20• O Acampamento
— Por que você me odeia? — senti Minho cutucar o meu braço e olhei para o lado, insatisfeita em ter que pausar a música nos fones.
— O que você disse? — perguntei, reparando que seu pequeno dedo indicador ainda estava próximo ao meu braço. Ele levou um tempo até repetir.
— Por que você me odeia tanto?
Minha boca estava entreaberta. A abri e fechei algumas vezes, mas nada saiu dela, apenas silêncio. A pergunta do garoto obviamente me pegou de surpresa, mas não foi isso que me deixou dessa forma. O fato é que eu não tinha uma resposta para isso, porque eu não o odeio.
Pelo menos, não de verdade.
O que me irrita em Minho é que, mesmo tendo motivos suficientes para me manter o mais longe possível dele e odiá-lo com todas as minhas forças, eu simplesmente não consigo. E a culpa disso tudo é dele. Que continua cruzando o meu caminho e atrapalhando a minha vida o tempo todo.
Esse jeito debochado e implicante dele só faz sucesso em filmes. Na vida real, é insuportável. Mas, ainda assim, não acho que seja um motivo para ódio.
— Eu não te odeio, Minho — respondi baixo, virando meu rosto de volta para frente. A poltrona adiante agora parecia uma ótima opção para se olhar.
Como eu imaginava, a minha resposta também surpreendeu o garoto.
— Sério? — sua voz soou confusa. Eu confirmei apenas com um "uhum".
E o silêncio estava de volta. Eu me sentia estranha e com uma certa vontade de vomitar. Não acredito que disse isso para ele.
— Eu vou dormir antes que eu vomite! — cuspi as palavras depressa, colocando meus fones e fechando os olhos com força. Foi o que me restou, já que eu não podia correr para fora do ônibus.
— C-certo — ainda o ouvi gaguejar antes de colocar o volume da música no máximo.
Espiei por uma frestinha dos olhos, Minho cutucava o canto da cutícula com a unha e seu rosto estava virado para a janela. Parecia inquieto.
Talvez ele devesse dormir também.
[...]
A reserva florestal era enorme. Acho que nunca tinha visto nada sequer parecido aqui na Coréia. Todos os alunos estavam parados em frente à uma grande placa retangular que continha o mapa da reserva. Recebemos as instruções do que fazer caso nos perdêssemos e onde era o ponto de encontro de todos. Apertei os olhos para ver melhor. Além das dependências do acampamento, existia um lago dentro da floresta e uma pequena praia que ficava ao final da mata.
Deve ter muito inseto por aqui.
Apesar disso, espero que sejam dias divertidos, sempre é quando estou com Soojin e Yena. E agora, com Yohan em nossa turma, vai ser ainda mais. Com todos os meus melhores amigos juntos, o acampamento com certeza vai ser muito mais legal.
— Garotas vão pela direita com a Srta. Kim Dahyun e garotos venham pela esquerda com o titio Jackson! — o instrutor, que eu imaginava ser o tal "titio" falou alto, indicando que nos separássemos.
Dei tchau para Yohan e caminhei para a direita com a Srta. Kim. Ela era uma moça jovem e bonita, provavelmente não muito mais velha que nós.
— Vocês podem falar comigo informalmente se quiserem — ela disse, passando à nossa frente. — Por aqui, meninas, vou levá-las às cabanas de vocês.
O caminho até as cabanas foi um pouco longo, mas ali era como um acampamento de verdade, desses de filmes americanos. O chão era de terra, apenas parecia que uma máquina havia sido passada ali para que tudo ficasse plano e, em alguns lugares, haviam ladrilhos fofos de pedras que formavam caminhos que levavam às outras instalações do lugar.
As cabanas pareciam exatamente como cabanas deveriam parecer. A instrutora tinha uma lista pronta em seu tablet com as divisões de alunas para cada dormitório, mas permitiu que trocássemos com outras garotas, caso existisse consenso entre ambas as partes. Segundo ela, isso faz parte do treinamento de "saber viver em sociedade e fazer acordos". Eu achei o máximo, já que a probabilidade de conseguir ficar com minhas amigas seria mínima na outra forma de divisão.
Cada cabana tinha três beliches e conseguimos negociar com garotas da turma de Yeonjun para nós três ficarmos no mesmo dormitório. Então, Soojin, Yena e eu seremos colegas de quarto delas. Seria melhor ficar com garotas da nossa turma, claro, mas não é como se fôssemos morrer por isso; elas não parecem ser pessoas ruins.
Recebemos as últimas orientações sobre os horários das refeições e outras coisas desse tipo e entramos com nossas malas no dormitório. Não era luxuoso, mas era confortável o suficiente para passar alguns dias.
— Tá certo... quem aqui gosta de dormir na cama de cima? — Yena perguntou, já erguendo a sua mão o mais alto que conseguia.
Olhei ao redor, ninguém mais tinha acompanhado o gesto da Choi, então eu levantei meu braço com algum receio.
— Mais alguém? — tentei, mas pelo visto ninguém gostava das camas de cima. — Então... jokenpô?
Vi uma expressão preocupada surgir no rosto de Soojin, ela tem pânico de altura, mesmo que a parte de cima da beliche esteja apenas a pouco mais de dois metros do chão.
— Tudo bem, eu fico na de cima — uma das garotas disse, fazendo Soojin respirar aliviada.
— Me lembre de pagar uma refeição pra ela depois — minha amiga sussurrou em meu ouvido, me arrancando uma risada soprada. Bom, aparentemente, as garotas da outra turma são legais, pelo menos a estadia aqui vai ser tranquila.
— Pode deixar — concordei, colocando minhas mãos em seus ombros por trás e a direcionando para frente. — Vem, me ajuda a arrumar minha cama!
— Tá doida?! Eu não subo aí nem ferrando! — ela retrucou, me fazendo rir. Eu subi pelas escadas da beliche, colocando meu travesseiro e uma manta que trouxe de casa porque não consigo dormir sem.
— O que acham da gente se apresentar umas pras outras antes do almoço? — Yena perguntou para as meninas, que ajeitavam as coisas em suas respectivas camas.
— Verdade, acho que seria legal — comentei. Eu não sabia o nome delas, já que não tinha muitos amigos fora da nossa turma. Tá, nem mesmo na nossa turma.
— Bom... e-eu me chamo Jihan — a garota que salvou Soojin de dormir na cama de cima começou. Ela parecia um pouco nervosa, mas continuou: — E essas são Chaeryeong e Hayoung. — apontou para cada uma delas.
— Muito prazer — Soojin sorriu amigavelmente. — Eu so-
— Soojin, a gente sabe — Hayoung interrompeu, mas não de um jeito grosseiro. Era como se ela estivesse muito animada em conversar conosco. — Soojin, Kyra e Yena, as garotas SKY!
Sério, eu não sei porquê tantas pessoas conhecem esse apelido idiota e nem como tantos alunos nos conhecem. As pessoas consideram o nosso grupo popular, mas isso está muito longe de ser a realidade. Na verdade, estamos muito mais perto de nerds sem vida social do que de populares.
— Só pra registrar, não foi a gente que criou esse apelido — eu ri soprado, apenas informando por desencargo de consciência.
— E nem sabemos quem foi — Yena continuou, fazendo Hayoung corar, talvez envergonhada por ter citado o apelido.
— Mas tá tudo bem! A gente não se importa mesmo que nos chamem assim — Soo gesticulou rapidamente com as mãos, tentando desfazer o mal entendido.
— Ah... c-certo — Chaeryeong assentiu no lugar da amiga, parecendo um pouco desconfortável.
Meu Deus. Nós assustamos as garotas.
Os instantes seguintes foram vergonhosos. Nós três tentávamos nos explicar para as meninas, mas quanto mais falávamos, mais parecia pior. Foi quando o sino tocou indicando que era hora do almoço. Me senti aliviada por isso.
Salvas pelo gongo.
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