05| Pessoas que se importam
A sequência repetitiva do despertador era incessante e ecoava por todo o canto escuro do quarto, rastejando pela aflição, fazendo do medo palpável a sua própria felicidade.
Desesperadamente procurei saída, eu conhecia aquele barulho como a palma de minha mão, o medo daquilo me acompanharia em todas as manhãs, das mais tranquilas às mais difíceis, assombrando a sombra das minhas memórias que toda vez em que eu abrir os olhos não estarão aqui.
Olhei por todo canto e não havia nada, nunca mais haveria nada além das lembranças dolorosas de um dia que sempre desejei esquecer.
No relógio, marcavam precisamente sete horas da manhã. Mais uma noite que me deixou cansada.
Mesmo que atordoada, levantei sentindo aquele cheiro bom de chocolate e baunilha vindo do andar de baixo, relutando com a fome fui ao banheiro com objetivo de fazer minhas higienes matinais, não seria nada agradável tomar café da manhã da forma que eu havia acordado, pois, meu rosto no espelho não era dos melhores. A feição fechada e as bochechas inchadas do sono não me deixavam nem um pouco jeitosa.
Com um pouco mais de consciência, lavei meu rosto na água fria, limpando-me de todas as merdas quebradas que eu queria esconder, depois escovei meus dentes e ajeitei o cabelo sem prendê-lo, apenas para ser apresentável. Não que essa fosse a coisa mais importante, mas sempre senti que lidar com coisas fúteis distraem as coisas dolorosas.
Então pensando na minha aparência, escolhi uma roupa que julguei ser boa para um primeiro dia, uma que causaria uma impressão apática na maioria das pessoas.
Após me vestir, voltei ao espelho do banheiro para conferir me preocupando em o que sentiriam ao olhar para mim.
— Você consegue, mi. Você é foda, você é especial, você pode fazer isso, garota — Sabia que aquelas palavras eram mentiras, mas, no fundo algo em mim decidia acreditar serem verdades. — É só o primeiro dia.
Palpitações no peito podiam não ser infarto, e primeiros dias podiam não ser sempre ruins. Acreditar nisso não era difícil, apenas complicado...
Terminei de me arrumar passando nada mais que um perfume e depois me retirei do quarto, seguindo aquele cheiro doce incrível que meu paladar aprovava fielmente.
— Bom dia, querida. Você acordou bem a tempo!
A voz doce da Meg preencheu meus ouvidos quando eu passei pela cozinha.
— Bom dia, Meg. Pois é, acabei ficando ansiosa pra comer dos seus brownies.
— Hora, sente-se então, menina. Estavam esfriando a sua espera. — foi ela dizer e os brownies preencheram minha visão.
Procurei por seu marido pela cozinha, e ele não estava por lá. Pais de família tomavam café da manhã com suas esposas e filhos por aqui?
— George ainda está dormindo?
— Ah não, ele saiu a pouco tempo. Meu marido gosta de caminhar pela manhã com o Half. — Abriu a geladeira de duas portas — Aquele cachorro tem tanta energia.
— Ele é um bom cachorro.
Peguei um dos brownies e levei à boca, experimentando.
O açúcar saciava meu desejo desesperado de me acalmar, e aquele pedaço de brownie estava tão delicioso quanto a sensação de pertencer a algum lugar em que enfim, se importavam o suficiente para acordar cedo e fazer um café.
— Leite ou suco? — ela levantou as duas opções, uma em cada mão.
Observei a morena um pouco mais, ela parecia melhor do que ontem, mais animada. Seus olhos azuis sorriam para mim com mais afeto e ela quase parecia uma mãe de verdade, oferecendo café da manhã aos seus filhos.
Em menos de um dia eu já experimentei mais do que poderia imaginar, mais do que qualquer um já tenha feito por mim.
— Suco. Por favor.
A mulher me serviu com suco de laranja natural e depois escorou no balcão olhando-me sentada na banqueta.
Parei de comer e olhei para ela, sugerindo que explicasse o motivo da atenção repentina.
— Você me lembra alguém especial… — foi tão baixo que quase não pude ouvir suas palavras, quase como se elas tivessem saído sem sua permissão — Está gostoso, meu bem?
— Está uma delícia. — mordi mais um pedaço, temendo que toda aquela sensação fosse só um delírio — Céus, você é tão boa na cozinha.
— Cuidado Milly, ela pode ficar muito convencida com esses pequenos comentários. — A voz animada de George preencheu a cozinha junto da respiração ofegante de Half, por um momento eu pude ver animação genuína nos olhos da mulher.
— Ah por favor, seu velho estupido. Vista já uma camisa, veja se são modos, Milly!
Me virei para olhar o mais velho junto do cachorro e o peguei fazendo um careta para Meg com sua blusa em mãos. Seus cabelos escorriam tanto suor que até faziam uma trilha pelo seu abdômen relativamente comum.
O moreno chegou perto da esposa e a agraciou com um abraço que a mesma repudiou com os olhos.
— George! Ai meu Deus. Vá tomar um banho seu nojento!
A gargalhada do homem pode ser ouvida por toda a escada quando ele subiu.
— Por favor, não se importe com essas gracinhas. Ele faz isso o tempo todo. — Pude jurar que vi suas bochechas corarem com suas próprias palavras em um sorriso involuntário — É o jeito dele de falar que te ama.
— Jamais me importaria com isso. — Abri um sorriso que confirmava tal coisa. Eu não sabia se essas coisas eram normais, comer de manhã e rir para pessoa que ama... receber abraços...
— É a mágica dos homens engraçadinhos, eles te fazem rir até esquecer que você tem problemas. — o sorriso dela não subiu aos olhos.
— De verdade Meg, seus brownies são os melhores! — Comi mais um para fugir de ter que comentar algo, temendo estragar o clima bom daquela manhã.
— Fico feliz que tenha gostado, eu costumava fazê-los bastante.
— E porque parou?
A resposta não veio porque o barulho do ônibus soou interrompendo a conversa. Pelo que eu havia percebido, a casa dos Davies ficavam na esquina em que o ônibus pegava os estudantes do bairro. E pelo jeito, não se atrasa como no Brasil, nada aqui se parece com lá.
Olhei para a mulher na minha frente que não aparentava dar continuidade no assunto e me despedi dela com um aceno e a mesma me desejou um bom primeiro dia, pensei se George se importaria de que eu saísse sem me despedir, mas acabei por decidir não me atrasar e fui até a porta da casa, quando saí, estava lá o típico ônibus amarelo dos filmes americanos. Era idêntico, da forma que eu havia imaginado esse tempo todo.
Meu medo era entrar naquele ônibus e ser encarada por um corredor de jovens valentões. Um roteiro clichê que alimentava minha ansiedade.
Subi as escadas do veículo atrás de uma garota bem mais nova do que eu. Com as minhas mãos trêmulas eu olhei de volta para a casa, onde era seguro, e pensei muito em sair correndo dali. Mas não o fiz, pois eu teria de encarar aquilo uma hora ou outra, a escola poderia ser difícil, mas eu teria que me arriscar.
Dentro do ônibus havia três assentos vazios e um deles estava do lado de um garoto loiro sentado inerte ao seu redor.
Eu fiquei indecisa entre os lugares vagos e o garoto sozinho, queria sentar no banco com dois lugares vagos, queria mesmo, mas optei por sentar com o garoto, ele estava ali sozinho quase que invisível, se escondendo da maioria como uma sombra, e talvez ele não tenha optado por estar sozinho, talvez ninguém quisesse sentar com ele.
O garoto me olhou, não falou nada e eu também não falaria, esperaria o tempo que fosse, mas não começaria estragando tudo como sempre faço.
Olhou-me de novo, quase como se eu fosse uma louca, não me intimidei, olhando-o também.
— Você é nova. — Ele afirmou para si mesmo depois de literalmente cinco minutos estranhando minha aproximação.
— Você também é novo.
— Não sou não. — Confusão estampada em suas feições.
— Eu não conheço você, então você é novo.
— Você é estranha. — O garoto disse franzindo a testa.
— Sim, eu sou.
O loiro abriu um sorriso de lado como se debochasse da minha cara. Ele tinha um sotaque diferente, uma voz que se estendia ao agudo. Não podia deixar de lado o fato de que ele era extremamente lindo, seus olhos azuis da cor do mar se misturavam em um lindo contraste com seus cabelos dourados como os pelos de Half. Seu rosto fino fazia-o parecer mais novo. Será que ele é de alguma turma minha?
— Em qual ano você estuda? — foi ele quem perguntou compartilhando da mesma curiosidade que eu.
— Último ano.
— Não vai me perguntar de volta? — Caramba, eu devia ter ensaiado isso no espelho.
— Ahn... e você? — Perguntei por fim.
— Segundo ano.
A grade do Canadá funcionava diferente da do Brasil. Aqui o ensino médio é chamado nono, décimo, décimo primeiro e décimo segundo, o que no Brasil seriam o primeiro, segundo e terceiro ano. Algumas pessoas daqui chamam o último ano de segundo e o penúltimo de primeiro do ensino médio. O que significava sermos da mesma série, mas provavelmente não teríamos os mesmos horários.
— Você tem um sotaque tão estranho. — ele analisou atrevidamente. O que ele queria dizer com estranho?! Tudo bem que meu inglês não é tão bom, mas ele também falava estranho.
— Deve ser porque estou te copiando. — sorri sínica para o garoto.
Seus olhos estreitaram-se quando ele me deu mais uma olhada e se virou para janela.
— Sou intercambista. — falei temendo que o menino me odiasse logo no primeiro dia.
Eu devia mesmo ter me sentado em outro lugar, sou péssima em socializar e no fim sempre acabo sendo grossa demais.
— Problema seu. — ele nem se deu o trabalho de me olhar. Mexeu em um aparelho auditivo, que só notei agora, e fingiu que eu nem estava ali.
Tudo bem. Foi só um péssimo jeito de agir, não quer dizer que tudo vá dar errado, Mi.
Após minha fracassada tentativa eu tentei me distrair a todo custo, não que tivesse muito a ver em um ônibus escolar, mas me senti tão estranha naquele lugar. Foi como me assistir de fora e ver o quão patética eu me parecia diante de todos aqueles adolescentes descolados e tranquilos com si mesmos. Era como se eu fosse uma peça que não se encaixava no quebra cabeça, uma parte não planejada.
Balancei minha cabeça, dispersando tudo aquilo, é só o primeiro dia, não pode ser tão difícil. Mal me dei conta do caminho e vi que o ônibus já chegava na tal escola, onde vários jovens ocupavam a entrada.
Pessoas de diferentes idades, vestidas de formas diversas e andando amigavelmente felizes, agitando a entrada da escola.
Observei tudo aquilo enquanto descia do ônibus, sozinha.
Eu não esperava que o menino estranho fosse me seguir, mas eu meio que não sabia o que fazer após sair do ônibus.
O local era bonito, um prédio na cor vermelho e amarelo com a grama verde recém molhada. As cores da escola pelo que eu percebi, os alunos do time usavam suas típicas jaquetas nas mesmas cores.
E no meio de todas aquelas pessoas, eu me senti sozinha. Todos pareciam saber o que fazer enquanto eu permanecia parada lá. Em frente a porta do ônibus sem reação alguma.
Segui até a grande entrada e passei quase invisível por todos. Quase, porque eu ainda me sentia observada como uma velha atração de circo.
E foi muito pior quando entrei, um corredor enorme se estendia após o hall de entrada.
Cheio de armários, cheio de alunos, cheio de olhares.
E eu lá, bem no meio deles para ser vista, julgada.
Me dispensei na multidão e segui as placas até a diretoria, onde pegaria as informações gerais de acordo com a Emily.
Assim que adentrei outro hall dei de cara com um balcão e duas portas parecendo-se com um consultório médico que graças a Deus estava vazio.
Me sentei em uma das cadeiras do que parecia uma sala de recepção, observando ao meu redor, uma das portas estava escrito "conselheiro" e a outra "diretoria".
Uma mulher ruiva, vestida com um uniforme, saiu de uma das portas distraída e posicionou-se atrás do balcão e me chamou demorando para me notar ali.
— Como posso ajudá-la, senhorita...
— Milenna.
— Senhorita Milenna.
— Sou do programa de intercâmbio. — Expliquei.
— Ah! Claro. — ela pareceu notar e digitou algo em seu computador — Seu nome completo, por favor?
— Milenna Montesquieu, Senhora.
Ela digitou novamente, olhando fixamente para o computador. Os barulhos dos seus dedos batendo nas teclas eram sincronizados com as batidas frenéticas do meu coração ansioso.
— Sua primeira aula é na sala 35. Vou te dar um mapa da escola e sua grade de matérias obrigatórias para você não se perder durante o dia. — ela terminou de digitar e uma folha saiu da impressora atrás dela.
Ali estava, bem naquele papel, toda a minha rotina nos próximos meses e por agora eu só precisava subir as escadas até o terceiro andar e procurar pela tal sala 35.
A escola era bem grande, tinha uma sala para cada matéria extra, e havia 23 opções de matérias extras o que fazia com que a escola tivesse seus 3 andares. Até as escadas aqui eram legais, tinham frases escritas em cada degrau colorido dizendo coisas motivacionais e nos corredores havia muitas placas criativas fazendo campanha contra o suicídio, mas assim que entrei na sala, todas as pessoas se calaram e direcionaram seus olhares para mim, aí já não era tão legal.
Cochichos preenchendo o lugar como se eu realmente fosse uma grande atração ali, eu não sabia o que fazer com tanta atenção e era estranho porque justo hoje eu não queria ser vista.
— Você está atrapalhando a passagem. — Uma voz firme soou atrás de mim me assustando.
Me virei para trás e observei o garoto que estava na porta
Cacete. Ele era tão alto que eu me sentia uma criança ao seu lado e isso era muito intimidador, não só isso, seus olhos amendoados levemente impactados pelos repuxos do seu cenho franzido, seus ombros largos e seus músculos marcados pela camisa preta por baixo da sua jaqueta também dava arrepios.
Ele provavelmente chamava atenção de muitas pessoas, e com certeza deveria ser um mau exemplo, já que seus olhos espelhavam o perigo em pessoa.
— Vai olhar o dia inteiro? — ele se atreveu a falar e eu juro que senti meu rosto corar por ter sido pega olhando tão descaradamente, ele era até bonito, mas pela sua arrogância, jamais me afetaria.
— Passe por cima se está com tanta pressa. — Se estava supondo que eu cederia a sua grosseria assim, estava muito enganado.
Tá, eu sei que é só uma porta, mas ele me olhava com tanto desgosto que eu não pude perder a oportunidade de retribuí-lo.
Ouvi ele bufar, mas permaneci parada lá porque eu não iria deixar de mostrar para ele que essa marra de valentão não me amedrontava.
— Eu vou mesmo se não sair da frente.
— Eu o desafio então. — Ele não iria.
Seus olhos se deslizaram por mim, de cima a baixo, sorriu de uma forma irritantemente escrota, deduzindo que havia ganhado de mim. Se sentindo vitorioso ele estendeu uma pulseira no ar e então a minha marra caiu por terra.
Minha pulseira.
O idiota suspendeu ela no ar em uma altura que ele sabia que eu não alcançaria.
Tentei pegá-la, sem resultados como eu esperava.
Filho de uma puta.
— Se quiser de volta, vai ter que abrir passagem.
Como ele havia pegado sem ao menos me tocar?! Eu estava tão distraída assim?
— Ladrãozinho idiota e arrogante do caralho — falei em português e surpresa tomou sua cara.
Eu não cederia.
Olhei com toda a minha fúria no fundo dos olhos dele, porque seu sorriso era irritante demais. Ele olhou para o relógio no seu pulso livre e sorriu mais ainda. Idiota.
Vendo que eu estava em desvantagem, dei espaço para que ele passasse, esperando que me entregasse a pulseira. Mas o moreno passou por mim sem falar mais nada, os cochichos e olhares seguindo-o pela sala.
É claro que estavam prestando atenção nele. Burra.
Isso não ficaria assim, não mesmo. Ninguém rouba minhas coisas assim.
Abaixei minha mão que esperava pela pulseira e me apressei em sentar antes que o professor chegasse.
Li na folha que a primeira aula seria de inglês nível 1, sala 35.
Poucos minutos depois, a conversa cessou na sala com a chegada do professor, um homem.
— Sem surpresas para ninguém, meu nome é Dick. Sem piadinhas senhores. — O humor estava presente em sua voz e praticamente toda a sala riu de sua fala. — Espere... veja bem, parece que temos dois alunos novos esse ano.
Dick era um nome engraçado, o que caralhos se passou na cabeça da mãe dele, quando decidiu que ele teria um nome tão sarcástico.
O homem desprovido de cabelo analisou uma folha e disse então dois nomes. Dois nomes que não eram meus.
Bom, pode ter sido só um engano.
— Levantem—se para o mundo os senhores Clark e Johnson. — os meninos se levantaram para uma espécie de apresentação.
Escutei-os se apresentarem para toda a turma, agradecendo a Deus por não ter de passar por isso, às vezes erros eram acertos, mas obviamente minha nuca queimou, e eu sabia que era ele, aquele babaca de jaqueta, aquilo definitivamente não ia ficar assim, eu ia ter minha pulseira de volta. Assim que essa aula acabasse.
Olhei-o sentado a três cadeiras atrás, franzi meus olhos para ele, direcionando-o a uma cara de poucos amigos, imaginando o soco que eu daria naquele rostinho arrogante só para tirar aquele sorriso presunçoso dali. Aquela pulseira era muito importante para mim.
— Não me lembro do seu rosto por aqui. — O professor chamou atenção da turma para mim, fazendo com que a minha atenção voltasse à aula. — Qual seu nome mocinha?
Droga, é lógico que ele notaria.
— Milenna, senhor Dick.
— Seu nome não está na minha lista — o careca analisou a lista novamente — É nova na escola ou foi transferida para minha turma esse ano?
— Sou nova.
— Ora, então apresente-se para a turma, Malena.
Merda. Me levantei sentindo toda a turma me olhar e dessa vez era um total silêncio, como se esperassem um motivo para cochichar. Minha nuca ainda queimava por causa daqueles olhos cor de bosta que também me olhavam.
— Meu nome é Milenna, e eu sou nova. — falei tão rápido que quase não entendi o que eu mesma havia falado.
— Ora, sabemos disso. — O professor disse e a sala riu em coro. — Conte—nos mais. De onde vem o seu sotaque?
— Eu... sou intercambista. Brasileira.
— Interessante, legal. — ele alisou o bigode — Pode se sentar senhorita, a sua tortura já acabou. — Ele brincou e mais um coro de risos preencheu a sala. — Bom, para vocês que não me conhecem: sou um amor na sala e o terror nas provas então não se deixem enganar pelas brincadeirinhas.
Ele escreveu no quadro branco "Inglês nível 2" e eu gelei. Merda, não era minha sala. É lógico que eu tinha sido burra o suficiente para errar a sala.
— Alunos, como foram suas férias?
Diversos alunos cochichavam entre si sobre a pergunta e alguns até compartilhavam com o professor.
Era uma dinâmica legal, só torcia para que não me perguntassem como eram as minhas, eu odiaria ver a pena nos olhos daquelas pessoas.
Falar de passado era complicado, eu sempre estragava o clima ao falar de mim, as pessoas paravam de falar e seus olhares de espanto sempre faziam um silêncio ensurdecedor na minha cabeça. Porque será que elas achavam as coisas das quais eu passei tão chocante?!
Uma batida na porta cessou meus pensamentos e a conversa no cômodo, a mulher da secretaria passou o corpo pelo batente, sua cabeleira ruiva chamando muita atenção.
— Senhorita Evillyn, como podemos ajudar você? — O professor disse afinando a voz e fazendo todos rirem com sua piada interna.
— Muito engraçadinho, Dick. — a ruiva procurou pela sala olhando para mim. — A aluna Milenna... não pertence a essa sala. — Seus olhos me encontraram — Acabei passando a informação errada para ela.
— É claro que passou, vocês nunca deixam os intercambistas para mim.
E lá se vai meu plano de recuperar minha pulseira. Mais uma vitória para aquele arrogante de merda.
Levantei frustrada indo até à porta, com todos me olhando novamente. Muita atenção para só um dia já estava me deixando ansiosa.
"Ratinha imunda, como será que ela pagou o high school?"
Paralisei. Duas garotas cochichavam quando passei por suas mesas.
Ratinha? Eu conhecia esse apelido…
Foi só um comentário, mi. Só um comentário.
Eu poderia ignorar já que retrucar só havia me trazido problemas até agora, mas eu não esqueceria, nem suas falas e nem seus rostos por bastante tempo.
— Me desculpe pelo transtorno. Mudamos as salas pela demanda de alunos e eu me esqueci de avisar. — A ruiva explicou assim que encontramos o corredor vazio.
— Não tem problema, Evillyn
— Sua sala é a 30, no fim do corredor, diga a professora que foi erro da direção.
Acenei com a cabeça e fui até minha verdadeira sala, batendo na porta e pedindo licença ao entrar.
A mulher na casa dos 60 me olhou feio, sua baixa estatura se tornando ameaçadora.
— Muito bem, se atrasando no primeiro dia mocinha.
— Foi um erro da direção. — Justifiquei, como me mandaram fazer.
— Sempre é, entre.
Entrei apressada e me sentei na penúltima cadeira, na frente de um menino loiro vestido com um daqueles moletons de time americanos.
A professora deu sequência a sua aula, explicando como seria o ano na sua turma.
Agradeci por não ter de me apresentar novamente. E acabei entendendo o porquê da reação da professora a atrasos quando mais alunos entraram apressados com a mesma justificativa que a minha. Notei ser como uma justificativa do primeiro dia de aula.
A professora era até legal, mesmo que eu preferisse estar fazendo inglês nível 2 para poder recuperar minha pulseira, é lógico.
Inclusive a aula passou sem que eu parasse de pensar nisso. A pulseira da minha avó, seu último presente.
" Eu vou partir um dia, mi, mas você vai viver uma vida inteira. E vai ser lindo, não pode desistir agora, você chegou muito mais longe do que qualquer um chegaria e precisa mostrar ao mundo que as rosas têm espinhos."
"Rosas também morrem vovó."
"Não você, querida, tu és a minha rosa e a minha rosa nunca morre."
O sinal tocou me tirando dos pensamentos, levando embora a lembrança das últimas palavras da minha avó.
Aquela noite horrorosa em que acabei perdendo a única pessoa que se importava, a noite que meu mundo caiu nas mãos de um viciado de merda.
Sai da sala, a próxima aula seria na sala 21, no segundo andar. História.
Pelos papéis na minha mão, eu tenho quatro horários de aula no dia e um horário a mais na terça e quinta destinados às aulas extras obrigatórias e treinos dos esportes opcionais diariamente. Três horários antes do intervalo e os demais após.
O sinal da terceira aula tocou, e bem a tempo. A professora de Cálculo nível 3 era insuportável, e esse era só um primeiro dia de um ano inteiro.
Confesso que minha aula preferida foi história, o professor tinha uma boa didática. Mesmo que eu não tenha parado de pensar naquele maldito que roubou minha pulseira um só segundo, ele não havia estado em nenhuma das minhas aulas até agora e isso me preocupava muito.
Eu esperava que ele estivesse no refeitório, pois era para lá que eu estava indo.
Entrei naquele lugar, que já estava lotado, a vergonha tomando conta de mim novamente. Vamos lá, mi, você consegue.
Entrei na fila do lanche, desejando estar invisível naquele momento.
Com quem eu sentaria? Todas as mesas tinham um grupinho pré formado, pensar nisso me deixava aflita.
Andei com minha bandeja vermelha, escolhendo o que eu ia comer.
Sanduíche de frango natural, suco de laranja e uma maçã.
Procurei pelo dono dos olhos castanhos no refeitório gigante, encontrando-o em uma mesa junto de uma menina. Provavelmente sua namorada.
Era a ideia perfeita, ir até lá e recuperar o que é meu.
Fui em direção a eles, mas parei ao ouvir outra conversa em uma mesa próxima.
— Vocês viram a novata intercambista? — Era a mesma voz que eu ouvi mais cedo.
— Eu vi, e que bunda. As novatas não costumavam ter uma bunda gigante. — Uma voz masculina comentou.
— Ela é uma gostosa, adoraria ser o primeiro a mostrar as maravilhas de Toronto para ela — Outra voz masculina soou
Porque falavam de mim como se eu fosse um objeto?!
— Eu não acho, ela é bem gorda, isso sim. — A outra menina comentou.
Gorda?
Eu não era gorda.
Continue andando Milenna. Apenas continue.
Meu foco era só o arrogante sentado mesas à minha frente, e eu estava olhando tão fixamente que nem vi quando uma perna foi colocada para que eu caísse no chão.
Meu corpo ardia com o impacto, suco por todo lado e minha bandeja por baixo de mim. Me pus de pé, meu rosto queimando de vergonha anulará a dor que eu senti ao cair.
Todas as pessoas ali olhando—me e rindo com muitos celulares apontados.
Busquei o ladrãozinho para acabar logo com isso, mas ele já não estava lá.
Com todos me olhando, rindo e me gravando como um animal eu senti meus olhos arderem. Sem lugar para ir, sem alguém para me tirar daqui.
Sozinha de novo.
— Owww, Ela vai chorar! — a loira que fazia os comentários gritou.
Olhei ao redor, o ar me faltando e tudo girando, com meus punhos cerrados sai correndo pelas portas do lugar como uma perdedora.
Vai embora, mi. Vá embora para casa...
Que casa?!
Eu não tenho casa. Nunca tive...
Ninguém se importa com você, Milenna.
Correndo para sempre.
Você sabe como é, mi.
— Ei, eu vi o que aconteceu. Você está bem? — Uma voz feminina, soou de fora da cabine do banheiro, o inglês pronunciado de forma errada. — Não precisa se esconder, sei que está aí.
Não respondi.
Um... Dois... três...
— Eu vi você entrar. — quatro... cinco... — Vou estar aqui... se... Você precisar
Seis... sete... oito...
As lágrimas rolavam sem parar, porque isso de novo?!
Nove... dez...
Dez de outubro, minha pulseira. Mostre seus espinhos...
Busquei minha pulseira com a mão e não achei, me afundando mais no abismo.
Minha avó...
Meus pais...
Tudo pesando no meu peito, me impedindo de respirar.
— Pense em 5 coisas, ok? — ela tentou de novo — 5 coisas que você ama.
Outono.
Rosas. A minha vovó...
A Chuva
Poesias.
Sorvete de morango.
— Agora... 4 coisas que você tem que fazer.
Arrumar minhas roupas no guarda roupas hoje.
A tarefa de história.
Pegar minha pulseira
Jantar com os Davies
— E então 3 Coisas que você quer mudar
As pessoas
O meu cabelo
O inverno
— Me conte 2 países que você quer conhecer
Itália
Chile
— Pense em 1 Coisa que te define.
Força.
"Mostre ao mundo que as rosas têm espinhos"
Silêncio reverberou no banheiro novamente. Minha respiração se acalmou aos poucos, mas o coração ainda batia forte.
Será que a garota ainda estava lá fora?
— Olha, faltam 5 minutos para a próxima aula. — ela disse respondendo a minha pergunta, sua voz não me pressionava, era calma, eu estava mais calma.
Abri a porta da cabine, dando de cara com a garota e a primeira coisa que notei foi o 'hijab' marrom na sua cabeça. Os seus braços se estenderam me convidando para um abraço que eu aceitei.
— Obrigada. — sinceramente, eu não sabia o que falar. Eu não queria que me vissem tão frágil, mas ela não parecia se importar nem um pouco.
— Não se importe com eles, não sabem o que fazem... Eles machucam as pessoas até que alguém machuque eles.
Agora eu entendi o inglês enrolado da garota. Ela era uma imigrante islamista. Não era enrolado, era um sotaque.
Sai do abraço, olhando-o a sorrir para mim com suas expressões doces.
— Meu nome é Sarah, e o seu?
— Milenna. — minha voz ainda trêmula.
— Prazer, Lenna.
Eu vi nos olhos dela que a tal se importava comigo, dentre todas as pessoas naquele refeitório que preferiram rir e zoar com a minha cara. Sarah se importou comigo, ela veio até aqui e me acolheu quando ninguém mais havia feito.
Eu pensei que nunca conseguiria sair de uma crise sem minha pulseira, mas ali estava uma pessoa que nem me conhecia, mas se importava o suficiente para me tirar de uma.
— Eu não quero apressar você, mas o recreio acaba em 2 minutos. — ela disse novamente.
— Tudo bem, eu estou mais calma agora.
— Qual a sua próxima aula? — ela perguntou.
— Biologia, nível III.
— A minha também! Podemos ir juntas de você quiser.
Concordei com a cabeça e a menina me analisou. Eu devia estar uma bagunça.
— Toma, veste isso. — ela tirou um moletom da cintura e me entregou.
— Obrigada. Desculpa por... — apontei a cabine em que eu estava.
— Não precisa pedir desculpas, acontece.
Concordei com a cabeça novamente.
— Vem, vamos indo.
Saímos do banheiro dando de cara com um corredor lotado, pessoas indo do refeitório para suas salas Eu já me sentia mais segura, mesmo de frente a todas as pessoas que antes riram de mim, pois Sarah segurava minha mão me mostrando que eu não estava mais sozinha.
"Mostre ao mundo que rosas tem espinhos"
Quando chegamos na sala, já no segundo andar, as pessoas que olhavam para seus celulares rindo pararam assim que entramos no local.
Cochichos acompanharam-nos até que sentamos nas últimas mesas da sala.
A sala de biologia pelo que eu percebi tinha suas mesas em dupla e eu nem precisei me preocupar com isso já que tinha companhia.
— Não se preocupe com o vídeo, eles esquecem daqui a algumas semanas.
— Não estou preocupada — E realmente essa não era a preocupação real, mas sim que essa era a última aula e eu não estava com minha pulseira em mãos, o que significava que aquele babaca iria pra casa com ela.
— Então, o que te preocupa?
— É que esse é só o primeiro dia. — menti.
— Garota, você não viu nada ainda. — ela ponderou — Espera só para ver os meninos do time, são todos uns nojentos.
— É claro que seriam, são homens.
Ela riu do meu comentário e demos continuidade naquela conversa até que a professora chegasse e explicasse sua dinâmica.
Uma mulher de não mais que 1.50m de altura e que era muito simpática.
— Nem acredito que a professora de álgebra passou tarefa no primeiro dia. — A garota de véu falava atenta as coisas no seu armário. — Já sabe o número do seu armário?
— Não faço a mínima ideia.
— Ah, pelo menos ainda não tem muitos livros para carregar.
— Eu acho que devem me passar depois.
Falávamos aleatoriamente já saindo da escola, a aula de biologia acabou rápido e eu já poderia ir embora ignorando tudo o que aconteceu hoje, mas ainda tinha um problema e eu procurava ele no meio das outras pessoas que saiam da escola.
Vi uma mão passar na frente do meu rosto e quando percebi era a garota chamando minha atenção.
— Desculpe, estou procurando uma pessoa.
— Eu perguntei se você vai de ônibus ou alguém vem buscar você.
— Ônibus. — respondi ainda sem dar atenção para Sarah.
Achei. Aquela jaqueta de couro fora de moda no acostamento, esperando a mesma garota do refeitório colocar um capacete.
Eu ia até ele, mas então o moreno também colocou um capacete e subiu em uma moto esperando que a garota subisse também.
O que será que a namorada dele pensaria dele roubando uma pulseira feminina? Vai ver os dois gostem de roubar as coisas assim.
— Jonathan Hamilton. — olhei para a garota do meu lado, confusão tomando minhas expressões. — O bonitão da moto, se chama Jonathan Hamilton.
— Ah. Ele não é bonito. — eu disse enojada.
— Garota, você deve estar muito cega. — olhei para ela com desdém — É sério, ele é muito gato. A maioria das garotas dessa escola caem nos pés dele.
— Bom, mas eu não.
— Se você diz. — a menina voltou a mexer no aparelho em suas mãos. — O meu pai chegou, eu preciso ir.
Concordei me despedindo e depois fui à procura da minha carruagem amarela.
Era muito difícil diferenciá-los, mas eu vi o mesmo garoto loiro de aparelho que foi grosso comigo hoje cedo e acabei entrando no ônibus que ele entrou.
Quando eu entrei, havia mais lugares vagos e novamente ninguém se sentava ao lado do menino, mas dessa vez eu me sentei sozinha, apanhei meus fones no bolso e conectei ao celular, esperando o ônibus dar partida.
Senti quando alguém se sentou do meu lado, abri os olhos vendo os cabelos dourados do menino estranho.
Eu não disse nada.
— Eu vi o que aconteceu.
— Ótimo.
— Você caiu igual uma melancia estragada.
Virei minha cara para a janela como ele havia feito hoje cedo.
— Eu sinto muito. — ele pareceu pensar — Porque se sentou comigo hoje cedo?
— Porque você parecia ser legal. — me virei para ele.
— Eu sei, eu sou demais. — disse o garoto com um sorriso ladino.
— Idiota.
— Você também parece ser legal, se quer saber.
— Eu já sei.
E diferente de hoje mais cedo, fomos conversando durante todo o trajeto sobre a escola e a cidade. Ele era uma pessoa legal, só disse acordar sempre com um péssimo humor.
E quando eu cheguei em casa, Meg e George estavam almoçando e disseram que iam ter de sair pela tarde para resolver algumas coisas, então eu fui direto pro meu quarto e fiquei lá o resto da tarde.
Foi só o primeiro dia...
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Notas da autora,
Demorou, mas chegou gatitos.
Um capítulo 5.626 palavras e 31k de caracteres votem e comentem por favor
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