10| Emoções

Ela iria contar?

Sua cara não era das melhores, seus olhos estavam inchados e sua respiração descompassada.

A mais velha se sentou na cama de frente para mim, o que me fez sentar-me para encará-la também.

Suas pupilas não estavam focadas em mim, parecia vagar por outro lugar bem mais distante que essa conversa pudesse ser.
A mulher colocou sua mão ao peito como que para segurar o coração que talvez quisesse sair pela boca.

— Você está se sentindo bem, Meg? — fiz questão de perguntar quando o silêncio reverberou.

Ela olhou para mim, ainda muito distante, parecendo se lembrar do que havia ido fazer ali.

— Estou. Claro. — ela abriu um sorriso que mal chegava aos olhos. — Talvez você quem não esteja.

— Eu? — perguntei confusa com o seu comentário repentino. — O que tem de errado comigo?

Medo me afligiu. Se o problema era eu, talvez fossem me mandar embora, talvez os demônios internos dos Davies fossem maiores que a vontade de me ter ali.

— Querida… nós… — A morena tentava a todo custo achar as palavras certas. — Nós vimos o vídeo.

— Ah.

Ah… então era isso. Eles ainda não estavam prontos para me contar o que aconteceu naquele jantar estranho com os Hamiltons.

— E achamos melhor que eu tivesse essa conversa com você. — a morena continuava. — De mulher para mulher.

— Eu não ligo para aquele vídeo. — Menti. — É só um vídeo bobo.

— Mily…— parece que sua cota de palavras acabou. — Eu nunca fui boa para conversar.

Eu não disse nada, mas queria ter dito a ela que não estava sendo ruim, que ela não precisava ter medo de dizer, que eu não estava desconfortável.

Queria abraçá-la e agradecer por ser melhor que a minha mãe um dia se quer tentou ser.

Mas não o fiz.

— Você pode nos contar se teve problemas na escola nova, é normal, eu acho.

— Não tive. — afirmei. — Meus amigos têm sido incríveis, Meg.

— Isso é bom querida, de verdade. — mais uma vez ela abriu um sorriso sem graça. — Mas, nós achamos melhor que…

— Vão me mandar embora?

— Não querida! — ela exclamou depressa. — Achamos melhor que você fizesse um acompanhamento psicológico.

A mulher deve ter reparado em minha cara de espanto, pois a mesma se mostrou mais nervosa. Um psicólogo? Eu nunca havia ido em um.

— Calma, Mily — a mulher pegou em minhas mãos. — Jonathan nos mostrou que pode ser importante para você.

— O quê? O Hamilton? — perguntei novamente, surpresa. — Bom, diga para ele que eu não preciso disso.

— Querida…

— Eu não preciso! — Disse soando ríspida demais.

Os olhos da mulher se arregalaram com a nítida surpresa pela minha reação.

— Desculpe, mas quem ele acha que é para dizer do que eu preciso ou não?

— É complicado, Milly...

— Não é! É nítido o que ele está fazendo, foi ele quem postou o vídeo, Meg!

— O quê? O Jonathan? — Sua voz não beirava surpresa e sim incredulidade.

Ela não iria acreditar, então penas concordei com a cabeça.

— Porque você acha isso?

Merda! Eu não poderia dizer que invadi o quarto dele, mexi em suas coisas e acabei achando o vídeo por lá.

— Por qual outro motivo ele iria querer vir mostrar a vocês? — eu menti. — Está claro que ele quer me atormentar.

— Eu não acho que seja isso, meu bem... — Megan começou. — Ele só está preocupado com você.

— É porquê? Eu mal o conheço!

— Como eu disse, é complicado.

— Eu não quero fazer terapia.

— Milly, nós sabemos que pode ser difícil para você lidar com vídeos seus.

— O quê? — perguntei ainda soando ríspida.

— Nós também vimos outro vídeo...

Merda. Merda. Merda.

Não pode ser, por favor.

Senti que as mãos calorosas da mulher apertaram mais as minhas.
Com a lembrança que rondou minha mente senti meus olhos se encherem como uma cachoeira, mas, não me permiti chorar.

— Está tudo bem, querida... — Meg disse, mas sua voz estava distante demais.

Eu sabia qual vídeo era, passei anos assombrada com ele, fui ameaçada por Rogério durante anos.
Lembro-me da noite que ele havia gravado tudo, e também me lembro da noite em que apanhei do meu pai por causa do vídeo.

— Milenna... Querida — Megan chamava enquanto o calor das suas mãos tentava apagar o fogo que crepitava dentro da minha cabeça. — Não foi sua culpa...

— Quem lhe mostrou o vídeo? — perguntei, agora era eu quem estava distante. — Foi ele, não foi?

A mais velha apenas concordou com a cabeça, afirmando o que já estava óbvio. Jonathan Hamilton era mesmo um idiota completo.

— Meg, não é o que você está pensando...

— E o que você acha que eu estou pensando? — a sua voz ainda era doce quando meu coração doía como se estivesse enrolado nos próprios espinhos.

— Eu não queria que... Bem... — havia tanto a ser dito e tanto a ser ouvido, mas tudo o que saía de mim eram palavras sem sentido algum.

Eu queria provar à mulher na minha frente que eu não tive culpa, queria dizer para ela que não consegui reagir no vídeo porque estava drogada, não conseguia dizer a verdade quando ela já estava distorcida muitas vezes na minha cabeça.

De tanto escutar que a culpa era minha, me senti culpada, porque uma mentira dita 100 vezes se torna verdade.

— Querida, respire... — Megan respirou fundo indicando que eu a acompanhasse. — Não estamos te julgando.

— Eu... Não consigo falar sobre isso. — disse a verdade.

— Tudo bem, por isso achamos que a terapia pode ajudar.

Não consegui dizer mais nada, apenas escutar pensando que eu tinha mais um motivo para odiar Jonathan Hamilton com todos os meus espinhos.

— Não precisa nos dizer nada, não estamos curiosos. — a morena me tranquilizou. — Só estamos preocupados, e se tranquilizar-te, sabemos que não foi consensual.

Eles acreditavam em mim... Eles sabiam... Sabiam que eu não queria, que eu era uma criança...

— Eu nunca fiz terapia. — Confessei como um segredo.

— Não é ruim, vai te ajudar a consertar as coisas aqui dentro. — Ela colocou a mão indicando o centro da minha cabeça.

— Tudo bem... — Sussurrei.

— As quartas, está bom para você?— concordei com a cabeça. — Suponho que queira uma profissional mulher.

Afirmei com a cabeça novamente.

— Milly... — a mulher disse apreensiva novamente. — Sua mãe sabia?

— Não. — menti e a mulher concordou com a cabeça.

— Você sabe que não está sozinha, não sabe? — Afirmei novamente apenas com a cabeça.

— Obrigada. — Agradeci por fim.

— Não tem o que agradecer, querida. — A mulher se levantou. — Nós vamos fazer o que for possível enquanto você estiver aqui.

Ali algo doeu em mim, como eu disse, eu não sei lidar com o amor e muito menos sei ser amada, não sei se o que doeu foi algo se quebrando ou algo se restituindo, mas já ouvi dizer que a cura para nossas dores dói e aquilo nunca fez tanto sentido.

— Meg. — Chamei-a antes que ela saísse pela porta afora. — Uma amiga me chamou para ir à casa dela.

— Está me perguntando se pode ir? — sua cabeça se curvou em uma falsa dúvida. — Porque eu deixo.

— E tem também uma festa que a líder das Cheerleaders vai fazer de volta às aulas...

— Você pode ir também, vou avisar George para te levar.

— Não tem problema?

— Vai chegar antes das 1 am?

— Vou. — foi uma promessa.

— Vai beber ou usar algo ilícito?

— De forma alguma!

— Confio em você então.

— Talvez meus amigos me busque aqui.

— Nada disso, George vai levá-la. — Ela disse autoritária, eu apenas concordei sem entender o porquê.

Megan então saiu do quarto ainda me deixando pensativa, a terapia seria bom ou ruim? Eu nunca saberia se não tentasse.

Mas não era isso que estava ocupando meu pensamento.

Como ele sabia do vídeo? Ou melhor, como ele teve a coragem de vir até aqui falar de um vídeo que ele mesmo publicou.

Peguei meu celular ainda pensando no maldito, eu tinha que achar a conta que postou o vídeo.

Abri meu Instagram procurando pelo seu nome na barra de pesquisas e achando o seu perfil que por um acaso não tinha mais que duas fotos.

Muitos seguidores…

Cliquei em uma das fotos, vendo ser a mesma que tinha no fundo do seu computador. Ele ao lado de um cara da mesma idade.

Talvez um namorado? Fazia sentido pelo que Sarah me disse. Todas as meninas caiam aos pés dele e ainda sim, ele estava solteiro.

Havia uma marcação na mesma foto, cliquei abrindo a tela de perfil inválido.

Estranho… qual será seu segredo Jonathan…

Desci para a publicação abaixo que era ele sem camisa em frente a um espelho e como segunda foto era a moto dele frente a garagem.

Aleatório, mas bem, belo físico eu diria.

Entrei nas contas que ele seguia por fim tentando achar a conta do vídeo e sem demorar muito acabei não achando. Droga!
Claro que ele não seria tão burro.

Pensa Milenna. Pense.

— Estou te dizendo! Ele foi até eles e mostrou o vídeo. — disse eufórica para Sarah — Isso não vai acabar em um romance, Sah.

— É assim que as coisas funcionam, você acha que não quando, na verdade, já se perdeu.

— Olha só, eu não vou com a cara dele e eu sinto que ele esconde alguma coisa. — confessei. — Na verdade, parece que todos eles escondem… é estranho não ter ideia do que seja.

Eu havia chegado mais cedo na casa da Sarah, e os pais dela me receberam de bom grado. Fahir e Aisha, os pais de Sarah sorriram assim que me viram.
A senhora Çelik era muito parecida com Sarah, já seu pai tinha poucos traços que lembravam os da menina.
Assim que cheguei, Sah meu convidou para subir até seu quarto e colocar os assuntos em dia, já que desde o incidente na casa de Dayse não temos nos falado muito.

— Ele não deve ter feito por mal.

— Não defenda ele!

— Não estou! — a garota levou suas mãos como se rendesse.

— Mudando de assunto, não sei o que fazer de serviço voluntário. — dei fim na mini discussão.

— Não existe isso no Brasil?

— Acho que existe, nunca fiz.

— Bom, você pode ajudar na horta, servir sopa no inverno, ajudar na manutenção da praça ou ajudar no asilo. — A menina listou nos dedos.

— Meg disse que o asilo é o melhor.

— Ela não mentiu. — a garota disse se sentando na penteadeira. — Meus pais fazem doações anuais para lá, mas geralmente faltam cuidadoras.

— E os idosos são gentis? — disse me lembrando da minha vovó.

— Na maioria das vezes sim. — Ela disse levando as mãos ao hijab. — Alguns não gostam muito de simpatia.

— O que você está fazendo?! — perguntei tampando meus olhos quando a menina fez menção de tirar o véu.

— Vou me limpar para o Salat. — Ela disse calmamente. — Não se preocupe, pessoas a quem eu não tenho chance de casar podem me ver sem o véu.

— Como assim? — eu disse tirando a mão dos olhos apreensiva. Odiaria soar desrespeitoso.

— Bom, homens e mulheres que são da família e têm laços de parentesco comigo, podem me ver sem véu. — Sarah passava a escova pelos cabelos pretos sedosos. — Basicamente homens que eu não tenho parentesco têm chances de se casar comigo e consequentemente não podem me ver sem o véu.

— Então, eu posso te ver sem o véu? — esperei a confirmação ainda sem acreditar.

— Sim, outras mulheres a quem eu confie podem sim. — Tranquilidade soava na sua voz. — Por mais que eu ache justo outras mulheres se casarem com o mesmo sexo caso sinta atração.

— Exato, e nesse caso, por exemplo?

— Bom, não sei, não sinto atração por mulheres.

— Isso é muito interessante, mas, o que você disse que iria fazer mesmo?

— Me limpar para o Salat. — Ela disse como se eu soubesse o que é Salat.

— Salat seria…?

— A oração do meio-dia, resumindo.

— Entendi. — disse por fim. — E eu devo fazer também?

— Não se preocupe com isso, apenas lave as mãos e o rosto três vezes no banheiro do corredor antes de descer. — ela disse indicando a porta. — O almoço deve estar pronto.

Sai do quarto para dar privacidade à menina. Era diferente estar perto de pessoas religiosas já que eu nunca fui direcionada a nenhuma religião.

Quando cheguei ao banheiro tranquei a porta e comecei a fazer o que Sarah havia pedido como sinal de respeito.
Alyssa já havia me dito que os mulçumanos se limpam antes das refeições e eu não pude deixar de achar aquilo legal.

Quando desci para almoçar estavam os três postos à mesa esperando.

— Você se lavou, Milenna? — Aisha me perguntou tentando soar gentil.

— Sim, senhora.

— Junte se a nós para a refeição. — Seu marido me convidou.

Sarah já estava com o véu, assim como sua mãe.

Me sentei ao seu lado na mesa.

— Obrigada pela comida senhora Çelik.

— Não agradeça a mim, agradeça a Deus, Milenna.

— Obrigada a Deus pela comida. — disse soando respeitosa e vi Sarah sorrir levemente.

E então eles começaram a comer após dizerem algo em outro idioma.
Reparei comerem com calma e com a mão direita, eu perguntaria isso a Sah mais tarde.

Não poderia mentir estar curiosa sobre ela e seus pais.

— Vocês vão em uma festa? — foi sua mãe quem perguntou, terminando sua refeição.

— Sim. — Eu e Sarah respondemos em uníssonos.

— E vai ter bebidas?

— Acho que sim. — respondi ao seu pai.

— Ela é uma boa pessoa, sinto que Sarah pode confiar nela. — ele disse para sua esposa.

— É a primeira festa que Sarah vai, se compromete a cuidar dela?

— Prometo que tentarei. — respondi para Aisha dessa vez.

— De onde você é? — O patriarca perguntou.

— Sou do Brasil.

— Interessante… Deve ter percebido que somos um pouco diferentes. — Fahir começou. — Então se atente em não levar Sarah a quebrar nossos dogmas.

— Tchau, senhor e senhora Çelik! — gritei acenando do Volvo de George.

— E então, como foi? — O moreno me perguntou.

— Acho que eles gostaram de mim.

Nenhum de nós dois dissemos mais nada enquanto ele ligava o carro e começava a dirigir para a mesma direção que cheguei aqui.
Pergunto-me se ele falaria algo sobre o vídeo.

— E você gostou deles?

— Sim... — Sentia que devia dizer algo a mais, parecia melhor que o silêncio desconfortável. — Parecem frios e indiferentes, mas dá para ver que amam sua filha.

— Parecem realmente pessoas legais. — disse manobrando o carro. — É bom que esteja fazendo amigos.

— É…

Não precisei dizer nada para o mais velho notar minha apreensão em relação aos vídeos.

— Não vou dizer nada sobre isso, fique tranquila.

— Bom, obrigada! — eu sorri aliviada e o mais velho me acompanhou, sorrindo.

— Meg me contou que vai em uma festa.

— Bem, sim. — confirmei.

— Não me leve a mal, mas eu disse a ela que seria ruim se eu tivesse que te levar e buscar toda vez. — ele olhou de relance para mim. — Sei como vocês adolescentes são, querem ser descolados.

— Onde quer chegar? — notei o sorriso cúmplice que se abriu em seu rosto.

— Depende da onde você quer ir. — ele disse aleatoriamente parecendo distante e eu não entendi muito bem. — Certo, voltando, um volvo e um pai na sua cola não ajuda muito a ter essa imagem.

— Eu não me importo que você me leve.

— Eu também não me importo de te levar. — o homem sorriu de forma divertida. — Mas talvez você prefira outra coisa…

— Outra coisa…?

— Você vai ver quando chegarmos. — disse ele desviando da rota para casa.

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Notas da autora:

AAAAAAAAAAAAAA
Me perdoem pela demora e o sumiço!
O que aconteceu foi que eu tive o maior bloqueio criativo essa semana.
Não consegui produzir nada além desse capítulo meio xoxo.
Mil desculpas aos meus leitores.
Está aí um capítulo pequeno e que não gostei muito.
Mesmo assim, por favor não deixem de comentar e votar! É importante para mim.
Boa leitura meus gatitos ❤️

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