —Uma voz rouca, grave, ecoou por meu quarto, e quando olhei para o canto levando o maior susto possível. Tinha um homem todo de preto, encapuzado, segurando não sei o que na mão, e só a boca dele estava visível.

— Que-Quem é você? O que faz aqui? Como entrou? Veio me matar? Por favor tenha piedade, eu ainda nem me formei na faculdade e ja esto-

—Relaxa, Angel — ele deu um sorriso se aproximando de mim, e em questão de segundos estava diante de minha cama. — Sou um dos ajudantes do seu pai. Me chame de Thierry.

— Do meu pai? Meu pai é assaltante? Porque pelo visto gosta de invasões particulares. Imagina se eu estivesse nua sobre a cama e você aqui. Me olhando.

— Garanto a você que eu não estaria somente olhando. — Meu coração acelerou, mas eu ainda continuei a encarar aqueles olhos.

— Certo, mas o quê quer aqui?

— Vim trazer isso ai. Seu pai te deu de presente. Gostou das fotos que tem por dentro?

— Estou fraca, não consigo abrir. Acabei de sair do hospital.

— Me dê aqui, princesa. — Princesa? Sério? Meu Deus, era só o que me faltava. Suspirei de forma mais pesada e entreguei o colar a ele, vendo que abriu como se nem tivesse feito esforço. Aquilo me fez enrubecer.

— Obrigado. —Um murmuro fugiu de meus lábios e eu olhei diretamente para as fotos dentro do colar. Era minha mãe e um homem todo estranho. Mas bem gato. — É minha mãe... E um cara muito gato. E daí?

— Esse é seu pai. Esse colar era da sua mãe, ela o jogou fora na semana passada, assim que soube que ele estava atrás de você. Seu pai sempre quis te conhecer. Mas ele não pode entrar nessa casa. Por isso sua mãe te mandou para esse fim de mundo.

— Ele não pode entrar aqui? Ué ? Por quê?

— Isso você teria de perguntar a ele pessoalmente, não tenho permissão de falar.

— Mas eu não sei onde ele mora... — Minha voz saiu baixa, afinal eu ainda estava muito assustada com a forma com que ele falava.

— Eu te levo. Vamos?

— Mas minha prima...tenho de avisa- lá e—

— Seu pai manda um SMS pra ela depois, agora vamos? Ou está com medo de uma pessoa que mal conhece?

— Certo, vamos.

Engoli saliva a seco, quando o cara se aproximou de mim, me pegando no colo. Mas o que me deixou mais assustada, foi o fato do espelho começar a nos "puxar" pra dentro do mesmo. E em questão de segundos, eu estava viajando nos braços daquele cara. Acabei me segurando firmemente em seus ombros fortes, fechando meus olhos com medo do que podia acontecer. E parece que eu estava certa. Assim que chegamos a "casa" de meu pai, eu quase morri de infarto. O cheiro de enchofre, as imagens distorcidas, gritos de desespero.

Estávamos no inferno.

No inferno.

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