22• Cabo de Guerra
O dia seguinte amanheceu e os jogos do acampamento logo começariam. Eu me vesti com uma das camisetas azuis do uniforme e amarrei a bandana no cabelo como uma tiara. O sol brilhava forte lá fora, então vesti um short e saí do banheiro pronta para o café da manhã. Chaeryeong, uma das garotas que dividia a cabana comosco, estava na porta esperando que eu saísse para usar o banheiro.
— Hm...? — comecei, pegando a atenção da garota antes que ela fechasse a porta. — Desculpa por ontem, a gente não queria deixar vocês desconfortáveis com aquele lance de "garotas SKY" — fiz aspas com as mãos.
— Tá tudo bem, a Hayoung se assusta por qualquer coisa — ela sussurrou para que a garota não escutasse do quarto. — Mas é normal, não se preocupe.
— Muito obrigada mesmo — sorri de lado. — Eu espero que possamos começar de novo, sei que a primeira impressão não foi tão boa, mas, enfim... tem algo que a gente possa fazer pra melhorar as coisas? — ela pareceu pensar por um instante.
— A gente gosta de sorvete — seus olhos eram sorridentes quando ela respondeu. Eu balancei a cabeça assentindo.
— Então vamos tomar sorvete juntas quando voltarmos pra Seul. Eu pago! — ela concordou. Eu me afastei quando ela fechou a porta do banheiro.
— Tudo resolvido — sussurrei, sentando ao lado de Soojin em sua cama. — Vamos sair todas juntas quando voltarmos pra casa.
— Menos mal — ela disse, enquanto amarrava seus tênis. — E vai ser bom conhecer gente nova.
— Qual é a fofoca? — nós levamos um baita susto quando Yena colocou a cabeça pra fora da cama de cima da beliche. Eu havia esquecido que ela estava lá.
— Yena, você ainda vai me matar um dia! — direcionei meu olhar bravo para o alto, onde ela ria sentada com as pernas encolhidas. — E saiba que eu vou vir dos mortos pra te levar comigo!
O sinal do café da manhã tocou e me impediu de subir na cama de Yena e matá-la ali mesmo. Nós saímos pra comer e depois da refeição fomos todos para um campo aberto, onde o primeiro dia de jogos aconteceria.
Tanto Jackson quanto Dahyun tinham apitos pendurados no pescoço e nos aguardavam com rostos animados ao lado de uma lousa.
— Bom, pessoal, como vocês podem ver, nós temos uma lousa — alguns alunos riram debochando da fala óbvia. Por incrível que pareça, eu achei um pouco engraçado.
— Sabe que se você não tivesse falado eu não teria percebido?! — um garoto zombou, mas o instrutor apenas riu dele. Já deve estar acostumado com alunos idiotas.
— Olhando assim de perto eu posso dizer, com certeza é uma lousa! — Dahyun se juntou à brincadeira de Jackson, analisando o objeto ao seu lado. — E você pode dizer pro pessoal o que ela tá fazendo aqui?
— É claro que posso, Dahyun! — o teatrinho dos dois estava me entretendo de verdade. — Ela tá aqui pra mostrar quem de vocês é menos inútil.
Alguns alunos pareceram ofendidos, mas eu apenas ri nasal novamente, achando graça em tudo aquilo.
— Poxa, Jackson, não fale assim. Você pode acabar deixando alguém triste — a instrutora colocou um biquinho no rosto. Em seguida o desfez, voltando a ter uma expressão sapeca. — Sabe que a lousa é só pra anotar os pontos e ver qual dos times é menos péssimo nos jogos.
A fala da moça foi suficiente para explodir um burburinho ao redor. A rivalidade entre as equipes estava oficialmente instaurada e as palavras de "ameaça" entre alunos dos times azul e vermelho deixavam claro que a competição já tinha começado. Dahyun e Jackson praticamente acenderam um fósforo numa sala encharcada de gasolina.
Sem muita demora, nós recebemos as instruções do primeiro dia da competição. Todas as atividades tinham como objetivo fortalecer o espírito de equipe e trabalhar nossa união. Algo assim. Não prestei atenção nessa parte.
O primeiro jogo era o clássico cabo de guerra. A grande corda já estava repousada no chão de terra batida nos esperando. No meio havia uma marcação branca no solo e um lenço roxo que marcava o centro da corda.
Jackson e Dahyun nos deram alguns minutos para pensarmos em nossa estratégia para o cabo de guerra. Os garotos, como sempre, tomaram a frente no time azul para bolar o melhor plano e ganharmos. Olhando para o outro time, eles pareciam mais fortes que a gente. Os alunos de lá eram maiores e eles tinham um número maior de atletas do que nós, mesmo assim, eu ainda queria muito ganhar.
Na rodinha para decidir nossa estratégia, todos concordaram que os mais fortes deveriam ficar na frente. Soobin, o único entre os seus amigos que ficou no time azul, foi indicado por todos como líder da equipe. Ele era forte e alto, bastante inteligente também, e isso era bom. Ele foi o escolhido para ficar na frente e liderar todos na corda. Depois dele, outros garotos viriam em seguida, algumas garotas do clube de ginástica artística que tinham pernas e braços fortes também se ajeitaram na parte da frente. Os outros de nós, meros mortais sem talento, fomos mandados para a ponta final da corda. Yena não era forte, mas teimou que queria estar em uma posição na frente, pois, segundo ela, o seu espírito competitivo valia muito mais que braços musculosos. Soobin aceitou.
Quando o apito soou, eu já percebi que não seria nada fácil. Era muito pesado puxar a corda, mesmo que eu fosse a última pessoa na fila enorme de colegas de equipe. Além da dificuldade em puxar, eu ainda tentava me manter o mais longe possível de Minho, que estava logo à minha frente. Nem tinha passado muito tempo, mas comecei a sentir o cansaço chegar. Minhas pernas e braços doíam, mas os gritos de incentivo de Soobin chegavam altos aos meus ouvidos, então eu continuava puxando.
Foi inevitável darmos alguns passos para frente com a pressão que a equipe vermelha fazia. Já tínhamos perdido pelo menos um metro de corda do nosso lado e eu já podia sentir minhas mãos arderem pelo contato com a corda.
— Ya! Kyra! Vê se puxa mais forte! — Minho gritou, virando um pouco a cabeça para trás. — Desse jeito a gente vai perder!
O que? Ele tá mesmo querendo colocar a culpa disso em mim?
— Ya! Lee Minho! — gritei o mais alto que pude, queria machucar os seus ouvidos. — Eu tô puxando o mais forte que consigo!
— Então você é muito fraca! — ele riu soprado, eu conseguia ver somente o seu perfil pelo modo que ele virou a cabeça novamente.
— O que você disse? — agora eu havia parado mesmo de puxar a corda. Eu ainda segurava ao redor dela, mas sem fazer força alguma. O garoto fingiu que não escutou. Aquilo ferveu meu sangue. — Vamos, repete se tem coragem! — peguei em seu ombro, o virando de frente para mim.
— Qual é, Kyra, a gente tem que continuar puxando! — ele olhou para a corda, nós fomos puxados por mais alguns metros. Soobin ainda gritava, mas se mantinha firme com os outros.
— Não vai repetir? — o encarei com raiva.
— Que você é fraca? — ergueu uma das sobrancelhas, me analisando. Sua expressão debochada fez meu ódio crescer. — Eu posso repetir, você é mesmo.
Eu o olhei de cima a baixo. Para quem falava de mim, seu porte físico era bem medíocre.
— E você que é o último garoto na fila? — seus olhos se abriram. Talvez minha fala o tenha atingido em um bom lugar. Eu ri alto antes de continuar: — Se fosse forte como pensa que é, estaria lá na frente com Soobin e os outros, não aqui atrás com a garotinha fraca.
Minho abriu a boca para me responder, mas foi interrompido por gritos que nos mandavam puxar a corda. Voltei a puxar, já que já tinha dito o que queria. O Lee, por sua vez, ainda estava parado estaticamente de frente para mim, sem se importar que o jogo ainda estava acontecendo. Apenas o ignorei e continuei puxando.
Eu já estava exausta quando minhas pernas vacilaram e eu percebi que meus pés não estavam mais apoiados no chão. Apertei os olhos quando todos da nossa equipe foram lançados para frente com o impacto e só percebi o que estava acontecendo quando os gritos vitoriosos do outro time eclodiram no lugar. Nós tínhamos perdido.
Meus olhos ainda estavam fechados quando finalmente me dei conta de outra coisa. Algo muito pior do que perder no cabo de guerra.
Por que o chão não era duro? Era só o que eu conseguia pensar enquanto sentia o calor e a maciez do corpo embaixo de mim. Abri os olhos devagar, desejando que fosse uma alucinação, um delírio da minha cabeça, mas lá estava ele.
Lee Minho.
Suas bochechas estavam coradas e seus fios de cabelo bagunçados, alguns ainda grudados na testa pelo suor. Eu arregalei os olhos.
— Você tá bem? — senti sua respiração ofegante bater contra o meu rosto quando ele perguntou. Não consegui responder nada, apenas balancei a cabeça confirmando.
Eu só podia estar num tipo de transe. Por que meu corpo não estava se movendo? Minhas pernas se cansaram tanto que agora não funcionam mais?
— Kyra! Você se machucou? — o grito de Yohan foi como uma descarga elétrica que entrou pelos meus ouvidos e me fez levantar num pulo de cima de Minho.
Bati as mãos nos joelhos, fazendo o mesmo em seguida com minha roupa.
— Eu tô bem — meu amigo me olhou como se não acreditasse. Ergui minhas mãos para mostrar que não tinha nenhum dedo cruzado — Juro que tô!
— Vou pegar água pra você, não sai daí! — ele me analisou uma última vez antes de se distanciar.
Instintivamente, meus olhos desceram para o chão. Minho não estava mais deitado como na hora em que caí por cima dele. O garoto estava sentado, as mãos ao lado do corpo o apoiando e as pernas esticadas. Ele parecia cansado. Eu estava com raiva, mas, ainda assim, ele amorteceu a minha queda.
— Vai uma mãozinha? — estendi a mão para ajudá-lo a se levantar. Ele pareceu pensar por um instante, mas aceitou, segurando em mim ao se erguer.
Não sabia se devia agradecer, afinal, isso tudo não teria acontecido se ele tivesse ficado quieto fazendo a parte dele na partida. Também não queria brigar ou jogar na cara que a culpa foi dele. Apenas fiquei em silêncio. Ele parecia querer falar algo enquanto me olhava. Eu desviei os meus olhos para o chão.
Meu coração estava acelerado depois de alguns minutos puxando uma corda e eu pensei que deveria me exercitar mais quando voltasse para casa.
— Obrigado — ele agradeceu tardiamente, mas ainda me deixou surpresa. Assenti com a cabeça.
Ergui as sobrancelhas tentando ver se algo estava errado com ele. O garoto tinha os olhos parados em sua própria mão, a olhando fixamente, como se alguma coisa tivesse acontecido com ela. Dei um passo para frente, abrindo os lábios para perguntar se ele tinha se machucado, mas Minho deu dois passos para trás, confuso, recuando antes de dizer:
— E-eu... lembrei que preciso fazer uma coisa! Tenho que ir!
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