38• O Melhor Chuseok

Era sábado e eu estava tranquila em casa aproveitando o fim de semana. O que eu mais gostava no feriado de Chuseok era justamente isso, descansar em casa na companhia dos meus pais e agora de Kyujin também. À noite, vamos visitar meus avós e jantar com eles.

Eu estava deitada no sofá, com a cabeça no colo de minha mãe enquanto assistíamos a um reality show na televisão. No centro da sala, Kyujin brincava dentro do novo chiqueirinho, dessa vez, meus pais se certificaram de comprar um que ela não pudesse se pendurar e cair como aconteceu antes. Era fofo como ela agora já conseguia ficar sentada sozinha e engatinhar pra lá e pra cá pela casa. Meu pai provavelmente estava cuidando do almoço, eu podia saber pelo cheiro vindo da cozinha.

O reality para formar casais era engraçado. Minha mãe se acabava de rir toda vez que o ego enorme dos homens era quebrado quando eles perdiam alguma prova de força ou resistência.

Uma notificação apitou no meu celular. Procurei ele embaixo de mim, pegando o aparelho que estava enfiado em uma das emendas do sofá. 

Me ergui num milésimo segundo, lendo a mensagem no visor do celular. Minha mãe perguntou o que tinha acontecido, mas eu estava paralisada demais para responder algo. Meus olhos praticamente saltaram do rosto com o que estava escrito ali.

— Mãe! 

— Que foi, Ky?! — ela se ajeitou no sofá, me olhando atentamente.

— Nada! — me levantei, sorrindo ao correr para as escadas — Eu vou num encontro! 

Eu praticamente saltitei até chegar no quarto, indo direto escolher uma roupa para usar. Passei cabide por cabide, indecisa sobre quais peças escolher, tinha que ser tudo perfeito. Peguei uma delas e abracei, apertando o máximo que podia para abafar um grito agudo. Só conseguia sorrir ao lembrar da mensagem. 

"Levando em consideração que a gente se beijou e você não me deu um tapa na cara ainda, eu acho que finalmente a sorte tá do meu lado, então vou aproveitar essa grande chance pra perguntar... será que você gostaria de ir ao festival comigo?"

Essa é realmente a forma Minho de convidar uma garota para sair.

Enquanto eu me arrumava, meu coração batia mais rápido. Eu estava mesmo indo a um encontro com Minho.

Vesti uma blusa de manga comprida vermelha, saia rodada preta e meias da mesma cor que iam até acima do joelho; nos pés, coloquei um sapato com um salto pequeno e fechei a fivela dele. Cacheei as pontas do cabelo e prendi duas mechas para trás com um laço também preto.

Ok, talvez eu tenha exagerado demais. Peguei meu celular, ligando para Yohan.

— Yohanie, olha pela janela agora! — não o deixei nem atender a ligação praticamente.

— Tá, pera aí! — escutei seus passos, provavelmente estava subindo as escadas.

Abri minhas cortinas, esperando o garoto aparecer na janela. Logo ele surgiu, acenando um oi com a mão livre.

— O que acha? Muito exagerado? — segurei a barra da saia, mostrando minha roupa a ele.

— Hmmm, olha só... — ele fez um sinal de ok, mudando para um joinha em seguida — O Lee vai adorar.

O olhei incrédula, fazendo uma careta.

— Como sabe que vou encontrar ele?

— Ah, Kyra! Por favor! — colocou a mão na cintura, semicerrando os olhos em minha direção — Em 18 anos de convivência, eu nunca te vi tão bem arrumada assim, então...

— Eu não devia ter pedido a sua opinião! — mostrei a língua, recebendo uma careta em troca — Mas já que pedi, me ajuda aqui, qual dessas bolsas eu uso? 

Mostrei as peças a ele, que escolheu em menos de um segundo algo que eu não consegui decidir em dez minutos. Agradeci e desliguei o telefone, depois de escutar as mil recomendações do meu melhor amigo para o encontro. Pensei até que estava falando com meu pai. E por falar nele, quando desci de volta para a sala, ele estava me esperando logo no final das escadas.

— Uau! — disse sorridente, me vendo descer os últimos degraus — Eu tenho a filha mais linda do mundo! 

— Obrigada, pai — sorri, dando um beijo em sua bochecha ao passar por ele.

Caminhei até a cozinha para pegar um copo d'água, meu pai me acompanhou, ficando parado do lado oposto ao que eu estava do balcão. 

— Então finalmente resolveu dar uma chance pro coitado do Minho? 

— Por que parece que todo mundo sabe que vou sair com ele? Tá tão na cara assim?

— Hm... e com quem mais seria? — ele apoiou os cotovelos no balcão, me encarando desconfiado.

— Poderia ser qualquer outro garoto — dei de ombros, tomando um gole de água. — O Seungmin, por exemplo.

Meu pai riu, pendendo a cabeça de lado para me analisar. Provavelmente ele sabia que eu não iria mesmo a um encontro com qualquer outra pessoa que não fosse Minho. Ele me conhece como ninguém.

— Bom, poderia até ser, claro. Mas não foi esse tal Seungmin que foi até o meu escritório pedir dicas de como te conquistar.

Eu quase me engasguei com a água ao ouvir aquilo. Do outro lado do balcão, meu pai gargalhava de minha reação. 

— Eu realmente gosto desse garoto! Minho me lembra eu mesmo quando tinha a idade de vocês — o mais velho continuou, enquanto eu tentava secar meu rosto com um guardanapo. — Acredita que ele chegou lá me pedindo para pagar uma refeição a ele? 

Enquanto meu pai ria, me lembrei do dia em que Kyujin caiu e precisou ir para o hospital. Eu encontrei Minho e ele me acompanhou até o prédio onde meu pai trabalha e disse que, agora que sabia onde era, passaria por lá para pedir a ele que o pagasse uma refeição. Não acredito que ele realmente fez isso.

Escutei a campainha tocar e corri apressada até o hall de entrada, vendo Minho pela câmera do videoporteiro. 

— Meu Deus! Ele chegou! 

— Ah, que bom, eu queria mesmo dar uma palavrinha com ele. 

— Pai! — eu nem tinha me dado conta que ele me seguiu até a porta. 

— Brincadeira, filhota! Divirtam-se, ok? 

Assenti, respirando fundo antes de sair. 

[...]

— Você não precisava ter ido até minha casa, eu podia ter vindo te encontrar aqui — falei, caminhando pela calçada ao lado do garoto. A casa de Minho era muito mais próxima dali do que a minha.

— Eu não deixaria você vir sozinha ao nosso... hm... — ele pareceu ponderar um pouco, até completar: — Ao nosso primeiro encontro.

Sorri fechado, assentindo. Então ele também vê isso como um encontro. 

Nós estávamos quase chegando ao local do festival; de onde estávamos, já era possível ver as barracas na rua e as decorações coloridas espalhadas entre os postes. Só de ver, já parecia muito divertido.

— Woah! Olha só quantas barraquinhas! — exclamei animada, caminhando para chegar lá mais rápido —  O que quer fazer primeiro? 

— Tem uma coisa que quero fazer, mas isso pode ficar pra mais tarde — ele sorriu igual a um coelhinho. — Vamos fazer o que você quiser primeiro.

Talvez Minho tenha se arrependido de sua última frase, pois eu o puxei para fazer todas as dezenas de coisas que queria. Nós paramos em quase todas as barracas de brincadeiras, desde jogos de estourar balões com dardos até aquelas máquinas onde você usa um martelo para bater numa base e contabilizar quanta força você tem. Nós fomos em todos eles. 

No fim, tudo que conseguimos como prêmio foram alguns chaveiros que guardei em minha bolsa. Ganhar as pelúcias grandes não é tão fácil quanto pensei que seria e nenhum de nós dois teve habilidade para conseguir.

Nós paramos para comer em uma barraquinha simpática e passamos algum tempo conversando enquanto comíamos. Eu estava me divertindo tanto que mal vi a hora passar. 

Ao nosso redor, as pessoas passeavam pelo festival, muitas delas vestidas em hanboks, e eu me entreti as observando. Mais à frente, avistei uma tenda de uma xamã.

— A gente tem que ir lá! — falei, levantando com pressa e puxando Minho pelo braço. 

Ele se assustou, quase derrubando a lata de refrigerante que tomava.

— Ei! Espera! Me deixe pagar antes! — ele se segurou no lugar, rindo enquanto tirava algumas notas da carteira para a dona da barraca.

Continuei o puxando, animada demais para pensar em outra coisa que não fosse ler o meu futuro.

Dentro da tenda, Minho e eu nos sentamos em almofadas no chão; separada de nós por uma mesinha, a xamã estava sentada. O espaço em si tinha uma atmosfera de sala de aula de adivinhação de Harry Potter, mas eu não me intimidei. Não podia dizer o mesmo de Minho, que me cutucou, sussurrando para irmos embora. O ignorei.

— A senhora pode ver o nosso futuro? — perguntei, recebendo um balançar de cabeça em resposta. 

— Quem quer ser o primeiro? — a mulher balançou alguns palitos de incenso em nossa frente. Minho fez uma careta ao sentir o cheiro da fumaça — Que tal o rapazinho assustado? 

— Eu vou primeiro! — exclamei, levantando a mão.

— Certo, deixe-me ver... — me ajeitei na almofada, olhando atentamente para ela. — Nos estudos, tudo está indo bem, eu vejo que você vai entrar na faculdade que deseja sem problema algum, oh, sim! Você vai ser uma excelente pediatra.

Arregalei os olhos e abri a boca com a fala da xamã. Eu nunca tinha dito a ninguém que queria ser pediatra, esse pensamento só começou a passar pela minha mente depois que Kyujin nasceu.

— Bem, e no amor... ah, eu sei que você quer saber sobre isso — continuou — Você fez a escolha certa.

Eu esperava que ela dissesse mais, mas ela simplesmente se voltou para Minho, esquecendo que eu estava ali. 

— E você, meu garotinho... vejo que tem um pequeno ser covarde dentro de você, certo? — ele engoliu em seco, mas continuou em silêncio — Apesar disso, você vai ver que a bravura que existe na sua alma é muito maior que qualquer medo que você possa sentir.

Ergui as sobrancelhas em admiração. Ela já tinha dito a ele muito mais do que disse pra mim, e não parecia estar nem perto de acabar. Como o Lee não disse nada, a mulher continuou.

— Você já é muito bem sucedido no que faz, e com certeza vai ser ainda mais no futuro. Isso pode fazer a inveja ao seu redor aumentar, tenha cuidado.

Agora, minhas sobrancelhas estavam franzidas. Ela disse que Minho é bem sucedido no que faz, mas como estudante ele não é lá essas coisas. Do que ela poderia estar falando? 

Pensando bem, talvez essa xamã seja uma fraude. 

— Quero saber sobre amor! — ele disse, quase interrompendo a mulher. 

Ela sorriu debochada, dizendo:

— Sua persistência valeu a pena.

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