2- Thiago

   
     Eu gostava mais do Ensino Fundamental. O clima do Ensino Médio era tão... Estranho. A começar pelos amigos que perdi. Não eram muitos, mas eu gostava de conversar com eles. Eram apenas dois, Marcelo e Ítalo. Nós formávamos o trio de nerds perfeito na minha antiga escola.

      Ah, mas apenas uma garota e, somente à ela, devo metade do que eu sou hoje. O nome dela era Luísa. Nós éramos vizinhos e estudávamos no mesmo colégio. Mas, isso foi quando eu morava no Rio (que foi somente até meus 8 anos). Depois, vim para São Paulo.

     Eu era dotado de uma timidez terrível antes de conhecer Luísa, mas ela me mudou, de certa forma. Certo, até aí. Mas, eu nunca achei que nossos caminhos se cruzariam de novo.

     Após 8 anos, eu entro pela porta da minha nova escola para cursar o 1° ano do Ensino Médio e, dou de cara com uma ruiva desgrenhada com o blusão do avesso e ao contrário. A única coisa que tinha mudado em Luísa é que ela havia crescido, por que seu desastre ainda era igualzinho.

     Será que dá para entender como o destino trás o passado de volta?

     Eu acho que não.

     É nessas horas, que percebo como esse mundo é pequeno. Como, assim, tão de repente, tudo em nossa vida, pode mudar de curso.

   O mais engraçado, é que já faz 4 meses que estamos estudando juntos e ela nunca me reconheceu. Enquanto eu a reconheci à primeira vista.

      Eu estava animado com a peça, principalmente com o fato de que eu e Patrícia seríamos os principais, até a diretora Alcione substituí-la por Luísa. Não fiquei chateado, pois com Luísa as coisas seriam bem mais divertidas, a começar pelas roupas que ela usa, o que já faz as pessoas rirem bastante.

     Segunda-feira. Fui para o ensaio às 15h00 e cheguei em dez minutos. Camila já estava lá, organizando os papéis com as, prováveis, falas que faltavam para as últimas cenas da peça.

      Luísa chegou às 15h15m. Não estava atrasada. Ela usava uma ... Razoável. Tênis All Star, calça rasgada e uma blusa listrada super-folgada. Acho que era tamanho GG ou Extra G. O cabelo, solto e desgrenhado, como sempre. Bem ao estilo Lulu.

     Ela foi se sentar em uma das cadeiras ao redor da sala. Camila foi lhe entregar um maço, considerável, de papéis com suas falas enumeradas com a divisória de cenas.

     - Você tem 15 minutos para estudar as primeiras falas da Cena 1. - Camila disse, já indo se sentar em seu lugar, atrás de uma mesa com seu notebook e duas caixinhas de som.

      Eu estudava as minhas falas.

      Ser um dos protagonistas da peça, chegava a ser cruel, às vezes. Eu tinha bem umas 50 falas, ou mais.

      Para a minha surpresa, um tempo depois, antes de começar o ensaio, Patrícia chegou e sentou ao meu lado.

      - Ei, você não tinha saído da peça? - Perguntei.

      - Aham. - Ela confirmou com a cabeça. - Mas, quero ver ela pagar um mico pessoalmente.

       Ergui as sobrancelhas.

       - Quem colocou ela na peça foi a diretora. - Eu disse.

       Ela revirou os olhos.

       - Não interessa, o papel era meu. - Disse ela revoltada.

      Eu sorri meio preocupado.

      - Hum... Só não me diga que vai bancar a vingarista e arruinar a peça por causa dela. - Arrisquei.

       Nada de sorrisos. Ótimo, eu ia levar umas bofetadas na cara agora. Por fim, ela deu um sorriso mauvado.

       - Tenho certeza que ela não precisa de mim para isso. - Falou de braços cruzados com ar de sabichona.

       Eu acabei por rir. Por um lado, ela tinha razão. Por outro, chegava a ser cruel falar assim. Não que eu quisesse bancar o defensor da Luísa, eu só não gostava muito de como as pessoas se referiam a ela. Luísa tem um jeito único e uma grande sábia uma vez disse: " Você é doido, maluco, está completamente pirado! As melhores pessoas são assim." É, uma citação de Alice no País das Maravilhas não pega mal de vez em quando. A história é até legal, do tipo que quanto mais você assiste, mais curioso você fica. Como, por exemplo, até me pergunto qual a semelhança entre o corvo e a escrivaninha.

      - Gente, atenção por favor. - Chamou Camila e todos se voltaram para ela. - Obrigada. Bom, antes de tudo, boa tarde pessoal. Eu quero avisar, embora a maioria já saiba, que a nossa protagonista, a Patrícia, saiu da peça e Luísa irá substituí-la.

      Houve uma nuvem de murmúrios na sala.

      - Foi decisão da diretora - ela disse praticamente gritando e todos se calaram - e, além disso, disse que quem não concordar, terá uma péssima nota no boletim, algo como um zero. Está bom para vocês?! Ótimo, vamos ensaiar.

      Mesmo com muitas murmurações, Camila iniciou o ensaio.

      - Cena 1: Charles, Richard, Keven... - Ela foi falando todos os personagens.

      O tema da nossa peça, era o consumo de drogas na juventude. Comecei a me lembrar dos detalhes da peça, de cada personagem, das cenas e da história em si.

      - Thiago! - Gritou Camila, me tirando dos meus devaneios.

      - Ah, me desculpe, eu estava...

      - No mundo da lua, eu sei. - Disse ela aborrecida. - Cara, você devia pensar menos e agir mais! Eu deveria reconsiderar trocar você, a sua sorte é que eu gosto da sua atuação. - Falou quase que brincando.

      Na cena 4, a que Celena (Luísa, na verdade) entrava, todos se surpreenderam, pois Luísa atuou perfeitamente bem. Olhar nos olhos dela, quase me fez rir. Ela olhava com tanta preocupação, que parecia que tudo aquilo era real e ao mesmo tempo, ela tremia os lábios, o que dava impressão de que ela estava prestes a chorar. O que era engraçado mesmo, era o cabelo dela, que - sério - fazia ela parecer uma doida. Mas, era fácil se perder no azul dos olhos dela, que por vezes, parecia verde, depois... Eu estava quase hipnotizado e não discernia as cores. Tudo era um mar de confusão engolindo a Amazônia com um fogo imenso.

      Na pausa para o lanche, todos se divertiam muito enquanto conversavam com Luísa, até mesmo Camila.

      Eu fiquei de longe, apenas observando. Algo naquela situação toda me incomodava. Ver ela rodeada por aqueles alunos, meus amigos, me deu uma pontada de raiva e, de repente, me vi tomado por uma vontade louca de quebrar a cara deles, não sei porque. Estranho como as coisas mudam tão rápido dentro de nós.

       Olhei para Patrícia sentada ao meu lado. Ela tinha um olhar estranho, estava séria.

       - O que você tem? - Perguntei.

       - Nada, ou melhor, tudo. - Ela respondeu.

       - Hã? Não entendi. - Falei.

       - Ah, vá cuidar da sua vida! - Falou se levantando e indo para o outro lado da sala.

        É, ela estava muito esquisita. Normalmente, ela não me dava tantos carões num dia só. A não ser que estivesse indecisa ou preocupada. Sinceramente, eu não entendo as mulheres, elas são tão... Difíceis de entender. Tão confusas, tão instáveis! Principalmente, "naqueles dias" em que ficam insuportáveis (meus dias de terror, tendo que aturar Patrícia com seu mau humor). Certo, eu deveria ser um cara compreensivo, mas sério, dá pra aguentar uma mulher que explode com qualquer coisa? Tudo bem, eu sou paciente. E como meu pai costumava dizer, "cólica e dor de parto são duas coisas que eu nunca vou entender". Acho que nenhum homem entende. No final, acho apenas que somos muito sortudos por não ter que passar por isso. Se eu tivesse nascido mulher, me suicidaria quando eu tivesse que passar pela tal da TPM (Errrrgh!). Isso deve ser horrível, mas de qualquer forma, eu não quero descobrir. Deus, obrigado por eu ser homem.

        - Pessoal, já são 05h00, vocês ainda querem ensaiar? - Perguntou Camila.

       Todos responderam que não. Ou, pelo menos, foi o que eu ouvi, porque eu estava de cabeça baixa, com os braços cruzados apoiados na cadeira à minha frente.

         De repente, a sala inteira ficou silenciosa e alguém tocou em meu ombro, esperava que fosse Patrícia querendo me pedir desculpas, como costumava acontecer quando ela me dava bronca do nada. Mas, não era ela. Era - para a minha surpresa - Luísa.

       - Você está bem? - Ela perguntou com um olhar cômico.

       Ergui a sobrancelha e sorri de canto.

       - Aham... Só estava pensando na aula de hoje.

       Ela sorriu, engraçada como sempre. Eu olhei-a nos olhos, pois havia algo lá dentro, algo que ninguém havia visto e sorri comigo mesmo. Parece que foi ontem que éramos crianças e brincávamos juntos. É... Coisas boas, tempos bons não duram para sempre. Ela ficou séria, como nunca achei que veria, com seus olhos arregalados, como se estivesse assustada.

        - O que foi? - Perguntei ficando preocupado.

        - Eu... Conheço você...

        Meu sorriso se foi. Droga, será que ela se lembrou?

        - É claro que você me conhece, estudamos juntos, na mesma sala, lembra? - Falei, tentando contornar a situação e sorrindo amarelo.

        Parecia não estar funcionando. Ai, meu Deus, me livre dessa... Agora não... Então quando? Talvez depois, em uma outra ocasião.

       - Uhum... É que... Você me lembra alguém.

       Droga, droga, droga, droga, droga...

       - Quem? - Perguntei, para me arrepender depois.

        Thiago, quem pergunta quer saber, quem não quer saber, não pergunta, quem não quer falar, ignora. O mais estranho, era que parte de mim queria que ela lembrasse, porque eu não sei. Simplesmente queria.

       Graças a Deus, ela deu de ombros, como se não fizesse diferença alguma lembrar agora, ou mais tarde.

        - Não sei. Sabe, é que não sou muito boa em lembrar das coisas. - Ela falou rindo. - Pois, é. Agente se vê amanhã, né?

       - Na aula, ou no ensaio?

       Ela franziu o cenho, fez um biquinho e revirou os olhos para o lado.

        - Acho que os dois.

        Ouvi uma buzina lá de fora, bem longe.

         - Eu acho que é o seu motorista... - Falei.

         Ela virou para a porta, num rompante.

         - JÁ ESTOU INDO! - Gritou.

         Eu comecei a rir de novo. Você é encantadora, Luísa. A seu modo, mas é. Peraí, eu pensei mesmo isso? O que estava acontecendo comigo?

       - EI, ATÉ AMANHÃ! - Ela gritou para mim enquanto corria para fora da sala, dando tchauzinho.

       Era tão fácil se acostumar com esse sentimento novo por ela que, ao vés de estar tão assustado, eu estava meio que à vontade e deixei crescesse, criasse raízes por todo canto.

       Luísa parecia tão inocente quanto uma criança e isso me surpreendeu, seu jeitinho maluquinho de ser conseguia conquistar cada célula minha.

      Que coisa estranha... Depois de 8 anos, sentir isso pela primeira vez... E o que será esse sentimento? Sentimentos são confusos, não sou muito bom com isso, nunca sei como agir. Luísa, você já me ensinou tanto quando éramos crianças, o que mais vai me ensinar agora?

       

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top