32• Tentar de Novo

O restaurante do pai de Minho era enorme. Quer dizer, um deles, já que descobri que a rede tem mais de 100 restaurantes espalhados pelo país, e essa é a explicação para os Lee serem tão ricos e morarem numa mansão extraordinariamente grande e luxuosa. Eu ainda não consigo imaginar o que as pessoas fazem com tanto dinheiro. 

Já tinha se passado quase uma hora e Minho e eu ainda não tínhamos terminado de comer. Eu não me lembro se algum dia comi tanto quanto hoje, o banquete em nossa frente era gigantesco, e a cada prato que esvaziávamos, outro era colocado no lugar pelos garçons. Talvez Minho queira me engordar para depois me matar como um porco sendo preparado para o abate, mas eu pouco me importava, pelo menos minha barriga estava cheia.

Ou talvez nenhum de nós dois quisesse terminar de comer para não perder a companhia um do outro. Parece loucura apenas imaginar isso, mas quem sabe.

— Eu nunca comeria em casa se meu pai fosse dono de um restaurante assim — comentei de boca cheia, fazendo-o rir pelo nariz.

— Você ia enjoar da comida, vai por mim — respondeu bem-humorado, colocando mais alguns acompanhamentos na boca.

— Você não me conhece mesmo — desdenhei. — Eu poderia comer minha comida preferida o ano inteiro e não enjoaria!

— E qual é a sua comida preferida? 

— Depende — pendi a cabeça para o lado. — Se estivermos falando de doces, nada supera brownie com sorvete, mas pra refeições a minha preferida é samgyeopsal.

— Samgyeopsal? — sua pergunta foi retórica, mas eu assenti mesmo assim — Com licença, pode trazer uma porção de samgyeopsal na mesa trê-?

— Ya! Lee Minho! — interrompi seu contato com o garçom — Já tem coisa demais aqui! Sabe que não vamos conseguir comer! — sussurrei a última parte de um jeito ameaçador.

Ele deu de ombros, parecendo se divertir ignorando a minha fala. O Lee sempre tem que fazer esse tipo de coisa.

— Uma porção grande, por favor!

Não sei exatamente o que era, mas, apesar da teimosia de sempre de Minho, algo parecia diferente na nossa conversa hoje. O clima era leve e eu gostava de estar ali com ele, não era como das outras vezes em que eu queria fugir apenas por ter que interagir poucas palavras com o garoto. Algo mudou só porque o vi pagando pelo incidente da loja? Ou isso sempre existiu dentro de mim e só agora estou me dando conta?

De qualquer forma, isso não importa. É bom que estejamos em clima de paz, não aguentava mais ter que discutir ou brigar com o garoto, eu não gosto de ser assim, apesar dele ter merecido muitas vezes as coisas ruins que já falei para ele. 

Me espreguicei na cadeira ao mesmo tempo que resmungava por estar com a barriga tão cheia.

— Pelo visto vou precisar te carregar nas costas hoje de novo, hm? —  um sorriso provocador surgiu em seus lábios.

— Bancando o engraçadinho, Lee Minho? — levantei uma das sobrancelhas e ele riu. É incrível como ele continua tentando me provocar.

— Naquele dia eu consegui te carregar, mas depois do tanto que você comeu hoje, acho que vai ser difícil.

— Minho! — o repreendi, mas não consegui evitar uma risada que escapou de meus lábios.

Nós ainda estávamos discutindo sobre Minho ser muito fraco ou eu estar muito pesada depois de comer quando a presença do Sr. Lee nos pegou de surpresa. Ele veio até a nossa mesa, me cumprimentando antes de bagunçar o cabelo de Minho de um jeito carinhoso.

Fiz menção de levantar em respeito, mas o homem me disse para ficar sentada, então eu obedeci.

— Já estou de saída, passei só pra resolver algumas pendências com o gerente, não vou atrapalhar vocês — ele lançou uma piscadela para Minho, e eu me perguntei se esse era realmente o jeito normal do Sr. Lee ou ele tinha bebido antes de vir para cá. — Vou marcar um jantar com seus pais e comeremos todos juntos, ok?

— Ah, claro — respondi, meio desconcertada —, obrigada, Sr. Lee.

— Finalmente criou coragem para convidá-la pra um encontro, estou orgulhoso, filho! — o pai do garoto sussurrou perto dele, mas não baixo o suficiente para que eu não escutasse. 

Nesse momento, eu não sei quem tinha a expressão mais desesperada no rosto: Minho ou eu. Segurei tão forte a sensação do meu coração descompassado dentro de mim, tentando não transparecer nada, que por dentro era como se eu fosse explodir. É exatamente como quando você tenta esconder uma tosse porque já tossiu demais e acha que está incomodando os outros ao redor. O problema é que esse tipo de coisa não dá pra esconder por muito tempo. Ela dá um jeito de sair.

Meus olhos estavam arregalados e eu não conseguia encarar Minho. Ao invés disso, permaneci olhando o pai do garoto se afastar da nossa mesa depois de falar aquilo como se não fosse nada e desaparecer restaurante a dentro.

— N-não é isso que você tá pensando! — ele exclamou alto, pegando minha atenção. Finalmente voltei a olhá-lo — Meu pai só...

— Ele só tava brincando, né?!

Estava esperando uma resposta positiva. Não poderia acreditar em outra resposta que não fosse um "sim". Na verdade, já faz um certo tempo que tento fingir que não existe nada aqui. Um bom tempo.

Eu menti para Minho quando ele me perguntou no acampamento se existia alguma chance de ele ser a pessoa de quem eu gosto. Coloquei em minha cabeça e me esforcei o máximo para pensar que essa pessoa era Seungmin, mas eu sabia que não era. 

— Sim! Ele tava brincando! Haha... — ele estava claramente envergonhado — Meu pai sabe que você não gosta de mim, então ele fala essas coisas pra me provocar...

— Eu não gosto de você? Há! Quem me dera! — as palavras saíram sem que eu me desse conta. Minho ergueu as sobrancelhas e seus olhos ficaram enormes. Gesticulei com as mãos desesperadamente tentando anular o que tinha dito antes — Q-quer dizer, você não é tão insuportável quanto eu pensava!

Estava claro que eu continuava tentando me enganar sobre tudo. Principalmente sobre isso. Talvez eu tenha me arrependido de não ter correspondido Minho no acampamento e em todas as outras vezes que ele demonstrou algum interesse por mim. Eu sou medrosa demais para assumir que esse sentimento existe dentro de mim desde a primeira provocação barata que ele sempre fez questão de fazer para me atingir.

E se tem uma coisa que ele sabe fazer comigo muito bem é me atingir. 

Mas é claro que eu não vou ter coragem de dizer isso a ele. Vou manter as coisas como estão. É o melhor a ser feito. Eu acho.

— Hm, eu... — o garoto disse, cabisbaixo. Me senti triste em vê-lo daquela forma — estou tentando ser menos insuportável.

— Ei, não foi isso que eu quis dizer! — me apressei em explicar, estava preocupada em ter o chateado com o que disse. 

O encarei atentamente, mas o Lee sequer me olhou, continuou com a cabeça abaixada e o olhar fixo nos pratos em cima da mesa. Me senti horrível por ter feito ele se sentir mal. 

— Minho, me desculpa... e-eu-

— Tudo bem, Kyra. Você tem razão. Eu fui horrível com você desde o começo. Como eu poderia querer que você gostasse de mim depois de tudo? 

Eu fiquei paralisada por um tempo sem saber o que dizer. Eu apenas queria que ele soubesse que não o odeio. Que, na verdade, estou muito longe disso, praticamente do lado oposto do ódio, mas também não sabia como fazer. Estava perdida.

— Acho que nós começamos do jeito errado, Minho — esperei até que ele finalmente me olhasse. — O que acha de tentarmos de novo? Do zero, sem ressentimentos. 

— Tentar de novo? — balancei a cabeça confirmando. Queria mais que tudo uma resposta positiva.

E ele sorriu. De um jeito tão lindo que eu nunca havia visto antes.

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