25• Super-herói Improvável

Me sentei no chão depois que mais de meia hora se passou e ninguém do outro time apareceu para roubar a nossa bandeira. Imagino que em algum outro lugar da floresta a disputa esteja acirrada, mas aqui, tudo que eu posso ouvir é um enorme silêncio. 

Tirei os óculos de proteção, limpando o suor da testa com a manga da roupa, o Sol brilhava por entre as grandes árvores. Minho continuava em posição de alerta, como se alguém pudesse chegar atirando a qualquer momento. Olhei para ele, esperando uma repreensão por ter saído do meu posto para descansar, mas o garoto não disse nada. 

Na verdade, nenhum de nós disse nada nos últimos 30 minutos. 

— Eu já vou voltar, só preciso descansar um minuto — falei, esperando antecipar alguma reclamação que ele pudesse fazer. 

— Tudo bem, eu fico de olho, pode ficar sentada. 

— Resolveu ser legal uma vez na vida? — forcei uma risada. Era inevitável que as coisas ruins que Minho fez voltassem à minha mente vez ou outra. 

Ele se virou para me olhar, soltando a arma, que ficou pendurada na lateral de seu corpo pela correia. Seu semblante não era de quem estava bravo, ele parecia decepcionado, ou algo que chegava próximo a isso. 

— Eu sou mesmo tão ruim assim? — deu dois passos para frente, ficando mais perto de mim. Olhei para cima, tentando encarar seu rosto, mas era difícil com os raios fortes de Sol batendo. Fiz uma cabana com a mão em cima dos meus olhos. 

— Minho, eu não te entendo — disse simplista, mas ele continuou parado, esperando a minha explicação. — Você é estranho. 

— Pode me dizer o porquê, pelo menos? — dessa vez, ele se agachou, ficando na mesma altura que eu. O Lee tombou a cabeça para o lado, e eu gostaria de dizer que não achei pelo menos um pouco fofo o gesto. 

Suspirei, pensando no que dizer. Fechei os olhos por um segundo antes de voltar a encará-lo. 

— Você implica comigo desde o primeiro dia de aula. Sempre faz provocações e diz coisas ofensivas de graça, sem contar que você me fez perder meu emprego e ainda foi grosso quando fui tirar satisfação com você — eu tinha muito mais para falar, mas parei, de repente, sem nem saber o motivo. — Minho, só esqueça tudo isso, não faz diferença. 

Embora eu nem estivesse segurando uma arma de verdade, Minho pareceu ter sido atingido em cheio por mim, como se eu tivesse disparado à queima roupa direto em seu peito. O garoto permaneceu imóvel, agachado, seus olhos na mesma altura dos meus, e seu único movimento foi abaixar a cabeça depois disso. 

— Vou ficar na retaguarda, você pode descansar um pouco — levantei, batendo a poeira da roupa e pegando meu posto de volta. Não olhei mais para trás depois disso. Os próximos minutos foram de silêncio absoluto novamente.

Arrastei as botas na terra sob meus pés, o Sol era tão forte e meu rosto estava tão quente que eu não sabia mais se valia a pena continuar ali. Voltar para o acampamento pra me livrar dessa roupa pesada era mais tentador do que eu gostaria que fosse, mas, ao mesmo tempo, não podia simplesmente sair daqui e deixar meu time na mão. Eles estavam contando comigo. 

Respirei fundo, tentando imaginar que eu estava deitada em minha cama, com o ar condicionado ligado, enquanto assistia uma live do Spy. Seria realmente maravilhoso estar fazendo isso agora, mas, infelizmente, imaginar algo não faz isso se tornar realidade. 

Levei a mão à testa, sentindo meu corpo pesar um pouco. Ao meu redor, as árvores estavam ficando turvas, e eu podia sentir que havia algo errado comigo. Era difícil puxar o ar e me manter firme; tirei a arma que estava pendurada em mim por cima da cabeça e a joguei no chão, tentando me livrar pelo menos um pouco do peso de meu corpo. 

— Ei, Kyra, tá tudo bem? — não respondi nada — O que você tá sentindo? — Minho se levantou apressado, vindo até mim assim que percebeu que eu não estava bem. 

— E-eu... só tô com um pouco de calor com essa roupa — tentei parecer otimista, mas eu já não conseguia ver nada com clareza ao redor. 

— Tem certeza? Você tá tremendo! 

Ouvi um estalo na floresta, como se alguém tivesse pisado num galho. O som se repetiu mais uma vez. 

— Tem alguém vindo, é melhor você ir pro seu lugar — falei; e é claro que ele não me obedeceu. 

— Não vou — o garoto ergueu meu rosto com as duas mãos, dando uma boa olhada como uma inspeção. — Você tá pálida, Kyra, tem que ir pra enfermaria agora! 

— Isso não é nada, Minho. 

Tirei suas mãos do meu rosto, puxando o ar com força mais uma vez, tentando buscar fôlego para continuar de pé. Ainda tinha um inimigo chegando e eu precisava estar alerta. 

Olhei para baixo, vendo minha arma jogada no chão, mas, assim que fiz o primeiro movimento para tentar pegá-la, não senti mais minhas pernas. Foi como se meus membros inferiores tivessem virado um tipo de geléia, sem sustentação nenhuma, e depois disso, eu não vi mais nada. 

Quando abri meus olhos novamente, eu não estava mais na floresta. A luz clara do cômodo branco me incomodou um pouco, mas, ainda assim, eu me esforcei para olhar ao meu redor. 

— Acordou, Bela Adormecida? — minha cabeça pendeu para a esquerda, Yena estava sentada num banquinho ao lado de minha maca, ainda vestida com a roupa do paintball. 

— Se essa conversa não estiver acontecendo só na minha cabeça... sim, acho que tô acordada — ri fraco, ainda sentindo um pouco de cansaço. — Faz tempo que tô aqui? 

— Só foi um cochilinho de duas horas, não perdeu muita coisa — balancei a cabeça assentindo. — Mas a enfermeira disse que vai te dar uma injeção, e daquelas que têm a agulha bem grande! 

Arregalei os olhos, com medo, procurando a enfermeira pelo quarto. Ela estava de costas, organizando algo em sua bancada, ou talvez preparando a tal injeção enorme que me daria. A mulher riu, mesmo sem virar para me ver, e eu encarei Yena, resmungando por ela ter mentido sobre a medicação. 

— Desculpa, força do hábito — ela deu um sorriso amarelo, descarada como sempre — Lembra o que aconteceu? 

— Hm... — me ajeitei melhor no travesseiro da cama. — Eu desmaiei na floresta? 

— Gosto de como você é objetiva, mas essa versão da história é muito curta, não tem graça — constatou, me julgando com o olhar. — Sabe quem te trouxe pra cá? 

A pergunta me pegou desprevenida e, mesmo que eu soubesse claramente a resposta, me mantive calada. O que foi péssimo, porque Yena desatou a falar sem parar nos próximos dez minutos. 

— ... e então a gente perdeu o jogo, porque bem na hora que o Huening Kai chegou pra roubar a nossa bandeira, foi quando você desmaiou, mas o Minho não fez nada pra impedir, porque te trazer pra cá era mais importante — ela parou um segundo para recuperar o fôlego, mas logo continuou: — Olha, eu tinha minhas ressalvas contra o Lee, mas ele foi bem nessa. Ele entregou de bandeja a vitória pros malditos do time vermelho, claro, mas ele também correu a floresta inteira com você nas costas pra te trazer até aqui. 

Eu continuava assentindo com a cabeça, sem dizer um "a" sequer. Era difícil processar toda aquela informação. Quer dizer, só podia ser piada, não é possível que ele tenha feito isso por mim. 

— Ficou muda? — ela insistiu, mas eu não sabia o que responder — Enfermeira, pode trazer a injeção, ela pifou aqui! 

— Yena! Eu vou te bater! — exclamei, tentando erguer meu tronco da maca. 

— Com um braço só? Você pode tentar. 

— O que?! — arregalei os olhos, só então me dando conta que meu braço estava engessado do cotovelo para baixo — Que merda é ess- 

— Você caiu por cima do braço e fraturou um dedo, mas não se preocupe, não vai ficar com sequelas — a enfermeira disse, vindo em minha direção com alguns comprimidos e um copo com água. — Aqui, isso é pra ajudar com a dor. 

Eu nem tinha sentido dor nenhuma até saber que estava com um osso quebrado, mas obedeci, tomando de uma vez os remédios. Entreguei o copo de volta à mulher, enfiando minhas costas de volta no travesseiro branco. 

— Yena, pode ir lá tomar banho, eu fico aqui com ela agora que já termine- 

Ele parou de falar assim que me viu acordada. Queria dizer que Minho foi o único a ficar travado no lugar, mas o mesmo aconteceu comigo quando ele entrou. Seus cabelos estavam molhados e os fios negros um pouco bagunçados cobrindo sua testa. 

Não sei ao certo quanto tempo o silêncio esquisito no lugar durou até Yena quebrá-lo. 

— Já que o super-herói chegou, eu vou dar um pulinho na cabana pra me trocar e dar notícias suas pra Soo e pro Yohan. Eles nem sabem ainda o que rolou com você na floresta — minha amiga levantou, se alongando depois de ter ficado muito tempo naquele banquinho sem encosto. — É bom você cuidar bem dela, ouviu, Lee?! 

Ela me mandou um beijo voador, dando as costas em seguida e saindo pela porta da enfermaria. Suspirei, vendo Minho parado em minha frente, eu deveria pelo menos agradecê-lo. Pigarreei, sem saber ao certo o que dizer. 

— Como tá se sentindo? — ele perguntou, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. 

— Eu tô bem — respondi, vendo ele caminhar até estar quase grudado na maca. — Sabe... sobre o que você fez hoje, muito obrig- 

— Não precisa agradecer — gesticulou de um jeito meio desengonçado. — O importante é você estar bem. 

Ele me venceu ali. O que mais eu poderia dizer? Me senti mal por ter dito aquelas coisas ruins pra ele na floresta, queria me desculpar, ao mesmo tempo que queria ficar muda eternamente para não ter que dizer nada. 

— Minho, e-eu... 

O som alto do meu celular tocando na mesinha ao lado da maca me interrompeu. Olhei para o lado, vendo o nome de Seungmin na tela. Meus olhos foram do aparelho para Minho, que observava estático o nome na tela acesa de meu celular em cima do móvel. 

— Desculpe, eu vou... — me estiquei com dificuldade, tentando recusar a ligação. Minho apertou os lábios numa linha em seguida, virando para mim: 

— Tudo bem, você devia atender — balancei a cabeça negando, o aparelho continuava tocando enquanto eu tentava apertar o botão vermelho. — Seus amigos devem estar vindo pra cá, então e-eu... já vou indo.

Ele abaixou a cabeça levemente, apontando com o polegar para a porta. Senti meu peito apertar por algum motivo. 

— Minho, espe- 

— Só vim ver mesmo como você estava. Vou te deixar descansar agora — concordei, mesmo sem querer. 

Ele me deu as costas, virando-se para a porta enquanto caminhava com passos lentos para o lado de fora. Entretanto, antes de cruzar a saída, ele parou, dizendo sem me olhar: 

— Melhoras, Kyra.

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