5- Luísa

O ensaio terminou tarde. Quando cheguei em casa, mamãe me atacou com um milhão de perguntas. Querendo saber o que houve, porquê, o que deu na diretora...

       Tomei um banho daqueles, bem demorado. Não conseguia tirar o Thiago da cabeça. E o pior, eu costumava cantar enquanto tomava banho, mas não consegui sequer pensar em uma música.

       Aquele cheiro... Aquela pele... Aqueles olhos... Aquele cabelo... Aquele rosto... Ah! Dei um pulo no banheiro quando alguém esmurrou a porta.

        - Lulu, também quero tomar banho! - Uma voz estranha gritou do lado de fora.

        Não sabia quem era, mas desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha. Meu cabelo lavado pingava. Abri a porta e dei de cara com a irmã do meu pai. Ela era ruiva, como ele. Afinal, eram gêmeos.

       - Tia Alice! - Exclamei surpresa enquanto a abraçava.

       - Luísa! Você está tão grande! Pena que o Duda não veio, ele queria te ver... Garota, da última vez que eu vim você tinha... 13 anos, uau! - Ela tocou a ponta do meu nariz.

       - Como está o Duda? Estou com tanta saudade dele! - Falei animada.

       - Ah, como sempre. Cheio de idéias! Viajou para o Amapá... Você sabe... Ele ama conhecer lugares novos, fazer trilhas, fotografar... Esse meu filho!

      - E o tio?

      - Heitor? Trabalhando. Não deu pra ele vir. Mas, na próxima... Quem sabe?

      - É bom eles dois virem! - Eu lembrava das aventuras e encrencas que o Duda me metia. - Estou morrendo de saudade.

       - Ah, Lulu, eles também estão com saudades, mandaram lembranças para você.

        - E a Vick? Garota sumida! - Recordei.

        - A Victória está estudando. Não pôde vir por causa da escola... Enfim, vá se vestir! Vamos sair para comer alguma coisa!

       Hummmmm... Comida!

       - Acabei de jantar! - Só para ser educada, ainda quero comer!

       - Você come de novo, não vai engordar mesmo! Agora vá se vestir. - Ela mandou e eu fui correndo. Amo ser convidada para comer. Ok, eu admito que sou gulosa, só um pouquinho...

        Entrei no quarto num vulto. Me arrumei bem rápidinho. Não havia nada para fazer mesmo. Não gosto de maquiagem (na verdade, não sei usar como as garotas da escola, da última vez que tentei fazer alguma coisa, fiquei com cara de palhaço) e não arrumo o cabelo, então... Rápido, não dá pra demorar.

       Quando entrei na sala, tia Alice estava conversando com papai.

        - Alice, seu marido e meus sobrinhos tem que vir aqui!

        - Nas férias, Augusto. Vou fazer todo mundo arrumar as malas!

        Então, ela me avistou.

        - Foi rápido, não?

        - Não preciso de muita coisa, tia.

        Ela se aproximou de mim, seus olhos brilhando.

         - Igualsinha ao pai, porém com a delicadeza da mãe... Você está linda, Luísa! Como sempre foi.

        - A senhora é a única depois dos meus pais a achar isso.

        - Besteira, o Duda e a Vick também acham! Agora vamos, Lulu!

        Saí de casa junto com titia e entrei em seu carro (o que ela sempre usava para viajar). Por um tempinho, senti falta do Carlos. Ela dirigiu calma e sempre puxando conversa comigo. Minha cabeça não estava no lugar, mas tentei acompanhar a conversa. Fomos à minha sorveteria favorita. Amo sorvete de creme. Mas, titia optou por me dar um sundae de chocolate com disquetes e raspinhas de chocolate em cima. Meus olhos brilharam diante do copo grande com aquela porção generosa. Titia não parava de falare eu já não acompanhava nada, estava entretida em brincar com a colher depois que terminei meu sundae.

       - Luísa você está bem?

       - Ham?! - O que ela disse, mesmo? Acho que perguntou se eu estou bem. - Huhum... Sim, eu estou bem.

        - Não minta para mim, mocinha. O que está acontecendo?

         - Nada...

         - Você pode confiar em mim. Me conte, quem é o rapaz? - Ela se aproximou de mim.

        Arregalei os olhos.

        - Como a senhora sa...

        - Eu sei. Já tive sua idade. Agora fale.

        - O nome dele é Thiago. Ele é... Tímido, sério, lindo, calmo, inteligente e... - suspirei - Perfeito.

        - Todos parecem perfeitos. Ele sabe?

        - Do quê?! Não! Nem deve saber!

        - Ora. Mas, porquê? E se ele também... Espera. Você disse... Thiago? Aquele que era seu melhor amigo e se mudou uns meses depois da morte da mãe?

       - Eu, hamm... - No começo, o que titia disse parecia ridículo, mas, comecei a vasculhar na minha mente.

       Melhores amigos? Eu e o Thiago?

      De repente, tive flashs de memória de quando brincávamos juntos na nossa antiga cidade... Íamos para a escola juntos... Então, por isso, tudo nele me era familiar...

       - Como pude me esquecer dele? - Pensei em voz alta.

      A mãe de Thiago havia morrido quando ele tinha apenas 6 anos. Ela teve um ataque cardíaco ainda jovem, coisa de família. Thiago ficou muito triste e solitário. O pai dele demorou a superar e a seguir em frente, até que conheceu uma tal Márcia que tinha uma filha... Thiago me falou muito dela... Dizia que ela o odiava (a tal filha da mulher), mas que a Márcia era legal... 3 meses depois, o pai dele resolveu se casar com ela e foi embora, levando meu melhor amigo. Tínhamos 8 anos da última vez em que nos vimos. Chorei tanto quando ele partiu... Ele era o único que gostava de mim, pela minha estranheza. As crianças da minha idade tinham medo do meu cabelo, algumas diziam que urubus moravam na minha cabeça. Meu cabelo nem fedia, bando de crianças mauvadas! Mas, como pude me esquecer dele? Como pude não reconhecê-lo? Será que ele também não se lembrava de mim?

       - Lulu, não esquente a cabeça com isso... Já faz muito tempo... Vocês eram duas crianças... - Titia disse.

         - Eu sei! Mas, passamos 8 anos juntos!

         - E 8 anos separados! - Ela falou, se alterando. - Deixe isso pra lá... O importante é que vocês estão juntos outra vez.

       - É.

       Ela se levantou e disse paea irmos para casa, pois já estava tarde e eu tinha que ir para a escola no dia seguinte. Titia parecia estar brava, e eu não sabia o que fazer quando as pessoas ficavam tristes ou bravas. Nunca soube lhe dar com pessoas zangadas. Só existia uma coisa que eu fazia como ninguém: sorrir. Por mais que eu estivesse péssima, confusa, triste... Sorrir era a única coisa que eu sabia fazer direito e era o que me deixava mais leve. Enfim, só consegui sorrir para ela.

       - Está tudo bem, Luísa. Não estou zangada. - Ela deu uma piscadinha.

       Suspirei aliviada. Se ela começasse a gritar, eu não saberia o que fazer. Eu estava cansada e com sono pelo meu dia exaustivo. Acabei dormindo no caminho até chegar em casa. Acordei com o barulho da porta do carro se abrindo. Meio zonza, desci do carro e fui direto oara o meu quarto.

       Lutei contra o sono e fui tomar banho e aproveitar para escovar os dentes. Me deitei e encarei o teto até adormecer. Thiago, você se lembra de mim?

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