capítulo 01: de volta para o passado
— Tio, você acha mesmo que esse ferro velho ai vai funcionar? — Perguntou o jovem de cabelos negros, que não escondia o tédio de sua expressão. — Meu braço está doendo.
— Só mais um pouco, meu jovem! — Respondeu o mais velho, sem tirar o rosto do capô do carro à sua frente.
O tio de Jay sempre foi seu ídolo desde quando era muito novo, mas com passar do tempo, ele foi notando o quanto o homem de cabelos grisalhos não falava coisa com coisa. Todo fim de semana Park Jake inventava algum absurdo novo, e como ele tinha um apego pelo sobrinho, sempre o chamava para documentar suas invenções em uma série de vídeos que postava no Youtube. Jay já não tinha coragem de recusar, a felicidade nos olhos do tio valia a pena aquelas horas gastas.
Naquele dia, Jake apareceu com um carro antigo, mais sujo que o que o seu próprio laboratório. Seu sorriso era de orelha a orelha, parecia ser a invenção da qual mais tinha orgulho: Uma máquina do tempo. Obviamente, Jay não engoliu essa ideia. Absurda demais, como todas as outras. Porém, não falou isso para seu tio, apenas bateu palmas e seguiu seu tio para um estacionamento vazio, onde poderiam testar livremente a invenção. No entanto, haviam empacado pois o mais velho encontrou problemas com a fonte de energia, e há mais de meia hora estava tentando resolvê-los.
— Tem alguma coisa que você queria fazer no passado, Tio? — Sentou-se apoiando no carro, com os dedos brincando com a câmera. — Ou seu objetivo é visitar o futuro?
— Jay, por mais que visitar o futuro seja algo esplêndido, meu objetivo com esse "ferro velho" — deu ênfase na expressão usada pelo sobrinho anteriormente — é corrigir o meu maior erro.
Jay interessou-se na conversa, chegando mais perto do inventor, com os olhos bem abertos. Jake deu uma risada de leve, era exatamente assim que o garoto o aproximava quando era mais novo. Com os olhinhos cheios de curiosidade.
— Quando eu ainda era um adolescente, lá pelos anos 80, eu perdi um amigo meu. Um amigo muito importante. — Falou em um tom melancólico, bem incomum para o seu usual.
— E como isso foi erro seu?
— Ele tirou a vida dele. — Deu uma pequena pausa, e suspirou, antes de fechar o capô com toda força, assustando Jay. — Ele gostava de mim, e eu, idiota, parei de falar com ele depois que descobri. A escola toda soube em pouco tempo... E naquela época, você sabe. Ele sofreu muito, e eu só o assisti desmoronar aos poucos.
Jay levantou-se do chão, quieto, se identificou com a amigo de seu tio. Quarenta anos de diferença, e o mesmo medo.
— Então! — Colocou as mãos na cintura, e deu um sorriso labial, tentando melhorar o clima. — Com essa belezinha eu irei dar um tapão na cara do meu eu do passado, e salvar a vida dele. Coisa de filme, não acha, meu jovem?
O mais novo deu um sorrisinho com o entusiasmo do tio, e rapidamente se pôs novamente de pé, pronto para começar a gravar.
— Preparado, Tio? — Posicionou a câmera em um bom ângulo.
— Tudo perfeito! — Deu uma leve ajeitada no macacão que usava.
Jay apertou o play, e Jake coçou a garganta.
— Bem vindos de volta! Aqui é o Professor Park, o qual, hoje, irá demonstrar a maior invenção de todos os tempos. — Saiu do caminho para que seu sobrinho pudesse filmar o antigo carro. — A primeira e única máquina do tempo! — Fez barulhos animados, tirando uma risada do mais novo. — Com o seu motor ligado aos circuitos de tempo e a energia de 1,21 gigawatts, ao atingir 88 milhas por hora, essa belezinha pode viajar para qualquer tempo, seja futuro ou passado!
— Gostaria de demonstrar para nós, Professor Park? — Falou Jay, algo que costumava fazer todos os vídeos.
Jake sorriu aberto, olhando fixamente para Jay, o que o fez estranhar.
— Meu querido sobrinho, hoje te darei as honras de testar meu novo dispositivo. Irás um minuto para o futuro! — Chegou mais perto, pegando a câmera da mão do garoto.
Jay nunca havia testado nada de seu tio, estava relativamente surpreso. Tentou evitar olhar para seu ele enquanto tentava abrir a porta do carro, as quais estranhamente abriram para cima, assustando o adolescente.
— Isso era necessário? — Perguntou, depois de uma risada anasalada.
— Mas é claro que sim! Estilo é tudo!
Acomodou-se no banco da frente, já havia dirigido antes, não era grande novidade. Encarou o mais velho, esperando que fizesse alguma coisa, mas ele somente esticou um braço por cima de Jay, por causa da falta de espaço, e depois e passar a mão em alguns botões, pareceu ter achado o que queria, então ajustou-o para rapidamente. A filmagem deve ter ficado toda atrapalhada. Jake não poderia estar mais ansioso, já seu sobrinho só estava impaciente. Dr. Park fechou a porta do carro, e se afastou, tirando um controle remoto de seu bolso com a mão que não segurava a câmera.
— Jay! Pode ligar! Dirija até atingir 88 milhas! — Gritou.
O garoto ligou o motor, o que fez um alto barulho, dando a impressão que aquela lata velha iria se despedaçar enquanto tentasse chegar à velocidade a qual seu tio tanto queria, mas mesmo assim somente seguiu as ordens. Sentia-se em um videogame, era uma sensação boa. Deu um leve sorriso ladino, e pisou no acelerador.
À medida que o carro chegava a maiores velocidades, o sorriso de Jake se abria cada vez mais. Com os olhos grudados em sua criação, nem prestava atenção no controle, o qual sinalizava um erro terrível que só notaria assim que a ansiedade deixasse seu corpo.
Jay ia mais rápido e mais rápido... 84... 85... 86... 87... E... Fechou seus olhos antes de chegar à marca, pois sentiu um arrepio por seu corpo. Já seu tio manteve os olhos bem abertos, presenciando o sumiço de sua invenção e a trilha de chamas que ela havia deixado. Poderia chorar de felicidade. Jake poderia, finalmente, corrigir o seu erro.
Olhou para o seu relógio. Havia programado a viagem para ser de um minuto no futuro. Esperou pacientemente, com a câmera bem posicionada.
No entanto, já havia passado um minuto e nada de Jay.
Dr. Park estava confuso, mas concluiu que provavelmente havia colocado o horário um pouco errado. Era difícil de alterar com seu sobrinho já dentro do carro. Olhou, então, para o seu controle, observando a data marcada.
Abril de 1980, dia 19 às 19:23
A data que ele havia antecipado tanto em voltar para.
[...]
Quando abriu os olhos, não via mais a mesma paisagem. Seguia com toda a velocidade em direção à uma árvore, e por pouco, conseguiu desviar e estacionar bem ali. Olhou pela janela.
Jay estava em choque. Onde estava? Esse lugar definitivamente não era o estacionamento em que estavam anteriormente. Tentou ligar o carro novamente, mas não conseguiu. Tentou mais uma vez, mas ainda assim não funcionou. Não sabia como havia parado ali, mas precisava perguntar algum tipo de informação. Saiu do veículo, olhando mais a paisagem. Era algum tipo de campo, tanto que quase atingiu uma árvore. Nunca havia visto esse lugar antes.
Uma hipótese chegou a sua cabeça. Seu tio havia dito que aquele carro era uma máquina do tempo. Ela realmente havia funcionado? Impossível. Jay achava impossível.
Voltou para o veículo e olhou o painel onde Jake havia mexido antes. Alguns números em vermelho destacavam-se, e indicavam um horário e data: 19/04/1980 às 19:23. Os olhos de Park ainda não queriam acreditar. Estava em 1980? Como isso era possível?
Retornou para fora, murmurando para si mesmo, tentando não se desesperar. Se estava realmente no passado, haveria uma forma de voltar, certo? Tudo ficaria bem não é?
Com toda a força que lhe restava, empurrou a lata velha para trás do resto das árvores, e observou ao redor, procurando por algum sinal de cidade. Por sorte, parecia que aquele pequeno bosque era logo ao lado da cidade, pode avistar um posto de gasolina com facilidade. Correu até o estabelecimento, e não pode estranhar mais o design, mas precisava de uma confirmação real de que estava realmente no passado. Entrou, sem fôlego, na pequena loja de conveniência, procurando o caixa. Um homem mais velho, com um semblante irratado devido à atitude de Jay o encarava enquanto limpava a caixa registradora.
— Ah, me desculpe pela falta de educação. — Riu sem graça, mas não se conteu em se aproximar. — Poderia me dizer a data, por favor?
Recebeu um olhar esquisito do mais velho, que o encarou dos pés a cabeça. Nunca havia visto um jovem com tal estilo.
— 19 de abril, é sábado. — Respondeu, seco.
— De que ano?
— Você não sabe nem isso? — Retrucou, fazendo Jay engolir em seco. — Óbvio que de 1980, seu idiota. Odeio que façam pegadinhas! — Resmungou.
Park ignorou o senhor, arregalando os olhos, e indo em direção à seção de revistas, e apanhando uma rapidamente para ver a data de publicação. Todas indicavam 1980.
— Meu deus... Eu realmente viajei no tempo. — Falou baixinho consigo mesmo, enquanto o funcionário o encarava de longe. — E o único que sabe usar aquela coisa direito é o meu tio... Meu tio! — Gritou, assustando o mais velho. — Mas ele é somente um adolescente... Um gênio da mesma forma.
Correu para fora, gritando um "obrigado" antes de deixar a loja. Seguiu andando pelas ruas da cidade que aparentava nova nos olhos de Jay, mas ainda assim o dava a sensação de estar em casa. Depois de pensar um pouco, lembrou-se que o supermercado do estacionamento em que haviam feito o experimento só abriu nos anos 90. Antes, era apenas mato.
Agora Jay deveria escolher um rumo. Seu objetivo era claro, voltar para o futuro, e só conhecia uma pessoa que poderia o ajudar. Se era 1980... Jake tinha somente 17 anos, um ano mais velho que o sobrinho. E seu pai, Park Heeseung, somente 12 anos. E ambos ainda moravam com a avó de Jay, a qual não se mudava desde o casamento em 1962.
Agora já havia um lugar para onde ir, mesmo não acreditando que seu tio adolescente fosse ser convencido facilmente. Andou por algum tempo, passando despreocupado pelas ruas, pois o movimento parecia quase inexistente naquele horário. Tentava ler as placas das ruas com o seu maior esforço, mas estava difícil achar a resistência dos Park. Impaciente, foi cruzar a rua, fora da faixa de pedestres, e a última coisa que viu foi uma forte luz em seu rosto.
[...]
U
m par de olhos castanhos arregalados encarava Jay quando acordou. Seu primeiro instinto foi encarar de volta, até o garoto de cabelos castanhos cair na gargalhada.
— Olha, Jaeyun, ele acordou. — Olhou para o outro lado de Jay, onde havia outro garoto. — Explica para ele como você quase o matou hoje.
— Jun! Não assusta ele! — Riu de volta.
Jay ajustou-se na cama, encarando os dois ao seu lado. Ambos não pareciam ser maiores de idade, e um deles, em especial, tinha um rosto extremamente familiar. Não demorou para que Jay se surpreendesse com a sua sorte. Ou azar, pois tinha certeza de que ainda estava em 1980 com essa realização.
— Park Jake? — Perguntou, instintivamente.
— Vocês se conhecem? — Indagou o outro, o qual havia cumprimentado Jay com uma encarada.
— Não. Mas ele me parece muito familiar por algum motivo. Nós já estudamos juntos ou algo do tipo? — Perguntou Jake, ao seu futuro sobrinho.
Jay engoliu em seco. Precisava inventar algum tipo de história.
— Acho que estudamos juntos quando crianças. Nunca fomos próximos, mas eu tenho boa memória. — Riu sem graça.
— Então você também deve se lembrar de mim! — Falou o tal de "Jun". — Eu e o Jaeyun estudamos juntos desde que entramos na escolinha. Yang Jungwon, te lembra algo? — Riu.
— Sim, acho que sim.
Jay disfarçadamente encarou o amigo de seu tio, não recordando a menção de nenhuma amizade dele próxima, até que um interruptor se liga em sua mente. Só podia ser ele, não é? Abril de 1980, essa data não havia sido escolhida por acaso. Isso significa que, as chances eram grandes que esse tal de Jungwon...
— Vocês são melhores amigos, não é? — Perguntou.
— Correto. Desde aquela época. — Respondeu com um leve sorriso, Jake.
— Sim. — Jay pode notar o olhar de Jungwon na direção de seu tio. — Você realmente tem memória boa. Deveríamos olhar no anuá...
— Vocês não acabaram de dizer que quase me mataram hoje? — Mudou rapidamente de assunto, pois obviamente não poderia provar ter sido realmente colega dos dois. Só nasceria em mais de vinte anos.
— Não foi assim, mas a gente te atropelou mesmo.
— Você atropelou, eu estava pacificamente do lado.
Os dois se olharam e soltaram uma risada, o que deu um aperto no coração de Jay.
— Enfim, você não teve nenhuma lesão aparente, mas como desmaiasse te levamos para a minha casa. Sem meus pais saberem aliás. Me matariam se descobrissem que atropelei um inocente no caminho de casa! Eu nunca mais poderia dirigir. — Falou tudo tão rápido que o mais novo nem conseguiu entender direito.
— Estávamos planejando em te levar, agora que você acordou, até a minha casa, que é aqui do lado. Minha mãe é mais tranquila com novas visitas, é só dizer que você é um amigo da escola. — Comentou Jungwon, o qual tinha uma voz muito mais calmante.
— Minha mãe enlouqueceria se outra pessoa descesse para o café da manhã. Se você quer me ajudar a não me colocar em encrenca, por favor aceite nossa ideia! — Desesperado, Jake se aproximou, olhando nos olhos de Jay que teve que se afastar um pouco.
— Ok... Tudo bem.
Os três ouviram um barulho vindo de fora do quarto, e os dois mais velhos imediatamente se assustaram. Jungwon puxou Jay pelo pulso.
— Vamos lá! É a senhora Park. — Suspirou.
Jay levantou-se rapidamente, e Jake foi logo abrindo a janela para os dois outros saírem. Jungwon saiu primeiro, dando a mão para ajudar o mais alto, com um sorriso nos lábios, como se estivesse gostando daquela situação desesperadora para ele e o melhor amigo. Era um sorriso realmente lindo.
Os dois já estavam fora da janela quando a senhora Park abriu a porta, mas tinham que ser silenciosos enquanto ainda andavam pelo telhado. Podiam ouvir sussurros vindo de dentro: "Jake! Cade o Jungwon? Vamos jantar", "Ele foi embora mãe, estava passando mal..."
Jungwon e Jay pularam para o terreno da segunda família Park, o muro não era tão alto, mas mesmo assim o mais novo não conseguiu cair de pé como o outro havia feito.
— Pft... — Tentava conter o riso. — É só um murinho, vem cá, eu te ajudo a levantar...
Deu a mão para Jay, que aceitou de bom grado, ainda fascinado com o sorriso do garoto à sua frente. Aliás, todo o seu rosto.
— Não esperava que você fosse ser mais alto... — Riu novamente. Jay tentou fazer o mesmo. — Eu nem sei o seu nome, não é?
— É Jay... Lee Jongseong. — Para também não usar o Park, foi rápido a utilizar o nome de sua mãe. — É, isso ai.
— Jay. Legal. — Mais um sorrisinho.
Aquilo mexia com o mais novo, que nunca teve jeito ao falar com garotos bonitos. Seja em 2019 ou 1980. Os dois entraram na casa, e Jungwon foi super rápido ao falar com a sua mãe, que pouco se importou com o garoto desconhecido que seu filho havia acabado de trazer para casa.
Foram até o quarto, de Jungwon, o qual era bem similar ao de Jake. Os gostos pareciam ser bem próximos.
— Então, senhor Jay... — Falou Jungwon, indo até o seu guarda-roupa. — Oferecemos uma noite aqui pois te atropelamos e não sabemos o quão longe você mora. Espero que não se sinta desconfortável. O café da manhã aqui é ótimo!
Tirou uma pequena muda de roupas de dentro de seu armário, e aproximou-se do mais alto.
— Eu tenho o meu próprio banheiro, pode tomar banho ali... Ah, já irei pegar uma toalha.
Fez um gesto com a mão para sinalizar que havia se lembrado, e saiu do quarto, deixando Jay sozinho, com a muda de roupas no braço. Fazia um bom tempo desde que não dormia na casa de ninguém. Tomou os poucos minutos que tinha para observar o quarto mais de perto. Aproximou-se da mesinha ao lado da cama, observando a antiga revista em cima, ao lado de um quadro e uma luminária de estilo "retrô" comparado ao atual.
A foto era de Jungwon com Jake, com cerca de dez anos. Estavam abraçados, e sorriam como qualquer criança. Jay também não conteve-se, deu um leve sorrisinho de lado também.
— Jay? — A porta foi aberta. — Aqui está a toalha... — Iria entregá-la, mas se distraiu ao ver o que o mais alto segurava. — Ah esse quadro! Eu ganhei a moldura de aniversário nesse ano da senhora Park. Achei que seria justo colocar uma foto minha com aquela criatura que eu chamo de amigo. — Riu descontraído.
Jay apenas sorriu meio falso, pois aquilo somente o deixava triste. Como alguém tão brilhante como aquele Yang Jungwon, poderia ter tirado a própria vida?
Talvez fosse o seu dever reverter isso, no lugar de seu tio.
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