21• Vermelho ou Azul

Depois do almoço, os instrutores reuniram todas as turmas para o sorteio que decidiria em qual time ficaríamos nas gincanas que aconteceriam no decorrer dos dias. Uma urna era passada de aluno em aluno, e quando o objeto chegou até mim, eu enfiei a minha mão, puxando uma bolinha de dentro dela. Olhei para meus amigos, que ainda tinham suas mãos fechadas também. 

— No três? — eles assentiram. — Um, dois... 

Nós quatro abrimos nossas mãos na mesma hora, revelando três bolinhas azuis e apenas uma vermelha. 

Aparentemente, ninguém além de Yena estava feliz. Eu olhei para Yohan com os lábios apertados em uma linha, daquele jeito que você faz quando as coisas dão errado. 

— A gente vai acabar com eles! — Yena exclamou animada, elevando suas mãos para que eu e Soojin tocássemos. Eu toquei fraco, apenas para não deixá-la com o braço estendido, a Soo sequer fez isso. 

Eu estava me sentindo mal por Yohan ser o único a ir para outro time enquanto a Choi praticamente pulava de alegria por nós três estarmos juntas, então sussurrei perto dele: 

— Desculpe. 

O garoto abriu um leve sorriso, mostrando a bolinha vermelha para nós três novamente. 

— Ei, tudo bem! — o conhecendo como conheço, sabia que ele estava dando o seu melhor em ser positivo. — Eu vou me sair bem no time vermelho! É bom vocês se prepararem! 

Eu assenti, guardando minha bolinha no bolso do moletom. 

— A gente ainda tem os horários livres pra ficar juntos, certo? — esperei sua resposta, ele confirmou com um "uhum". 

— Bom, então... acho que é melhor eu me juntar ao meu time — acenou um tchauzinho, saindo de costas para nos olhar. — Nos vemos depois! 

Eu suspirei pensando se ele se daria bem mesmo no outro time. Era o primeiro contato de Yohan com os alunos do nosso colégio, já que as férias ainda não tinham acabado e ele não conhecia ninguém além de nós três. E Minho, que ele avistou uma única vez na calçada da minha casa no dia que Kyujin nasceu. E não sei se isso era algo bom. 

Olhei para o lado, pronta para falar sobre minhas preocupações para Soojin, mas agora, a única ao meu lado era Yena. A Lee tinha sumido. 

— Cadê a Soo? — perguntei, mais para mim mesma do que para a Choi. Entretanto, ela respondeu: 

— Hum... eu não sei. Será que foi ao banheiro? Ela podia ter avisado, eu também queria ir — dei de ombros, não tinha visto ela sair nem a direção em que tinha ido. — Eu vou procurar lá, você olha por aqui. 

Passei os olhos ao redor, procurando-a no meio dos outros alunos. Yena já tinha sumido da minha vista e eu ainda não tinha encontrado nem sinal de Soojin. Caminhei, desviando de alguns colegas e pedindo licença ao passar. Um pouco distante de mim, o grupo da equipe vermelha se juntava, e eu pensei ter visto o topo da cabeça da minha amiga no meio deles. Franzi a testa sem entender. 

— Mas o que ela tá fazendo al...? 

— Falando sozinha, Kyra? — eu dei um pulo para o lado com o susto. Meu coração bateu tão forte que eu pensei que ia infartar. 

— Aish... que droga, Minho! — reclamei com a mão sobre o peito. — Vai assustar outro! 

Ele ria alto, aparentemente se divertindo muito com aquilo. Continuei o encarando até que ele parou para recuperar o fôlego. Minho riu tanto que eu podia ver lágrimas se formando no canto externo de seus olhos. Suspirei, empurrando meu cabelo para trás com as mãos, na esperança de que a ação fosse diminuir a adrenalina causada pelo susto. 

— Não estava falando sozinha, eu... só tava... 

— Procurando um colega de equipe, certo? — Minho segurou a bolinha azul entre seu dedão e indicador. Eu franzi as sobrancelhas. — É seu dia de sorte, não precisa mais procurar, eu tô bem aqui! 

O que? Olhei para ele confusa, esperando mais alguma frase que pudesse me dar uma explicação, mas o garoto continuou parado, segurando o objeto azul orgulhosamente. 

Desisti de entender o que estava acontecendo e virei o rosto para procurar Soojin novamente. Contudo, dessa vez não foi nada difícil encontrá-la. Assim que bati os olhos na cena, eu entendi tudo. 

Minha amiga, se é que podia chamá-la assim, estava ao lado de Yohan, segurando entre seus dedos uma bolinha vermelha enquanto me olhava com uma expressão de quem sentia muito. Não fiquei com nenhum pouco de pena, afinal, sentir muito é fácil depois de fazer as besteiras. 

Minho percebeu minha irritação e tentou falar algo, mas eu o interrompi, grunhinho entredentes: 

— Aquela cobra peçonhenta traidora... 

[...] 

Nós passamos o resto do dia assistindo a palestras sobre ambientalismo no auditório do acampamento. Por sorte era um lugar fechado e não havia insetos como do lado de fora. Na palestra, não importava se você era do time azul ou vermelho, os alunos podiam se misturar sem grandes problemas. Apesar de Soojin estar conosco, eu resolvi dar um gelo na garota, pelo fato dela ter trocado sua bolinha com Minho. Quem dos dois tinha sugerido a troca, eu não sei, mas isso não importava de qualquer forma. Ainda parecia que eu tinha levado uma facada nas costas apenas porque ela queria ficar perto de Yohan. Pra quem gosta dele há anos e nunca quis assumir os sentimentos, estou admirada com a mudança repentina de atitude. 

Ok, chega de drama. Talvez eu volte a falar com ela mais rápido do que deveria, não consigo ficar brigada com as pessoas que amo. 

No fim do dia, tínhamos tempo livre antes do jantar e da fogueira que, segundo Dahyun, nossa instrutora, é uma tradição que acontece aqui todas as noites, a menos que chova. 

Usei meu tempo livre para tomar banho, Soojin e Yena fizeram o mesmo. Por sorte, havia um banheiro em cada cabana, além dos banheiros de uso comum que estavam espalhados pelo acampamento. 

Eu vesti uma roupa confortável, um conjunto lilás de calça e blusa de moletom e calcei meus tênis. Apesar de ser verão, as últimas noites têm sido frias e se tem uma coisa que eu detesto é sentir frio. 

Antes do jantar, Dahyun passou na cabana para deixar os nossos uniformes de time. Tinham camisetas, bandanas e tinta para quem quisesse pintar o rosto. Eu fui na direção das outras garotas para pegar o meu kit. Haviam dois azuis e quatro vermelhos. Por incrível que pareça, Jihan, Chaeryeong e Hayoung caíram todas juntas no time vermelho. Ou talvez tenham sido ardilosas como Soojin e trocado com algum idiota por aí. 

Não, eu ainda não digeri essa traição. 

E por falar em digerir, o sino soou indicando que o jantar estava pronto. Eu terminei de guardar minhas roupas na mala e saí da cabana, acompanhada de minhas amigas. 

— Azul é muito mais bonito que vermelho, não é, Ky? — Yena agarrou meu braço, saltitando animada enquanto íamos ao refeitório. 

— Não tenho certeza — ri pelo nariz, achando graça em sua animação. — Pensei que queria ser do time do Jisung, vocês andam tão amiguinhos agora. 

— Amigos amigos, competições à parte — num gesto com a mão ela fez uma mecha de cabelo voar para trás. Soojin resmungou pelo cabelo de Yena ter atingido seu rosto. — Mas você acredita que ele teve a petulância de dizer que poderia ganhar de mim em qualquer jogo?! 

— Ah, então é por isso — o espírito vingativo da Choi me fez gargalhar. 

— Vocês sabem que não sou vingativa — respondeu, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. — Mas agora é questão de honra. Eu vou acabar com Han Jisung ou não me chamo Choi Yena! 

— Isso não é um pouco drástico demais? — Soojin cruzou os braços por causa do vento gelado. 

— Drástico nada, vou fazer ele se arrepender de cada palavra que disse — ela deu uma risada maligna e Soojin e eu rimos. Yena pode ser um tanto dramática quando quer. 

Nós chegamos ao refeitório. O grande espaço era revestido por chão e paredes claras e existiam muitas mesas compridas, cada uma delas devia caber pelo menos oito pessoas sentadas, exatamente como um refeitório geralmente é. As ilhas de comida estavam abastecidas e nós mesmos nos servíamos quantas vezes quiséssemos. O cheiro era maravilhoso. 

Avistei Yohan em uma das mesas, gesticulando para sentarmos lá. Junto dele estavam Yeonjun, Soobin e Huening Kai. Fiz uma careta involuntária. Claro que os caras do Taekwondo do Songdong não demorariam para colar em Yohan. Ele vai ser um membro da equipe quando as aulas voltarem. E, muito provavelmente, Yeonjun vai perder o seu posto de melhor atleta do time. 

Depois de pegar a comida, eu dei mais uma olhada para a mesa onde meu amigo estava. Yeonjun e seus fiéis escudeiros não são o melhor tipo de companhia. Estão longe de ser uma companhia decente, na verdade. Mas Yohan também estava lá. 

— Vamos mesmo confraternizar com o inimigo? — Yena perguntou, se referindo à Yohan que era da equipe vermelha. 

— Não sei se você percebeu, Yena... — dei uma pausa antes de continuar. — Mas a gente já tá confraternizando com o inimigo. A gente vive debaixo do mesmo teto do nosso inimigo. E ela é nossa melhor amiga! 

Soojin fingiu ter sido atingida no peito, e Yena abriu a boca levemente, provavelmente se dando conta daquilo só agora. Ela não respondeu mais nada, apenas assentiu com a cabeça e andou na nossa frente, chegando primeiro à mesa de Yohan. Acho que Yena ficou perplexa demais com a informação. 

A Lee e eu a seguimos, parando na frente da mesa e deixando nossas bandejas em cima dela. Cumprimentei de forma geral os outros garotos e dei um high-five na mão de Yohan, que já comia apetitosamente quando cheguei lá. Esperei Soojin se ajeitar no banco para que sobrasse um espaço na ponta para mim, e, quando eu ia me sentar, senti o ar se mover pela passagem de alguém bem perto de mim. Minha atenção foi automaticamente para Minho, que olhou para trás depois de ter passado por mim. Ele jogou a bolinha azul para cima e a pegou novamente, me olhando de um jeito provocativo. 

— Nos vemos amanhã, colega de time. Não se atrase! 

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