26• Verdade ou Desafio

Depois de passar a noite na enfermaria e acordar mais tarde do que deveria, era hora de voltar para a cabana. Yohan veio me acompanhar, dizendo que no único momento em que eu não estava sob a sua vista nos últimos dias, eu acabei me machucando. Ele adora se passar pelo amigo super responsável mesmo quando nós dois sabemos que isso não é nem um pouco verdade. 

Nós caminhamos até a minha cabana, conversando no caminho. É confortável estar com Yohan, nós simplesmente falamos sobre tudo e sobre nada ao mesmo tempo, conversamos sobre coisas importantes e depois sobre coisas fúteis. Eu gosto disso. 

— Vai fazer o que o dia inteiro já que foi liberada da competição? — perguntou, me ajudando a subir os dois degraus da cabana, mesmo que eu não precisasse. 

— Hm... vou ficar o dia todo deitada assistindo tudo que eu quiser no celular. 

— Tô com inveja — ele fez um biquinho, me arrancando uma risada. — Pelo menos apareça na fogueira mais tarde, isso você pode fazer, certo? 

— Acho que a enfermeira não disse nada sobre ficar longe de fogueiras — respondi, e ele sorriu vitorioso. — Nos vemos à noite, então, Yohanie! 

Ele se despediu, acenando animado enquanto eu entrava no quarto. Me deitei na cama de Soojin, não poderia mais ficar na beliche de cima, não com a minha mão esquerda inutilizável. Não se passaram nem cinco minutos quando minhas amigas abriram a porta, fazendo a maior algazarra já na entrada. Soojin segurava uma bandeja com o café da manhã que foi servido no refeitório e Yena trouxe um punhado de flores que provavelmente pegou em algum arbusto do acampamento. 

— Não sabia que aqui era um hotel cinco estrelas — brinquei, sorrindo ao vê-las. 

— Nossa cliente VIP merece o melhor tratamento! — Soo se aproximou, sentando na ponta da cama e colocando a bandeja em meu colo. Ela furou o leite de banana com um canudo e me entregou. 

— Tudo bem mesmo eu ficar com a sua cama? — perguntei, tomando um gole da bebida em seguida. 

— Uhum — assentiu — Considere o meu pedido de desculpas pelo incidente no sorteio dos times. 

— Incidente? — Yena a olhou incrédula. — Você trocou a gente pelo Yohan! 

Nesse ponto eu tinha que concordar com Yena. Soojin não podia chamar de incidente algo que ela fez porque quis. 

— Juro que não foi como vocês estão pensando! — A Lee se defendeu, segurando o meu leite para que eu pegasse um cookie na bandeja. 

— E como foi, então? — falei de boca cheia mesmo, estava curiosa para saber o motivo de Soojin. 

— Eu prometi que não ia contar, mas é difícil esconder as coisas de vocês! — resmungou, tomando um grande gole do que antes era o meu leite de banana. 

— Espera! Eu preciso me ajeitar pra ouvir isso! — Yena se sentou no chão perto da cama, jogando de lado as flores que tinha trazido.

— E então...? — ergui as sobrancelhas, aguardando ansiosamente. 

— Bem, é q-que... não... — ela gaguejou, me fazendo ficar ainda mais curiosa. Yena bateu na perna de Soojin com o buquê de flores para que ela contasse logo. — Não fui eu que quis trocar de time! — soltou tudo de uma vez, como um áudio reproduzido duas vezes mais rápido. 

— O que?! — a Choi gritou, tapando a própria boca em seguida por ter exagerado no tom. Eu apenas continuei em silêncio encarando minha amiga. 

— Minho pediu pra não te contar, Ky — ela me olhou com um rosto arrependido. — Eu não ia aceitar, mas ele praticamente me implorou! 

Larguei o cookie na bandeja, refletindo por alguns segundos antes de falar qualquer coisa. 

Quer dizer, como entender esse garoto? 

Sinceramente, às vezes imagino que existem dois dele. Um Minho gentil, que me ofereceu seu casaco no hospital quando Kyujin nasceu, me defendeu dos alunos que me intimidaram no corredor da escola e me carregou nas costas quando desmaiei na floresta, e um outro Minho extremamente desagradável, que sempre me diz coisas rudes, que gritou comigo no dia que fiquei brava porque ele esqueceu o pen drive com a nossa apresentação em casa e que saiu correndo depois de derrubar as prateleiras do meu local de trabalho. E eu não gosto de pessoas inconstantes. 

Senti o olhar ansioso das garotas em mim, me lembrando que elas esperavam que eu dissesse algo. Suspirei cansada. 

— Você não devia ter aceitado, Soo. 

[...] 

Mais tarde, na fogueira, eu não aguentava mais meus amigos me bajulando e querendo fazer tudo por mim. Meu braço esquerdo estava na tipoia, mas isso não queria dizer que eu não podia fazer nada sozinha. Eu recebi salgadinhos na boca nos últimos quinze minutos e não podia nem me mexer no banco de madeira que todos já me olhavam querendo ajudar. 

— Yohan, vá ficar com os garotos! — resmunguei com a boca cheia de salgadinho de banana que ele estava me forçando a engolir. 

— Você precisa se alimentar direito pra melhorar logo — retrucou, enchendo a mão dentro do pacote novamente. 

— E desde quando comer salgadinho é se alimentar direito? 

— É salgadinho de banana, e banana é fruta, então... — ele me encarou, como se eu fosse burra — É saudável. 

Revirei os olhos enquanto Yena e Soojin se acabavam de rir da idiotice. 

— Que seja — tentei segurar a risada, em vão. — Só tira esse salgadinho de perto de mim, pelo amor de Deus! 

— Ei, pessoal! Bora jogar! — Huening Kai acenou com uma garrafa em sua mão. Os colegas que estavam ao seu redor começaram a se mexer, se sentando no chão para formar um círculo. 

— Todo mundo? — Soojin apontou para cada uma de nós três, pensando que o convite era apenas para Yohan. 

— Claro! Todo mundo! — Soobin gritou do outro lado da fogueira. — Vamos! 

Das pessoas que não quiseram participar, algumas voltaram aos seus quartos enquanto outras continuaram ao redor da fogueira, apenas conversando e comendo enquanto nos arrumamos em uma roda para começar o jogo. 

Verdade ou Desafio. 

Soojin me ajudou a sentar no chão, sentando à minha esquerda; do meu lado direito estava Yohan e, por algum motivo que eu não fui capaz de entender, Yena se sentou tão longe de nós que ficamos praticamente de frente uma pra outra no grande círculo. 

Eu não contei, mas estávamos em pelo menos quinze pessoas ali, o que era ótimo, pois as chances da garrafa parar apontando para mim eram muito menores do que se fôssemos um grupo pequeno. 

Todos estavam mais barulhentos do que o de costume, mas eu não os culpava, era de fato emocionante viajar sem a presença dos nossos pais, apesar dos inspetores e professores estarem sempre de olho na gente por aí, dava pra fugir de vez em quando pra ter mais diversão. 

O jogo já começou agitado quando Kai foi desafiado a dar um beijo na bochecha de Yeonjun. Não era tão ruim considerando que eles são amigos, mas Huening quis desafiar a própria sorte e lambeu da forma mais nojenta possível o rosto de Yeonjun, que saiu correndo atrás do garoto para se vingar. 

Enquanto os dois se estranhavam igual gato e rato, o jogo continuou. Hayoung, uma das garotas que divide a cabana com a gente, foi desafiada a roubar algo na sala do zelador e, com certeza, eu não gostaria de ser ela nesse momento. Estava tudo escuro e o quarto onde o zelador ficava era o mais afastado de todos os lugares do acampamento. 

— Quem será o próximo felizardo? — um dos garotos riu debochado, girando a garrafa no centro do círculo. 

O objeto girou até parar lentamente com a boca apontada para Minho e a parte de trás para Yohan. Não podia ser pior. 

— E aí, vai ser verdade ou desafio, Lee? — meu amigo deu um tom ameaçador à sua voz, eu acompanhei a cena com olhos curiosos. 

— Vamos ver que desafio você tem pra mim, então, Kim Yohan — ele devolveu a provocação, fazendo surgir reações admiradas dos outros ali presentes. 

— Cadê seu celular? — Yohan levantou uma das sobrancelhas. — Te desafio a mandar uma mensagem pro seu pai agora dizendo que é gay. 

Eu não estava comendo nada na hora, mas me engasguei mesmo assim. Muitos gritos romperam da rodinha, alguns surpresos com o desafio e outros satisfeitos por estarem prestes a ver um colega fazendo uma coisa que não gostaria nada de fazer. 

— Nem ferrando! — Minho elevou a voz para ser ouvido entre os gritos — Não vou fazer isso! 

— Ah, é?! — Yohan sorriu de lado. — Então, que tal mostrar a última foto da sua galeria pra gente? 

Não sei porque, mas algo parecia estranho no modo como Yohan falava, ele parecia saber sobre algo que ninguém mais sabia. Virei minha cabeça de volta para Minho, que estava congelado no lugar, por exceção de sua mão que ele levou lentamente ao bolso, tirando o celular de lá. Seu olhar parecia um pouco assustado, mas, com certeza, ele estava dando o seu melhor para não demonstrar nenhum tipo de fraqueza, apesar de eu saber que era apenas fingimento. 

Todos o encaravam atentamente, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Com a mão um pouco trêmula ele desbloqueou o celular, virando o aparelho instantes depois para olharmos. 

Apertei os olhos para ver. Lá estava, escrito com todas as letras no chat de conversa: 

"Pai, eu sou gay".

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