04• Confusão no Jantar
Alguns dias se passaram e as coisas estavam indo bem na escola e fora dela. Eu arrumei um emprego de meio período numa loja de mangás, logo minha irmãzinha vai nascer e eu sei o quanto isso tem dado gastos a mais para os meus pais. Não quero incomodá-los pedindo dinheiro para coisas bobas - e muitas vezes inúteis - que eu adoro comprar.
Eu tive que ser bastante persuasiva para convencer minha mãe a me deixar trabalhar lá. Ela se preocupa com minha educação e com minhas notas, que são um requisito fundamental para que eu continue tendo a minha bolsa de estudos no Songdong garantida, mas eu prometi a ela que isso não vai me atrapalhar.
Agora os meus dias estão muito mais cheios do que antes, mas eu não me sinto tão cansada quanto pensei que ficaria. Gosto de ocupar a minha mente, e ficar ao redor de todos aqueles livros me deixa feliz, mesmo que eu tenha que organizá-los quando na verdade eu queria estar lendo-os.
— Ky, pode pegar aquela travessa grande de porcelana pra mim? — minha mãe falou, colocando a pequena escada na frente do armário da cozinha.
Eu a olhei da sala, concordando e indo até lá prontamente. Subi os três degraus da escadinha e abri a porta do armário branco, procurando pela travessa que ela havia me pedido.
— Ocasião especial? — encontrei o objeto e o tirei com cuidado para não bater em lugar nenhum. — Nunca usamos essa travessa.
— Aquele amigo do seu pai vai vir jantar aqui hoje com a famí—
— O quê?! — tossi engasgada, me segurando em uma divisória do móvel para retomar o equilíbrio em cima da escada. Minha mãe se assustou com minha quase queda, me ajudando a descer os degraus em seguida.
Por muito pouco eu não ganhei um osso quebrado. E, se isso tivesse acontecido, a culpa seria dele.
Já não me bastava ter que aturar Minho em nosso grupo por falta de opções, eu ainda teria que suportar a cara dele dentro da minha própria casa. Isso só pode ser um castigo.
— Você não sabia? Pensei que seu pai tinha te falado sobre o jantar.
— Se eu soubesse disso já estaria bem longe daqui a essa hora — resmungo para mim mesma, fazendo minha mãe me perguntar se eu disse algo. Apenas nego e subo para o meu quarto.
— Eles chegam às 19h, esteja pronta, ok?! — reviro os olhos emburrada, ignorando o aviso de minha mãe.
Vou batendo os pés fortemente no chão até chegar em meu quarto e fechar a porta. Não acredito que Lee Minho está vindo para a minha casa. Mando uma mensagem no grupo com minhas amigas contando o absurdo da vez e recebo respostas quase que instantaneamente. Yena era a favor que eu pregasse uma peça em Minho, algo que o fizesse nunca mais sequer pensar em aparecer em minha frente. Já a abordagem de Soojin era bem menos agressiva, ela sugeriu que eu tivesse uma "conversa sincera" com o garoto para resolvermos as nossas diferenças, o que não me despertou interesse nenhum.
Bloqueei o celular e peguei minha toalha, indo tomar banho contrariada. O que eu devia fazer era aparecer fedendo nesse jantar como forma de protesto.
Eu me sentia traída pelos meus próprios pais. Enquanto eu vestia minha roupa, tudo que eu podia sentir era uma vontade enorme de fugir dali. Podia ser pra bem longe ou há poucos metros de distância daqui. Atravessar de meu quarto para o quarto de Yohan pela grande árvore que os conecta parecia uma ótima opção agora, mesmo que não fizéssemos mais isso desde os 10 anos de idade.
Olhei as horas no pequeno relógio digital em cima de minha escrivaninha. Droga. Sete da noite. Eu terminava de colocar a minha boina quando escutei a campainha tocar; eles são mesmo bem pontuais. Corri escadas abaixo para receber os convidados na porta, sabia que se não fizesse isso minha mãe me daria uma bronca depois, ela se preocupa muito com bons modos e gentilezas.
Meu pai abriu a porta e tudo que eu podia ver era um vaso enorme de flores coloridas que escondiam a família por detrás delas. O Senhor Lee, que nem era tão senhor assim, abraçou meu pai assim que o viu, falando todos aqueles clichês que ouvimos quando ficamos muito tempo sem ver alguém. Os Lee pareciam simpáticos, muito mais do que imaginei que seriam. Quando as flores saíram de cena, sendo entregues à minha mãe, meus olhos bateram nele. Eu não queria, mas acabei reparando no modo como ele estava vestido, sequer parecia a mesma pessoa da escola. Quer dizer, estou acostumada a vê-lo no uniforme do colégio, não com um suéter de cor pastel e uma jaqueta por cima.
Cumprimentei Minho com um "oi" e me virei em seguida para os seus pais, sem esperar que o garoto me cumprimentasse de volta. Depois de alguns minutos bem esquisitos na sala de estar, onde nossos pais tomavam whisky enquanto conversavam sobre trabalho, filhos e dinheiro, fomos todos para a mesa. No caminho até lá, recebi um elogio da Sra. Lee, que disse que meus olhos são tão lindos quanto eu. Abaixei a cabeça envergonhada, mas não consegui conter um pequeno sorriso que se formou em meus lábios. Meus olhos sempre foram motivo de críticas; parece que as pessoas aqui não gostam muito de coreanas de olhos claros. É como se fosse um pecado misturar a raça deles com as outras. Babaquice, na minha opinião. Eu nasci aqui, então sou tão coreana quanto todos eles.
Agradeci a mulher e me sentei à esquerda de meu pai na mesa. Minha mãe estava à direita dele, de frente para mim e, na minha diagonal, estava meu colega de classe. Apenas levantar o meu rosto já me faria enxergá-lo, mesmo que eu tentasse evitar. Só tinha uma palavra que poderia definir esse momento: bizarro. Minho tinha uma expressão indecifrável, mas a sua curiosidade idiota o fazia olhar para mim de vez em quando, o que era extremamente desconfortável.
— Kyra, ouvimos que você é a melhor aluna do Colégio, deve ter muitos planos para a faculdade, certo? — o Lee mais velho perguntou, me fazendo entrar em choque.
— Hm... na verdade eu não tenho muitos planos ainda — olhei para os meus pais tentando buscar algum apoio. — Sou só uma boa aluna mesmo, nada de extraordinário.
— Nós preferimos não pressionar muito a Kyra sobre isso, na hora certa ela vai decidir o que fazer — obrigada, mãe.
— Eu vejo que Kyra é uma garota muito responsável — o homem continuou. — Além de não ter boas notas, Minho não se precupa com nada que não seja passar o dia trancafiado em seu quarto no computador.
Eu não tinha tocado na comida até então, mas aquele comentário abriu o meu apetite absurdamente. De alguma forma, saber que Minho não é um bom aluno me faz achar graça, e era ainda mais engraçado ver que ele se retorcia por dentro ouvindo o pai contar seus podres para todos ali.
— Eu vou melhorar na escola agora que faço grupo com a Kyra — ergui as sobrancelhas surpresa. Ele nunca abre a boca, mas toda vez que o faz é só para tornar as coisas difíceis para mim. — Ela disse que vai me ajudar, não é?
— Não disse não! — eu bati na mesa com o punho fechado e todos os adultos olharam para mim. Pigarreei recolhendo minha mão constrangida. — É... eu disse que ele pode me perguntar se tiver dúvida de algo.
Minho sorriu convencido e eu mordi os lábios com raiva. Apenas olhar para o seu rosto presunçoso me deixava irritada. E nem é como se ele tivesse feito algo muito ruim para mim, é só que a presença dele me dá enjoo.
— Ky, pode me ajudar a pegar a sobremesa?
— Claro, mãe — levantei da cadeira ajeitando minha saia xadrez.
Comecei tirando os pratos de todos para abrir espaço para a sobremesa. Passei por meu pai, pelo lugar agora vazio de minha mãe e pelos Sr. e Sra. Lee até chegar no garoto que passou a mão nos cabelos, os colocando para trás assim que cheguei perto dele. E eu não faço ideia se o cheiro doce de baunilha vinha dele ou da sobremesa que minha mãe trazia nas mãos, só sabia que adoraria senti-lo por mais tempo. Eu respirei fundo mais uma vez, sentindo o máximo daquele aroma quando Minho virou-se para trás, olhando diretamente para mim:
— Não vai tirar o meu prato?
Eu explodi de ódio por dentro. Se isso fosse um desenho animado meus olhos com certeza estariam em chamas agora. Puxei o prato agressivamente, derramando algum resto de comida em seu colo. Ele me fuzilou com o olhar.
— Ops! Sorry — sorri sarcástica o vendo tentar se limpar.
Virei-me de costas e fui até a cozinha, carregando os pratos nas mãos e os colocando em cima da pia. Me assustei com o barulho estrondoso vindo da sala de jantar e corri até lá.
— O que aconte...?
Metade das louças estava no chão e minha mãe segurava fortemente a ponta da toalha de mesa, se contorcendo de dor enquanto meu pai perguntava loucamente o que ela estava sentindo. Olhei para o chão; encharcado. A bolsa dela estourou. O desespero começou a tomar conta de mim e eu corri pra perto de minha mãe, pedindo que ela respirasse fundo enquanto segurava a sua mão. Os pais de Minho estavam de pé, tão assustados quanto eu, decidindo sobre ligar ou não para uma ambulância, quando minha mãe finalmente conseguiu falar:
— Querido, me leve para o hospital! A Kyujin vai nascer!
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