8- Thiago


       Eu deveria estar mais seguro, depois do que aconteceu... Bom, mas pra falar a verdade, eu nem conseguia explicar como de repente, minhas mãos estavam na cintura dela e meus lábios quase tocando os de Luísa. Não vou mentir, foi rápido, mas a sensação de estar por fio de conseguir o que eu queria foi boa e ruim ao mesmo tempo, frustrante para ser mais exato. Eu nunca havia sentido o que eu senti quando arrisquei olhar nos olhos dela.

        Mas, como explicar? Estar com ela, é... Se esquecer de quem você é... É se transformar numa criança... É se divertir... Nunca ver o tempo passar... É sentir o coração à mil... É desejar... É se perder no Oceano... É se sentir no céu... É nunca saber o que vem depois... É descomplicar tudo...

        Ninguém entenderia. Tem nome pra isso? Dá para nomear um sentimento que não te deixa dormir sem pensar "nela"? Acho que não. É muito complexo.

        Mas, o que não dá para entender de jeito nenhum, é  porque ela foi embora daquele jeito. Parecia até que ela esta correndo, ou melhor, fugindo de mim. Ela ficou com medo? Estou sendo rápido demais? Eu deveria parar de supor coisas. "Eu não... Quero isso!" Ela disse. Mas, ela cooperou. Ela sentiu alguma coisa, porém não queria sentir? "Quer dizer... Eu não entendo, me sinto estranha, não sei como isso aconteceu... Me desculpe, Thiago..." Ela completou. Será que... Luísa não quer sentir algo por mim, ou simplesmente não queria que nada tivesse acontecido? Será que eu estou confundindo tudo? Sinceramente, eu não sei. Não conseguia parar de pensar nela. Se estava bem... Se queria distância de mim... Ah, eu sei lá que diabos passa pela mente dela! O que eu sei é que estou ficando maluco! Droga! Era digital e eu não tenho informação nenhuma dela!

        Patrícia chegou da casa dos amigos dela arrumada da cabeça aos pés, parecendo uma Barbie. Eu tentava (inutilmente), me concentrar na minha leitura, sentado no sofá da sala, onde raramente eu ficava. Felizmente, eu percebi cedo que Patrícia não ia parar de fazer barulho com aquele maldito celular! Então, subi às escadas indo em direção ao meu quarto.

        - Não vai falar comigo?! - Patrícia gritou, indignada. - Seu grosso!

        Grosso, eu?! Por mim, hoje ela grita até perder a voz, que eu estou cansado de ser legal! Já sou legal demais por não começar uma discussão!

         Entrei no meu quarto e tranquei a porta. Olhei ao redor. Tudo me lembrava ela. "Porque tudo aqui é preto, cinza ou marrom?"

         Me joguei no tapete, dormiria por lá mesmo. Não estava com sono, mesmo. Talvez nem dormisse. "Também adoro castanho, é minha cor favorita..."

       Acabei dormindo. E acordei às cinco da madrugada. Minha preocupação não me deixava continuar ali. Às seis da manhã, eu já estava pronto, lia aquele mesmo livro, sentado no sofá, quando Paty acordou.

          - Virou corujão, foi? - Ela perguntou.

         Não respondi.

         - Estou falando com você! - Ela insistiu.

         - O que é que você quer?! - Gritei e ela se espantou.

         - Não quer me engolir?! Está te TPM por acaso?! - Ela gritou mais uma vez.

         Olhei para ela sem paciência, ela só podia estar muito afim de uma briga ou estava querendo uma aula de Biologia urgentemente, mas decidi entrar na dela.

        - Você não viu nada! Se TPM existisse para os homens, eu seria o Demônio! E quer saber de mais uma coisa?! Hoje eu vou à pé!

        - Ótimo! Eu realmente não queria ver essa sua cara tão cedo! Seu idiota, imbecil...

        Não ouvi o resto, saí de casa e pus os fones de ouvido. Não demorei a chegar na escola. Não fui o primeiro, mas cheguei bem mais cedo.

         Passri todos os horários sem prestar atenção, sequer podia agir coerente, pois Luísa não havia ido oara o colégio. O que será que aconteceu? Minha agonia foi maior quando lembrei que eu tinha 7 horários inteiros! Eu estava a ponto de enlouquecer de verdade, faltava bem pouco.

        Quando finalmente terminou a tortura, saí às pressas da escola e avistei Antônio. Fui até ele para lhe dar explicações que obviamente Patrícia não havia dado, conhecendo-a como conheço deve ter dito "deve ter ido pro inferno, com certeza! E se não foi, eu vou mandar ele pra lá assim que eu olhar a cara dele!"

        - Oi, Antônio. Pode levar só a Patrícia, não vou para casa agora.

        - Dona Patrícia disse que não quer ver o senhor nem pintado de ouro e que, por isso, não vai para casa. Ela já falou com a dona Márcia hoje cedo, algo como "se eu ficar aqui hoje, eu arranco os dentes dele, um por um". - Antônio imitou a voz da minha irmã.

      Pensei.

       - Sendo assim, então você vai me levar.

       - É o meu trabalho. - Disse orgulhoso.

       Não demoramos a chegar na casa dela. Ainda bem que eu sabia o endereço dela e que existia GPS. Saí do carro sem pensar duas vezes e toquei a campainha inúmeras vezes, até que alguém abriu o portão. Luísa, graças à Deus!

       Entrei sem perguntar se podia e abracei-a.

       - Você está bem? - Perguntei.

       - Uhummm...

       - Tem certeza? Você não apareceu na escola hoje e depois do que houve ontem eu, fiquei... - Senti ela me cutucando. - O que foi?

       - Eu... Não... Con-si-go... Respirar...

       - Ah, desculpe... - E a soltei. Ela respirou profundamente e sorriu, ainda vermelha.

       - Se o plano era me matar asfixiada com um abraço de urso, você quase conseguiu! - E sorriu mais ainda.

         Uma mulher ruiva pôs a cabeça para fora, pela porta da casa.

          - Luísa, convide o seu amigo para entrar! - Gritou a mulher.

          Lulu fez sinal em positivo e se virou para mim.

          - Vamos? - Perguntou animada.

          - É, pode ser. Acho que realmente quero conhecer sua mãe! - Eu estava feliz por vê-la bem e falando comigo!

           - Você deu sorte! Ela está em casa hoje! E minha tia também! Quero que você as conheça, quer dizer, a minha mãe você já conhece... - Ela falou empolgada enquanto cruzávamos o jardim até a varanda.

        - E o seu pai?

        - Bom... Ele... Sabe como é, né? Ele viaja muito... Viajou ontem à noite. Titia também vai voltar logo para casa. - Respondeu.

        - Olá rapaz, tudo bem? - Uma mulher simpática perguntou assim que entramos na casa enorme. Enorme ao ponto de ser maior que a minha própria. Parecia uma mansão, sendo honesto.

        - Tudo, obrigado! E como vai a senhora? - Falei, tentando ser gentil.

       Lembrei de como tratei mal a Paty e me senti péssimo.

       - Excelente! Lulu me falou muito de você! Disse que é meio tímido e sério. Sério você até que é, agora tímido, nem tanto! Prazer em conhecê-lo! - Falou alegremente a ruiva. Ela se parecia muito com Luísa, principalmente por causa da cor dos cabelos.

        - O mesmo, dona... - Eu não sabia seu nome.

        - Alice.

        - Prazer em conhecê-la, dona Alice! - Apertei sua mão.

        Olhei ao redor, me senti desnorteado, Lulu havia sumido. Olhei ao redor novamente, ela vinha trazendo uma mulher mais jovem. Percebi a semelhança entre ambas, a cor dos olhos, a pele mais clara, o formato e os traços do rosto.

        - Olá Thiago! É bom finalmente conhecer você! - Ela me estendeu a mão.

         Seu rosto era realmente familiar, apesar de que, qua do criança, eu quase não a via. Era mais acostumado a "conversar" com o pai de Luísa.

        - Ah, Luísa também lhe disse algo sobre mim? - Perguntei meio sem jeito.

        - Bom, disse... Muitas coisas! Mas, não deu pra gravar tudo nos últimos minutos! - Ela sorriu e apertou minha mão.

        Eu sorri de volta, um pouco constrangido. Nossa, que casa cheia de mulheres! Tentei parecer firme e seguro, coisa que eu não era. As duas começaram a conversar sobre comida e Luísa me puxou pelo braço, me guiando até seu quarto, que mais parecia uma zona de guerra. Acho que a quarta guerra mundial aconteceu aqui e ninguém ficou sabendo.

        Luísa sorriu, contente.

        - O que veio fazer aqui? Está atrasado para o almoço. - Falou, brincalhona.

        Sorri sem jeito.

        - Estou bem. Vim aqui porque queria saber se está tudo bem com você... Porque não foi à escola?

         - Não consegui dormir. - E apontou o teto.

          Olhei para cima, haviam vários desenhos, um sol, uma lua, estrelas, flores, mar, um jardim, havia de tudo ali. Nas paredes, todos os tipos de listras, bolinhas, quadrados e estampas que se pode imaginar. Mas, em uma das paredes, algo me chamou a atenção. Um pássaro marrom que acabara de ficar pronto.

         - Nossa! Você que fez tudo isso? - Exclamei.

         - Sim, você gostou?

         - Isso tudo é... Incrível! E, este pássaro...

         - Ele me lembra você. - Confessou.

         - Como assim?

         - Ele é marrom, você gosta de marrom. Seu cabelo e olhos são castanho-claro... Sem contar que ele é lindo e você... Também! - Admitiu enrubescida.

         Sorri.

         - Só você pra me dizer uma coisa dessas! Porque fez uma pintura que me lembra?

         Ela sorriu divertida.

         - Porque se preocupou comigo? - Devolveu uma outra pergunta.

         - Está mudando de assunto! - Sorri também.

         - Estou jogando um jogo de verdades! - Declarou sem desmanchar o sorriso.

         - Ok, então porque quer lembrar de mim se está me evitando? Isso é muito contraditório!

       O sorriso dela se foi.

       - Não estou te evitando - disse se afastando.

       - Está sim! Fique sabendo que eu não mordo! - Ops! Se você quiser... Thiago, chega! Quem é você rapaz? Onde estâo seus neorônios?

        - Ei, isso é chantagem!

        - Não é não!

        Ela riu.

         - Ok, então... Conclusão: Thiago não é um sujeito normal, é um tremendo maluco! - Ela sorriu.

         Sim e isso é culpa sua. Eu não era assim antes de você voltar para a minha vida. Mas, eu te agradeço por isso. Eu quis dizer, mas acabei rindo muito, com altas gargalhadas.

         - Com certeza! - Fiquei mais sério. Estava tentando entender as coisas. E me parecia que eu tinha a mania de confundir tudo. - Bom, eu preciso ir, agora. Não falte no ensaio, a Camila vai me deixar surdo se isso acontecer.

       Ela ficou séria, parecia desapontada. Correu na minha frente e trancou a porta. Ela virou para mim.

        Havia um brilho em seus olhos, algo que me fazia arrepiar.

        - Desculpe, senhor. O senhor só pode sair depois de responder à minha pergunta anterior! - Falou, curiosa.

       - Você não me respondeu também.

       - Primeiro você! - Ela brincou, apontando o indicador e tocando de leve meu peito por cima da camisa.

         - Ok. - Eu não estava pensando coerente, mesmo. - Minha resposta é: Você... - O que eu digo? "Eu gosto de você"? "Por favor, fique comigo, pare de me evitar"? Alguém me ajude! Não, não posso entregar o jogo assim, não sem ter certeza de algumas coisas... - Você é muito importante pra mim.

        Ela sorriu e destrancou a porta.

         - Pode sair agora.

         - Você não me respondeu, não pense que vai passar em branco! - Alertei.

          - Você também é muito importante para mim, por isso, eu quero sempre me lembrar de você assim... Bem como esse pássaro é... Engrado, não?

        Aquele brilho... Aquela voz... Aquela pele... Tudo nela me deixava hipnotizado, me encantava, me fazia queimar e arder em chamas por dentro, era como se fôssemos dois ímans. Eu a queria mais perto e ela também me queria, eu podia sentir pelo seu olhar, mas não era certo... Estávamos na casa dela, no quarto dela, eu estava prestes a recuar, a resistir à tentação de acabar com a distância entre nós... Então, foi ela quem se aoroximou de mim, ficando na ponta dos pés, puxou com força a gola da minha camisa e esmagou seus lábios contra os meus, num beijo suave no início. Senti que ela estava se afastando, eu não queria espaço. Meus braços ganharam vida, envolvendo e apertando sua cintura contra o meu corpo, transformando o beijo em algo a mais... Eu a ergui no ar, na esperança de sempre tê-la comigo. Tornei apertar sua cintura, nossos lábios colados e eu queria mais, mais, mais.. Eu a desejava com fúria de uma forma inexplicável... Coloquei-a no chão, corri minhas mãos desesperadas pelas suas costas, sentindo o calor da sua pele. Nós mal respirávamos. Suas mãos inquietas me puxavam para perto, puxavam meu cabelo. Eu estava ficando louco com aquilo. Alguém faça essa garota parar! Não, não... Não façam isso, eu gosto de sentir suas mãos... Desci meus lábios até seu pescoço, depositando pequenos, suaves e rápidos beijos. Por que ela tinha que ser tão perfeita?! Eu sentia seu coração acelerado de tão próximos que estávamos. Prensados contra uma parede, próximos da porta.

       - Thiago... - Ela começou, sem conseguir falar direito. - Eu tenho medo...

       - Do quê? Eu vou cuidar de você, não deixarei ninguém machucá-la, incluindo a mim. - Falei, olhando em seus olhos.

        - E... Se eu não servir para você? Se eu for uma péssima escolha?

        - Você é a melhor pessoa que eu poderia, inconscientemente, escolher... - Disse, sério.

        Ela brincava, fazendo círculos na minha camisa com o indicador.

         Eu ainda a beijei mais uma vez, segurando seu rosto perfeito. Que linda.

         - Me responde uma coisa..?

         Ela assentiu, me olhando nos olhos. Naquele momento, ela parecia frágil, vulnerável. Era a hora perfeita para um covarde entrar em ação.

       - O que você sente por mim? Você realmente gosta de mim? Preciso ouvir isso, quero ter certeza... - Pedi.

        - Se você ainda não tem certeza... Então, não é tão observador quanto eu pensei que fosse... - Ela disse.

         Charadas não valem. Não entendo a cabeça das mulheres. Não sei o que fazer. Talvez, aproveitar o momento... Afundei meu rosto no seu cabelo e beijei seu pescoço novamente e vi que ela arrepiava.

          - Thiago, eu não sei... O que eu sinto, só sei que... É feroz, é muito grande, arde e me atrai a você...

         Segurei-a bem firme e fixei meus olhos nos seus azuis.

         - Então, sentimos a mesma coisa. - Afirmei.

        Nos beijamos mais uma vez, brevemente. Era o último. Eu não queria ir, nem queria vê-la longe de mim. Mas, era preciso. Ainda estávamos na casa dela, eu tinha que ter mais noção, pelo amor de Deus! O que essa garota está fazendo comigo?

        Lulu ergueu a mão e tocou meu nariz com o indicador e começou a sorrir, sorrir muito!

          - O que foi? - Perguntei sem entender.

          - Você está parecendo um palhaço! - E continuou a rir de mim.

         Eu a soltei e fui até o espelho no guarda-roupa dela e entendi do quê ela ria. Acontece, que essa menina havia passado tinta vermelha no meu nariz! Eu sorri e comecei a limpar. Luísa se aproximou de mim.

         - Para com isso! Você está fazendo tudo errado! Asim, só vai espalhar mais! - E sorria, enquanto tirava a tinta com uma flanela úmida.

         Eu não tirava os olhos dela. Estava me perdendo de novo, com aquele seu sorriso de criança...

         Então, a porta se abriu. Dona Alice entrou e corou, sem jeito. Nós dois a encaramos pálidos pelo susto da sua entrada repentina.

          - É... Estou atrapalhando alguma coisa? - Falou, com um olhar comprometedor.

         Como Luísa parecia meio entorpecida e assustada, decidi que eu tinha que falar alguma coisa.

         - Não. A Luísa só estava limpando a pintura maluca que ela fez no meu rosto... A senhora riria se visse, ainda bem que já saiu! - Tentei sorrir para parecer mais convincente.

        A tia ergueu a sobrelha e deu de ombros.

        - Venham vocês dois, vamos comer alguma coisa, vocês tem que sair mais tarde! - Alertou.

        Soltei uma lufada de ar que não sabia que estava armazenado.

        - Claro! Agente já está indo! - Luísa disse, após voltar ao seu normal.

         Satisfeita, dona Alice voltou para a cozinha e eu me senti aliviado mais uma vez. Ufa! Passei a mão pelos cabelos, tentando digerir aquela situação toda. Ok, então a Luísa gosta de mim, né? Não foi isso que ela quis dizer antes? Aliás, como fui tão estúpido para não ter percebido isso antes?

         Reparei que ela me observava atentamente, como se quisesse dizer algo, ou simplesmente, sentir algo. Olhei-a também, o frio na barriga aumentava quando eu ousava fazer isso. Cela desviou o olhar e sorriu consigo. Um sorriso... Triste? Juntei as sobrancelhas.

        - Tudo bem? - Perguntei.

        - Ham? - Disse levantando o olhar para mim. - Claro! É... Sim! Só... Estou tentando entender, o que você disse, ou... O que eu disse, não, é... O que aconteceu... F-foi r-real? Ou eu estou sonhando? Eu estou acordada mesmo? Consciência, você está aí? O que eu estou dizendo? - Falou, desesperada.

      Eu não estava entendendo nada, ela estava falando coisa com coisa! Parecia até que ela estava sutando. Bom, quem sou eu para julgar? Eu não estou muito no meu normal também. Sabe quando você se transforma perto de alguém? Uma que você gosta demais? Uma pessoa que faz você se sentir outra pessoa? Como se não fosse você, mas alguém novo? Assim... Com uma alegria do tamanho do mundo? E, quando essa pessoa se transforma sua fonte de felicidade? Como se voltasse a ser criança? Era assim que eu me sentia. Apenas sorri.

         - Agente precisa ir comer! - Disse entre sorrisos.

        Nós fomos, ainda rindo. A mãe de Luísa nos perguntou várias vezes se estávamos bem, do que ríamos, mas apenas continuamos a rir da nossa confusão. Enfim, nós comemos, saímos, chegamos no ensaio de sexta (que todos estavam lá, todos do elenco), lançávamos olhares conspiratórios um para o outro e ríamos novamente. Camila ficou estressada muitas vezes, até cair na gargalhada, como todos do elenco.

        Depois, paramos de brincadeiras, tínhamos que levar nossas notas à sério.

      

        

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